Lembranças

Fim da madrugada,

O dia nascendo diante de meus olhos.

O calor de seu corpo

Seguido do frio da manhã.

Envolta nas lembranças,

Nos sentimentos

E no momento que se prolonga…

Entrando no coração,

Descobrindo que sou sua

E você é meu,

Na nossa água límpida,

Intocável,

Onde o sol afunda em êxtase.

Assim como o entardecer anuncia

A noite,

Seu toque me desperta e acalenta,

Perco-me em seus braços,

E me encontro dentro dos seus olhos…

Eliana Leite

02.10.1995

Com as pedras

Não há tempo suficiente

Para pensar,

Ou sentir

As pedras rolam e eu as acompanho

Sem saber para onde.

Como pode tudo mudar

Sem que ninguém saiba?

Sempre deparando com desafios,

Quase desistindo,

Irei com essas pedras.

De algum lugar vieram

E carregam o passado,

Meu inimigo.

A água já tentou afogá-lo,

O fogo não o queimou.

Não será você quem o fará esquecido.

O tempo determina a insuficiência,

Mas não a certeza.

Para frente, ainda.

Ainda que eu queira

Voltar atrás

E me despedir,

Da dor, o amor.

De tudo que construí,

E agora abandono

Sem culpa.

Desculpas, não.

Apenas o perdão

Vindo de quem gera

Toda essa dúvida…

Eliana Leite

13.06.1994

Valsa Viva

Como cantam o coração,

A alma…

Canções distantes, insistentes.

Não passam de suaves assobios,

Durante a noite,

O dia,

Todo dia.

Ouço e danço

Durmo com a melodia dentro de mim.

Entendo cada nota, crescendo,

Vibrando,

Fora de mim.

Fecho os olhos

E vejo tudo o que se passa,

O tempo que passou,

Parou nesse momento.

Nessa longa estrada em que flutuo,

No começo, sem fim.

Apenas sigo, com a música, comigo.

Como cantam os olhos, a boca,

O corpo.

Canções de amor, prazer,

Jovens ilusões.

Cantam.

Calam.

E ouço sempre

A voz do amanhã…

Eliana Leite

Val21/08/1995

Carne, Osso e Segredos

Os sentimentos se misturam,

Abrigam-se em meio ao vazio,

Ocupam espaços indefinidos.

Ao mesmo tempo que preciso de mim,

Não me quero tanto assim.

Enquanto corro da realidade,

É ela que me traz força.

Medo,

Desconforto,

Leveza,

Paz.

Nada é certo,

Tão certo quanto poderia.

Tudo se acaba, mas o fim não.

Navegando em opostos,

As ondas engolindo a razão

E a brisa expulsando a verdade.

De que somos feitos, afinal?

Um pouco de carne, osso

E muitos segredos.

Impossível atravessar limites

Sem estabelecer outros.

Difícil esquecer momentos sem viver outros.

Há tantas armadilhas,

Palavras, gestos,

Tantas sequelas, lembranças, dúvidas…

Procurar pelo caminho sem enxergar,

Pisando ou em areia

Ou em terra,

Ou em qualquer lugar.

Surpreendendo-se com o óbvio,

Aproximar-se dele e esquecê-lo de repente.

Por que?

Amar de várias maneiras, várias pessoas,

Ninguém…

Amar…

Por que não?

Eliana Leite

25/08/1995

Brevidades

Olho para frente

Vejo possibilidades

Pisco

Vejo realidades

E tudo fica como está

Estendo as mãos

Para tocar o objeto de desejo

Quase consigo

Mas se vai, as mãos se fecham

E eu fico onde estou

Corro em direção ao pote de ouro

Quero ser feliz

Mas o arco-íris desaparece

Chove…

E você, quem quer que seja,

Voa e se desfaz

Partículas minúsculas

Abro o coração para receber

Desejo

Mas a porta se fecha

Lágrimas

E eu me fecho, como sempre

Busco como um caçador

Aquele dos contos

Corajoso

Inconsequente

Acordou e sou a menina

Com medo do lobo

Sem doces para a vovó

E tudo se acaba, como tem de ser…

Eliana Leite

07/09/2005

Quando decidi mudar de rumo

Dizem que a mágica acontece fora de nossa zona de conforto.

