De Trilhos e Sombras

Há alguns dias, sempre que saía de casa, Márcia tinha a sensação de que alguém a seguia. Ia a pé para a estação de metrô, todos os dias da semana. Andava por uns 15 minutos. A sensação só parava quando entrava no trem. Durante o percurso a pé, olhava para trás, e nada. Às vezes, acelerava o passo, outras parava bruscamente. Houve ocasiões em que desviou ou tentou se esconder, mas a sensação não mudou. Não ouvia passos ou qualquer ruído similar, mas sentia essa presença constante. Chegava a arrepiar os pelos da nuca. Quando comentou com a amiga do trabalho, esta logo disse que era encosto e recomendou que fosse se benzer. Márcia chegou a cogitar, mas deixou para lá. Encosto? Onde já se viu? A coisa já se arrastava por meses. Incomodava. Travava sua concentração. Um belo dia, resolveu ir de Uber para o metrô. A sensação parou naquele mesmo dia. A contragosto, repetiu a dose no dia seguinte e assim até o final daquela semana. Problema solucionado! Na segunda-feira, chamou o Uber novamente. Porém, a sensação de que algo ou alguém a observava voltou. Olhou ao redor, nada. Não era possível! Isso só podia ser coisa da sua cabeça! Foi então que resolveu voltar à rotina e ir a pé até a estação. Já familiarizada com a sensação, parou de se incomodar. Pensou que, se algo tivesse que acontecer, aconteceria, independentemente do que ela fizesse. A situação era tão surreal que passou a aceitá-la, resignada. Duas semanas se passaram, até que um belo dia, a sensação não cessou quando entrou no trem. Sentou-se, preocupada. Alguém a observada dentro do trem? Olhou ao redor, tentando identificar algum tipo suspeito. Decidiu marcar bem a fisionomia das pessoas ao seu redor para, no dia seguinte, começar uma investigação mais profunda. Já andava naquele metrô há uns bons anos, e alguns rostos eram familiares. Passaria a observar melhor. Isso a irritou um pouco, pois teria que deixar de ler. Para não perder tempo, traria um caderno e anotaria tudo. Dividiria o grupo entre pessoas “fixas” e “volantes”. Daria apelidos, como, por exemplo: “moça dos olhos verdes e cabelo vermelho que masca chiclete com a boca aberta e fica olhando o celular – fixa”. “Homem alto que não se senta e sempre carrega um guarda-chuva preto com cabo de madeira – fixo”. “Senhora levemente corcunda que usa tênis confortáveis – volante”. E assim por diante. No dia seguinte, iniciou suas anotações. Percebeu que, até então, olhava pouco para as pessoas., sempre tão absorta em sua leitura. Percebeu, também, que a sensação de ser observada aumentava enquanto escrevia. Quando ficava insuportável, ela parava para olhar. Algumas pessoas olhavam de volta, assustadas e se afastavam. “Que bom, agora, vão me chamar de louca!” Após uma semana de anotações, ao chegar em casa, decidiu ler o que havia escrito. Não conseguiu chegar a nenhuma conclusão útil, a não ser que as pessoas eram bichos condicionados e estranhos. Não identificou nada ou ninguém suspeito. Grande parte dos passageiros estava na categoria “fixa” e quem era “volante” tinha comportamentos que sequer mereciam atenção. “Definitivamente, estou ficando louca…” Naquela noite, não dormiu. Pela primeira vez, teve medo. Não sabia o que estava acontecendo e já não conseguia pensar em nenhuma outra solução. Pela manhã, quando tocou o despertador, não teve forças para levantar e se arrumar para trabalhar. Mandou uma mensagem para seu chefe informando que não poderia ir. Não se lembrava da última vez que faltara ao trabalho. Estava se sentindo um caco. Chegou a pensar em ligar para a irmã para ver se a mãe estava bem, mas desistiu. Para que ligar? A mãe dela estava doente há um tempão, sem sinais de regressão do câncer. Mas toda vez que Márcia ligava, tinha a impressão de estar incomodando, e nunca conseguia falar com a mãe. Muita água tinha rolado, muitos ressentimentos acumulados. Não queria causar mais dor ainda, só de ter que fazer com que a mãe fosse praticamente obrigada a ouvir sua voz e fingir que estava tudo bem. Ela podia se organizar e ir para perto de sua mãe, visitar, ficar alguns dias. De novo, se perguntou, “para quê?”. A última vez que tinha ido para lá, parece que fez com que tudo piorasse. Joana quase pediu para que a irmã não voltasse mais. Claro que não pediu, mas aquele olhar dizia tudo, quando se despediram na rodoviária… Durante o trajeto de 12 horas no ônibus-leito, Márcia só conseguia prometer a si mesma que não voltaria mais. Com esses pensamentos, perto de 10h00, sentiu o cansaço e o sono dominarem. Dormiu um sono sem sonho e despertou, horas depois, sem saber ao certo onde estava, que dia era… Estava escuro. Novamente, teve medo. Tateou a parede em busca do interruptor. Ao acender a luz, avistou uma sombra à sua frente. Gritou. A sombra permaneceu imóvel. Sentou-se na cama e se cobriu até o pescoço, tremendo de frio e de terror. Não conseguia pensar, falar, se mover. Notou que a sombra lembrava o formato de uma grande ave. Franziu os olhos para tentar decifrar o que via e conseguiu, enfim, se mexer. De forma quase involuntária, foi se aproximando da sombra. Ao chegar bem perto, a sombra abriu as asas. Márcia deu um pulo para trás: “É você que está me seguindo todo esse tempo? O que você quer de mim? O que é você?” Sem saber de mais nada, o que era realidade ou fantasia, começou a esmurrar a parede, chorando e implorando para que tudo aquilo acabasse. Então, a sombra desapareceu. Márcia olhou ao redor, ofegante. Correu para a sala, em busca de algum sinal da sombra. Foi para a cozinha. Nada. Então como num impulso, se dirigiu para a área de serviço. Notou que janela estava aberta. Acendeu a luz e, ao olhar para o chão, não conseguia acreditar no que via: penas e mais penas no chão. Grandes penas cinzas e brancas. Apreensiva, pegou uma na mão. Macia, porém firme. Sem pensar, roçou a pena em seu rosto, sentindo a textura. Fechou os olhos e se recordou de sua infância, quando corria com a mãe e a irmã pelo campo do rancho em que cresceu. Quando corriam em busca dos pássaros. E ficavam em êxtase quando o bando voava sobre suas cabeças. Acordou de seu devaneio com o toque do telefone. Empertigou-se e foi atender: “Alô?” “Márcia? Sou eu, Joana… é sobre a mamãe…”

Eliana Leite

(Iniciado em 13/02 e concluído em 12/03/2019)

Publicado por

Eli Leite

Apaixonada por livros, filmes, poesia, textos, histórias e estórias

2 comentários em “De Trilhos e Sombras”

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