CHÃO

O chão em que piso

Me conduz

Em dias ensolarados, chuvosos, nublados

Este chão pode ser duro, macio, terroso, verde

Não importa.

O chão em que piso

Não me deixa cair

Ele me leva em meio

Às águas, flores, pedras, raízes

Este chão se estende dentro de mim

Se transforma em meio

Às palavras, ao silêncio, ao toque, ao canto.

O chão em que piso

Na verdade, está em todo lugar

Ele sou eu, ele é você

E, tal qual a cachoeira,

Se renova, nos purifica

Encanta todos os dias.

Eliana Leite

27/09/2020

Resenha – Livro “Afinidades Eletivas”, Goethe

O livro retrata a relação entre quatro pessoas: Charlotte, Eduard, Otto (chamado como Capitão em todo o livro) e Ottilie. Os dois primeiros são casados e os dois últimos não se conhecem entre si, mas são convidados por cada um dos cônjuges (Ottilie por Charlotte e o Capitão, por Eduard) a se hospedarem no castelo em que vivem. Eduard, na verdade, é o que toma a iniciativa de chamar o Capitão, o qual se encontra em dificuldades financeiras e pede ajuda ao amigo de longa data. A contragosto de Charlotte, Eduard insiste em que esta atitude é a mais correta e que tudo ficará bem. Charlotte, por seu lado, entende que isso acarretará uma mudança significativa, e talvez penosa, à rotina do casal, que foi para o campo para, digamos, fugir deste tipo de interferência. Eduard insiste tanto que Charlotte acaba aceitando, não sem antes propor que também se convide sua sobrinha, Ottilie, para ficar no castelo, sob o pretexto de ajudar Charlotte nas atividades domésticas. Logo descobrimos que Charlotte pensa que a vida de Ottilie será mais útil e menos dolorosa no castelo do que no pensionato, onde não parece ter seus trabalhos valorizados e, ainda, é vítima do desprezo da filha de Charlotte, Luciane.

Dito isso, chega o Capitão, que se une ao amigo em conversas e trabalhos, deixando Charlotte com um sentimento inicial de solidão e de falta de ocupação, já que o Capitão passa a assumir o trabalho de construção que ela estava comandando. Resta então a Charlotte esperar por Ottilie, ansiando, assim, por uma companhia. Ottilie chega e, inicialmente, tudo parece se encaixar mais ou menos bem. Porém, o autor nos dá os sinais de que as tais afinidades eletivas, em uma aparentemente despretensiosa aula de química dos homens para Charlotte, serão a perdição de todos. Elementos que se atraíam passarão a se afastar em detrimento de outros, pelos quais as afinidades parecem ser maiores. E tudo isso pode também significar a destruição de um ou outro elemento.

Está é a base na qual Goethe escreve esta novela. A leitura é rápida, visto que curta, mas não por isso menos intensa. Eu não tinha em meus planos de leitura um livro de Goethe. Porém, como estou participando de um clube de leitura (Livres no Livro), este foi um dos sugeridos em um dos encontros e lá fui eu. Confesso que não foi uma das leituras mais agradáveis que fiz nos últimos tempos. A tradução do alemão antigo para o português se tornou bastante rebuscada, com palavras muito anacrônicas (obrigando o leitor a usar o dicionário diversas vezes) e construções um tanto confusas. Tentando me abstrair disso, dei uma chance ao livro e fui até o fim. Creio que cometi um erro ao fazer uma leitura mais superficial, analisando as personagens e seus comportamentos, o que me fez considerá-los todos bem irritantes, principalmente Eduard e Ottilie. Ao discutir o livro com o grupo, pude ver que o autor fez tudo isso propositadamente, a fim de tecer uma ácida crítica ao casamento e aos costumes da época. Ainda assim, o estilo da escrita e a forma como o narrador se afasta de tudo e de todos, não me atraiu. Sim, é um clássico. Sim, é Goethe. Quem sou eu para criticar tal obra? Mas, como já disseram uma vez por aí “Não somos nós que lemos o livro; é ele que nos lê”. Eu e “Afinidades Eletivas” não chegamos a um acordo ao nos lermos um ao outro. Quando eu achava que estava embarcando, havia uma parada, ou uma nova direção que fugia de tudo aquilo que estava sendo narrado e eu perdia o fio, ou mesmo o interesse. Além disso, ficou em mim um gosto amargo ao final, de manipulação e de um falso dramalhão. Tenho absoluta certeza de que esta era a intenção do autor, mas não me chamou junto e eu terminei o livro quase dando graças aos céus que havia concluído a tempo para a discussão do clube. Poderia ter desistido, mas, sabe como é… Quantos livros ou filmes não levamos até o fim só para ter certeza de que podemos dizer que não gostamos? Este foi um caso e, embora tenha ouvido outras opiniões de amigas (uma ou outra concordaram comigo), minha conclusão é de que não gostei do livro. Existem livros que não gostam da gente e vice-versa. Perguntaram, ainda, se eu leria “Fausto”. Penso que não. A não ser que alguém consiga me dizer que será totalmente diferente…

Em tempo, tenho que admitir que há algumas passagens, frase e diálogos de “cair o queixo”, um dos fatores que me fez permanecer na leitura. Deixo aqui algumas delas:

“Mas, em certos casos”, disse Charlotte, “é necessário e mesmo gentil preferir nada escrever a não escrever.”

“Mas quem afinal é tão educado que já não tenha, de modo cruel, imposto sua superioridade sobre os outros? E quem é tão altivo que já não tenha padecido frente a tamanha opressão?”

“Em todas as criaturas com quem deparamos, percebemos em primeiro lugar que elas guardam uma relação consigo mesmas. Soa estranho, naturalmente, exprimir algo que é autoevidente; porém, só podemos progredir com as outras pessoas na busca do desconhecido depois de termos compreendido de maneira cabal aquilo que sozinhos já conhecemos.”

“A impaciência é que, de tempos em tempos, assalta o homem, e aí ele acha que se pode dizer infeliz.”

“Por vezes o casamento pode ser desagradável, não o nego, e é certo que seja assim. Não nos casamos também com a consciência, da qual, frequentemente, gostaríamos de nos livrar por ser mais desagradável do que jamais poderiam ser um homem ou uma mulher?”

“Mas o momento presente não aceita a alienação de seus enormes direitos. Os dois passaram uma parte da noite entretendo-se com toda sorte de conversas e gracejos, que se viam tão mais desimpedidos quanto mais o coração permanecia ausente. Na manhã seguinte, quando Eduard acordou reclinado sobre o peito da mulher, parecia-lhe que o sol contemplava a cena desconfiado; a seus olhos, era como se o astro iluminasse um crime; afastou-se cautelosamente, sem fazer barulho, e, ao despertar, Charlotte viu, não sem surpresa, que estava sozinha.”

“Assim, cada um a seu modo, os amigos tocam a vida, com e sem reflexão; tudo parece seguir o rumo natural, da mesma maneira que, como ocorre nas situações excepcionais, quando tudo está em risco, continuamos a viver, como se nada nos ameaçasse.”

“Jamais nos distanciamos tanto do objeto de nossos desejos do que quando imaginamos possuí-lo.”

“Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser. Basta a alguém declarar-se livre para logo se sentir limitado. Se, porém, vem a se declarar limitado, sente-se livre.”

“Não existe consolo maior para os medíocres do que saber que o gênio não é imortal.”

“Os idiotas e os inteligentes são inofensivos. Os meio bobos e os meio sábios são os tipos mais perigosos.”

“Agora bastava torná-la inofensiva para as mulheres casadas, tornando-a também casada.”

“Mesmo nas famílias grandes e ricas, que tanto devem a seus antepassados, amiúde os vivos se lembram mais do avô que do pai.”

Qual foi a última coisa que você fez uma única vez?

Mariana acendeu o charuto. Lenta e pacientemente, como tinha aprendido. Era a primeira vez que ia sozinha ao clube de charutos. Resolveu pedir uma dose de uísque. Ao fundo, tocava um jazz suave. Notou que uma mulher a observava. A mulher se aproximou. Loira, alta, de uma beleza não óbvia. Seu nome era Cecília e trabalhava lá. Começaram a conversar sobre charutos. Mariana confessou que era uma iniciante. Cecília se sentou. Fumava um cigarro. Pediu um Negroni. Mariana perguntou se ela podia beber no trabalho. Cecília riu e comentou algo como aquele ser o melhor trabalho do mundo. Quando ia perguntar há quanto tempo trabalhava ali, alguém chamou por Cecília, que pediu licença e se foi. Mariana então voltou a atenção para o charuto e o uísque. Deixou-se embalar pelo som e divagou sobre aquela noite, um encontro consigo mesma. No dia anterior, estava lamentando com a irmã sobre o fato de não encontrar companhia para sair à noite, como era difícil conciliar agendas, principalmente pelo fato de as amigas estarem casadas, com filhos. Quando terminou de reclamar, sua irmã apenas perguntou porque ela não ia sozinha. Não precisava depender de ninguém para sair de casa. E ainda arrematou com um “pare de reclamar e vá viver a vida”. Com este pensamento, resolveu sair do trabalho e ir ao clube de charutos. Ela já tinha ido duas vezes, no ano passado, com seu amigo Caio, que agora vivia em Londres. Conversavam bastante por WhatsApp e Skype, mas ela sentia muito sua falta. Foi então que decidiu mandar uma mensagem para ele acompanhada de uma “selfie”, dizendo “adivinha onde eu estou?”. Porém, a mensagem não foi lida por Caio. “Deve estar ocupado”, concluiu, frustrada. Pensou em postar a foto no Instagram, mas desistiu. Guardou o celular na bolsa e decidiu ter aquela noite para si. Sinalizou para a garçonete, que a avistou e logo se aproximou. Pediu uma água com gás. Assim que a garçonete saiu, Cecília se aproximou novamente.

               – Desculpe ter saído daquela forma. Tive que resolver um probleminha.

               – Imagine, não precisa se desculpar.

               – E então, está curtindo a noite?

               – Sim, estou me dando esse direito.

               – Veio sozinha?

               – Sim. Não é algo que eu tenha o costume de fazer, mas decidi que deveria.

               – Você não precisa se explicar para mim. Muitas pessoas vêm aqui sozinhas.

               – Não estou me explicando… é só que… – e Mariana ficou sem saber o que dizer.

               – Relaxa, mulher. Vamos lá, me conte sobre este charuto.

               – Ah… sim… gostei dele. Tem um bom fluxo, suave, combina com o uísque. É nacional.

               – Você comprou aqui?

               – Não, esse eu ganhei de um amigo. Foi ele que me apresentou esse lugar.

               – Não me lembro de você. Quando vieram?

               – No ano passado. Nossa, mas tantas pessoas passam por aqui. Você não se lembraria.

               – Digamos que eu sou uma boa fisionomista. Certamente me lembraria de você. Mas no ano passado eu ainda não trabalhava aqui. Comecei no início deste ano.

               – Onde você trabalhava antes?

               – Eu estava em Cuba. Tirei um ano sabático e fui para lá.

               – Uau! E foi bom?

               – Foi uma experiência maravilhosa, mas não volto mais. Certas coisas temos que fazer uma vez. Qual foi a última coisa que você fez uma única vez, fora sair sozinha à noite?

Mariana ia responder, quando a garçonete chegou com a água. Enquanto servia perguntou se ela queria comer algo. Cecília recomendou o canapé de salmão defumado. Mariana pediu e, assim que a garçonete se retirou, respondeu:

               – Acho que minha “única vez” foi ter ido à Bahia no Carnaval. Nunca mais voltei e nem pretendo. Quase morri pisoteada.