E como podemos definir “zona de conforto”? Alguns preferem “zona de comodidade”. De qualquer forma, conforto, comodidade, são lugares quentinhos e aos quais estamos acostumados. Bom ou ruim, fato é que a festa não está rolando neste endereço.

Posso dizer que me encontrava em uma zona de conforto ao não mais me sentir desafiada e não mais ter aquele frio na barriga para encarar o dia que se colocava à minha frente. Quando comecei a dar de ombros, a achar que tanto fazia esta ou aquela roupa, não queria sequer passar um batom para sair. Alguns dirão que isso não é zona de conforto e sim um passo para a depressão. Digo que o conforto, ou a comodidade, tira sua vaidade, sua vontade. Se pode levar a um quadro depressivo, deixo aos entendidos no assunto avaliarem. Voltando ao tema – você já se pegou fazendo as coisas no piloto automático? A rotina me engoliu de tal maneira, e eu permiti, que não havia espaço para criar, inovar, pensar…

Isso foi há mais ou menos um ano e meio. Tive um “click” quando fui a uma reunião cujo tema me interessava deveras e não consegui prestar um minuto de atenção. Fiquei navegando na Internet, pelo celular, batendo papo no Whatsapp, fazendo lista de “to do´s” pessoais e até lista de mercado. Quando percebi, a reunião estava no fim e eu não sabia o que havia sito dito. “Vou esperar a ata”, pensei, e então quis me bater com o mesmo celular que me escravizava.

Os dias no trabalho se arrastavam e eu, já um pouco mais consciente, passei a me incomodar comigo mesma. Como se me olhasse do alto, notei que era um poço de reclamações e negatividade. Perguntei a mim mesma como meu marido aguentava? Meus amigos mais próximos? Meu time? Meus pais e minha irmã? Passei então a buscar um caminho que pudesse me tirar daquele inferno em que eu mesma tinha me colocado. Pensei em mil coisas: terapia, yoga, jogar tudo pro alto sem nenhuma estratégia… Após muitas conversas, fiz um trabalho voltado à busca de meu propósito. Quem me ajudou foi o Edu Seidenthal, coach, fundador da Rede Ubuntu de Eupreendedorismo. Cito o nome dele pois penso que devemos agradecer nominalmente às pessoas que nos salvam. O trabalho de buscar meu propósito foi essencial para me trazer onde estou hoje. Além disso, foi (e vem sendo) uma jornada deliciosa. Da negatividade, passei para um sentimento de acreditar que seria possível. Quando vi, uma onda de otimismo me atingiu. Acabei resgatando sentimentos que estavam praticamente enterrados desde, sei lá, 2004, ou até antes. Fui olhar os textos que escrevi em 1993, 94, 95… Reatei com essa Eliana.

Foi então que fui fazer conta. Quanto tempo poderia segurar as pontas sem ter uma fonte de renda, a curto, médio e longo prazo? Planos A, B, C… Z. Como trabalhar com o que eu gosto e também me dedicar à minha paixão que é a escrita? Com esta equação me deparei e com ela estou lidando atualmente. Agora, estou do outro lado da mesa, oposta ao lado que ocupei pelos últimos 20 anos. Estou prospectando clientes, oferecendo meu trabalho como advogada e consultora tributária. Este projeto vem tomando corpo e tem me estimulado muito. Não é fácil, mas eu quero tentar. Estou animada, como há muito não me sentia. Faz pouco mais de 2 meses que me desliguei da empresa onde trabalhava há 7 anos (sim, pedi as contas!), tudo é novo para mim e estou saboreando cada momento. Há incertezas, dúvidas, por vezes bate aquele desespero, mas eu procuro então focar lá na frente e também me apoiar no que me fez querer mudar. Quando perseguimos nosso sonho de forma incansável, o resultado só pode ser positivo. E, de outro lado, também quero me dedicar à escrita. Meu livro, engavetado há anos, finalmente publiquei no dia 31/07/2019! Aqueles textos antigos – guardar para quê? Vou publicar! E, claro, vou escrever outro(s) livro(s).

Ultrapassei a linha imaginária do medo. Eu era a pessoa que menos acreditava em mim mesma. Agora, sou minha fã. E vou em busca deste novo, deste desconhecido. Estou alimentando meu sonho, minha alma. Pode dar tudo errado? Pode, mas agora, não será esse meu foco.

