Heloísa

Heloísa não se considerava uma pessoa distraída. Porém, naquele dia em especial, estava aérea, com os pensamentos em tudo, menos no trânsito. Não notou que o farol tinha fechado e bateu no carro da frente. Antes de qualquer coisa, se xingou e começou a procurar o cartão da seguradora. Enquanto buscava na carteira, ouviu baterem no vidro do carro. Assustada, viu um homem alto, forte e bravo gritando para ela sair do carro. Fez sinal de “calma” para o homem, que estava nervoso e gritava “sai desse carro! Olha o que você fez!” Teve medo de sair e abriu o vidro. Iniciou pedindo desculpas e dizendo que estava procurando o telefone da seguradora. Ele começou a bater na lataria e então Heloísa fechou o vidro. Começou a tremer e não conseguia pensar em mais nada. Enquanto isso, o homem surtava. Até que se juntaram outros homens ao lado dele para tentar acalmá-lo e ele os incitou a fazer com que ela saísse do carro. Começaram a chamá-la de “piranha covarde” e a sacudir o carro. Heloísa pegou o celular e ligou para a polícia. Não foi levada a sério. Nem anotaram seu nome. Começou a chorar. Gesticulava para que eles parassem, mas não tinha coragem de sair do carro. Pegou novamente o celular para tentar ligar para alguém conhecido, quando, de repente, ouviu uma sirene de ambulância, que acabou dispersando o grupo. Neste momento, deu partida no carro, deu a ré e saiu cantando pneu, atrás da ambulância. Olhou pelo retrovisor e percebeu que o cara estava entrando no carro para segui-la. Enquanto dirigia, imaginava o que ele poderia fazer com ela? Agredi-la? Matá-la? Era um grande absurdo aquela situação. Num impulso, ao avistar um posto de gasolina, encostou o carro por ali mesmo, desligou o motor e saiu em direção à loja de conveniência. Ao entrar, procurou pela atendente e explicou a situação. Disse que não sabia se seu “perseguidor” entraria lá e estava com medo. A atendente, visivelmente chocada, chamou um dos frentistas e explicou a situação. Heloísa saiu da loja de conveniência junto com o frentista e ficaram ali parados, esperando. Alguns minutos depois, o carro do cara entrou no posto. Ele estacionou ao lado do carro de Heloísa e saiu, furioso. O frentista se colocou entre ele e Heloísa e pediu para ele se acalmar. O cara continuava gritando, parecia que tinha sangue nos olhos. Duas frentistas se aproximaram e se postaram ao lado do cara. Uma delas disse que se o cara não parasse de gritar, chamaria a polícia. Diante disso, ele parou de falar. Heloísa tomou coragem e disse a ele que ela estava apenas pegando o cartão da seguradora, que sabia que estava errada ao bater no carro dele, mas que nada daquilo justificava a atitude dele. Ela teve que sair dali porque eles estavam a assediando e ela estava com medo. Ao ouvir a palavra “assediando”, o cara ficou vermelho, e disse, entredentes “tá se achando muito gostosa, não?”. Nisso, uma das frentistas chamou a atenção dele e recomendou que pegasse as informações de que necessitava e se retirasse. O cara tinha as veias da testa saltadas, de tanto nervoso. Heloísa sentia as pernas tremerem, o estômago doer. Assim que ele pegou os dados, olhou para os frentistas e cuspiu no chão. Entrou no carro e saiu. Heloísa teve uma crise de choro e foi amparada pelos três. Tomou um copo de água e se recompôs. Agradeceu mil vezes aos três, teve uma mistura de vergonha e alívio. Estava entrando no carro, quando uma das frentistas disse: “Você não está sozinha. Juntas, somos mais fortes. E você pode denunciá-lo a qualquer momento. Se não agirmos, isso nunca vai parar.” Saiu do posto, com um pouco de esperança na humanidade. Ligou para o marido, finalmente, e explicou o que tinha acontecido. Após ouvir toda a história, ele perguntou: “Nossa, mas o que você fez para irritar tanto o cara?” Naquele momento, resolveu ir para a casa da irmã.

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