Paciência

Parece uma vovó chata na cadeira de balanço fazendo tricô. Sem ninguém por perto, sem música, sem pássaros, sem a luz do sol, sem vida, sem nada. Só o barulho incessante da cadeira de balanço e o “tléc tléc” das agulhas. Tricota o quê? Uma malha? Para quem? De que cor?

Olhando para o tricô, se balançando na cadeira, não sorri, não fica triste, não chora, não pisca, não fala, quase não respira.

É a paciência. Velha e sem graça. Monótona e repetitiva. Sem sentido.

É o que ela parece ser a uma criança inquieta que a observa. “Vovó, o que você está fazendo?” E a vovó não responde. “Vovó, vamos lá fora brincar? Vamos! Vamos! Agora!” E a vovó não responde, não brinca, não olha para a criança. Porque não a escuta. A criança não a perturba. Nada a perturba. O passar do tempo não a incomoda. O “tique taque” do relógio não significa nada. O passar dos dias não a deixa menos tranquila. Sabe que tem que terminar aquela malha.

Não é uma vovó chata.

É uma mulher madura, segura de si. Não está numa cadeira de balanço. Está circulando, calmamente, pela casa, com seus afazeres. Não tricota, apenas. Vai fazendo um pouco de cada vez. Estava tricotando durante aquela hora em que a criança se sentou no chão para desenhar. O sol não estava lá porque já era final da tarde. Não havia música porque queria um pouco de silêncio. Para pensar, refletir sobre o dia, sobre o que fez. Quando vê a criança no chão, até se assusta. Quem é aquela pequena criatura? Olha ao redor, não compreende. Percebe, então, que a criança é ela mesma, há anos. Quando gostava de sentar-se ao chão e rabiscar com giz de cera, brincar de massinha, sujar-se toda. E depois, corria por aí, procurando algo diferente para fazer. Pular amarelinha, pega-pega, queimada, boneca, quebra-cabeça, nossa! Quanta coisa! Mas, o tempo foi passando, ela foi crescendo, e as brincadeiras mudaram. De repente, não eram mais permitidas as brincadeiras, tampouco as interessava. Descobriu os livros. A imaginação. Contar histórias. Desenhar mundos irreais. Tinha deveres, que aumentavam com o passar dos anos. Estudar. Horários. Gostava de tudo aquilo. Ocupava seu tempo. E, quando tinha esse tempo livre, lia, escrevia, saía com amigos, praticava esportes. Começou a trabalhar. Namorar. Não parava nunca. Só para dormir. Não tricotava. Não respirava. Não ficava sentada por muito tempo. Corria para lá e para cá. Todo dia era dia de atividades, rotinas, mesmo que fossem diferentes a cada dia. Natação, vôlei, academia, caminhada, pós-graduação, viagens, filmes, livros, música, dança, bares, amigos, trabalho, trabalho. E, de repente, um VAZIO… Vazio, oco, eco, buraco, vale, abismo, nada, só, persistente e perturbador VAZIO. Por que tamanho vazio? Tantas atividades!!! Como poderia sentir um buraco dentro de si? Quase não tinha tempo nem para respirar! Nem tinha tempo para sentir vazio. Porém, inexorável, ele chegou! Quem é o vazio? O que é? Por que está aqui? Por que, em sendo vazio, toma a forma do aperto no peito, do nó no estômago, da falta de sentido nas coisas como estão?

O vazio não tem forma! Ele devasta as formas. Mas, ao mesmo tempo, toma conta. Pode até cegar, enlouquecer.

Do vazio, par a paciência…

Do vazio para a serenidade…

O vazio é tudo aquilo de doloroso que me corrói hoje. Impaciência infantil. Ansiedade indiscriminada. Cansaço gigantesco. Corpo e alma doentes. Coração confuso. Libido estragada. Stress! Esse que é o CONJUNTO DE TUDO! Esse que é o momento invisível que toma poder de tudo à sua volta, tira o sono tranquilo, tira a paz, até a vontade de certas coisas, a saúde, a sensatez! Ah, mas a Paciência pega sua grande vassoura e varre todo o chão, abre as janelas, rega as flores, acende um incenso e… volta a tricotar.

Tem saudades da criança, mas sabe que todas as crianças são assim: sempre ativas, sempre elétricas, mas sempre dormem tranquilas.

Não tem saudades da criança em que a criança se transformou. Esta se foi porque seu tempo acabou.

O tempo agora é de calma, paz, barulho do mar, das ondas, da lua, do sol, das folhas das árvores, do violino, dos girassóis…

Tempo de se voltar para si e se amar. Só de pensar nisso dá vontade de chorar. Parece tão longe…

Eliana Leite

16/06/2004

Publicado por

Eli Leite

Apaixonada por livros, filmes, poesia, textos, histórias e estórias

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