O que me motiva a seguir é o fato de eu saber que não estou sozinha. Há alguns anos, eu jamais teria saído de um emprego, pois meus pés estavam fincados no chão. Se hoje tenho asas, é porque tive apoio para poder erguê-las e sentir o vento por entre elas.

Obrigada, Fábio Miranda, meu marido, meu amigo, por estar ao meu lado e por ser parte de tudo isso!

E assim, concluo… Mudei o rumo de minha vida aos 43 anos… Cedo? Tarde? Louca? Corajosa?

Viverei e verei.

Conto depois…

P.S.

Meu propósito:

“O que o pintor busca nas tintas

O que o ator busca no palco

O que o pescador busca no mar

Eu busco na escrita.”

Meu livro – finalmente!

Em 2005 eu comecei com a ideia de escrever um livro. Sentei-me em frente ao computador e comecei a escrever… Havia uma ideia na cabeça, que foi se desenhando ao longo de 3 anos. Em 2008 eu terminei de escrever. E então, pensei, à época: vou publicar! Porém, a vida me engoliu, o medo da opinião alheia me dominou, a insegurança reinou e eu simplesmente engavetei o projeto. Em 2014 ou 15, não me recordo, participei de um workshop oferecido por um editor, em que ele falava sobre como publicar um livro. Fiquei super empolgada e pensei: “agora, vai!” Não foi… Novamente, outras coisas foram tomando o lugar deste projeto. Coisas muito importantes, como morar junto com meu atual marido, me casar, trabalhar muito, mudar para o interior, voltar para São Paulo, pensar no futuro da minha carreira, da minha vida, planejar meus próximos passos após pedir as contas na empresa…

Dado tudo isso… chegou o ano de 2019. No final de maio, saí da empresa em que estava trabalhando para batalhar por outros projetos. Um deles, meu livro, minha vontade e meu sonho de ser escritora. Este blog foi o começo da cristalização deste projeto. Tenho muito pela frente ainda, e estou pavimentando o caminho. Em junho, comecei a trabalhar fortemente na revisão do livro. Concluí em julho e então fui atrás dos procedimentos de registro na Biblioteca Nacional. Em 31/07, dei entrada no registro. E, seguindo o conselho de meu marido, peguei essa onda e no mesmo dia publiquei o livro na Amazon (self-publishing). Depois que concluí o processo da publicação e vi o livro ali disponível no site da Amazon, fui tomada por um mix de emoções. Orgulho de mim mesma, felicidade, alívio… Lá no fundo, ainda tem muita insegurança, medo de que ninguém goste do livro, que eu seja uma péssima escritora… Mas não vou deixar que isso venha à tona para me auto-sabotar. Vou permanecer nesta onda de criatividade e otimismo!

Então, é isso: meu primeiro livro, “O Último Bilhete”, está à venda na Amazon (e-book)! Agora, mãos à obra para escrever um segundo livro, publicar novamente, compilar meus textos que estão guardados e também publicar e, assim, alimentar meu sonho! Não sei no que vai dar, pois estou meio ocupada agora vivendo tudo isso! Está mais do que na hora de fazê-lo!

E você? Está alimentando seu sonho?

Dia de aniversário

O que é ser criança?

Ser menino, ser João…

9 anos já chegaram!

Menino alto, forte

Se eu piscar os olhos, vira moço

Se eu não prestar atenção, será um homem.

Quanto orgulho, quanto amor.

Será sempre meu João

Que peguei nos braços quando era um passarinho

Que me faz olhar o mundo com seu olhar de João

De cores vibrantes

De super heróis

De puro amor.

Para onde quer que você vá,

Por onde quer que você voe,

Sempre estará no meu coração.

Meu querido João…

Que me ensinou a amar…

Parabéns!

Com amor,

Dinda

Resenha: “O Homem Ridículo”, Marcelo Rubens Paiva

Devo começar dizendo que sou fã deste escritor e dramaturgo brasileiro que fala minha língua, entende o mundo em que vivemos e cujas obras se integram à minha vida de uma forma que parece que ele é um amigo de longa data, sempre presente. Desde o romance que o consagrou, “Feliz Ano Velho”, o qual preciso reler urgentemente, a “Malu de Bicicleta” e “As Verdades que ela não diz”, obras que, para mim, são obrigatórias para quem quiser conhecer este grande escritor. E, anos depois, veio o arrebatador “Ainda Estou Aqui”, o qual recomendo muitíssimo. O roteiro do filme “E Aí, Comeu?”, foi escrito por ele. Se você ainda não assistiu, não perca. Vou ler os outros livros, como “Não és tu, Brasil”, “Blecaute”…