Cecília riu:

               – Eu não suporto multidões.

               – Eu também não. Prefiro lugares como este.

               – Daqui a pouco vai chegar um grupo de mulheres, uma confraria. Posso te apresentar para elas, se quiser. O grupo é animado e elas sempre gostam de receber pessoas novas.

               – Adoraria! Não sabia que existiam confrarias de mulheres para charutos.

               – Pois é, nós estamos dominando o mundo! Você vai gostar, tenho certeza. Eu vou coordenar a degustação.

               – Ótimo! Obrigada.

               – Vou me preparar para recebê-las. Te chamo.

E novamente Cecília se foi. Desta vez, Mariana se pegou olhando enquanto ela se movia. Terminou o uísque e pediu mais uma dose para a garçonete. Continuou apreciando seu charuto, tomando notas mentais do gosto, do cheiro, observando como a fumaça saía de sua boca, rumo ao ar condicionado. Assim que a bebida chegou, resolveu pegar o celular e anotar algumas das sensações. Quem sabe não mostraria para sua mais nova amiga? Quem sabe não escreveria depois, em um post no seu blog? Terminou de escrever, guardou o celular na bolsa e viu que algumas mulheres chegavam ao clube e subiam as escadas. Alguns minutos depois, Cecilia a chamou. Mariana não teve dificuldade de se enturmar. O grupo era formado por mulheres de diferentes estilos, todas com um interesse em comum: charutos. Cecília iniciou com um breve e imponente discurso sobre como o charuto pode trazer experiências diferentes e inesquecíveis, e como aquele grupo, e outros que se formavam ao longo do país e do mundo, demonstravam que não era um universo de homens, muito pelo contrário. Assim como o vinho, o café, o uísque, o charuto não poderia ser mais predominantemente masculino. Terminou a introdução com um vídeo rápido que mostrava mulheres trabalhando na fabricação dos charutos, e outras ao lado de familiares, donas de seus negócios e com fotos do clube em que estavam e dela própria como sommelier. Todas a mulheres ali presentes aplaudiram efusivamente e Cecília agradeceu, sem um pingo de vergonha, muito altiva e dona de si, o que, para uma mulher, costuma ser um sinal de arrogância. Mas não ali. Era um carimbo de amor próprio e conhecimento de causa. Mariana sentiu orgulho ao ver uma mulher determinada, se colocando daquela forma. Ela mesma não era tão autoconfiante, sabia disso. Cecília não perdeu tempo e já iniciou a noite apresentando o charuto que seria degustado naquela noite. “Antes de mais nada, quero dizer que não há essa questão de charutos masculinos ou femininos. O que existe é o paladar e, acima de tudo, o costume. Qualquer pessoa que comece a fumar charuto, não vai direto para um “maduro”, como chamamos, que é um charuto mais potente. Assim como com vinhos e cafés, sempre começamos com algo mais leve, para acostumar o paladar, o olfato e treinar nossos sentidos. Hoje vamos degustar um nacional, da Bahia, o Dona Flor, que tem um sabor mais suave e agradará a todos os paladares, tenho certeza” Mariana ficou encantada com a forma pela qual Cecília acendeu o charuto. Ficou observando os movimento suaves, porém firmes, e guardou na memória para treinar depois. Uma das presentes comentou: “Ela é demais… Olha quanta classe”. Então, o charuto foi degustado por cada uma das presentes para que comentassem sobre suas características. Para harmonizar, tomavam uísque e conhaque e, para matar a fome, carpaccio. Mariana ficou curiosa sobre o grupo e assim que teve a chance, perguntou para Cecília como poderia se tornar parte. Cecília deu um sorriso e chamou uma moça negra, alta e com o cabelo quase raspado:

               – Erika, essa é a Mariana, Mariana essa é a Erika, a dona da confraria.

               – Oi, Mariana, é um prazer tê-la aqui conosco. Como ficou sabendo?

               – Ah, a Cecília me chamou… Eu estava lá embaixo fumando meu charuto e…

               – Ela quer saber como fazer para se associar à Confraria. Vou deixá-las a sós – cortou Cecília, e saiu para dar atenção a outro grupo.

               – Me conta, Mariana, há quanto tempo você curte charutos?

               – Ah… não muito… Sei lá, no máximo um ano… e olhe lá. E não fumo muito, pois meu amigo que gosta e que me apresentou foi morar fora… fiquei sem companhia…

               – Hm… Bom, você sabe que fumar charuto pode ser algo muito prazeroso para se fazer a sós, não é?

               – Descobri isso hoje, por incrível que pareça.

               – Vamos ao que interessa: para fazer parte da Confraria, basta assistir a um vídeo. Você tem Instagram?

               – Tenho, sim. É @mariblue1976.

               – Deixa eu ver aqui… Pronto, te mandei a solicitação. É só você aceitar e eu mando o link do vídeo. Quando você terminar, vai receber algumas instruções de associação, nada de mais, só para confirmar que você é você mesma. Não há custo na associação. Quando temos estes eventos, cobramos um valor para o ingresso no clube, que inclui o charuto, a bebida e a comida.

               – Que legal! Vou adorar participar!

               – Ótimo! Considere-se uma de nós já! Fique à vontade e não se esqueça de ver o vídeo. Agora, tenho que ir pois preciso acertar algumas coisas com a Cecília.

               Mariana se sentiu peculiarmente pertencente a algo naquela noite. Há quanto tempo não fazia algo assim, do nada, sem alguém que a tivesse levado, ou alguém conduzindo tudo e ela sendo uma coadjuvante. Ser a atriz principal da própria vida era bom, concluiu. Ainda que aquilo fosse uma pequena parte do todo, era um bom começo. Serviu-se de mais carpaccio e uísque e foi até uma roda aleatória de 4 mulheres que pareciam bastante compenetradas na degustação do charuto. Apresentou-se e as quatro se juntaram num “oi” animado. Uma delas, que Mariana achava que era Daniela, perguntou se ela era nova no grupo. Mariana explicou como foi parar ali e se integrou à conversa. Estavam, de fato, conversando sobre o charuto e comparando anotações. Pediram para Mariana degustar e falar o que achava das notas, do fluxo, do sabor, do cheiro, etc. Foi uma experiencia sensorial única, em que Mariana se esqueceu do mundo lá fora. Estavam falando sobre a importância de terem mais charutos nacionais nas degustações, quando Cecília anunciou o fim do evento:

               – Charutandas, como sabem, esses eventos têm começo, meio e fim. Está na hora de encerrarmos, mas convido todas a descerem e terminarem seus charutos e aproveitarem o local. Vejo vocês no próximo!

               – Charutandas? – perguntou Mariana a Daniela.

               – Pois é, esse é o nome da nossa confraria. Gostou?

               – Interessante! E a Cecília sempre apresenta o charuto?

               – Sim, ela é nossa sommelier do coração. A Erika a conhece há algum tempo e as duas decidiram montar um grupo de mulheres. A Erika toca toda a parte de divulgação, associação, custos e a Cecília faz o show. Dá super certo.

               – Ah, entendi. Que legal. Amanhã mesmo vou assistir ao vídeo para me associar.

               – Você vai adorar. Bom, tenho que ir. Meu marido já me mandou mil mensagens. Até parece que o mundo vai acabar porque estou fora de casa à noite. Eu hein… Beijos, querida, foi um prazer.

Quando Mariana se deu conta, todas já haviam descido. Desceu também e resolveu ir embora, pois já havia bebido sua cota de uísque e fumado mais do que tinha planejado. A cabeça doía. Estava na fila do caixa quando Cecília a abordou:

               – Já vai?

               Mariana se virou, sobressaltada:

               – Que susto… Sim, está tarde e estou cansada. Mas foi maravilhoso! Adorei! Obrigada por me chamar. Foi uma experiência e tanto!

               – Fico feliz que tenha gostado. Vai se associar?

               – Ah, vou sim. Amanhã mesmo.

               – Então nos veremos mais vezes. De qualquer forma, vou deixar meu cartão com você para quando quiser bater um papo. Eu tiro folga aos domingos. Podíamos almoçar, o que você acha?

