“My words will be there”, de Audre Lorde, do livro “I Am Your Sister”.

fonte: https://materialfeministatraduzido.tumblr.com/post/89420898874/my-words-will-be-there-de-audre-lorde-do-livro

“Minhas palavras estarão lá”, de Audre Lorde, do livro “Eu sou sua irmã.”

Eu costumava olhar em volta quando eu era uma mulher mais nova e não havia ninguém dizendo as coisas que eu queria e precisava ouvir. Eu me sentia completamente alienada, desorientada, louca. Eu pensava que tinha que existir outra pessoa que se sentisse da mesma maneira que eu me sentia.

Eu era muito inarticulada quando menor. Eu não conseguir falar. Eu não falei até completar cinco anos. Na verdade, nem com cinco anos: só comecei a falar verdadeiramente quando passei a ler e escrever poesia. Eu costumava falar através da poesia. Eu lia poemas e os memorizavas, então quando as pessoas me perguntavam “o que você acha, Audre? O que te aconteceu ontem?”, eu recitava um poema e em alguma parte daquele poema havia um verso ou um sentimento a ser compartilhado. Eu outras palavras, eu literalmente me comunicava através de poesia. E quando eu não consegui encontrar poemas que traduzissem o que eu queria dizer, foi ai que comecei a escrevê-los, por volta dos meus doze ou treze anos.

Os críticos sempre quiseram me enquadrar em uma função especifica, desde a hora que meu primeiro poema foi publicado, quando eu tinha quinze anos. Meus professores de inglês na Escola Hunter de Ensino Médio disseram que um poema meu em particular era muito romântico (era um poema de amor sobre minha primeira paixão por um menino) e que eles não queriam colocá-lo no jornal da escola, o que me levou a enviá-lo para a revista “Seventeen” [Dezessete] e, obviamente, “Seventeen” [Dezessete] publicou-o.

Meus críticos sempre quiseram me ver sob uma determinada ótica. As pessoas fazem isso. É mais fácil lidar com um poeta, certamente com uma poeta negra, quando você a categoriza, limitando-a tanto que ela consegue preencher suas expectativas. Mas eu sempre senti que não posso ser categorizada, e esse sentimento tem sido tanto minha fraqueza quanto minha força. Tem sido minha fraqueza porque minha independência me custou o suporte de algumas pessoas. Mas veja você, também tem sido minha força porque me dá o poder para seguir em frente. Eu não sei como eu teria sobrevivido às diferentes coisas às quais sobrevivi e continuado a produzir se eu não tivesse sentido que é tudo que eu sou que me satisfaz e satisfaz a visão que eu tenho do mundo.

Eu só tive uma experiência de escrever de casa, e ela foi no Colégio Tougaloo em Mississipi onze anos atrás. Foi essencial pra mim. Essencial porque em 1968 meu primeiro livro tinha acabado de ser publicado, era a minha primeira viagem para o extremo Sul, era a primeira vez que eu estava passando um tempo longe das crianças. Era a primeira vez que eu tinha que lidar com estudantes jovens e negros em uma oficina. Ajudou-me a perceber que aquele era o meu trabalho, que ensinar e escrever estavam inextricavelmente combinados, e foi lá que eu soube que era aquilo que eu queria fazer para o resto da minha vida.

Eu era a “bibliotecária que escreveu”. Depois da minha experiência em Tougaloo, eu percebi que minha escrita era central na minha vida e aquela biblioteca, ainda que eu amasse livros, não era o suficiente. Combinados com as circunstancias que se seguiram na minha estada em Tougaloo – a morte do rei, a morte de Kennedy, o acidente da Martha – todas essas coisas me fizeram ver que a vida é pequena, e que devemos fazer o que deve ser feito agora.

