Resenha – Worth (Netflix)

Filme “Worth”(Quanto Vale?), estrelado por Michael Keaton, Stanley Tucci e Amy Ryan, disponível no Netflix.

Sinopse: Após os ataques de 11 de setembro, um advogado enfrenta uma batalha ferrenha para criar um fundo de compensação pelas vidas perdidas. Baseado em fatos reais.

O filme começa com o advogado Ken Feinberg (Michael Keaton) fazendo esta pergunta a seus alunos: quanto vale uma vida? Em termos jurídicos, ele quer dizer. E dá um exemplo qualquer para ilustrar seu ponto de vista. E então, em seguida, ocorrem os atentados de 11 de setembro e o mesmo Michael Keaton é nomeado uma espécie de gestor do fundo do Governo destinado a indenizar as famílias das vítimas. E assim, segue o filme, mostrando como o valor de vidas é algo muito complexo e não sujeito a fórmulas prontas, bem como a diferença de visões de determinados grupos econômicos frente à visão do ser humano que perdeu alguém. Os diálogos entre Ken e sua sócia, Camille Biros (Amy Ryan, de “Lost Girls”) são uma demonstração clara de como nada nesse processo é definitivo e cristalino e que cada indivíduo merece uma atenção especial, ao contrário do que Ken acreditava. Além disso, temos os diálogos muito bem construídos entre Ken e Chalres Wolf (Stanley Tucci), este um viúvo cuja esposa morre nos atentados.

O resultado disso tudo é um filme de excelente qualidade, denso, forte, que nos faz refletir muito sobre nossos pensamentos e atitudes, especialmente os pré-concebidos. Nos faz voltar para aquela fatídica data e ver as coisas não com olhos políticos, mas com olhos humanos e pensar no impacto na vida de cada um que foi vítima, seja o zelador, o bombeiro, o CEO, a advogada, a estagiária, aquele que estava de passagem para tomar um café com um amigo…

Recomendo o filme pelo ótimo roteiro, com essa linha-mestre voltada para o aspecto jurídico e as consequências nas vidas das pessoas, e, ainda, pelo elenco brilhante.

Sejamos Desavergonhados

“A verdade nos liberta da vergonha”- Este trecho está no livro que li recentemente (“Talvez Você Deva Conversar com Alguém”, Lori Gottlieb). Chamou minha atenção porque é uma frase simples e potente. Se você diz a verdade, a vergonha vai embora. Já parou para pensar nisso? Quando escondemos algo de alguém, ou de nós mesmos, ficamos cada vez mais com vergonha daquilo e vamos inventando histórias, meias verdades, dando voltas… Principalmente quando se trata de verdades difíceis. Lembrei-me de um treinamento que fiz, há alguns anos, que se chamava “Crucial Conversations”, em que o mote era exatamente este: como falar sobre aquilo que não conseguimos falar porque achamos que é difícil, desagradável e que pode machucar. Por outro lado, é algo sincero e verdadeiro. A chave não é falar de qualquer jeito e sair correndo, tipo “fogo no parquinho”, mas sim encontrar um equilíbrio na forma de comunicar e, com isso, encontrar a leveza e serenidade que virão depois, tanto de você consigo mesmo quanto com o outro.

Mas, afinal, o que é vergonha? Uma das definições que o dicionário nos dá é: receio de se sentir ridículo perante as pessoas. Acredito que este seja um dos grandes medos do ser humano. Aquele velho sonho de estar nu diante de uma plateia… E acordar assustado porque isso seria o fim, não seria?  A vergonha de dizermos o que pensamos. De sermos nós mesmos. Por que grande parte das pessoas têm essa vergonha, esse medo de se expor e se sentir vulnerável, ou, ainda, ridículo? Ser ridículo significa ser objeto de zombaria, de risos, uma piada. Quando temos vergonha de dizer o que pensamos, será que, no fundo, não estamos transmitindo a mensagem de que achamos que somos uma piada? Que não nos sentimos dignos de nota? De onde vem essa sensação? Não querendo apelar para uma área que não a minha, a psicologia, mas vale a pena pensar sobre isso. Se o mundo é um espelho, e nos sentimos ridículos quando vamos nos colocar como realmente somos, que espelho é esse? Talvez tenha relação com a falta de estímulo para se autoexpressar. Já dizia Madonna, nos anos 90, “Express Yourself”. Antes dela, Gloria Gaynor se orgulhava em cantar “I am what I am”. Talvez o mundo agradeça mais se pudermos dizer a verdade sobre nós mesmos e vencer essa vergonha (disfarçada de vaidade?). Ser você mesmo pode se tornar muito mais interessante do que qualquer outra personagem que você se der ao trabalho de criar.