               – Claro… seria ótimo…

Mariana entrou no Uber e ficou olhando para o cartão de Cecília. Afinal, era apenas um convite para um almoço, em um domingo qualquer. Por que isso a afetava tanto? Por que se sentiu incomodada, como se fosse um convite para um encontro? Mariana estava se precipitando, sendo preconceituosa? Não sabia absolutamente nada sobre a orientação sexual de Cecília. E se ela só quisesse mesmo conversar, estreitar a amizade? Isso não é possível? E se Cecília fosse um homem, teria Mariana se sentido lisonjeada ao invés de incomodada? E por que Mariana ficou com a impressão de que Erika e Cecília já tinham sido um casal? Essas ideias ficaram martelando a mente de Mariana até chegar em casa. Deixou o cartão sobre o balcão da cozinha, tomou um banho e tentou dormir. Estava cansada fisicamente, mas a mente pregava peças. Pegou o celular e viu a mensagem de Caio: “Arrasando no charuto, hein? E aí, como foi? Ou está sendo?”. Viu que ele tinha escrito há uma hora e resolveu responder. Contou como foi a noite e sobre Cecília e Caio disse para ela não ficar encanada. Por que não poderiam ser amigas? Ele até deu uma provocada em Mariana, soltando um “ah, mas vai que você gosta?”, ao que ela respondeu “deixa de ser besta” e o assunto parou e a conversa rumou para outros temas. Era mais de duas da manhã quando Mariana deixou o celular sobre o criado-mudo e se deitou. Dormiu um sono leve, curto e nada revigorante. No dia seguinte, acordou cedo e foi trabalhar. Estava com dor de cabeça e enjoada. Comeu alguma coisa no caminho, tomou um café preto e tentou se concentrar na reunião que tinha logo pela manhã. Sem sucesso. Em meio à discussão do grupo sobre como engajar os funcionários que haviam acabado de responder à pesquisa de clima, Mariana não conseguia parar de pensar na noite anterior. O que, de tão especial, havia acontecido? Ficou divagando sobre como entraria em contato com Cecília, sobre o que conversariam. Pensou na roupa que iria vestir, se usaria maquiagem ou não, perfume? Que tipo de comida será que Cecília gostava? Será que era daquelas magras que comiam de tudo? Mariana olhou para a barriguinha saliente e se lembrou de que precisava retomar a academia. “Por que estou pensando nisso, meu Deus?” A reunião acabou, sem que chegassem a nenhuma conclusão, como era praxe. Marcaram outra data para buscar uma solução. “Mais do mesmo”, pensou Mariana. Ao chegar à sua mesa, Mariana assistiu ao vídeo das Charutandas, acessou o site e se cadastrou. Em seguida, recebeu o ok por e-mail de sua associação e algumas instruções. Ficou feliz por ter dado continuidade e por fazer parte de algo que não a brigada de incêndio da empresa. O restante do dia se arrastou em atividades rotineiras e mais reuniões inconclusivas, até que, ao sair do trabalho, Mariana foi até a academia perto de sua casa e retomou o treino, abandonado há algumas semanas. Tomou um iogurte antes de se deitar e pensou “agora vai!”. Sabia que isso duraria pouco, mas mesmo assim estava tentando se animar. A auto sabotagem já lhe era familiar. Por isso fazia terapia, mas também tinha dado alguns canos na Dra. Lídia. Amanhã ligaria para remarcar as consultas. De repente, Mariana percebeu que sua vida estava quase à deriva. Um barquinho no meio do mar, sem direção alguma. E ela ali, ao sabor do vento. Novamente, demorou para pegar no sono, em meio à auto análise tardia, e quando foi dormir, eram quase três da manhã. Assim que o alarme tocou, teve raiva de si mesma. Parecia um zumbi. Tomou uma ducha rápida para acordar, pegou qualquer coisa na geladeira para comer no carro e se foi. Ao chegar ao trabalho, logo se enfiou em reuniões intermináveis, desta vez sobre inclusão e diversidade e como ter esse departamento na empresa. Ela já tinha dado sua opinião várias vezes a respeito do tema, da importância e do cuidado que teriam que ter para não se tornar algo oportunista e desajeitado. Porém, pelo rumo que a conversa estava tomando, ficou desanimada e não teve vontade de comentar além do necessário. Sabia que, ao final, sairia algo oportunista e desajeitado e que ela teria que consertar depois, como sempre. Assim que saiu da reunião, marcou a consulta com a terapeuta e ainda levou sermão da secretária por ter demorado tanto. Almoçou sozinha, na mesa, para terminar tudo o que tinha e sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Conseguiu ânimo para ir novamente à academia. Correu por meia hora e fez pilates. Chegou em casa e pediu comida japonesa. Não havia nenhum convite para happy hour, cinema ou jantar. “Sou uma antissocial”, pensou. As pessoas já haviam desistido de convidá-la, pois sempre recusava. Não tinha paciência para o pessoal do trabalho, e as amigas só falavam de filhos e maridos. Precisava mudar o círculo de amizade, mas tinha preguiça. Pensou na confraria, em Cecília e sorriu. Quem sabe não seria ali o recomeço de tudo? Ligou a TV e assistiu um filme qualquer na Netflix. Eram dez da noite quando olhou para o balcão da cozinha e viu o cartão ali, no mesmo lugar em que deixara. Levantou-se para pegá-lo e resolveu ligar para Cecília. Ela não atendeu. Escreveu no WhatsApp: “Oi, aqui é a Mariana. Nos conhecemos anteontem no clube de charutos. Que tal almoçarmos neste domingo?” Hesitou antes de enviar, pensou nos prós e contras, viu que estava pensando demais e enviou a mensagem. O que de mal poderia acontecer? E se ela não respondesse? E se ela só estivesse sendo educada ao falar sobre o almoço? Percebendo que estava entrando em um espiral, respirou fundo e foi para o quarto. Colocou a música para meditação no celular, se deitou e tentou relaxar. Dessa vez, conseguiu. Dormiu profundamente e acordou cedo em um sábado ensolarado. Ligou para a irmã e combinaram de almoçar. Assim que entrou no carro, já bateu o arrependimento. Teria que aguentar o cunhado mala e as crianças gritando pela casa. Não havia como desistir mais. Teria que enfrentar. Colocou um rock para animar e se foi.. O quer era para ser um almoço rápido, se estendeu para o famigerado lanche da noite. No final das contas, foram mais dois casais de amigos, cada um com dois filhos e a casa estava cheia e barulhenta. Mariana ficou com pena da irmã e ficou para ajudar. Até aspirador passou quando todo mundo foi embora. Ao voltar para casa no final da noite do sábado, estava exausta. Sentou-se no sofá da sala, com uma taça de vinho na mão e respirou aliviada. Enfim, em casa. Olhou o celular (que havia ficado na bolsa o dia todo) e tinha uma mensagem de Cecília, topando o almoço. Por que Mariana sentiu um frio na barriga?

Eliana Leite

20/02/2020

Resenha: “Lute como Uma Garota”

Livro de Laura Barcella e Fernanda Lopes (com prefácio de Mary Del Priore).

Trata-se da reunião de 60 feministas que mudaram o mundo, sendo 45 estrangeiras e 15 brasileiras. É uma leitura muito interessante, pois traz o perfil de mulheres desde o século XVIII até os dias de hoje, com suas respectivas lutas e contribuições para o movimento, ainda que algumas delas não se declarem, de forma expressa, feministas. A estrutura do livro é de fácil e rápida leitura, apresentando uma breve história de cada mulher, suas principais realizações e frases de impacto. Achei a parte relativa às brasileiras um pouco mais enxuta, digamos assim, do que a parte estrangeira, embora tenha trazido histórias relevantes.

Reuni aqui um “compilado do compilado”, destacando aquelas mulheres que, para mim, tiveram (e tem) um significado importante na história e no feminismo.

  1. Mary Wollstonecraft (1759 – 1797) – Inglaterra

Escritora, filósofa e defensora dos direitos das mulheres.

Suas grandes realizações:

Mary Wollstonecraft foi uma das primeiras pessoas a propor o livre pensamento na esfera religiosa. Julgava que as mulheres deveriam viver de modo independente e formar as próprias opiniões, não baseadas em uma fé cega em uma divindade.

Frases famosas:

“Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sim sobre si mesmas.“

“Independência – há muito eu a considero a grande benção da vida, a base de todas as virtudes.”

  1. Sojourner Truth (Nascida: Isabelle Baumfree – 1797 – 1883) – Estados Unidos

Abolicionista, escritora, ativista pelos direitos da mulher.

Suas grandes realizações:

Sojourner Truth não tinha medo de um desafio. Em uma reunião em 1852, Frederick Douglass sugeriu que os negros deveriam usar a força para conquistar sua liberdade. Sojourner, que tinha a não violência como elemento fundamental de sua fé cristã, repeliu as afirmações de Douglass, exclamando: “Deus foi-se embora?”

Frases famosas:

“Estou feliz ao ver que os homens estão conseguindo seus direitos, mas quero que as mulheres também consigam os seus, e, enquanto a água se agita, vou entrar nesse lago.”

“Não sou eu uma mulher? Olhe para mim! Veja o meu braço! Já manejei o arado, já plantei, já guardei a colheita nos celeiros, e nenhum homem conseguia chegar na minha frente! Não sou eu uma mulher? Podia trabalhar tanto quanto um homem, e comer tanto quanto um homem – isso quando eu tinha o que comer -, e suportar as chicotadas também! Não sou eu uma mulher? Tive treze filhos e vi muitos deles serem vendidos como escravos, e, quando chorei com minha dor de mãe, só Jesus me ouviu e ninguém mais! Não sou eu uma mulher?”

  1. Frida Kahlo (Nascida: Magdalena Carmen Frieda Kahlo Calderón – 1907 – 1954) – México

Artista plástica.

Suas grandes realizações:

Frida foi prolífica ao longo da vida, criou cerca de duzentas obras entre pinturas, desenhos e esboços; pintou 143 quadros, dos quais 55 eram autorretratos.”

Frases famosas:

“Pés, para que eu preciso de vocês, se tenho asas para voar?”

“Tenho que lutar com todas as minhas forças para que as pequenas coisas positivas  que minha saúde me permite fazer possam se concentrar  em ajudar a revolução. É a única verdadeira razão para viver.”

  1. Rosa Parks (Nascida: Rosa Louise McCauley – 1913 – 2005) – Estados Unidos

Ativista do movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos

Suas grandes realizações:

Em 1996, o presidente Bill Clinton concedeu a Rosa Parks a Medalha Presidencial da Liberdade. Ao lado da Medalha de Ouro do Congresso, aquela é considerada a maior honraria concedida a um civil nos Estados Unidos. Na cerimônia de premiação, Rosa Parks foi chamada de “Primeira-Dama dos Direitos Civis” e “Mãe do Movimento pela Liberdade”.

Frases famosas:

“Gostaria de ser lembrada como uma pessoa que queria ser livre […] para que outras pessoas também fossem livres.”

“Já tinha cedido meu lugar antes, mas naquele dia eu estava especialmente cansada. Cansada do meu trabalho de costureira e cansada da dor no meu coração.”

  1. Maya Angelou (Nascida: Marguerite Annie Johnson – 1928 – 2014) – Estados Unidos

Escritora e poetisa.

Suas grandes realizações:

Em 2010, o presidente Barack Obama concedeu-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade, considerada uma das maiores honrarias civis do país. Disse também que a obra de Maya Angelou “falou diretamente a milhões de pessoas, inclusive minha mãe, e é por isso que minha irmã se chama Maya”.

Frases famosas:

“Sou feminista. Já sou mulher há muito tempo. Seria tolice não defender meu lado.”

“Não há maior agonia do que suportar dentro de si uma história não contada.”

  1. Audre Lorde (Nascida: Audre Geraldine Lorde – 1934 – 1992) – Estados Unidos

Escritora, feminista radical, ativista dos direitos civis.

Suas grandes realizações:

Sua coletânea de textos poderosos, Sister Outsider: Essays & Speeches (1988), é muito apreciada e considerada uma leitura feminista essencial, tanto no meio universitário quanto fora dele.

Frases famosas:

“Sou decidida e não tenho medo de nada.”

“A linguagem com que fomos ensinadas a nos diminuir e a diminuir nossos sentimentos, considerando-os suspeitos, é a mesma linguagem que usamos para diminuir nossas irmãs e suspeitar umas das outras.”

  1. Angela Davis (Nascida: Angela Yvonne Davis – 1944) – Estados Unidos.

Professora, filósofa socialista, ativista, escritora.

Suas grandes realizações:

Em 1980, ela concorreu a vice-presidente dos Estados Unidos na chapa do Partido Comunista, embora não tenha vencido.

Frases famosas:

“Temos que falar sobre libertar a mente, assim como libertar a sociedade.”

“Não consigo imaginar um feminismo que não seja antirracista.”

  1. Oprah (Nascida: Oprah Gail Winfrey – 1954) – Estados Unidos

Apresentadora de televisão, atriz e empresária, grande figura da mídia.

Suas grandes realizações:

Em 2013, o presidente Barack Obama concedeu a Oprah a Medalha Presidencial da Liberdade, uma das maiores honrarias civis dos Estados Unidos.

Frases famosas:

“Chegar a um ponto em que você se sente absolutamente à vontade com você mesma. […] Ter a força interior e a coragem interior necessárias para dizer: ‘Não, eu não vou deixar vocês me tratarem dessa maneira!’ – essa é a essência do sucesso.

“Foi a educação que me libertou. A capacidade de ler salvou minha vida. Seria uma pessoa completamente diferente se não tivesse aprendido a ler ainda muito pequena. Durante toda  a minha experiência de vida, quando a capacidade de acreditar em mim mesma era colocada à prova, e até nos meus momentos mais sombrios de abuso sexual, abuso físico e assim por diante, eu sabia que havia outro caminho, que havia uma saída. Sabia que havia outro tipo de vida, porque tinha lido a respeito.”

  1. Madonna (Nascida: Madonna Louise Veronica Ciccone – 1958) – Estados Unidos

Cantora, compositora, atriz, dançarina e produtora musical.

Suas grandes realizações:

Camille Paglia já chamou Madonna de “o futuro do feminismo”. Em uma coluna de 1990 para o The New York Times, a famosa escritora argumentou que Madonna foi mal compreendida tanto pela grande mídia como pela corrente principal do feminismo. “Madonna tem uma visão muito mais profunda do sexo do que as feministas”, observou Paglia. “Ela consegue enxergar tanto a animalidade quanto o artifício.”

Frases famosas:

“Estou no controle das minhas fantasias… Pois não é isso o feminismo?”

“Se o meu talento não fosse tão grande quanto minha ambição, eu seria uma monstruosidade.”

  1. Beyoncé (Nascida: Beyoncé Giselle Knowles – 1981) – Estados Unidos

Cantora, compositora, atriz.