Eu nunca estive novamente em uma experiência de escrever de casa. O poema “Touring” [Turismo] de “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro] fala muito sobre como eu me sentia sobre isso. Eu leio minha poesia ocasionalmente. Eu planto minhas pequenas sementes e depois eu me vou. Eu espero que elas floresçam. Algumas vezes eu descubro que elas de fato floresceram, outra vezes eu nunca descubro. Eu só tenho que ter fé.

Primordialmente eu escrevo para aquelas mulheres que não falam, que não tem verbalização porque elas estão tão apavoradas, porque elas foram ensinadas a respeitar o medo mais do que a si mesmas. Nós fomos ensinadas a respeitar nosso medos, mas nós temos que aprender a respeitar nós mesmas e nossas necessidades.

Nos meus quarenta e cinco anos meu estilo de vida e os rumores sobre meu lesbianismo me tornaram uma pessoa “non grata” nos meios da literatura negra. Eu sinto que não esclarecer todos os aspectos sobre quem eu sou gera um certo tipo de expectativa sobre mim que com o passar do tempo eu gosto cada vez menos. Eu espero que a maior quantidade possível de pessoas possa lidar com meu trabalho e com o quem eu sou, e que eles possam encontrar algo no meu trabalho que lhes seja útil em suas vidas. Mas se eles não conseguirem, então todos perdemos. Mas então, talvez, suas crianças encontrem.

Pra mim mesma vem sendo muito produtivo e necessário lidar com os aspectos de quem eu sou, e eu venho dizendo isso por um bom tempo. Eu não sou um pedaço de mim mesma. Eu não posso simplesmente ser uma pessoa negra e não ser uma mulher também, ou ser uma mulher sem ser uma lésbica… Claro, haverá sempre pessoas, e sempre houve pessoas na minha vida, que vem a mim e dizem “Bom, aqui você se define como tal tal e tal tal” em detrimento de outros pedaços de mim mesma. Existe uma injustiça em fazer isso, e é uma injustiça para as mulheres para quem eu escrevo. Na realidade, é uma injustiça para todas as pessoas. O que acontece quando você narra sua definição do que é conveniente, ou do que está na moda, ou do que é esperado, é que ela se torna desonesta e silenciadora.

Agora, quando você tem uma comunidade literária oprimida pelo silêncio das pessoas em volta, como a comunidade dos escritores negros na América, e você têm esse tipo de tática que insiste em definições unilaterais de negritude, então você está dolorosamente e efetivamente silenciando alguns dos nossos mais dinâmicos e criativos talentos, porque todas as mudanças e progressos vêm do reconhecimento e uso das diferenças entre nós mesmos.

Eu me considero uma vitima do silenciamento dentro da comunidade de literatura negra por anos, e eu certamente não sou a única. Para efeito de consideração, não há qualquer questionamento sobre a qualidade do meu trabalho nesse ponto. Então porque você acha que meu último trabalho, “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro], não foi resenhado ou sequer mencionado em nenhum jornal ou revista negro nesses trinta meses desde que foi lançado?

Eu sinto que tenho um dever de falar a verdade como eu vejo e não compartilhar somente meus triunfos, não só as coisas sobre as quais eu me sinto bem, mas também a dor, a intensa dor.

Eu nunca pensei que viveria para ver os meus quarenta anos e cá estou eu nos meus quarenta e cinco! Eu sinto que, ei, eu realmente consegui! Eu me sinto satisfeita por ter realmente enfrentado todo o meu problema de câncer de mama, da mortalidade, da morte. Foi muito difícil, porém muito fortalecedor lembrar que eu poderia ter sido silenciada toda a minha vida e depois morrer, abruptamente, sem nunca ter dito ou feito o que eu queria ter dito e feito, o que eu precisava ter dito e feito, só por causa da dor e do medo. Se eu esperasse estar certa antes de falar eu estaria mandando pequenas mensagens criptografadas num quadro de Ouija, reclamações do “outro lado”.

Eu realmente sinto que se as coisas que eu disse estão erradas, então haverá alguma mulher que se levantará e dirá “Audre Lorde errou”. Mas minhas palavras estarão lá, será algo pra ela discordar, algo para incitar o pensamento e a atividade.