Você já teve que falar em público e sentiu que sua garganta travava, sua boca secava e dava aquele branco? Pois eu já. A dor de barriga, o medo de não conseguir, tudo isso aconteceu. Eu ouço muitas vezes que sou extrovertida, comunicativa, que pareço tão tranquila ao falar. Isso é puro treino! Eu não nasci assim. Há pessoas iluminadas que nasceram para o palco, amam holofotes e não tem um pingo de vergonha. Conheço poucas! No dia a dia, no trabalho, na escola, na faculdade, quantas pessoas você conhece que travam e preferem morrer a falar em público? E por que nos sentimos assim? Desconfio que tenha a ver com o fato de que, quando crianças e adolescentes, somos colocados à prova em momentos de necessidade de autoafirmação e a insegurança é grande e o julgamento também. Se gaguejarmos, se errarmos, dificilmente vamos ouvir um “tudo bem, você consegue, tente de novo!”. O que vem são risos, seja de nervoso, seja de pirraça mesmo. Não sabemos lidar com isso e nos retraímos. Seria lindo poder revidar os risos com mais risos e todos saírem rindo de tudo, felizes e agindo naturalmente com relação à vulnerabilidade. Breneé Brown, ao falar sobre vergonha, deixa claro que é o sentimento de não nos sentirmos bons o suficiente. E este sentimento só nos conduz à autodestruição. A falta de empatia, a falta de amor até, aumentam ainda mais esta sensação. Quando abraçamos nossa vulnerabilidade, abandonamos este sentimento e nos permitimos dar um passo além. É, portanto, algo cultural. E digo mais: um extrovertido tem vergonha, assim como um introvertido. A vergonha vem da sensação de não dominar determinado assunto. Uma pessoa hiper extrovertida pode ter vergonha de se sentir não merecedora de aplausos ao falar sobre algo que pensa não dominar completamente.

Adam Grant, de quem sou declaradamente fã, escreveu, há alguns anos, um artigo no LinkedIn (https://www.linkedin.com/pulse/20140218125055-69244073-5-myths-about-introverts-and-extraverts-at-work/ sobre o tema relacionado a mitos envolvendo o conceito de extrovertidos e introvertidos. Recomendo a leitura do artigo para limpar a mente de estereótipos, especialmente relacionados à questão de falar em público, relacionamentos e estímulos. Uma das melhores coisas da vida é poder aprender de forma constante e “desaprender” daquilo que nos amarra e nos faz colocar as pessoas em caixinhas!

Falei sobre a vergonha, sobre momentos em que sentimos vergonha, sobre como seria legal não ser julgado… e daí? A vida está aí, os desafios também… como podemos superar a vergonha? Eu diria que, mesmo com medo, vá! Não tem outra forma de vencer a vergonha além de ir e fazer! Na primeira vez, pode ser que saia meio torto, você vai receber críticas (aliás, sempre as receberá e cabe a você filtrar aquilo que pode servir como degrau ou não)… Use como aprendizado e vá de novo! E siga! O que que tem se você gaguejar, errar, esquecer? Continue a nadar! Amanhã é um novo dia e você sempre pode recomeçar, tentar de novo e se sair ainda melhor. Lembre-se: a vergonha é sua, e só cabe a você vencê-la. Somos nossos mais ferozes sabotadores! Tiremos esse peso de nossas costas. Você vai ver que será bem mais fácil!