Suas grandes realizações:

Depois que o furacão Katrina arrasou Nova Orleans em 2005, Beyoncé e sua amiga e colega de banda Kelly Rowland fundaram a Survivor Foundation. A organização providenciou moradia provisória para as vítimas na área de Houston, e Beyoncé teria contribuído com uma verba inicial de 250 mil dólares. Ela arrecadou mais de um milhão de dólares para a Fundação Shawn Carter, do marido Jay-Z, focada em ajudar crianças de baixa renda a cursar a universidade. Beyoncé também trabalhou em parceria com a organização Feeding America, que fornece refeições a bancos de alimentos de todo o país.

Frases famosas:

“Meu objetivo era a independência.”

“Acredito piamente que as mulheres devem ser financeiramente independentes de seus homens. E, verdade seja dita, o dinheiro dá aos homens o poder de comandar o espetáculo. E dá aos homens o poder de definir o valor. São eles que definem o que é sexy. São eles que definem o que é feminismo. É ridículo.”

  1. Malala Yousafzai (1997 – Paquistão)

Ativista.

Suas grandes realizações:

Aos 17 anos, Malala foi a pessoa mais jovem – e a primeira de seu país, o Paquistão – a receber o Prêmio Nobel da Paz. Foi escolhida, ao lado de Kaliash Satyarthi, ativista dos direitos da criança, pela sua “luta contra a opressão das crianças e dos jovens e pelo direito de todas as crianças à educação”, declarou a comissão norueguesa que concede o Nobel.

Frases famosas:

“Eles atingiram meu corpo, mas não podem atingir meus sonhos.”

“Tenho direito à educação. Tenho o direito de brincar. Tenho o direito de cantar. Tenho o direito de falar. Tenho o direito de ir ao mercado. Tenho o direito de dizer o que penso.”

BRASILEIRAS QUE FORAM À LUTA

  1. Chiquinha Gonzaga (Nascida: Francisca Edwiges Neves Gonzaga – 1847 – 1935)

Compositora, maestrina.

Suas grandes realizações:

Destaca-se também sua atuação como ativista, de causas sociais e da própria vida. Chiquinha não aceitava “as coisas como elas são” e enfrentou diversos obstáculos (como a rejeição da família e uma ordem de prisão) para fazer valer o que acreditava.

Frases famosas:

“Pois, senhor meu marido, eu não entendo a vida sem harmonia.”

“Não entendo a vida sem música”.

  1. Anália Franco (Nascida: Anália Franco Bastos – 1856 – 1919)

Escritora e líder social assistencialista.

Suas grandes realizações:

Anália Franco foi pioneira no trabalho social no Brasil voltado para mulheres, principalmente aquelas em situação de vulnerabilidade. Na luta contra a ignorância e a miséria, ela criou organizações de auxílio, educação e qualificação profissional, com dezenas de instituições espalhadas pela região Sudeste. Mesmo com dificuldades financeiras, não esmoreceu e conseguiu dar a volta por cima para manter o trabalho de sua vida em funcionamento.

Frases famosas:

“A verdadeira caridade não é acolher o desprotegido, mas promover-lhe a capacidade de se libertar.”

“Enquanto a nossa instrução  for concebida nessa espécie de molde fatal que nos atrofia o desenvolvimento da personalidade, havemos de viver abafadas numa atmosfera de interesses mesquinhos, sem sentir simpatia, nem tendências para as nobres e elevadas conquistas do espírito.”

  1. Bertha Lutz (Nascida: Bertha Maria Julia Lutz – 1894 – 1976)

Bióloga, líder feminista e sufragista.

Suas grandes realizações:

Bertha Lutz foi pioneira na luta pelo sufrágio feminino no Brasil, algo que conheceu na Europa e que, de acordo com a imprensa da época, não teria espaço em nosso país. Mas os setores mais descrentes e machistas não contavam com a personalidade forte e desafiadora dessa bióloga. Graças aos seus esforços políticos, ela conquistou direitos para as mulheres e, em decorrência do seu engajamento, uma série de prêmios, entre eles o de Mulher do Ano e Mulher das Américas em 1946 e 1952.

Frases famosas:

“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é degenerar justiça á metade da população.”

“Por quanto tempo ainda continuaremos (nós mulheres) a ser um assunto, apenas, de debique e sátira?”

  1. Clarice Lispector (Nascida: Chaya Pinkhasovna Lispector – 1925 – 1977)

Escritora, advogada, jornalista, tradutora, contista e cronista.

Suas grandes realizações:

Clarice é considerada uma das escritoras mais importantes do Brasil e, além de escrever e traduzir livros que se tornaram clássicos, ganhou também diversos prêmios, como o Jabuti, 3m 1961 e em 1978, e a Ordem do Mérito Cultural, em 2011.

Frases famosas:

“Eu era uma mulher casada. Agora sou uma mulher.”

“Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que a sua vida exige. Parece uma moral amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.”

  1. Maria da Penha (Nascida: Maria da Penha Maia Fernandes – 1945)

Farmacêutica e líder na luta contra a violência doméstica.

Suas grandes realizações:

Além de conquistar a liberdade e tirar as filhas da influência de um homem perigoso, Maria da Penha não quis deixar seu drama passar despercebido. Ela fez de sua trajetória uma parte importante da história recente de mulheres e das leis brasileiras. A farmacêutica desafiou toda uma sociedade que acreditava que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, envolvendo até mesmo entidades internacionais em um processo de violência doméstica.

Frases famosas:

“O poder público precisa investir na Educação para mostrar aos homens e mulheres que nós temos os mesmos deveres e os mesmos direitos. O homem tem que respeitar a sua mulher como pessoa humana.”

“Tem-se que cobrar dos gestores públicos a obrigação que eles têm de atender as mulheres de seus municípios, criando as ferramentas, os equipamentos que fazem com que a lei saia do papel.”

  1. Sueli Carneiro (Nascida: Aparecida Sueli Carneiro – 1950)

Filósofa, escritora e líder feminista.

Suas grandes realizações:

A criação do Instituto Geledés é, por si só, uma iniciativa importantíssima para a sociedade brasileira, e não só por sua grandeza, mas também pelos detalhes que fazem a diferença. Na área de saúde, a equipe de Sueli orienta mulheres a descobrirem e cuidarem melhor de seu corpo e mente. Na área profissional, as auxilia a ganhar mais capacitação e buscar melhor qualidade de vida para suas famílias.

Frases famosas:

“O movimento de mulheres negras emergiu, introduzindo novos temas na agenda do movimento negro e enegrecendo as bandeiras de luta do movimento feminista.”

“A sociedade precisa reconstruir o imaginário social da mulher negra.”

  1. Djamila Ribeiro (Nascida: Djamila Taís Ribeiro dos Santos – 1980)

Escritora, ativista social e filósofa feminista.

Suas grandes realizações:

Em sua trajetória no feminismo e nos movimentos sociais, ela já se mostra como uma das mais importantes intelectuais do Brasil atual e todo o reconhecimento que tem é muito merecido.

Frases famosas:

“Se eu luto contra o machismo, mais ignoro o racismo, eu estou alimentando a mesma estrutura.”

“Minha luta diária é para ser reconhecida como sujeito, impor minha existência numa sociedade que insiste em negá-la. E, ao fazer isso, lutar coletivamente com outras mulheres, para que possamos enfrentar o machismo e o racismo.”

“My words will be there”, de Audre Lorde, do livro “I Am Your Sister”.

fonte: https://materialfeministatraduzido.tumblr.com/post/89420898874/my-words-will-be-there-de-audre-lorde-do-livro

“Minhas palavras estarão lá”, de Audre Lorde, do livro “Eu sou sua irmã.”

Eu costumava olhar em volta quando eu era uma mulher mais nova e não havia ninguém dizendo as coisas que eu queria e precisava ouvir. Eu me sentia completamente alienada, desorientada, louca. Eu pensava que tinha que existir outra pessoa que se sentisse da mesma maneira que eu me sentia.

Eu era muito inarticulada quando menor. Eu não conseguir falar. Eu não falei até completar cinco anos. Na verdade, nem com cinco anos: só comecei a falar verdadeiramente quando passei a ler e escrever poesia. Eu costumava falar através da poesia. Eu lia poemas e os memorizavas, então quando as pessoas me perguntavam “o que você acha, Audre? O que te aconteceu ontem?”, eu recitava um poema e em alguma parte daquele poema havia um verso ou um sentimento a ser compartilhado. Eu outras palavras, eu literalmente me comunicava através de poesia. E quando eu não consegui encontrar poemas que traduzissem o que eu queria dizer, foi ai que comecei a escrevê-los, por volta dos meus doze ou treze anos.

Os críticos sempre quiseram me enquadrar em uma função especifica, desde a hora que meu primeiro poema foi publicado, quando eu tinha quinze anos. Meus professores de inglês na Escola Hunter de Ensino Médio disseram que um poema meu em particular era muito romântico (era um poema de amor sobre minha primeira paixão por um menino) e que eles não queriam colocá-lo no jornal da escola, o que me levou a enviá-lo para a revista “Seventeen” [Dezessete] e, obviamente, “Seventeen” [Dezessete] publicou-o.

Meus críticos sempre quiseram me ver sob uma determinada ótica. As pessoas fazem isso. É mais fácil lidar com um poeta, certamente com uma poeta negra, quando você a categoriza, limitando-a tanto que ela consegue preencher suas expectativas. Mas eu sempre senti que não posso ser categorizada, e esse sentimento tem sido tanto minha fraqueza quanto minha força. Tem sido minha fraqueza porque minha independência me custou o suporte de algumas pessoas. Mas veja você, também tem sido minha força porque me dá o poder para seguir em frente. Eu não sei como eu teria sobrevivido às diferentes coisas às quais sobrevivi e continuado a produzir se eu não tivesse sentido que é tudo que eu sou que me satisfaz e satisfaz a visão que eu tenho do mundo.

Eu só tive uma experiência de escrever de casa, e ela foi no Colégio Tougaloo em Mississipi onze anos atrás. Foi essencial pra mim. Essencial porque em 1968 meu primeiro livro tinha acabado de ser publicado, era a minha primeira viagem para o extremo Sul, era a primeira vez que eu estava passando um tempo longe das crianças. Era a primeira vez que eu tinha que lidar com estudantes jovens e negros em uma oficina. Ajudou-me a perceber que aquele era o meu trabalho, que ensinar e escrever estavam inextricavelmente combinados, e foi lá que eu soube que era aquilo que eu queria fazer para o resto da minha vida.

Eu era a “bibliotecária que escreveu”. Depois da minha experiência em Tougaloo, eu percebi que minha escrita era central na minha vida e aquela biblioteca, ainda que eu amasse livros, não era o suficiente. Combinados com as circunstancias que se seguiram na minha estada em Tougaloo – a morte do rei, a morte de Kennedy, o acidente da Martha – todas essas coisas me fizeram ver que a vida é pequena, e que devemos fazer o que deve ser feito agora.

Eu nunca estive novamente em uma experiência de escrever de casa. O poema “Touring” [Turismo] de “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro] fala muito sobre como eu me sentia sobre isso. Eu leio minha poesia ocasionalmente. Eu planto minhas pequenas sementes e depois eu me vou. Eu espero que elas floresçam. Algumas vezes eu descubro que elas de fato floresceram, outra vezes eu nunca descubro. Eu só tenho que ter fé.

Primordialmente eu escrevo para aquelas mulheres que não falam, que não tem verbalização porque elas estão tão apavoradas, porque elas foram ensinadas a respeitar o medo mais do que a si mesmas. Nós fomos ensinadas a respeitar nosso medos, mas nós temos que aprender a respeitar nós mesmas e nossas necessidades.