Escritores homens e negros tendem a chorar na tentativa de convencer seus leitores de que eles também têm sentimentos, enquanto escritoras mulheres e negras tendem a dramatizar suas dores e amores. Mas eles não parecem intelectualizar a capacidade de sentir; eles focam em descrever o sentimento por si só. E amor é, frequentemente, dor. Mas eu acho que é necessário ver o quanto dessa dor eu posso sentir, o quanto dessa verdade eu posso ver e ainda assim viver sem me cegar. E, finalmente, é preciso determinar o quanto dessa dor eu posso usar. Isso é essencial quando nos questionamos o quanto estamos pedindo de nós mesmas. Existe um ponto na qual a dor se torna um fim em si mesma, e então nós devemos deixá-la ir. Por outro lado, nós não devemos temer a dor, mas não podemos nos subjulgar a essa dor enquanto um fim em sí mesma. Nós não devemos celebrar nossa vitimização, porque há outras formas de ser negra.

Há uma linha muito fina, porém bem definida entre essas duas formas de resposta a dor. Eu gostaria de ver essa linha desenhada com mais cuidados em alguns trabalhos de mulheres negras escritoras. Eu estou particularmente ciente das minhas responsabilidades no meu trabalho, e eu tenho que me lembrar que a dor não é sua própria razão de ser, mas sim parte da vida, e a única forma de dor que é intolerável é aquela desperdiçada, aquela da qual nós não aprendemos. E acho que precisamos aprender a distinguir esses dois tipos.

Eu vejo protesto como uma forma genuína de encorajar alguém a sentir as inconstâncias, o horror, das vidas que estamos vivendo. O protesto está aqui para dizer que nós não temos que viver a vida dessa forma. Se nós sentimos intensamente, conforme nós encorajamos nós mesmas e outros a sentir intensamente, nós vamos, através daquele sentimento, uma vez que nós reconhecermos que se sentimos intensamente podemos então amar intensamente e aproveitar intensamente, demandar que parte de nossas vidas produzam esse tipo de alegria. E quando elas não produzirem nós nos perguntaremos: “porque não produzem?”, e é essa pergunta que nos levará inevitavelmente a mudança.

Então a questão do protesto e a arte são inseparáveis pra mim. Eu não posso dizer que ela é também/ou uma proposta. Arte pelo bem da arte não existe de verdade pra mim, nunca existiu. O que eu via era errado e eu precisava me manifestar sobre. Eu amava poesia e amava palavras. Mas o que é bonito precisava servir ao propósito de mudar minha vida, ou então estaria morto. Se eu não posso expor essa dor e mudá-la, então morrerei dela. E esse foi o inicio do meu próprio protesto.

Falo tanto sobre a dor; mas e sobre o amor? Quando você vem escrevendo poemas de amor por trinta anos, seus poemas mais tardios são aqueles que realmente atingem o âmago da questão que permeia seus limites. A testemunha das coisas pelas quais você passou. Aqueles são os verdadeiros poemas de amor. E eu amo esses poemas mais tardios porque eles dizem, ei!, nós nos definimos como amantes, e como pessoas que se amam de novo várias e várias vezes, nós renascemos. Esses poemas insistem que você não pode separar o amor das brigas, da morte, da dor, mas que ainda assim o amor é triunfante. É poderoso e forte, e eu sinto que eu cresci muito em todas as minhas emoções, especialmente na capacidade de amar.

O amor expresso entre mulheres é particular e poderoso, porque nós temos que amar para viver, o amor tem sido nossa sobrevivência.