E como a vergonha pode atrapalhar na carreira? De várias formas. Se considerarmos que a vergonha é uma forma de auto sabotagem, ela pode tirar você de oportunidades incríveis pelo simples fato de você achar que não é bom o suficiente para aquela vaga, aquela promoção, aquela movimentação lateral, ou mesmo aquele curso que você gostaria de fazer. Pergunto: você já deixou de aplicar para uma vaga interna porque achou que seu chefe iria rir da sua cara ou te demitir na hora? E pensou “ai, que vergonha”… Já deixou de aplicar para uma vaga em uma empresa porque pensou que não tem um currículo campeão e que passaria vergonha na hora da entrevista? Pois então, você já está se condenando antes mesmo de ter uma sentença. Aqui, vale o mesmo conselho: apenas vá! Ou você realmente acha que o Steve Jobs se deixou vencer pela vergonha quando lançou o Ipod? Ou que o Bill Gates, um introvertido de marca maior, abandonou seus sonhos porque deixou a vergonha falar mais alto? Ou que o Steven Spielberg teve vergonha da sua ideia do filme Tubarão e não filmou? Pense em tudo o que o mundo teria deixado de ter se todos fossem vencidos pela vergonha.

Frutos

Somos frutos

(quem dera) de um ato de amor

(antes fosse) de um ato consensual

(todos esperam) de uma decisão consciente

Seja como for, aqui estamos

Uma vez nascidos, tememos a morte

E vivemos fugindo dela,

Para, ao final, sucumbir

(que irônico)

Culpamos nossos genitores de (quase) tudo

Até do que sequer eles sabem que carregamos

Brigamos até o dia em que já é tarde demais

(o tempo sempre é curto)

Não é justo um pai sobreviver ao filho

Então, o filho fica para cuidar do pai

Que não quer

(quanto trabalho)

Nem todo filho quer ser pai

Ou todo pai quer seu filho

Mas aí está: todos os dias filhos nascem

(quem pediu para nascer?)

O amor dos pais é desejado

Mas não acontece para todos

A vida é dura, o mundo é mau

(quem irá nos proteger)

Lobo, galinha, ganso, urso, tigresa, leoa

Antes os animais do que os humanos

Para representar o amor incondicional

(mas eu te amo só se você me amar)

Há desconforto no passar do tempo

Nas palavras duras, não ditas

Há certo alívio no passar dos anos

No esquecimento das brigas

(quando foi isso mesmo)

Somos todos frutos

De uma explosão, programada ou não

O que se faz de nós

Meros pedregulhos jogados ao mundo

(segure o choro)

Eliana Leite

(03/08/2021)

Listas

Você faz listas? Eu faço. Não sou exatamente “a louca das listas”, mas gosto de, eventualmente, pegar um caderno ou o bloco de notas do celular e mandar uma lista de “to do´s”, compras, lembretes. Minhas listas, ultimamente, têm sido simples. Há um tempo, fiz lista de projetos, viagens, atividades a longo prazo. Não sei se por conta da Pandemia, tenho pensado a curto, no máximo, médio prazo. Porém, algumas coisas aconteceram e eu me peguei olhando para o futuro e me questionando – o que farei?

O que estou deixando de fazer devido à rotina que me engole? O que não estou enxergando ou o que estou negligenciando? Taí uma lista que eu poderia fazer.

O gatilho para esta reflexão veio de duas formas: uma foi a leitura (em curso) do livro “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” (Lori Gottlieb) e outra de uma conversa com meu pai. No livro, a autora fala, em um determinado capítulo, sobre uma “lista” cujo mote é: “antes de morrer, eu…” Ela discorre sobre o fato de que prolongamos, ou ignoramos, a morte ao imaginar coisas que faremos durante a vida (mas que não necessariamente faremos ou, ainda, colocamos uma data). Sem saber ao certo quando morreremos, dizemos coisas como “antes de morrer, vou conhecer a China”, ou algo parecido. Agora, imagine que você saiba que sua morte está próxima. Que em um ano você partirá. Concorda comigo que essa lista toma um corpo e um sentido completamente diferente? Você pode passar a focar em relacionamentos, ações simples, ou mesmo colocar em prática projetos que sempre quis tirar do papel.

