Amplitude

O calor sutil da noite agasalha o sentimento

De pertencer à realidade.

Necessitei tanto das estrelas e agora

Brilham alegremente,

Sem medo de ofuscarem.

Machucou, certa vez, ouvir que o dia acabara.

Hoje o tempo, em seu curso,

Torna a vida natural.

Esperança e ilusão se confundiam,

Se juntaram secretamente

E não passam de chaves

Para a nova porta entreaberta.

Não forçarei a entrada.

Serei como a brisa que sopra

E alivia a inquietude do coração.

Deitar sob o manto dos sonhos,

Repousar sobre a paz, a alegria das lembranças

Sem tropeçar nos hiatos.

Não sei como agradecer, a quem abraçar seguramente,

Por ter erguido o alicerce que me sustentava no paraíso,

No conceito de paraíso.

Todo o vazio, a loucura do abandono,

Deixaram meu território,

Partiram com a insensatez da dor amanhecida.

Lua, abrigue os seus filhos

E me inclua em sua família.

Serei sua admiradora,

Como fui ao derramar poesia por sua beleza.

Mire-se em si mesma e medirá a amplitude dentro de mim.

O amanhã se refaz para receber a luz do sol.

O céu, em seu negro sublime,

Extraiu a vitalidade do espírito,

A essência dos detalhes,

A graça de acordar…

Eliana Leite

16/03/1995

A vida em si

Às vezes chego a definir sua forma

Algo muito vago e composto por sonhos.

Às vezes paro para lembrar sua voz

Chamando pelo mundo em silêncio.

Existe uma grande força em seu corpo

Que não age em linhas fixas.

Sai por aí, procurando verdades que são raras

Mas não cabem em você.

Quantas vezes te amei calada

Para não atrapalhar seu sono.

E ainda assim quero partir

E ainda assim quero ficar

Não para sempre, nem por um minuto

Apenas para podermos nos entender

E viver nossas angústias juntos,

Sem medo das dúvidas

E esperando sempre algo mais,

Tentando sempre o que podemos

Para que tudo passe,

Tudo fique,

Assim como foi criado o mundo.

Eliana Leite

(1991)

Procura

Durante o caminho, a dúvida.

Chegar e sentir-se incompleto.

O corpo procura,

A alma,

O coração.

Enquanto se respira,

O ar não é suficiente.

Enquanto se sorri,

A felicidade não é completa.

Enquanto se ama,

O amor não é tudo.

Falta, sempre, algo mais.

Olho para fora, persigo a imensidão.

Olho para dentro,

Persigo a profundidade inerente

A mim mesma.

Somos feitos de um abismo infinito,

Nada preenche totalmente.

A sede pela plenitude

Não é saciada,

A fome pela perfeição persiste…

O segredo é a procura,

Um enigma irrevelado,

Obscuro no interior do mundo.

Quando chega o fim,

Não é exatamente o fim.

Quando acaba a vida,

Procuramos outra vida.

Nem ela mesma

É suficiente…

Eliana Leite

29.06.1995

Uma rápida olhada

Não se se estou pronta para revelar tudo.

O tem é indefinido e eu duvido

Que isso seja realmente um bom documento.

Tudo que se diz, por alguém é lembrado.

Que pena…

Ontem eu disse o que não queria a você

Mas hoje eu ia te abraçar e você estava longe.

Não consegui sorrir novamente, você me feriu.

Os meus olhos não desviaram, nunca o fazem.

Esses traidores dizem o que não devem

E quando tem que se rebaixar, respondem, ofendidos.

E se estou sofrendo é só um pouco, não choro.

Você faria muitas perguntas, eu me calaria.

Por isso prefiro que as coisas sejam mais fáceis

E do jeito que as pessoas esperam.

Afinal, o meu lugar é apenas o meu lugar,

E não há mais o que se dizer, ou ouvir.

Peço que bata antes de entrar, estou ocupada.

Nada é mais importante do que meu futuro,

Então deixe-me um pouco sozinha.

Sinto que algo ainda me foge,

E assim me prendo e paro

Fico olhando, te esperando e te vendo passar,

Dando uma rápida olhada, desviando sempre.

Sua falsa naturalidade ainda te trairá

E nada é mais difícil do que

Ser carrasco de si mesmo…

Eliana Leite

(1991)

Lembranças

Fim da madrugada,

O dia nascendo diante de meus olhos.

O calor de seu corpo

Seguido do frio da manhã.