Quanto a este recente, “O Homem Ridículo”, trata-se de uma deliciosa coletânea de contos e crônicas escritas por um boemio que ama as mulheres e as ressalta à maneira que somente este autor pode fazer e que me encanta. Alguns são engraçados, outro tragicômicos, outros sarcásticos… O último conto é lindo e traz aquela melancolia que eu tanto amo e que me fez querer escrever. Foi o Marcelo Rubens Paiva que me atiçou a escrever meu primeiro conto, quando ainda era adolescente e que me instiga a ir além, a buscar meu sonho. Que sorte a minha. Um dia, quem sabe, ele saberá disso. Pode ser que não faça nenhuma diferença na vida dele, mas… certamente ele fez muita diferença na minha.

Leia! Delicie-se!

Instante Inevitável (1994)

A sensação e abandono

E ansiedade.

Perda e felicidade,

Rebuscada sob a forma de uma nuvem

Que cobre os raios de sol,

Cuja luz mal penetra

Em meus olhos.

Um amor idealizado.

Pode ser que exista,

Pode ser que não.

Como saber se hoje

Vou sorrir novamente?

Ninguém abriu a porta,

Então por onde saiu

Se cortei suas asas?

Um corpo a mais apenas.

Uma alma destruída.

E você sai, assobiando

A música da sua infância dourada.

O colo foi substituído pela palavra,

Pelo gesto de adeus.

As flores foram entregues

Para receber prazer em troca.

Sem gorjeta, sem condução.

Sim senhor, obrigada

Por nada.

No mar os barcos afundam.

Por que está chorando?

O marinheiro era seu pai,

Ou pai desta criança morta?

Não senhor. Não é nada.

Lembro de quantas luas já vi.

Lembro de como conquistei o tesouro

Perdido nomeio da noite.

Nunca respondeu às perguntas

Da moça que dormiu com você.

Mas senhor, não senti nada.

Estamos bem servidos de sonhos, desejos

Somente para esconder a realidade.

Os homens de terno disseram

Que o dinheiro vale mais que a vida.

As mulheres de avental

Choravam porque a vida não valia nada.

O mundo está uma confusão.

Agora vejo as crianças em deleite,

Sem ter de quem apanhar.

Mas amanhã

A polícia, os ladrões, os chefes, todos

Vão sacar suas armas

E dar uma lição nos anjos desnutridos.

Adeus, inocência.

A covardia espremeu a esperança.

Desculpe, senhor.

Não sou nada. Ao menos ainda o vento sopra.

O lixo acumula-se, mas quem se importa?

Os porcos vivem na sujeira

E nós deles nos alimentamos.

Um belo corpo o seu, mas até quando?

Esta bomba em minha mão

Destruirá sua mansão, seu grande orgulho.

Vê como nem todos somos conformados?

A informação manipulada não basta.

Procuram agora pela sobrevivência controlada.

Quando senti o sabor da paixão,

Vi também o extermínio da paz.

Ao tocar seus doces lábios,

O fel inundava as ruas.

Devo celebrar a satisfação

Ou chorar pela destruição?

Acendo uma vela para o amor

Ou visito o túmulo dos inocentes?

Sempre que cruzo as esquinas,

A imagem de uma violação.

As cordas não conseguiram amarrar

O tempo que fugiu,

Desapareceu.

Uma moeda de ouro a quem achá-lo.

O sol quadrado a você, preto,

Que o roubou.

A neve é branca.

O petróleo, valioso.

As cores não fazem diferença

Se a TV é em preto e branco.

A religião tem a forma de um castelo

De areia.

A brisa a derruba, eu a destruo.

Não quero, não preciso de um nome.

Sou apenas ser humano, fraco

E incapaz de se sustentar

Na própria existência.

Um segundo mundo,

Segundo os entendidos.

Espero um segundo.

A verdade, de tão crua,

Merece uma pitada de mentira.

Viu, senhor? Quase nada.

Sei que fui usada por você,

Mas a humilhação é algo muito especial.

Essa dança é tão bela,

E dura pouco.

Vou embora, senhor,

Que estou cansada.

Eliana Leite

(Janeiro 1994)