Na conversa com meu pai, que completou 87 anos em 2021,ele disse “eu não temo a morte. Não sei quanto ainda viverei, mas não tenho esse medo, que muitas pessoas têm.” Essa frase dele me remeteu a uma conversa que tivemos há muitos anos, quando eu era criança. Lembro-me claramente dele fazendo a barba  e eu perguntando sobre a morte. Ele, de uma forma muito natural, explicou que a morte fazia parte da vida e que não havia porque temê-la. Explicou que as pessoas ficavam tristes (luto), mas que a vida não parava para quem ficava.

Juntando esses dois momentos, fiquei pensando sobre minha lista. Compartilhei esse pensamento com uma amiga e propus que fizéssemos uma lista de 10 coisas que faremos “antes de morrer”.

Não foi fácil fazer a lista e tenho certeza de que a minha contém coisas que talvez eu não faça porque o tempo, ah o tempo, passa e tudo muda. Antes da Pandemia, eu não havia parado para pensar que, por uma questão sanitária, não poderia viajar por mais de um ano e meio. Eu amo viajar. Adiei viagens que poderia ter feito antes. Por que? Porque eu achei que teria tempo e oportunidade de fazê-lo livremente.

E você? O que adiou e agora não pode fazer porque estamos em meio a uma Pandemia?

A lista poderia ter outro título, como “depois que a Pandemia acabar, eu…”, mas eu não sei como e quando isso vai acabar, o que vem pela frente…

Portanto, quero manter a forma original. Aqui vai minha lista:

Antes de morrer eu…

  1. Vou para a Itália
  2. Vou morar no interior
  3. Vou escrever um romance épico
  4. Vou escrever um roteiro de curta metragem
  5. Vou escrever um roteiro de filme
  6. Vou conhecer o Leste Europeu
  7. Vou para São Francisco
  8. Verei meu afilhado crescer e realizar seus sonhos
  9. Verei o Patriarcado cair
  10. Visitarei a vindima em São Joaquim, SC.

Veja… não é fácil. Fiz o que veio à minha mente no momento, fechei os olhos e, de verdade, ouvi meu coração. Como falei, viajar é algo de que sinto muita falta.

Quem sabe, eu consiga “ticar” esses itens, de fato, antes de partir desse mundo…

Eliana Leite

11/06/2021

Nós e Apertos

Aquele velho e conhecido aperto no peito

O nó que se forma ao se guardar o sentimento

Remoer

Por temer que a voz que vai sair seja um rugido

Rugido que pode espantar

Por não ser compreendido, ou bem visto

Nem por mim mesma.

Então, olho para o sol, para o céu, sinto o vento em meu rosto

Lembro-me do porque me sinto assim

Dos outros nós que desatei

E vou digerindo.

Chega de úlceras

Chega de ervas daninhas.

O rugido pode ser escrito

Transformado

E somente por mim mesma.

Eliana Leite

15/02/2021

Quando me alinhei ao meu propósito

Dizem que a mágica acontece fora de nossa zona de conforto.

E como podemos definir “zona de conforto”? Alguns preferem “zona de comodidade”. De qualquer forma, conforto, comodidade, são lugares quentinhos e aos quais estamos acostumados. Bom ou ruim, fato é que a festa não está rolando neste endereço.

Posso dizer que me encontrava em uma zona de conforto ao não mais me sentir desafiada e não mais ter aquele frio na barriga para encarar o dia que se colocava à minha frente. Quando comecei a dar de ombros, a achar que tanto fazia esta ou aquela roupa, não queria sequer passar um batom para sair. Alguns dirão que isso não é zona de conforto e sim um passo para a depressão. Digo que o conforto, ou a comodidade, tira sua vaidade, sua vontade. Se pode levar a um quadro depressivo, deixo aos entendidos no assunto avaliarem. Voltando ao tema — você já se pegou fazendo as coisas no piloto automático? A rotina me engoliu de tal maneira, e eu permiti, que não havia espaço para criar, inovar, pensar…

Tive o “click” há cerca de 3 anos, quando fui a uma reunião cujo tema me interessava deveras e não consegui prestar um minuto de atenção. Fiquei navegando na Internet pelo celular, batendo papo no Whatsapp, fazendo lista de “to do´s” pessoais e até lista de mercado. Quando percebi, a reunião estava no fim e eu não sabia o que havia sito dito. “Vou esperar a ata”, pensei, e então quis me bater com o mesmo celular que me escravizava.