Envolta nas lembranças,

Nos sentimentos

E no momento que se prolonga…

Entrando no coração,

Descobrindo que sou sua

E você é meu,

Na nossa água límpida,

Intocável,

Onde o sol afunda em êxtase.

Assim como o entardecer anuncia

A noite,

Seu toque me desperta e acalenta,

Perco-me em seus braços,

E me encontro dentro dos seus olhos…

Eliana Leite

02.10.1995

Com as pedras

Não há tempo suficiente

Para pensar,

Ou sentir

As pedras rolam e eu as acompanho

Sem saber para onde.

Como pode tudo mudar

Sem que ninguém saiba?

Sempre deparando com desafios,

Quase desistindo,

Irei com essas pedras.

De algum lugar vieram

E carregam o passado,

Meu inimigo.

A água já tentou afogá-lo,

O fogo não o queimou.

Não será você quem o fará esquecido.

O tempo determina a insuficiência,

Mas não a certeza.

Para frente, ainda.

Ainda que eu queira

Voltar atrás

E me despedir,

Da dor, o amor.

De tudo que construí,

E agora abandono

Sem culpa.

Desculpas, não.

Apenas o perdão

Vindo de quem gera

Toda essa dúvida…

Eliana Leite

13.06.1994

Valsa Viva

Como cantam o coração,

A alma…

Canções distantes, insistentes.

Não passam de suaves assobios,

Durante a noite,

O dia,

Todo dia.

Ouço e danço

Durmo com a melodia dentro de mim.

Entendo cada nota, crescendo,

Vibrando,

Fora de mim.

Fecho os olhos

E vejo tudo o que se passa,

O tempo que passou,

Parou nesse momento.

Nessa longa estrada em que flutuo,

No começo, sem fim.

Apenas sigo, com a música, comigo.

Como cantam os olhos, a boca,

O corpo.

Canções de amor, prazer,

Jovens ilusões.

Cantam.

Calam.

E ouço sempre

A voz do amanhã…

Eliana Leite

Val21/08/1995

Carne, Osso e Segredos

Os sentimentos se misturam,

Abrigam-se em meio ao vazio,

Ocupam espaços indefinidos.

Ao mesmo tempo que preciso de mim,

Não me quero tanto assim.

Enquanto corro da realidade,

É ela que me traz força.

Medo,

Desconforto,

Leveza,

Paz.

Nada é certo,

Tão certo quanto poderia.

Tudo se acaba, mas o fim não.

Navegando em opostos,

As ondas engolindo a razão

E a brisa expulsando a verdade.

De que somos feitos, afinal?

Um pouco de carne, osso

E muitos segredos.

Impossível atravessar limites

Sem estabelecer outros.

Difícil esquecer momentos sem viver outros.

Há tantas armadilhas,

Palavras, gestos,

Tantas sequelas, lembranças, dúvidas…

Procurar pelo caminho sem enxergar,

Pisando ou em areia

Ou em terra,

Ou em qualquer lugar.

Surpreendendo-se com o óbvio,

Aproximar-se dele e esquecê-lo de repente.

Por que?

Amar de várias maneiras, várias pessoas,

Ninguém…

Amar…

Por que não?

Eliana Leite

25/08/1995

Brevidades

Olho para frente

Vejo possibilidades

Pisco

Vejo realidades

E tudo fica como está

Estendo as mãos

Para tocar o objeto de desejo

Quase consigo

Mas se vai, as mãos se fecham

E eu fico onde estou

Corro em direção ao pote de ouro

Quero ser feliz

Mas o arco-íris desaparece

Chove…

E você, quem quer que seja,

Voa e se desfaz

Partículas minúsculas

Abro o coração para receber

Desejo

Mas a porta se fecha

Lágrimas

E eu me fecho, como sempre

Busco como um caçador

Aquele dos contos

Corajoso

Inconsequente

Acordou e sou a menina

Com medo do lobo

Sem doces para a vovó

E tudo se acaba, como tem de ser…

Eliana Leite

07/09/2005

Quando decidi mudar de rumo

Dizem que a mágica acontece fora de nossa zona de conforto.

E como podemos definir “zona de conforto”? Alguns preferem “zona de comodidade”. De qualquer forma, conforto, comodidade, são lugares quentinhos e aos quais estamos acostumados. Bom ou ruim, fato é que a festa não está rolando neste endereço.