Nos meus quarenta e cinco anos meu estilo de vida e os rumores sobre meu lesbianismo me tornaram uma pessoa “non grata” nos meios da literatura negra. Eu sinto que não esclarecer todos os aspectos sobre quem eu sou gera um certo tipo de expectativa sobre mim que com o passar do tempo eu gosto cada vez menos. Eu espero que a maior quantidade possível de pessoas possa lidar com meu trabalho e com o quem eu sou, e que eles possam encontrar algo no meu trabalho que lhes seja útil em suas vidas. Mas se eles não conseguirem, então todos perdemos. Mas então, talvez, suas crianças encontrem.

Pra mim mesma vem sendo muito produtivo e necessário lidar com os aspectos de quem eu sou, e eu venho dizendo isso por um bom tempo. Eu não sou um pedaço de mim mesma. Eu não posso simplesmente ser uma pessoa negra e não ser uma mulher também, ou ser uma mulher sem ser uma lésbica… Claro, haverá sempre pessoas, e sempre houve pessoas na minha vida, que vem a mim e dizem “Bom, aqui você se define como tal tal e tal tal” em detrimento de outros pedaços de mim mesma. Existe uma injustiça em fazer isso, e é uma injustiça para as mulheres para quem eu escrevo. Na realidade, é uma injustiça para todas as pessoas. O que acontece quando você narra sua definição do que é conveniente, ou do que está na moda, ou do que é esperado, é que ela se torna desonesta e silenciadora.

Agora, quando você tem uma comunidade literária oprimida pelo silêncio das pessoas em volta, como a comunidade dos escritores negros na América, e você têm esse tipo de tática que insiste em definições unilaterais de negritude, então você está dolorosamente e efetivamente silenciando alguns dos nossos mais dinâmicos e criativos talentos, porque todas as mudanças e progressos vêm do reconhecimento e uso das diferenças entre nós mesmos.

Eu me considero uma vitima do silenciamento dentro da comunidade de literatura negra por anos, e eu certamente não sou a única. Para efeito de consideração, não há qualquer questionamento sobre a qualidade do meu trabalho nesse ponto. Então porque você acha que meu último trabalho, “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro], não foi resenhado ou sequer mencionado em nenhum jornal ou revista negro nesses trinta meses desde que foi lançado?

Eu sinto que tenho um dever de falar a verdade como eu vejo e não compartilhar somente meus triunfos, não só as coisas sobre as quais eu me sinto bem, mas também a dor, a intensa dor.

Eu nunca pensei que viveria para ver os meus quarenta anos e cá estou eu nos meus quarenta e cinco! Eu sinto que, ei, eu realmente consegui! Eu me sinto satisfeita por ter realmente enfrentado todo o meu problema de câncer de mama, da mortalidade, da morte. Foi muito difícil, porém muito fortalecedor lembrar que eu poderia ter sido silenciada toda a minha vida e depois morrer, abruptamente, sem nunca ter dito ou feito o que eu queria ter dito e feito, o que eu precisava ter dito e feito, só por causa da dor e do medo. Se eu esperasse estar certa antes de falar eu estaria mandando pequenas mensagens criptografadas num quadro de Ouija, reclamações do “outro lado”.

Eu realmente sinto que se as coisas que eu disse estão erradas, então haverá alguma mulher que se levantará e dirá “Audre Lorde errou”. Mas minhas palavras estarão lá, será algo pra ela discordar, algo para incitar o pensamento e a atividade.

Escritores homens e negros tendem a chorar na tentativa de convencer seus leitores de que eles também têm sentimentos, enquanto escritoras mulheres e negras tendem a dramatizar suas dores e amores. Mas eles não parecem intelectualizar a capacidade de sentir; eles focam em descrever o sentimento por si só. E amor é, frequentemente, dor. Mas eu acho que é necessário ver o quanto dessa dor eu posso sentir, o quanto dessa verdade eu posso ver e ainda assim viver sem me cegar. E, finalmente, é preciso determinar o quanto dessa dor eu posso usar. Isso é essencial quando nos questionamos o quanto estamos pedindo de nós mesmas. Existe um ponto na qual a dor se torna um fim em si mesma, e então nós devemos deixá-la ir. Por outro lado, nós não devemos temer a dor, mas não podemos nos subjulgar a essa dor enquanto um fim em sí mesma. Nós não devemos celebrar nossa vitimização, porque há outras formas de ser negra.

Há uma linha muito fina, porém bem definida entre essas duas formas de resposta a dor. Eu gostaria de ver essa linha desenhada com mais cuidados em alguns trabalhos de mulheres negras escritoras. Eu estou particularmente ciente das minhas responsabilidades no meu trabalho, e eu tenho que me lembrar que a dor não é sua própria razão de ser, mas sim parte da vida, e a única forma de dor que é intolerável é aquela desperdiçada, aquela da qual nós não aprendemos. E acho que precisamos aprender a distinguir esses dois tipos.

Eu vejo protesto como uma forma genuína de encorajar alguém a sentir as inconstâncias, o horror, das vidas que estamos vivendo. O protesto está aqui para dizer que nós não temos que viver a vida dessa forma. Se nós sentimos intensamente, conforme nós encorajamos nós mesmas e outros a sentir intensamente, nós vamos, através daquele sentimento, uma vez que nós reconhecermos que se sentimos intensamente podemos então amar intensamente e aproveitar intensamente, demandar que parte de nossas vidas produzam esse tipo de alegria. E quando elas não produzirem nós nos perguntaremos: “porque não produzem?”, e é essa pergunta que nos levará inevitavelmente a mudança.

Então a questão do protesto e a arte são inseparáveis pra mim. Eu não posso dizer que ela é também/ou uma proposta. Arte pelo bem da arte não existe de verdade pra mim, nunca existiu. O que eu via era errado e eu precisava me manifestar sobre. Eu amava poesia e amava palavras. Mas o que é bonito precisava servir ao propósito de mudar minha vida, ou então estaria morto. Se eu não posso expor essa dor e mudá-la, então morrerei dela. E esse foi o inicio do meu próprio protesto.

Falo tanto sobre a dor; mas e sobre o amor? Quando você vem escrevendo poemas de amor por trinta anos, seus poemas mais tardios são aqueles que realmente atingem o âmago da questão que permeia seus limites. A testemunha das coisas pelas quais você passou. Aqueles são os verdadeiros poemas de amor. E eu amo esses poemas mais tardios porque eles dizem, ei!, nós nos definimos como amantes, e como pessoas que se amam de novo várias e várias vezes, nós renascemos. Esses poemas insistem que você não pode separar o amor das brigas, da morte, da dor, mas que ainda assim o amor é triunfante. É poderoso e forte, e eu sinto que eu cresci muito em todas as minhas emoções, especialmente na capacidade de amar.

O amor expresso entre mulheres é particular e poderoso, porque nós temos que amar para viver, o amor tem sido nossa sobrevivência.

Nós supostamente devemos tomar como padrão o amor heterossexual. E o que eu insisto no meu trabalho é que não deveria haver algo como um padrão de amor na literatura. Ali está o amor, naquele poema. O poema aconteceu quando eu, Audre Lorde, poeta, lidei com minha individualidade ao invés de lidar com o “padrão”. Meu poder enquanto pessoas, enquanto poeta, vem de quem eu sou. Eu sou uma pessoa individual. As relações que eu tive, as pessoas que me mantiveram vivas, que ajudaram a me sustentar, as pessoas cujo sustento me doou uma identidade que é a fonte da minha energia. Não poder lidar com a minha vida na minha arte é cortar a fonte da minha força.

Eu amo escrever poemas, eu amo amar. E para colocar essa questão num quadro que é outro que não poesia eu escrevi um artigo intitulado “Uses of the Erotic” [Usos do Erótico], no qual eu examino toda a questão do amor enquanto manifestação. O amor é muito importante porque é a fonte de um tremendo poder.

As mulheres não foram ensinadas a respeitar o desejo erótico, esse lugar que é exclusivamente feminino. Então, assim como algumas pessoas negras tendem a rejeitar sua negritude porque a negritude vem sendo tida como inferior nós, mulheres, tendemos a rejeitar nossa capacidade de sentirmos, nossa habilidade de amar, de tocar o erótico, porque ela foi desvalorizada. Porque é nisso que reside nosso poder, nossa habilidade de postular, de ver. Porque uma vez que nós percebemos o quão profundamente podemos sentir, nós começamos a demandar de todas as atividades de nossa vida que elas estejam de acordo com esses sentimentos. E quando elas não estão, nós levantamos a questão do porque… porque… porque nós nos sentimos constantemente suicidas? O que está errado? Sou eu? Ou é o que eu estou fazendo? E nós começamos a necessitar de respostas pra tais questões. Mas nós não podemos fazer isso quando não temos visão de alegria, quando não temos noção das nossas capacidades. Quando vivemos na escuridão, sem a luz do sol, você não sabe o que é saborear a luz brilhante ou mesmo o que é tê-la em excesso. Uma vez que você tem a luz, você pode mensurar seu nível, inclusive com prazer.

Eu mantenho um jornal; eu escrevo no meu jornal regularmente. Eu tiro muitos dos meus poemas de lá. É a matéria prima dos meus poemas. Algumas vezes eu sou abençoada com um poema que já vem na forma de poema, mas algumas vezes eu tenho que trabalhar por dois anos num poema.

Para mim, há dois processos muito básicos e diferentes para revisar minha poesia. Um é reconhecer que um poema não se transformou ainda nele mesmo. Em outras palavras significa que o sentimento, a verdade que o poema deveria ancorar ainda não está clara o suficiente dentro de mim, e isso é resultado da falta de algo no poema. Então o poema tem que ser re-sentido. E daí existe um segundo processo, mais fácil. O poema é ele mesmo, mas tem algumas bordas que precisam ser refeitas. Esse tipo de revisão envolve pegar a imagem que é mais potente ou recortá-la para carregar mais eficazmente aquele sentimento. Essa é uma forma mais fácil, de reescrever ao invés de re-sentir.

Meus escritos no jornal se focam nas coisas que eu sinto. Sentimento que ás vezes não tem lugar, nem inicio, nem fim. Frases que eu ouço de passagem. Algo que me parece legal, que me encanta. Algumas vezes apenas observações sobre o mundo.

Eu encarei um período no qual eu sentia que estava morrendo. Foi durante 1975. Eu não estava escrevendo poesia, e eu sentia que se eu não conseguisse escrever eu iria partir ao meio. Eu estava escrevendo coisas no meu jornal, mas os poemas não vinham. Agora eu sei que aquele período foi de transição na minha vida e eu não estava verdadeiramente lidando com ele.

Mais tarde no ano seguinte eu voltei ao meu jornal e havia esses incríveis poemas que eu quase podia tirar do jornal; muitos deles estão em “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro]. “Harriet” é um deles; “Sequelae” [Sequelas] é outro. “A Litany for Survival” [Uma Litania pela Sobrevivência] é outro. Esses poemas estavam bem ali, no jornal. Mas eu não os via como poemas antes disso.