Os dias no trabalho se arrastavam e eu, já um pouco mais consciente, passei a me incomodar comigo mesma. Como se me olhasse do alto, notei que era um poço de reclamações e negatividade. Perguntei a mim mesma como as pessoas próximas a mim me aguentavam e como eu mesma me aguentava? Passei então a buscar um caminho que pudesse me tirar daquele lugar. Pensei em mil coisas: terapia, yoga, jogar tudo pro alto sem nenhuma estratégia… Após muitas conversas, fiz um trabalho de coaching voltado à busca de meu propósito. Quem me ajudou foi o Edu Seidenthal, coach, fundador da Rede Ubuntu de Eupreendedorismo. Cito o nome dele pois penso que devemos agradecer nominalmente às pessoas que nos salvam. O trabalho de buscar meu propósito foi essencial para me trazer onde estou hoje. Além disso, foi (e vem sendo) uma jornada deliciosa. Da negatividade, passei para um sentimento de acreditar que seria possível. Quando vi, uma onda de otimismo me atingiu. Acabei resgatando sentimentos que estavam praticamente enterrados desde, sei lá, 2004, ou até antes. Fui olhar os textos que escrevi em 1993, 94, 95… Reatei comigo mesma.

Foi então que fui fazer conta. Quanto tempo poderia segurar as pontas sem ter uma fonte de renda, a curto, médio e longo prazo? Em maio de 2019 me desliguei da empresa onde trabalhava há 7 anos. Planos A, B, C… Z. Como trabalhar com o que eu gosto e ainda me dedicar a projetos e à minha grande paixão: a escrita? Com esta equação me deparei e com ela estou lidando atualmente, somando-se a isso uma pandemia que assolou o mundo. Não é fácil, mas quem disse que seria? Estou saboreando cada momento. Há incertezas, dúvidas, por vezes bate aquele desespero, mas procuro então focar lá na frente, me apoiar no que me fez querer mudar e, por incrível que pareça, viver um dia de cada vez. Quando perseguimos nosso sonho de forma incansável, o resultado só pode ser positivo.

Ultrapassei a linha imaginária do medo. Eu era a pessoa que menos acreditava em mim mesma. Agora, sou minha fã. Estou alimentando meu sonho, minha alma. Pode dar tudo errado? Pode, mas agora, não será esse meu foco. O que me motiva a seguir é o fato de eu saber que não estou sozinha. Há alguns anos, eu jamais teria saído de um emprego, pois meus pés estavam fincados no chão. Se hoje tenho asas, é porque tive apoio para poder erguê-las e sentir o vento por entre elas.

Obrigada, Fábio Miranda, meu marido, meu amigo, por estar ao meu lado e por ser parte de tudo isso!

E assim, concluo… Mudei o rumo de minha vida após os 40…… Cedo? Tarde? Louca? Corajosa?

Viverei e verei.

Colocar as ideias no lugar e fazer as coisas acontecer

Acreditar que é possível com base no autoconhecimento

Estabelecer um objetivo com base em ferramentas existentes

Olhar de fora para dentro

2020 – 30 Livros em meio à Pandemia

O que dizer de 2020? Há quem diga que ele trouxe aprendizados, há quem o queira cancelar. Seja como for, uma coisa é certa: estivemos, e estamos, em meio a uma Pandemia do Coronavírus, e tudo mudou. Houve perdas, muitas perdas. Redefinições, perguntas sem respostas, angústias, crises de ansiedade… Seria, mesmo, o ano do CTRL + ALT + DEL? Enfim, ele aconteceu, está quase acabando e 2021 se iniciará ainda com a Pandemia pairando no ar. Vamos torcer para que dê tudo certo, como sempre.

Fato é que foi um ano em que eu li bastante. Descobri livros que talvez nunca leria se não tivesse ingressado em clubes de livro, revisitei minha estante em busca dos livros ali meio abandonados e assim foi. 30 livros. 30 viagens. 30 experiências únicas. Divido aqui com vocês desde o primeiro até o trigésimo, com alguns comentários e insights. Espero que gostem e que possam, de alguma forma, se inspirar e esperar pelo melhor, que, como se diz por aí, virá.

