Crisálida

Qual o sentido do amor?

Para que serve?

Qual seu significado?

Começa no olhar?

Ou na esperança

De que aquele olhar o seja?

Olhos tristes, corpo frágil,

Amor sustentado pela areia

Fadado ao brusco rompimento

Como se rompem as amarras de seda

Que prendem uma criança

Amor puro, verdadeiro

Não existe?

Como não existir, se é verdadeiro

E, se cada um tem uma verdade,

Como saber se meu verdadeiro amor

É o seu?

E não dela? Deles, de todos!

Nunca de um só!

Traição, ciúmes, loucura

Isso seria amor ou destruição?

Autoflagelo

Passam-se os anos

Autopreservação

Medo de ser tocado, reaberto,

Tal qual o baú afundado ao mar,

Deixado para apodrecer,

Mas não apodrece

Morrem seus donos, e ele fica

Amor e luz?

Ofusca, cega, queima

Não ilumina o caminho

Ou quem faz isso é a paixão

Contrapartida do amor?

Antônimo do amor, o ódio

Terrível algoz, dama de negro

Se é tão forte e poderoso

Também assim tem de ser o amor

Amo-te à minha maneira

Não te amo mais

Aprenderei a te amar

Amar-te-ei para sempre

Não sei se te amo

Nunca amei ninguém

Amo-te como és

Amar-te-ia se fosses melhor para mim

Já te amei um dia, hoje nem a mim

Para amar a outrem, devo começar por mim

Recuso-me a causar tão mal

A mim, à minha pobre e doce alma

Proíbo-te de dizer que me ama

Como quem saúda o dia

Afasto de ti meus lábios

Se estás sedento apenas pela aparência do amor

O lençol de cetim, a fantasia aveludada

O grito de amor, que logo se quebra e vira soluço de solidão

Amo-te assim, calado

Amo-te como se ama um filme mudo

Imagino belas palavras

Saírem de sua boca

Fazem-me bem, como mel

Ao experimentá-las, me ferem

Como ferrão, ardor, repulsa

Defendo-me do amor

Terei saboreado?

Ou foi algo muito parecido

Me tirou do chão

Para logo me arremessar

Duro, frio, real, cruel

Vemos o amor como belo

Beleza efêmera que se transforma

Em borboleta, magnífica

O primeiro vento a arrebata

Cai morta, esquecida,

Metamorfose

Então, não é amor

Amo-te porque é o que sei fazer de melhor

Me amas?

Quando pergunto, foges e deixas a porta entreaberta

Espaço suficiente para permanecer teu cheiro,

Teus sinais

Abandona-me, falso amor

Que de ti preciso

Do que preciso?

Fazer amor…

Mas ele já está feito!

Vem a nós, nos atinge o rosto, feito ventania

Cultivar o amor…

Com o que?

Passado, lembranças?

Tecer com fios rotos

Procuro um novo amor

Pensas que o amor está por aí, se renovando?

O amor é um só, antigo,

Imutável, resiste aos séculos, às guerras, às injustiças

Até ao preconceito

Amo um que não vejo

Um poeta, um filósofo

Um coração que bate e chama por meu nome

Mesmo que o humano jamais saiba, por ser grão, o que é amor

Diga-me que me ama

Para a noite ser menos fria…

Eliana Leite

10/07/2004

Publicado por

Eli Leite

Apaixonada por livros, filmes, poesia, textos, histórias e estórias

2 comentários em “Crisálida”

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