“Power” [Poder] estava naquele jornal também. Foi um poema escrito sobre Clifford Glover, um menino negro de dez anos que foi baleado por um policial que foi absolvido por um júri que uma mulher negra compunha. Na realidade, o dia em que eu ouvi no radio que Thomas O’Shea havia sido absolvido, eu estava atravessando a cidade pela rua 88 e eu tive que encostar o carro. Um tipo de fúria surgiu em mim, o céu se tornou vermelho. Eu me senti tão doente. Eu senti como se eu pudesse dirigir esse carro uma parede adentro, jogando-o em cima da próxima pessoa que eu visse. Então eu o encostei. Eu peguei o meu jornal apenas para transcrever um pouco da minha fúria, para deixá-la fluir através das pontas do meus dedos. Esses sentimentos que fluíram são aquele poema. Foi assim que “Power” [Poder] foi escrito. Há um incrível abismo entre o que está escrito no jornal e minha poesia, ainda assim, eu escrevo coisas nos meus jornais, e ás vezes eu sequer consigo ler meus jornais porque há tanta dor e raiva neles. Eu os ponho numa gaveta e seis meses, um ano ou mais depois, eu pego o jornal e ali há poemas. Os escritos no jornal precisam ser assimiladas no meu cotidiano, e só então eu consigo lidar com o que eu escrevo.

Arte não é vida, é um uso da vida. O artista tem a habilidade de pegar a vida e a usar de certa forma de forma a produzir arte.

A literatura afro-americana é certamente parte de uma tradição africana de lidar com a vida como uma experiência a ser vivida. Em muitos aspectos, é como na filosofia oriental na qual nos vemos como parte de uma força da vida; nós fazemos parte, por instancia, do ar, da terra. Nós somos parte de todo o processo da vida. Nós vivemos em um acordo, em uma correspondência com o resto do mundo como um todo. E, por tanto, viver se torna muito mais uma experiência do que um problema, não importa o quão ruim ou doloroso possa ser. A mudança se erguerá endemicamente a partir de uma experiência completamente vivida.

Eu sinto muito isso na escrita africana. E, como conseqüência, eu tenho aprendido muito de pessoas como Chinua Achebe, Amos Tutuola, Cyprian Ekwensi, Flora Nwapa e Ama Ata Aidoo. Leslie Lacye, um negro americano que residiu temporariamente em Gana, escreve sobre a experiência dessa transcendência em seu livro “The Rise and Fall of a Proper Negro” [A ascensão e queda de um negro adequado]. Isso não é ignorar a dor, porque seria um erro, mas sim ver essas coisas como parte da vida e, com isso, aprender delas. Essa característica é particularmente africana e está transporta na melhor literatura afro-amerciana.

Essa transcendência aparece em Ralph Ellision, um pouco em James Baldwin, não tanto quanto eu gostaria, e muito, muito em “Sula”, uma obra de Toni Morrison que é a mais maravilhosa peça de ficção que eu li recentemente. E eu não ligo se ela ganhou o prêmio por “The Song of Solomon” [O Cântico dos Cânticos], “Sula” é um livro totalmente incrível. Me fez acender por dentro como um árvore de natal. Eu me identifiquei particularmente com o livro por causa da idéia de ser forasteira. Toni pôs aquele livro para descansar. Colocou para descansar. Aquele livro é como um longo poema. Sula é o ultimato negro e feminino de nossos tempos, presa em seu próprio poder e dor.

É importante que a gente compartilhe experiências e insights. “The Cancer Journals” [As Revistas do Câncer] é muito importante para mim. É uma prosa de um monologo dividido em três. Vem das minhas experiências com mastectomia e o rescaldo: a raiva, o terror, o medo e o poder que vem da experiência de lidar com a minha mortalidade. Como existe pouquíssimos escritos sobre mastectomia com exceção de estatísticas, como você faria, ou você finge que não aconteceu? Eu penso que precisamos de uma visão feminista para mulheres negras nesse processo. E é essa a origem de “The Cancer Journals” [As Revistas do Câncer].

Escritos recentes de mulheres negras parecem explorar preocupações humanas de forma diferente dos homens. Essas mulheres se recusam a culpar o racismo inteiramente por todos os aspectos da vida negra. Na verdade, por vezes elas responsabilizam os homens negros. Os homens tendem a responder na defensiva, rotulando essas mulheres como “queridinhas” dos estabelecimentos literários.

Não é o destino da América negra repetir os erros da América branca. Mas iremos repeti-los se nós errarmos as armadilhas do sucesso numa sociedade doente pelos pecados de uma vida sem sentido. Se homens negros continuarem a o fazer, definindo “feminilidade” em seus termos europeus mais arcaicos, essa augura será ruim para a nossa sobrevivência enquanto grupo, quem dirá para a nossa sobrevivência enquanto indivíduos. Liberdade e futuro para pessoas negras não significa absorver a doença dominante dos homens brancos.

Enquanto pessoas negras nós não podemos iniciar nosso dialogo negando a natureza opressiva dos privilégios masculinos. E se homens negros escolherem assumir esse privilégio, seja por qualquer razão, estuprando, brutalizando e assassinando mulheres, então nós não poderemos ignorar a opressão dos homens negros. A opressão de um não justifica outra.

Enquanto pessoas, nós deveríamos certamente trabalhar juntos para acabar com a nossa opressão em comum, e criar um futuro viável para todos nós. Naquele contextos, é míope acreditar que homens negros são culpados, sozinhos, em todas as situações, numa sociedade dominada por homens brancos. Mas a consciência do homem negro deve ser acordada para que ele possa entender que sexismo e misoginia são criticamente disfuncionais para a libertação dele enquanto homem negro porque essa opressão tem raízes na mesma constelação que produz racismo e homofobia, uma constelação de intolerância ao diferente. Até que isso seja feito, ele verá sexismo e a destruição das mulheres negras só como paralela a causa da libertação das pessoas negras do que como central para aquela luta, e enquanto isso ocorra, nós não seremos capazes de sustentar o dialogo entre mulheres negras e homens negros que é tão essencial para a nossa sobrevivência enquanto um grupo. E essa cegueira continua só serve ao sistema opressor no qual estamos inseridos.

Eu escrevo para mim mesma. Eu escrevo para mim mesma e minhas crianças e para quantas pessoas mais puderem me ler. Quando eu digo mim mesma eu quero dizer não só a Audre que habita meu corpo mas para todas aquelas mal-humoradas, incorrigíveis lindas mulheres negras que insistem em se erguer e dizer “Eu sou” e você não pode me apagar, não importa o quão irritante eu seja.

Eu me sinto responsável por mim mesma, por aquelas pessoas que estão lendo e sentem e precisam do que eu tenho a dizer, e para mulheres e homens que virão depois de mim. Mas primordialmente eu acho que é de minha responsabilidade as mulheres porque já há muitas vozes para homens. Há pouquíssimas vozes para mulheres e em particular para mulheres negras, falando do centro da consciência, pelo que eu sou e pelo que nós somos.

O que eu posso compartilhar com a geração mais nova de mulheres negras escritoras e escritoras num geral? O que eles podem aprender das minhas experiências? Eu posso lhes dizer para não terem medo de sentir e não terem medo de escrever sobre seus sentimentos. E mesmo que você tenha medo, escreva de qualquer forma. Nós aprendemos a trabalhar quando estamos cansadas, para que então possamos aprender a trabalhar quando estamos assustadas.

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Texto original: file:///C:/Users/Note/Downloads/I%20Am%20Your%20Sister%20-%20Audre-Lorde.pdf

Tradução: A.M., de www.materialfeministatraduzido.tumblr.com

Preciso ler para escrever?

Stephen King:

If you want to be a writer, you must do two things above all others: read a lot and write a lot. There’s no way around these two things that I’m aware of, no shortcut. . . .

It’s hard for me to believe that people who read very little (or not at all in some cases) should presume to write and expect people to like what they have written, but I know it’s true. If I had a nickel for every person who ever told me he/she wanted to become a writer but didn’t have time to read, I could buy myself a pretty good steak dinner. Can I be blunt on this subject? If you don’t have time to read, you don’t have the time (or the tools) to write. Simple as that.

William Faulkner:

Read, read, read. Read everything — trash, classics, good and bad, and see how they do it. Just like a carpenter who works as an apprentice and studies the master. Read! You’ll absorb it.

J.K. Rowling:

The most important thing is to read as much as you can, like I did. It will give you an understanding of what makes good writing and it will enlarge your vocabulary.

Personas

Senhoras recatadas

A xícara de chá à espera (de companhia)

Para uma conversa morna

O tempo, os preços, as roupas (das mulheres sem-vergonha)

Senhores de abotoadura

Segurando seus guarda-chuvas (com cabo de madeira)

Para uma reunião desimportante

Os números, a bolsa, as pernas (das secretárias)

Garotas de uniforme

Passam batom às escondidas (sem espelho)

Para uma disciplina agonizante

Carteira, compasso, medo (de não serem notadas)

Garotos descalços

Suados depois de correr (atrás da bola)

A grama surrada, meio verde, meio marrom

Refrigerante, grama, piadas (sobre os batons e as meninas)

Serão estes garotos

Os homens soturnos?

Serão aquelas garotas

As senhoras entediadas?

E as mulheres jovens (sem brio)

As secretárias (de pernas de fora)

Os meninos (que querem usar batom)

As meninas (que sonha com a liberdade)?

Onde estão?

Não nas calçadas, esperando

Não nas reuniões, fingindo

Não nas escolas, silenciando

Não nos campos, brincando

Quem são?

Novas personagens, (nem tão novas)

Hoje presentes, (apesar de tudo)

Ontem caladas, (gritem!)

Sempre reais.

Eliana Leite

16/06/2020

Feminismo – Um Olhar

Estava ali, no meu canto, achando que sabia o que era a vida, enfiada no meu trabalho e na minha rotina, não muito consciente de que afundava em uma suposta zona de conforto, ou de que andava em areia movediça, em meados de 2016, quando, em meio a um processo de mentoring (em que eu era a mentoranda), a mentora recomendou a leitura do livro “The Confidence Code”, de Katty Kay e Claire Shipman. A partir desta leitura, muitas fichas começaram a cair. O cerne da obra é sobre a (falta de) autoconfiança nas mulheres. Obviamente, isso tudo toca em temas como machismo, patriarcado, história, submissão, empoderamento, etc. Foi um divisor de águas para mim, pois a partir dali, despertei para um novo olhar. O meu olhar de mulher sobre a mulher, sobre mim, sobre as mulheres que admiro, sobre o fato de que, no fundo, sempre soube que havia algo que eu precisava desvendar, decifrar, para me entender e entender o mundo ao meu redor. Foi assim que saí da superficialidade e deixei de me calar. Percebi que já tinha alguns conceitos dentro de mim, muito pela educação que recebi e porque fui introduzida à leitura de autoras femininas (e, hoje sei, feministas) muito cedo. O que me acordou foi o fato de que o que eu sabia era a ponta do iceberg. E fui adiante. E continuo seguindo. Não há um ponto de parada. Ao contrário, há sempre um novo ponto de partida. E hoje eu vim dividir um pouco disso sob o olhar meu, com base em minhas experiências e leituras.

Conceito

Feminismo é um movimento social que busca a igualdade de status social, jurídico, político e econômico entre os gêneros.

Patriarcado

Sexo + classe + raça = ligados entre si para determinar a questão do patriarcado como dominação do homem branco heterossexual,

Homens devem primeiramente discutir a masculinidade tóxica e os efeitos nocivos do Patriarcado para então olhar para a igualdade de direitos entre gêneros e poder apoiar o feminismo. Um legislador, um professor, um escritor podem apoiar através de ações inclusivas e questionadoras. O que não dá é para ter um “macho palestrinha” pautando a luta e o movimento feminista como algo seu.

Movimento Feminista no Brasil

Trës ondas, sendo a primeira no final do século XIX e início do século XX, a segunda entre 1960 e a terceira a partir de 1990.

