Águas Negras

A noite não quer dizer mais nada

Além da solidão que não se vai com o sol.

Essa escuridão tão longa quanto a dor

Que persiste em perturbar

E faz com que eu volte meus olhos

Para a imagem que abandonei

Como medo de que meu mundo,

Assim como o amor,

Fosse breve.

Da felicidade, pouco sei.

A palavra me amedontra,

O sentimento escapa.

Quando vejo as gostas de sangue

Vazando através dos sonhos

A aumentar a duração do medo,

Passo a me inclinar sobre as águas negras

Que resgatam meu passado e sufocam

O que virá pela frente.

Cubro meus olhos para que não haja

Precauções ou arrependimentos.

Preciso pisar em novos solos,

Ouvir novas vozes,

Sentir novos ventos, novos mares.

E livrar-me da desconfiança

Em relação ao que já existe.

Não preciso das pessoas, da humanidade.

Todas as lágrimas foram em função

De alguém, de atos.

Se minhas mãos tocarem o céu,

Meus lábios desejarem apenas vida

E o amor vier de outra direção

Eu terei me libertado

Das correntes que machucam minhas palavras

E tornam a noite cada vez mais vazia.

Eliana Leite

(1994)

Publicado por

Eli Leite

Apaixonada por livros, filmes, poesia, textos, histórias e estórias

Um comentário em “Águas Negras”

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