Nós supostamente devemos tomar como padrão o amor heterossexual. E o que eu insisto no meu trabalho é que não deveria haver algo como um padrão de amor na literatura. Ali está o amor, naquele poema. O poema aconteceu quando eu, Audre Lorde, poeta, lidei com minha individualidade ao invés de lidar com o “padrão”. Meu poder enquanto pessoas, enquanto poeta, vem de quem eu sou. Eu sou uma pessoa individual. As relações que eu tive, as pessoas que me mantiveram vivas, que ajudaram a me sustentar, as pessoas cujo sustento me doou uma identidade que é a fonte da minha energia. Não poder lidar com a minha vida na minha arte é cortar a fonte da minha força.

Eu amo escrever poemas, eu amo amar. E para colocar essa questão num quadro que é outro que não poesia eu escrevi um artigo intitulado “Uses of the Erotic” [Usos do Erótico], no qual eu examino toda a questão do amor enquanto manifestação. O amor é muito importante porque é a fonte de um tremendo poder.

As mulheres não foram ensinadas a respeitar o desejo erótico, esse lugar que é exclusivamente feminino. Então, assim como algumas pessoas negras tendem a rejeitar sua negritude porque a negritude vem sendo tida como inferior nós, mulheres, tendemos a rejeitar nossa capacidade de sentirmos, nossa habilidade de amar, de tocar o erótico, porque ela foi desvalorizada. Porque é nisso que reside nosso poder, nossa habilidade de postular, de ver. Porque uma vez que nós percebemos o quão profundamente podemos sentir, nós começamos a demandar de todas as atividades de nossa vida que elas estejam de acordo com esses sentimentos. E quando elas não estão, nós levantamos a questão do porque… porque… porque nós nos sentimos constantemente suicidas? O que está errado? Sou eu? Ou é o que eu estou fazendo? E nós começamos a necessitar de respostas pra tais questões. Mas nós não podemos fazer isso quando não temos visão de alegria, quando não temos noção das nossas capacidades. Quando vivemos na escuridão, sem a luz do sol, você não sabe o que é saborear a luz brilhante ou mesmo o que é tê-la em excesso. Uma vez que você tem a luz, você pode mensurar seu nível, inclusive com prazer.

Eu mantenho um jornal; eu escrevo no meu jornal regularmente. Eu tiro muitos dos meus poemas de lá. É a matéria prima dos meus poemas. Algumas vezes eu sou abençoada com um poema que já vem na forma de poema, mas algumas vezes eu tenho que trabalhar por dois anos num poema.

Para mim, há dois processos muito básicos e diferentes para revisar minha poesia. Um é reconhecer que um poema não se transformou ainda nele mesmo. Em outras palavras significa que o sentimento, a verdade que o poema deveria ancorar ainda não está clara o suficiente dentro de mim, e isso é resultado da falta de algo no poema. Então o poema tem que ser re-sentido. E daí existe um segundo processo, mais fácil. O poema é ele mesmo, mas tem algumas bordas que precisam ser refeitas. Esse tipo de revisão envolve pegar a imagem que é mais potente ou recortá-la para carregar mais eficazmente aquele sentimento. Essa é uma forma mais fácil, de reescrever ao invés de re-sentir.

Meus escritos no jornal se focam nas coisas que eu sinto. Sentimento que ás vezes não tem lugar, nem inicio, nem fim. Frases que eu ouço de passagem. Algo que me parece legal, que me encanta. Algumas vezes apenas observações sobre o mundo.

Eu encarei um período no qual eu sentia que estava morrendo. Foi durante 1975. Eu não estava escrevendo poesia, e eu sentia que se eu não conseguisse escrever eu iria partir ao meio. Eu estava escrevendo coisas no meu jornal, mas os poemas não vinham. Agora eu sei que aquele período foi de transição na minha vida e eu não estava verdadeiramente lidando com ele.

Mais tarde no ano seguinte eu voltei ao meu jornal e havia esses incríveis poemas que eu quase podia tirar do jornal; muitos deles estão em “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro]. “Harriet” é um deles; “Sequelae” [Sequelas] é outro. “A Litany for Survival” [Uma Litania pela Sobrevivência] é outro. Esses poemas estavam bem ali, no jornal. Mas eu não os via como poemas antes disso.