Posso dizer que me encontrava em uma zona de conforto ao não mais me sentir desafiada e não mais ter aquele frio na barriga para encarar o dia que se colocava à minha frente. Quando comecei a dar de ombros, a achar que tanto fazia esta ou aquela roupa, não queria sequer passar um batom para sair. Alguns dirão que isso não é zona de conforto e sim um passo para a depressão. Digo que o conforto, ou a comodidade, tira sua vaidade, sua vontade. Se pode levar a um quadro depressivo, deixo aos entendidos no assunto avaliarem. Voltando ao tema – você já se pegou fazendo as coisas no piloto automático? A rotina me engoliu de tal maneira, e eu permiti, que não havia espaço para criar, inovar, pensar…

Isso foi há mais ou menos um ano e meio. Tive um “click” quando fui a uma reunião cujo tema me interessava deveras e não consegui prestar um minuto de atenção. Fiquei navegando na Internet, pelo celular, batendo papo no Whatsapp, fazendo lista de “to do´s” pessoais e até lista de mercado. Quando percebi, a reunião estava no fim e eu não sabia o que havia sito dito. “Vou esperar a ata”, pensei, e então quis me bater com o mesmo celular que me escravizava.

Os dias no trabalho se arrastavam e eu, já um pouco mais consciente, passei a me incomodar comigo mesma. Como se me olhasse do alto, notei que era um poço de reclamações e negatividade. Perguntei a mim mesma como meu marido aguentava? Meus amigos mais próximos? Meu time? Meus pais e minha irmã? Passei então a buscar um caminho que pudesse me tirar daquele inferno em que eu mesma tinha me colocado. Pensei em mil coisas: terapia, yoga, jogar tudo pro alto sem nenhuma estratégia… Após muitas conversas, fiz um trabalho voltado à busca de meu propósito. Quem me ajudou foi o Edu Seidenthal, coach, fundador da Rede Ubuntu de Eupreendedorismo. Cito o nome dele pois penso que devemos agradecer nominalmente às pessoas que nos salvam. O trabalho de buscar meu propósito foi essencial para me trazer onde estou hoje. Além disso, foi (e vem sendo) uma jornada deliciosa. Da negatividade, passei para um sentimento de acreditar que seria possível. Quando vi, uma onda de otimismo me atingiu. Acabei resgatando sentimentos que estavam praticamente enterrados desde, sei lá, 2004, ou até antes. Fui olhar os textos que escrevi em 1993, 94, 95… Reatei com essa Eliana.

Foi então que fui fazer conta. Quanto tempo poderia segurar as pontas sem ter uma fonte de renda, a curto, médio e longo prazo? Planos A, B, C… Z. Como trabalhar com o que eu gosto e também me dedicar à minha paixão que é a escrita? Com esta equação me deparei e com ela estou lidando atualmente. Agora, estou do outro lado da mesa, oposta ao lado que ocupei pelos últimos 20 anos. Estou prospectando clientes, oferecendo meu trabalho como advogada e consultora tributária. Este projeto vem tomando corpo e tem me estimulado muito. Não é fácil, mas eu quero tentar. Estou animada, como há muito não me sentia. Faz pouco mais de 2 meses que me desliguei da empresa onde trabalhava há 7 anos (sim, pedi as contas!), tudo é novo para mim e estou saboreando cada momento. Há incertezas, dúvidas, por vezes bate aquele desespero, mas eu procuro então focar lá na frente e também me apoiar no que me fez querer mudar. Quando perseguimos nosso sonho de forma incansável, o resultado só pode ser positivo. E, de outro lado, também quero me dedicar à escrita. Meu livro, engavetado há anos, finalmente publiquei no dia 31/07/2019! Aqueles textos antigos – guardar para quê? Vou publicar! E, claro, vou escrever outro(s) livro(s).

Ultrapassei a linha imaginária do medo. Eu era a pessoa que menos acreditava em mim mesma. Agora, sou minha fã. E vou em busca deste novo, deste desconhecido. Estou alimentando meu sonho, minha alma. Pode dar tudo errado? Pode, mas agora, não será esse meu foco.

O que me motiva a seguir é o fato de eu saber que não estou sozinha. Há alguns anos, eu jamais teria saído de um emprego, pois meus pés estavam fincados no chão. Se hoje tenho asas, é porque tive apoio para poder erguê-las e sentir o vento por entre elas.

Obrigada, Fábio Miranda, meu marido, meu amigo, por estar ao meu lado e por ser parte de tudo isso!

E assim, concluo… Mudei o rumo de minha vida aos 43 anos… Cedo? Tarde? Louca? Corajosa?

Viverei e verei.

Conto depois…

P.S.

Meu propósito:

“O que o pintor busca nas tintas

O que o ator busca no palco

O que o pescador busca no mar

Eu busco na escrita.”