A primeira se caracterizou por lutar pelo direito ao voto e direitos trabalhistas. A segunda por lutar por liberdade sexual, papel social da maternidade e igualdade de direitos. E, por fim, a terceira busca a liberdade total. Dentro deste movimento da terceira onda, há o feminismo interseccional, que agrega os diferentes direitos das mulheres (brancas, negras, indígenas…)

Os Direitos da Mulher no Brasil

Código Civil de 1916 – mulher era considerada incapaz.

1932 – 1934 – Direito ao voto

1962 – Estatuto da Mulher Casada

1977 – Lei do Divórcio

1988 – Constituição Federal estabelece a igualdade entre todos

2006 – Lei Maria da Penha

2015 – Lei que estabelece o Feminicídiocomo crime hediondo.

Provocação – adotar o sobrenome do marido é uma herança de nossa cultura patriarcal, um ato romântico ou uma liberdade? A partir de que perspectiva? Da mulher instruída ou da mulher submissa? Há pesquisas que indicam que quanto maior o grau de instrução da mulher, menos importância tem para ela adotar o sobrenome do marido (fica com seu nome). Para se pensar – e não julgar, afinal é uma realidade muito forte no Brasil ainda.

Violência contra a mulher e Feminícídio

Políticas públicas

Saúde Mental

Assistência e Proteção

O ciclo vicioso da relação de dominação

O silêncio que mata

A cultura machista faz com que a mulher se sinta responsável e culpada

O papel da família

A educação de crianças

Feminicídio é o termo usado para denominar assassinatos de mulheres cometidos em razão do gênero. Ou seja, quando a vítima é morta por ser mulher. No Brasil, a Lei do Feminicídio, de 2015, estabelece que, quando o homicídio é cometido contra uma mulher, a pena é maior. É um crime de ódio.

Comportamentos machistas

Mansplaining

Manterrupting

Gaslighting: Bárbara Zorrilla é psicóloga especializada em atendimento a mulheres vítimas de violência de gênero. “O abuso gaslighting é uma forma de violência muito perversa, porque é contínua e se consegue mediante o exercício de um assédio constante, mas sutil e indireto, repetitivo, que vai gerando dúvidas e confusão na mulher que o sofre, a ponto de chegar a se sentir culpada das condutas de violência do abusador e duvidar de tudo que acontece à sua volta.”

Falar que está de TPM! (reduz a mulher a hormônios)

Perguntar sobre maternidade como forma de julgamento e exclusão

Parem de dar chocolate no dia da Mulher… mudem a atitude, apoiem, estudem, entendam

Chamar de Feminazi

Fazer piadas machistas

Falar que é coisa de mulherzinha

Não dividir as tarefas domésticas

Exemplos de práticas machistas no mundo corporativo

Salários desiguais

Não ter mulheres na alta liderança

Encorajar piadas machistas

Colocar mulheres em situações constrangedoras

Não ter uma cultura de inclusão e diversidade

Sororidade

Não somos todas iguais e não conseguimos entender a realidade de todas e por este motivo temos que escutar e apoiar. Um dos grandes erros é afirmar que o movimento feminista é único e une todas as mulheres, indiscriminadamente. As lutas podem ter muito em comum, um ponto de intersecção sem dúvida, mas existem diferentes reinvindicações de mulheres negras em comparação a mulheres brancas, assim como mulheres indígenas, nordestinas, asiáticas, LGBT, e assim por diante. O mais importante, a meu ver, é sermos interseccionais e aprendermos umas com as outras, sempre dando espaço para o diálogo e dando lugar para todas. Um exemplo disso é uma mulher branca ceder seu espaço em sua página na mídia social, por exemplo, para que uma mulher negra ou indígena fale sobre sua realidade. Isso é um exemplo real de sororidade.

Mitos/Preconceitos

– Feministas odeiam homens

– Feminismo é o contrário de machismo

– Todas as feministas são iguais

– Feministas são radicais

– Feministas não podem se casar

– Feministas são raivosas

– A mulher tem que ser masculina para chegar ao poder

Livros:

“A Mãe de todas as perguntas”(The Mother of All Questions), Rebecca Solnit

“Os Homens Explicam tudo para mim” (Men Explain Things to Me), Rebecca Solnit

Quer começar?

Ruth Manus – “Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas”

Chimamanda Ngozi Adiche – “Sejamos Todos Feministas”

“Life Lessons from Remarkable Women” (Coletânea da Revista Stylis)

Poemas – Empoderamento

“Outros Jeitos de Usar a Boca” – Rupi Kaur

“A Princesa Salva a Si Mesma Neste Livro” – Amanda Lovelace

“A Bruxa Não Vai para a Fogueira Neste Livro”- Amanda Lovelace

“The Mermaid’s Voice Return in This One” – Amanda Lovelace

Algumas obras consideradas obrigatórias sobre o feminismo (ainda não as li)

“O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir – considerado como a Bíblia Feminista

“Mulheres e poder: um manifesto”, de Mary Beard

“As boas mulheres da China”, de Xinran

“Um teto todo seu (1929)”, de Virginia Woolf

“Sister outsider (1984)”, de Audre Lorde

“O feminismo é para todo mundo (2000)”, de bell hooks

“Persépolis (2004)”, de Marjane Satrapi

“Reivindicação dos direitos da mulher”, de Mary Wollstonecraft

Autoras Feministas (seja pelo que escreveram ou pelo modo de vida ou porque assim se posicionam)

Jane Austen

Simone de Beauvoir

Virginia Woolf

Mary Wollstonecraft

Margaret Atwood

Bell Hooks

Rebecca Solnit

Audre Lorde

Sueli Carneiro

Irmãs Brontë

Gioconda Belli

Angela Carter

Isabell Allende

Sylvia Plath

Clarice Lispector

Lygia Fagundes Telles

Laura Esquivel

Chimamanda Ngozi Adiche

Djamila Ribeiro

Maya Angelou

Angela Davis

Nélida Piñon

Isak Dinesen

Conceição Evaristo

Mary Beard

Xinran

Angélica Freitas

Marilena Chauí

Arundhati Roy

Marjane Satrapi

Ana Maria Gonçalves

Carolina Maria de Jesus

Svetlana Aleksiévitch

Toni Morrison

Cecilia Meirelles

Hilda Hist

Heleieth Saffioti

Joan Scott

NÍSIA FLORESTA (1810-1885) Considerada a primeira feminista brasileira, publicou em 1832 o manifesto “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”. Também educadora e presença constante em periódicos da imprensa até então jovem, Nísia Floresta rompeu os limites entre o público e o privado que eram impostos às mulheres. Ela viajou pelo mundo, criando contatos e diálogos com Augusto Comte, pai do positivismo, e Alexandre Dumas, importante escritor francês.

Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens. (…) Por que [os homens] se interessam em nos separar das ciências a que temos tanto direito como eles, senão pelo temor de que partilhemos com eles, ou mesmo os excedamos na administração dos cargos públicos, que quase sempre tão vergonhosamente desempenham?

NARCISA AMÁLIA (1852-1924) Além de poeta, Narcisa Amália foi a primeira jornalista profissional do Brasil. Feminista e abolicionista, lutava contra as opressões de gênero e de raça nos seus textos. Foi, de acordo com Sílvia Paixão, “um dos raros nomes femininos que falam de identidade nacional”, contribuindo imensamente para a formação da nossa literatura “numa poética uterina que imprime o retorno ao lugar de origem”.

PAGU (PATRÍCIA GALVÃO) (1910-1962) Sempre relacionada a Oswald de Andrade e condenada ao título de musa, Pagu foi muito mais do que companheira do escritor. Poeta, escritora, tradutora, desenhista, diretora de teatro, jornalista e militante, Patrícia Galvão lutou pela participação política da mulher na sociedade brasileira e foi figura essencial no movimento modernista. Publicou seu primeiro romance, Parque Industrial, em 1933. Primeira mulher a se tornar presa política no país, foi torturada durante muitos períodos em sua vida.

De Trilhos e Sombras

Photo by Tim Foster on Unsplash

Há alguns dias, sempre que saía de casa, Márcia tinha a sensação de que alguém a seguia. Ia a pé para a estação de metrô, todos os dias da semana. Andava por uns 15 minutos. A sensação só parava quando entrava no trem. Durante o percurso a pé, olhava para trás, e nada. Às vezes, acelerava o passo, outras parava bruscamente. Houve ocasiões em que desviou ou tentou se esconder, mas a sensação não mudou. Não ouvia passos ou qualquer ruído similar, mas sentia essa presença constante. Chegava a arrepiar os pelos da nuca. Quando comentou com a amiga do trabalho, esta logo disse que era encosto e recomendou que fosse se benzer. Marcia chegou a cogitar, mas deixou para lá. Encosto? Onde já se viu? A coisa já se arrastava por meses. Incomodava. Travava sua concentração. Um belo dia, resolveu ir de Uber para o metrô. A sensação parou naquele mesmo dia. A contragosto, repetiu a dose no dia seguinte e assim até o final daquela semana. Problema solucionado! Na segunda-feira, chamou o Uber novamente. Porém, a sensação de que algo ou alguém a observava voltou. Olhou ao redor, nada. Não era possível! Isso só podia ser coisa da sua cabeça! Foi então que resolveu voltar à rotina e ir a pé até a estação. Já familiarizada com a sensação, parou de se incomodar. Pensou que, se algo tivesse que acontecer, aconteceria, independentemente do que ela fizesse. A situação era tão surreal que passou a aceitá-la, resignada. Duas semanas se passaram, até que um belo dia, a sensação não cessou quando entrou no trem. Sentou-se, preocupada. Alguém a observada dentro do trem? Olhou ao redor, tentando identificar algum tipo suspeito. Decidiu marcar bem a fisionomia das pessoas ao seu redor para, no dia seguinte, começar uma investigação mais profunda. Já andava naquele metrô há uns bons anos, e alguns rostos eram familiares. Passaria a observar melhor. Isso a irritou um pouco, pois teria que deixar de ler. Para não perder tempo, traria um caderno e anotaria tudo. Dividiria o grupo entre pessoas “fixas” e “volantes”. Daria apelidos, como, por exemplo: “moça dos olhos verdes e cabelo vermelho que masca chiclete com a boca aberta e fica olhando o celular – fixa”. “Homem alto que não se senta e sempre carrega um guarda-chuva preto com cabo de madeira – fixo”. “Senhora levemente corcunda que usa tênis confortáveis – volante”. E assim por diante. No dia seguinte, iniciou suas anotações. Percebeu que, até então, olhava pouco para as pessoas., sempre tão absorta em sua leitura. Percebeu, também, que a sensação de ser observada aumentava enquanto escrevia. Quando ficava insuportável, ela parava para olhar. Algumas pessoas olhavam de volta, assustadas e se afastavam. “Que bom, agora, vão me chamar de louca!” Após uma semana de anotações, ao chegar em casa, decidiu ler o que havia escrito. Não conseguiu chegar a nenhuma conclusão útil, a não ser que as pessoas eram bichos condicionados e estranhos. Não identificou nada ou ninguém suspeito. Grande parte dos passageiros estava na categoria “fixa” e quem era “volante” tinha comportamentos que sequer mereciam atenção. “Definitivamente, estou ficando louca…” Naquela noite, não dormiu. Pela primeira vez, teve medo. Não sabia o que estava acontecendo e já não conseguia pensar em nenhuma outra solução. Pela manhã, quando tocou o despertador, não teve forças para levantar e se arrumar para trabalhar. Mandou uma mensagem para seu chefe informando que não poderia ir. Não se lembrava da última vez que faltara ao trabalho. Estava se sentindo um caco. Chegou a pensar em ligar para a irmã para ver se a mãe estava bem, mas desistiu. Para que ligar? A mãe dela estava doente há um tempão, sem sinais de regressão do câncer. Mas toda vez que Márcia ligava, tinha a impressão de estar incomodando, e nunca conseguia falar com a mãe. Muita água tinha rolado, muitos ressentimentos acumulados. Não queria causar mais dor ainda, só de ter que fazer com que a mãe fosse praticamente obrigada a ouvir sua voz e fingir que estava tudo bem. Ela podia se organizar e ir para perto de sua mãe, visitar, ficar alguns dias. De novo, se perguntou, “para quê?”. A última vez que tinha ido para lá, parece que fez com que tudo piorasse. Joana quase pediu para que a irmã não voltasse mais. Claro que não pediu, mas aquele olhar dizia tudo, quando se despediram na rodoviária… Durante o trajeto de 12 horas no ônibus-leito, Márcia só conseguia prometer a si mesma que não voltaria mais. Com esses pensamentos, perto de 10h00, sentiu o cansaço e o sono dominarem. Dormiu um sono sem sonho e despertou, horas depois, sem saber ao certo onde estava, que dia era… Estava escuro. Novamente, teve medo. Tateou a parede em busca do interruptor. Ao acender a luz, avistou uma sombra à sua frente. Gritou. A sombra permaneceu imóvel. Sentou-se na cama e se cobriu até o pescoço, tremendo de frio e de terror. Não conseguia pensar, falar, se mover. Notou que a sombra lembrava o formato de uma grande ave. Franziu os olhos para tentar decifrar o que via e conseguiu, enfim, se mexer. De forma quase involuntária, foi se aproximando da sombra. Ao chegar bem perto, a sombra abriu as asas. Márcia deu um pulo para trás: “É você que está me seguindo todo esse tempo? O que você quer de mim? O que é você?” Sem saber de mais nada, o que era realidade ou fantasia, começou a esmurrar a parede, chorando e implorando para que tudo aquilo acabasse. Então, a sombra desapareceu. Márcia olhou ao redor, ofegante. Correu para a sala, em busca de algum sinal da sombra. Foi para a cozinha. Nada. Então como num impulso, se dirigiu para a área de serviço. Notou que janela estava aberta. Acendeu a luz e, ao olhar para o chão, não conseguia acreditar no que via: penas e mais penas no chão. Grandes penas cinzas e brancas. Apreensiva, pegou uma na mão. Macia, porém firme. Sem pensar, roçou a pena em seu rosto, sentindo a textura. Fechou os olhos e se recordou de sua infância, quando corria com a mãe e a irmã pelo campo do rancho em que cresceu. Quando corriam em busca dos pássaros. E ficavam em êxtase quando o bando voava sobre suas cabeças. Acordou de seu devaneio com o toque do telefone. Empertigou-se e foi atender: “Alô?” “Márcia? Sou eu, Joana… é sobre a mamãe…”