“Power” [Poder] estava naquele jornal também. Foi um poema escrito sobre Clifford Glover, um menino negro de dez anos que foi baleado por um policial que foi absolvido por um júri que uma mulher negra compunha. Na realidade, o dia em que eu ouvi no radio que Thomas O’Shea havia sido absolvido, eu estava atravessando a cidade pela rua 88 e eu tive que encostar o carro. Um tipo de fúria surgiu em mim, o céu se tornou vermelho. Eu me senti tão doente. Eu senti como se eu pudesse dirigir esse carro uma parede adentro, jogando-o em cima da próxima pessoa que eu visse. Então eu o encostei. Eu peguei o meu jornal apenas para transcrever um pouco da minha fúria, para deixá-la fluir através das pontas do meus dedos. Esses sentimentos que fluíram são aquele poema. Foi assim que “Power” [Poder] foi escrito. Há um incrível abismo entre o que está escrito no jornal e minha poesia, ainda assim, eu escrevo coisas nos meus jornais, e ás vezes eu sequer consigo ler meus jornais porque há tanta dor e raiva neles. Eu os ponho numa gaveta e seis meses, um ano ou mais depois, eu pego o jornal e ali há poemas. Os escritos no jornal precisam ser assimiladas no meu cotidiano, e só então eu consigo lidar com o que eu escrevo.

Arte não é vida, é um uso da vida. O artista tem a habilidade de pegar a vida e a usar de certa forma de forma a produzir arte.

A literatura afro-americana é certamente parte de uma tradição africana de lidar com a vida como uma experiência a ser vivida. Em muitos aspectos, é como na filosofia oriental na qual nos vemos como parte de uma força da vida; nós fazemos parte, por instancia, do ar, da terra. Nós somos parte de todo o processo da vida. Nós vivemos em um acordo, em uma correspondência com o resto do mundo como um todo. E, por tanto, viver se torna muito mais uma experiência do que um problema, não importa o quão ruim ou doloroso possa ser. A mudança se erguerá endemicamente a partir de uma experiência completamente vivida.

Eu sinto muito isso na escrita africana. E, como conseqüência, eu tenho aprendido muito de pessoas como Chinua Achebe, Amos Tutuola, Cyprian Ekwensi, Flora Nwapa e Ama Ata Aidoo. Leslie Lacye, um negro americano que residiu temporariamente em Gana, escreve sobre a experiência dessa transcendência em seu livro “The Rise and Fall of a Proper Negro” [A ascensão e queda de um negro adequado]. Isso não é ignorar a dor, porque seria um erro, mas sim ver essas coisas como parte da vida e, com isso, aprender delas. Essa característica é particularmente africana e está transporta na melhor literatura afro-amerciana.

Essa transcendência aparece em Ralph Ellision, um pouco em James Baldwin, não tanto quanto eu gostaria, e muito, muito em “Sula”, uma obra de Toni Morrison que é a mais maravilhosa peça de ficção que eu li recentemente. E eu não ligo se ela ganhou o prêmio por “The Song of Solomon” [O Cântico dos Cânticos], “Sula” é um livro totalmente incrível. Me fez acender por dentro como um árvore de natal. Eu me identifiquei particularmente com o livro por causa da idéia de ser forasteira. Toni pôs aquele livro para descansar. Colocou para descansar. Aquele livro é como um longo poema. Sula é o ultimato negro e feminino de nossos tempos, presa em seu próprio poder e dor.

É importante que a gente compartilhe experiências e insights. “The Cancer Journals” [As Revistas do Câncer] é muito importante para mim. É uma prosa de um monologo dividido em três. Vem das minhas experiências com mastectomia e o rescaldo: a raiva, o terror, o medo e o poder que vem da experiência de lidar com a minha mortalidade. Como existe pouquíssimos escritos sobre mastectomia com exceção de estatísticas, como você faria, ou você finge que não aconteceu? Eu penso que precisamos de uma visão feminista para mulheres negras nesse processo. E é essa a origem de “The Cancer Journals” [As Revistas do Câncer].

