Sejamos Desavergonhados

“A verdade nos liberta da vergonha”- Este trecho está no livro que li recentemente (“Talvez Você Deva Conversar com Alguém”, Lori Gottlieb). Chamou minha atenção porque é uma frase simples e potente. Se você diz a verdade, a vergonha vai embora. Já parou para pensar nisso? Quando escondemos algo de alguém, ou de nós mesmos, ficamos cada vez mais com vergonha daquilo e vamos inventando histórias, meias verdades, dando voltas… Principalmente quando se trata de verdades difíceis. Lembrei-me de um treinamento que fiz, há alguns anos, que se chamava “Crucial Conversations”, em que o mote era exatamente este: como falar sobre aquilo que não conseguimos falar porque achamos que é difícil, desagradável e que pode machucar. Por outro lado, é algo sincero e verdadeiro. A chave não é falar de qualquer jeito e sair correndo, tipo “fogo no parquinho”, mas sim encontrar um equilíbrio na forma de comunicar e, com isso, encontrar a leveza e serenidade que virão depois, tanto de você consigo mesmo quanto com o outro.

Mas, afinal, o que é vergonha? Uma das definições que o dicionário nos dá é: receio de se sentir ridículo perante as pessoas. Acredito que este seja um dos grandes medos do ser humano. Aquele velho sonho de estar nu diante de uma plateia… E acordar assustado porque isso seria o fim, não seria?  A vergonha de dizermos o que pensamos. De sermos nós mesmos. Por que grande parte das pessoas têm essa vergonha, esse medo de se expor e se sentir vulnerável, ou, ainda, ridículo? Ser ridículo significa ser objeto de zombaria, de risos, uma piada. Quando temos vergonha de dizer o que pensamos, será que, no fundo, não estamos transmitindo a mensagem de que achamos que somos uma piada? Que não nos sentimos dignos de nota? De onde vem essa sensação? Não querendo apelar para uma área que não a minha, a psicologia, mas vale a pena pensar sobre isso. Se o mundo é um espelho, e nos sentimos ridículos quando vamos nos colocar como realmente somos, que espelho é esse? Talvez tenha relação com a falta de estímulo para se autoexpressar. Já dizia Madonna, nos anos 90, “Express Yourself”. Antes dela, Gloria Gaynor se orgulhava em cantar “I am what I am”. Talvez o mundo agradeça mais se pudermos dizer a verdade sobre nós mesmos e vencer essa vergonha (disfarçada de vaidade?). Ser você mesmo pode se tornar muito mais interessante do que qualquer outra personagem que você se der ao trabalho de criar.

Você já teve que falar em público e sentiu que sua garganta travava, sua boca secava e dava aquele branco? Pois eu já. A dor de barriga, o medo de não conseguir, tudo isso aconteceu. Eu ouço muitas vezes que sou extrovertida, comunicativa, que pareço tão tranquila ao falar. Isso é puro treino! Eu não nasci assim. Há pessoas iluminadas que nasceram para o palco, amam holofotes e não tem um pingo de vergonha. Conheço poucas! No dia a dia, no trabalho, na escola, na faculdade, quantas pessoas você conhece que travam e preferem morrer a falar em público? E por que nos sentimos assim? Desconfio que tenha a ver com o fato de que, quando crianças e adolescentes, somos colocados à prova em momentos de necessidade de autoafirmação e a insegurança é grande e o julgamento também. Se gaguejarmos, se errarmos, dificilmente vamos ouvir um “tudo bem, você consegue, tente de novo!”. O que vem são risos, seja de nervoso, seja de pirraça mesmo. Não sabemos lidar com isso e nos retraímos. Seria lindo poder revidar os risos com mais risos e todos saírem rindo de tudo, felizes e agindo naturalmente com relação à vulnerabilidade. Breneé Brown, ao falar sobre vergonha, deixa claro que é o sentimento de não nos sentirmos bons o suficiente. E este sentimento só nos conduz à autodestruição. A falta de empatia, a falta de amor até, aumentam ainda mais esta sensação. Quando abraçamos nossa vulnerabilidade, abandonamos este sentimento e nos permitimos dar um passo além. É, portanto, algo cultural. E digo mais: um extrovertido tem vergonha, assim como um introvertido. A vergonha vem da sensação de não dominar determinado assunto. Uma pessoa hiper extrovertida pode ter vergonha de se sentir não merecedora de aplausos ao falar sobre algo que pensa não dominar completamente.

Adam Grant, de quem sou declaradamente fã, escreveu, há alguns anos, um artigo no LinkedIn (https://www.linkedin.com/pulse/20140218125055-69244073-5-myths-about-introverts-and-extraverts-at-work/ sobre o tema relacionado a mitos envolvendo o conceito de extrovertidos e introvertidos. Recomendo a leitura do artigo para limpar a mente de estereótipos, especialmente relacionados à questão de falar em público, relacionamentos e estímulos. Uma das melhores coisas da vida é poder aprender de forma constante e “desaprender” daquilo que nos amarra e nos faz colocar as pessoas em caixinhas!

Falei sobre a vergonha, sobre momentos em que sentimos vergonha, sobre como seria legal não ser julgado… e daí? A vida está aí, os desafios também… como podemos superar a vergonha? Eu diria que, mesmo com medo, vá! Não tem outra forma de vencer a vergonha além de ir e fazer! Na primeira vez, pode ser que saia meio torto, você vai receber críticas (aliás, sempre as receberá e cabe a você filtrar aquilo que pode servir como degrau ou não)… Use como aprendizado e vá de novo! E siga! O que que tem se você gaguejar, errar, esquecer? Continue a nadar! Amanhã é um novo dia e você sempre pode recomeçar, tentar de novo e se sair ainda melhor. Lembre-se: a vergonha é sua, e só cabe a você vencê-la. Somos nossos mais ferozes sabotadores! Tiremos esse peso de nossas costas. Você vai ver que será bem mais fácil!

E como a vergonha pode atrapalhar na carreira? De várias formas. Se considerarmos que a vergonha é uma forma de auto sabotagem, ela pode tirar você de oportunidades incríveis pelo simples fato de você achar que não é bom o suficiente para aquela vaga, aquela promoção, aquela movimentação lateral, ou mesmo aquele curso que você gostaria de fazer. Pergunto: você já deixou de aplicar para uma vaga interna porque achou que seu chefe iria rir da sua cara ou te demitir na hora? E pensou “ai, que vergonha”… Já deixou de aplicar para uma vaga em uma empresa porque pensou que não tem um currículo campeão e que passaria vergonha na hora da entrevista? Pois então, você já está se condenando antes mesmo de ter uma sentença. Aqui, vale o mesmo conselho: apenas vá! Ou você realmente acha que o Steve Jobs se deixou vencer pela vergonha quando lançou o Ipod? Ou que o Bill Gates, um introvertido de marca maior, abandonou seus sonhos porque deixou a vergonha falar mais alto? Ou que o Steven Spielberg teve vergonha da sua ideia do filme Tubarão e não filmou? Pense em tudo o que o mundo teria deixado de ter se todos fossem vencidos pela vergonha.

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