Eliana Leite

(Iniciado em 13/02 e concluído em 12/03/2019)

Resenha – Livro “Ariel”, de Sylvia Plath

Comprei este livro (talvez tardiamente) em 2019, na Livraria da Travessa, em São Paulo, no bairro de Pinheiros. Senti-me atraída pela capa, além de fazer um tempo que queria ler algo de Sylvia. Por que existem autores que ensaiamos ler e não o fazemos? Será que é porque não estamos prontos para eles e, então, o tempo vem e nos informa “agora, é a hora”? Acho que foi assim que me senti ao ver este livro, sua capa, e então o abri, vi que era uma edição restaurada e bilingue, com os manuscritos originais. Livro comprado, ficou um tempo na estante, esperando. E assim foi que, em meio à quarentena do novo Corona vírus, decidi que o enfrentaria. Fiz algo que há muitos anos não fazia – peguei uma lapiseira e comecei a grifar o livro, fazer anotações nas margens, nas partes em branco… Usei a parte em português apenas para tirar dúvidas pontuais que pudessem prejudicar meu entendimento. Ler os poemas em inglês foi algo saboroso. Pois bem, vamos à resenha.

Tudo começa com a Apresentação – O Caso Ariel. Nada como ter o histórico do livro, quando ela escreveu, porque, o que isso significou. E acho que é preciso separar o trágico final de Sylvia de sua obra, ainda que ela mencione a morte em alguns poemas. Por isso, esta apresentação vem bem a calhar, e mostra que Ted Hughes, e não o julgo por isso, tentou omitir os poemas mais explícitos, digamos assim. Porém, depois de alguns anos, foi publicada esta edição que eu li, que respeitou os desejos de Sylvia, com a publicação de todos os poemas que formavam a coleção Ariel.

Vamos, então, ao prefácio, escrito pela filha de Sylvia, a também poeta Frieda Hughes. E, como toda filha, ela busca entender os pais. Critica a forma cruel como o pai foi tratado após a morte de Sylvia e publicação, por ele mesmo, de Ariel, como se estivesse vilipendiando o túmulo da esposa. Além de ter cometido adultério, teria interferido de forma indevida nos direitos autorais da autora. Ela diz que tais coisas “não guardam nenhuma semelhança com o homem que calma e carinhosamente” a criou, e com a ajuda de sua madrasta. E, completa que “o tempo todo ele manteve viva a memória da mãe que me deixara, e eu sentia como se ela estivesse tomando conta de mim, uma presença constante em minha vida.” Ela segue, relatando como era viver em torno de uma imagem “milagrosa” de tudo o que se referia à mãe. E então, finalmente, nos diz que “isso foi muitos anos antes de eu descobrir que minha mãe tinha um temperamento feroz e um caráter ciumento, em contraste com a natureza mais equilibrada e otimista de meu pai.” Cita, ainda, que houve ocasiões em que Sylvia destruiu o trabalho do marido, uma vez rasgando-o e outra queimando-o. Chega, então, à conclusão de que a mãe, “assim como era uma poeta excepcional, era também um ser humano”. Ela vê tudo isso como um restabelecimento da verdade, e uma forma de melhor compreender a mãe. Ela precisava entender tudo isso para poder entender a si mesma (entendemos a nós mesmos por meio de nossos pais, avós, antepassados, ancestrais). Frieda encerra o prefácio: com chave de ouro “Quando ela morreu, deixando Ariel como último livro, foi flagrada no ato de vingança, com uma voz que havia sido afiada e praticada durante anos, posteriormente com a ajuda de meu pai. Embora tenha se tornado uma vítima disso, no final das contas ele não negou sua maestria. Essa nova edição, restaurada, é minha mãe naquele momento. É a base do Ariel editado por meu pai. Cada versão tem significado próprio, embora as duas histórias sejam uma só.”

Devo admitir que a leitura dos poemas de Sylvia Plath não é fácil, pois ela tem um estilo bem hermético e intimista de escrita. Faz referências a coisas que viveu em seu dia a dia, mistura com momentos históricos, memórias e traumas. Na verdade, em minha opinião, os grandes poetas são aqueles que fazem com que você leia o poema e fique flutuando, tentando depois buscar um chão para pousar. Não necessariamente há o objetivo de “entender”, “decifrar”, “interpretar”. A própria Sylvia, quando lhe pediram para “explicar” os poemas em um programa de rádio, foi breve e seca. Não cabem explicações. Não cabe dissecar cada poema, em busca do momento em que ela se referia a tirar sua própria vida, ou se referia à traição do marido. Há muito mais do que isso. Há nuances, há explosões, há véus, há amor, há ódio e contemplação. Nem consigo resumir tudo isso em algumas palavras. Por isso, resolvi colocar aqui algumas impressões minhas, particulares, não “validadas”, “breve e secas”, sobre alguns poemas (vários eu li mais de uma vez).

“Morning Song” – um poema de uma mãe para um filho/filha. Há tantas menções a uma sensação de pertencimento e ao mesmo tempo desprendimento. Não tenho filhos, não sei como é, mas pude sentir o amor no poema. “The clear vowels rise like balloons”.

“Thalidomide” – senti amor desfeito, desilusão, decepção. “A space for thing I am given. A love of two wet eyes and a screetch. White spit of indifference?”

“The Applicant”- retrataria duas pessoas jovens se conhecendo, se relacionando, a ideia de casamento, da prisão à vida social, convenções, uma “boneca viva” (“will you marry it?”)

“Barren Woman” – pessoalmente, apesar de ser o mais curto, é o que mais se parece com um soco no estômago. Silêncio e vazio. Conversou comigo dentro de minha alma.

“Lady Lazarus” – consigo imaginar porque esse poema, como mencionou Frieda, foi praticamente dissecado até as entranhas. Carregado de uma série de figurações “diabólicas”, flerta com a morte e a ressurreição de uma mulher demoníaca, poderosa. Para mim, é um grito de liberdade, de feminilidade, de empoderamento sobre si mesma: “Herr God, Herr Lucifer / Beware / Beware. Out of the ash / I rise with my red hair / And I eat men like air.”

“Tulips” – me pareceu uma narrativa de uma experiencia no hospital. Posteriormente, verifiquei que ela escreveu quando teve apendicite.

“Elm” – a impressão que ficou para mim foi de que algo a assombrava (o tal Olmo). Por fim, fiquei com a seguinte pergunta ao final: o que a assombrava? Ela mesma?

“The night dances” – minhas impressões: luzes do cometa, dos planetas, luz sobre ela (pequena)… afinal, qual nosso tamanho?

“The Detective” – inegável que houve a descoberta de traição. E a traição que leva à morte da família, uma morte invisível.

“Ariel” – um lindo poema. Detalhes, pequenas coisas, choro de criança, orvalho, pescoço de cavalo. Eu não saberia quer era dedicado ao cavalo dela, se não tivesse lido isso na introdução e no prefácio.

“Death & Co.” – fiquei com as seguintes perguntas: quem é ele? O condor? É o marido? É um amor? É a morte à espreita? Alguém que fica ferido de morte? E assim fiquei… não busco respostas.

“Lesbos” – uma deliciosa viagem… Lesbos era a ilha em que a poetisa Safo nasceu… e fiquemos com isso…

“The Other” – adultério, adultério, adultério…

“Medusa” – fiquei intrigada… e então descobri que era sobre ninguém mais do que a mãe de Sylvia. O que me deixou olhando para a parede, sem saber o que pensar foi o final: ‘’there is nothing between us.”

“Purdah”- retrato de opressão, também mostra a esperança, para mim, quando ela diz “I shall unloose / From the small jeweled / Doll he guards like a heart / The lioness / The shriek in the bath, / The cloak of holes.”

“A Birthday Present” – só consegui escrever “WOW” ao final. Vivi para poder ler algo assim.

“Daddy” -ela fala do nazismo, de ser judia, das injustiças… busca se libertar, chamando-o (ironicamente?) de “Daddy”, dizendo, ao final “Daddy, daddy, you bastard, I’m through”.

“The Bee Meeting” e os demais poemas, todos sobre as abelhas são uma verdadeira declaração de amor a esses seres, já que ela criou abelhas. Lindos poemas, para ler de forma contínua, até chegar em “Wintering”.

Ao final, há as notas que ajudam a contextualizar alguns dos poemas. Fiz algumas checagens sobre o que eu tinha apreendido, mas sem muito compromisso, pura curiosidade. Meu único compromisso era com Sylvia: ler Ariel do começo ao fim.

Thank you, Sylvia.

E obrigada, Elis Regina, por ter sido a trilha sonora enquanto eu escrevia esta resenha.

Eliana Leite

08/06/2020