Instante Inevitável (1994)

A sensação e abandono

E ansiedade.

Perda e felicidade,

Rebuscada sob a forma de uma nuvem

Que cobre os raios de sol,

Cuja luz mal penetra

Em meus olhos.

Um amor idealizado.

Pode ser que exista,

Pode ser que não.

Como saber se hoje

Vou sorrir novamente?

Ninguém abriu a porta,

Então por onde saiu

Se cortei suas asas?

Um corpo a mais apenas.

Uma alma destruída.

E você sai, assobiando

A música da sua infância dourada.

O colo foi substituído pela palavra,

Pelo gesto de adeus.

As flores foram entregues

Para receber prazer em troca.

Sem gorjeta, sem condução.

Sim senhor, obrigada

Por nada.

No mar os barcos afundam.

Por que está chorando?

O marinheiro era seu pai,

Ou pai desta criança morta?

Não senhor. Não é nada.

Lembro de quantas luas já vi.

Lembro de como conquistei o tesouro

Perdido nomeio da noite.

Nunca respondeu às perguntas

Da moça que dormiu com você.

Mas senhor, não senti nada.

Estamos bem servidos de sonhos, desejos

Somente para esconder a realidade.

Os homens de terno disseram

Que o dinheiro vale mais que a vida.

As mulheres de avental

Choravam porque a vida não valia nada.

O mundo está uma confusão.

Agora vejo as crianças em deleite,

Sem ter de quem apanhar.

Mas amanhã

A polícia, os ladrões, os chefes, todos

Vão sacar suas armas

E dar uma lição nos anjos desnutridos.

Adeus, inocência.

A covardia espremeu a esperança.

Desculpe, senhor.

Não sou nada. Ao menos ainda o vento sopra.

O lixo acumula-se, mas quem se importa?

Os porcos vivem na sujeira

E nós deles nos alimentamos.

Um belo corpo o seu, mas até quando?

Esta bomba em minha mão

Destruirá sua mansão, seu grande orgulho.

Vê como nem todos somos conformados?

A informação manipulada não basta.

Procuram agora pela sobrevivência controlada.

Quando senti o sabor da paixão,

Vi também o extermínio da paz.

Ao tocar seus doces lábios,

O fel inundava as ruas.

Devo celebrar a satisfação

Ou chorar pela destruição?

Acendo uma vela para o amor

Ou visito o túmulo dos inocentes?

Sempre que cruzo as esquinas,

A imagem de uma violação.

As cordas não conseguiram amarrar

O tempo que fugiu,

Desapareceu.

Uma moeda de ouro a quem achá-lo.

O sol quadrado a você, preto,

Que o roubou.

A neve é branca.

O petróleo, valioso.

As cores não fazem diferença

Se a TV é em preto e branco.

A religião tem a forma de um castelo

De areia.

A brisa a derruba, eu a destruo.

Não quero, não preciso de um nome.

Sou apenas ser humano, fraco

E incapaz de se sustentar

Na própria existência.

Um segundo mundo,

Segundo os entendidos.

Espero um segundo.

A verdade, de tão crua,

Merece uma pitada de mentira.

Viu, senhor? Quase nada.

Sei que fui usada por você,

Mas a humilhação é algo muito especial.

Essa dança é tão bela,

E dura pouco.

Vou embora, senhor,

Que estou cansada.

Eliana Leite

(Janeiro 1994)

Publicado por

Eli Leite

Apaixonada por livros, filmes, poesia, textos, histórias e estórias

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