Escritos recentes de mulheres negras parecem explorar preocupações humanas de forma diferente dos homens. Essas mulheres se recusam a culpar o racismo inteiramente por todos os aspectos da vida negra. Na verdade, por vezes elas responsabilizam os homens negros. Os homens tendem a responder na defensiva, rotulando essas mulheres como “queridinhas” dos estabelecimentos literários.

Não é o destino da América negra repetir os erros da América branca. Mas iremos repeti-los se nós errarmos as armadilhas do sucesso numa sociedade doente pelos pecados de uma vida sem sentido. Se homens negros continuarem a o fazer, definindo “feminilidade” em seus termos europeus mais arcaicos, essa augura será ruim para a nossa sobrevivência enquanto grupo, quem dirá para a nossa sobrevivência enquanto indivíduos. Liberdade e futuro para pessoas negras não significa absorver a doença dominante dos homens brancos.

Enquanto pessoas negras nós não podemos iniciar nosso dialogo negando a natureza opressiva dos privilégios masculinos. E se homens negros escolherem assumir esse privilégio, seja por qualquer razão, estuprando, brutalizando e assassinando mulheres, então nós não poderemos ignorar a opressão dos homens negros. A opressão de um não justifica outra.

Enquanto pessoas, nós deveríamos certamente trabalhar juntos para acabar com a nossa opressão em comum, e criar um futuro viável para todos nós. Naquele contextos, é míope acreditar que homens negros são culpados, sozinhos, em todas as situações, numa sociedade dominada por homens brancos. Mas a consciência do homem negro deve ser acordada para que ele possa entender que sexismo e misoginia são criticamente disfuncionais para a libertação dele enquanto homem negro porque essa opressão tem raízes na mesma constelação que produz racismo e homofobia, uma constelação de intolerância ao diferente. Até que isso seja feito, ele verá sexismo e a destruição das mulheres negras só como paralela a causa da libertação das pessoas negras do que como central para aquela luta, e enquanto isso ocorra, nós não seremos capazes de sustentar o dialogo entre mulheres negras e homens negros que é tão essencial para a nossa sobrevivência enquanto um grupo. E essa cegueira continua só serve ao sistema opressor no qual estamos inseridos.

Eu escrevo para mim mesma. Eu escrevo para mim mesma e minhas crianças e para quantas pessoas mais puderem me ler. Quando eu digo mim mesma eu quero dizer não só a Audre que habita meu corpo mas para todas aquelas mal-humoradas, incorrigíveis lindas mulheres negras que insistem em se erguer e dizer “Eu sou” e você não pode me apagar, não importa o quão irritante eu seja.

Eu me sinto responsável por mim mesma, por aquelas pessoas que estão lendo e sentem e precisam do que eu tenho a dizer, e para mulheres e homens que virão depois de mim. Mas primordialmente eu acho que é de minha responsabilidade as mulheres porque já há muitas vozes para homens. Há pouquíssimas vozes para mulheres e em particular para mulheres negras, falando do centro da consciência, pelo que eu sou e pelo que nós somos.

O que eu posso compartilhar com a geração mais nova de mulheres negras escritoras e escritoras num geral? O que eles podem aprender das minhas experiências? Eu posso lhes dizer para não terem medo de sentir e não terem medo de escrever sobre seus sentimentos. E mesmo que você tenha medo, escreva de qualquer forma. Nós aprendemos a trabalhar quando estamos cansadas, para que então possamos aprender a trabalhar quando estamos assustadas.

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Texto original: file:///C:/Users/Note/Downloads/I%20Am%20Your%20Sister%20-%20Audre-Lorde.pdf

Tradução: A.M., de www.materialfeministatraduzido.tumblr.com

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