Pandemia

Pergunto-me se imaginava testemunhar e vivenciar uma pandemia como esta que se apresenta. Não, eu não imaginava. Não pensei que viveria dias assim, que veria notícias sobre número de casos x número de mortes diariamente e que o medo seria um companheiro diário. O medo de me contaminar, o medo de morrer, o medo de que meus pais adoeçam, meu marido, amigos, vizinho. A aflição de viver num país despreparado, com pessoas que morrerão de fome porque não tem casa para ficar. Pessoas que morrerão porque não tem água para lavar as mãos. Pessoas que morrerão porque na hora que o bicho pegar, e ele vai pegar, haverá uma seleção de quem salvar.

Penso na falta de união do Poder Executivo… Penso na burocracia que impede que a ajuda chegue a quem precisa. Penso no fato de que eu comecei um novo negócio junto com o Coronavírus. Penso que sou privilegiada e que ficar em casa é a melhor coisa que faço para ajudar o outro. Penso no futuro, sem saber do presente. Há dias em que sou tomada por uma tristeza enorme, impotência. Há dias em que busco esperança dentro de mim. Tendo a ser otimista, mas ultimamente, a realidade tem se mostrado dura.

Não tenho o objetivo de ser alarmista ou fatalista, ou de ser aquela personagem que grita por aí “vamos todos morrer”! Não. Longe disso. Apenas não sei se sei como lidar, pois é a primeira vez que vivo isso. Nunca participei de uma guerra. Nunca passei fome. Nunca precisei racionar a comida de hoje para não passar necessidade amanhã. Sei o que li. O que ouvi. Àquilo que assisti em documentários, filmes, relatos. Estamos em guerra? O inimigo é invisível? Somos, de fato, vítimas? Ou estamos diante do inevitável, do inexorável, da consequência de nossos atos? A pandemia revela outras mazelas. Sociais, políticas, econômicas e comportamentais. Não vivo o lockdown (ainda), mas, dentro do que consigo, faço o isolamento, distanciamento, quarentena, seja o nome que for. Isso já não é fácil. Se meu vizinho não faz o mesmo que eu, porque estamos ainda na base do bom senso, adianta eu gritar para ele ficar em casa? Agredir verbalmente os idosos porque eles precisam ir à farmácia (existem idosos sozinhos e agora, ao invés de julgá-lo, é necessário refletir sobre o motivo pelo qual ele está sozinho) ajuda em que? Vejo julgamentos, pessoas com soluções para problemas alheios, total falta de empatia, passividade e vitimismo. Não sei o que é pior.

O que vivemos hoje nada mais é do que o resultado da falta de recursos, desde saneamento até educação, passando por nutrição e saúde, velada por discursos vazios e inócuos. Temos uma desunião em meio a uma pandemia. Para mim, isso é apenas a ponta do iceberg. Conversando com pessoas, vejo que a preocupação com a economia é real, tangível, iminente. O comerciante que teve que fechar as portas tem contas para pagar e pessoas que dependem dele. Ele deve se calar? O autônomo que vive do seu trabalho diário, da prestação de serviços, para de trabalhar e vive do que? A diarista que parou de trabalhar e não está recebendo, faz o quê? Eles também devem se calar? Não sei. Qual a solução? O Estado? Um jornalista mencionou, desde o início da pandemia, que a mão invisível do mercado saiu para passar álcool em gel e agora é a vez da mão pesada do Estado entrar. Isso já faz pelo menos um mês. E a ajuda até veio. Aí aparecem as mazelas. A pessoa teve o CPF cancelado porque não votou. A pessoa sequer tem CPF. Não sabe o que é um aplicativo, não tem celular, não tem conhecimento nem recursos suficientes para compreender essa comunicação que é vomitada como se fossem todos iguais. Ouço em diversos canais que não estamos no mesmo barco, pois cada um está numa situação diferente. Concordo. Por isso, a união, o alinhamento na comunicação, a urgência na ajuda e o afastamento de demagogias e egos é fundamental. Porém, como mencionei antes, as crises revelam o que há de pior e melhor nas pessoas. Quem é bom, continua bom. Quem é egoísta, se torna mais egoísta. Um país que não sabe para onde quer ir, continuará ainda mais perdido.

O vírus está aí. Não adianta negar a sua existência. Não adianta colocar um véu ou fechar os olhos para o que virá pela frente, ou, ainda pior, fazer com que toda uma nação feche os olhos para um buraco para então cair em outro. Não há um caminho fácil, pois o cobertor é curto. Entretanto, é mais do que necessário oferecer soluções, possibilidades. Quebrar paradigmas, círculos viciosos e padrões tóxicos. A verdadeira pandemia pode vir da manutenção de comportamentos e discursos que levam à negação. E, invariavelmente, morreremos, de um mal ou de outro.

Finalizo com uma frase de Carl Jung: “Aquilo a que você resiste, persiste.”

Eliana Leite – 14/04/2020

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s