  1. Emma, de Jane Austen

Iniciei o ano de 2020 lendo um clássico da literatura inglesa. Tudo em razão da criação de um clube de leitura entre amigas, que já fez seu aniversário de 1 ano! Nosso clube se chama “Livres no Livro” e decidimos começar por este “classicão”. Eu gostei do livro. Tem ironia, tem romantismo, tem a aristocracia inglesa cheia de críticas e autocríticas de Jane Austen. Definitivamente, não é o meu preferido, ainda. Li “Orgulho e Preconceito” e gostei mais. Porém, é um bom livro, não há como negar. E rendeu uma excelente discussão em nosso clube!

  • The Mermaid’s Voice Returns In This One, de Amanda Lovelace

Tive contato com o trabalho de Amanda Lovelace em fevereiro de 2019. Gostei do estilo da escrita dela, da poesia livre, contundente e por muitas vezes libertadora. Este foi o terceiro de uma trilogia chamada Women Are Some Kind of Magic (o primeiro é A Princesa Salva a Si Mesma Neste Livro e o segundo, A Bruxa Não Vai Para a Fogueira Neste Livro). É uma escrita moderna, feminina, feminista e sem padrões. Vale a pena conferir para conhecer coisas novas, sem preconceitos.

  • Minha História de Amor, de Tina Turner

Li em exatos 7 dias… mais por ser fã incondicional de Tina do que pela qualidade do livro… Conheço a história de Tina com Ike por meio de notícias e filmes, e foi interessante saber o “depois” –  como ela conseguiu sobreviver e reencontrar o amor. Que ela é uma estrela e um ícone, não há dúvidas! Mas é também um ser humano, buscando seu equilíbrio e sua felicidade após catar seus próprios caquinhos. Talvez eu esperasse mais detalhes sobre as músicas, sobre a parte criativa pós-Ike… achei um pouco repetitivo.

  • A Vida Sem Crachá, de Claudia Giudice

É um livro inspirador, que trata da transformação de uma mulher, de executiva em uma empresa por 23 ano a empreendedora “mão na massa”. Gostei de muitas das passagens que falam sobre a experiência pessoal. Algumas partes que falam de como colocar o Plano B em ação são um pouco enfadonhas, mas há alguns bons conselhos, ainda que genéricos, ali. Eu esperava algo mais pessoal, mais confessional, mas gostei, no final do dia, do estilo de escrita dela e morri de vontade de conhecer a pousada. E, claro, me senti com vontade de seguir com meus planos! Ela deveria agora escrever mais um livro sobre o dia a dia da pousada após esses anos e como ela se sente, contar mais histórias interessantes que acontecem lá. Ela tem um estilo de escrita que envolve. Vale a pena dar uma conferida.

  • Ruído Branco, de Ana Carolina

Ana Carolina é uma artista completa! Além de cantora, compositora, multi-instrumentista, é uma poeta e uma escritora de mão cheia! Adorei saborear este livro.

  • Textos Cruéis Demais Para Serem Lidos Rapidamente, de Igor Peres da Silva

Os textos não são cruéis, mas sim crus e verdadeiros… São textos para guardarmos para reler em todos os momentos da vida, textos belos e profundos. Adorei e recomendo!

  • Sobre os Ossos dos Mortos, de Olga Tokarczuk

Este foi o segundo livro do nosso clube “Livres no Livro”. Uma leitura surpreendente, com umas das personagens mais intrigantes que já conheci. Quando discutimos o livro, já estávamos em plena quarentena e fizemos a conversa via Zoom. Foi interessante, pois misturamos à discussão nossa visão do mundo que estava diante de nós naquele momento, e o que acontece ao ser humano quando ele não cuida do meio ambiente. O livro traz reflexões sobre relações humanas e sobre a relação com os seres vivos e a natureza, mas, principalmente, faz você não conseguir largar enquanto não chegar ao final.

  • A coragem de ser imperfeito: como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é, de Brené Brown

Após assistir a um Ted Talk da Brené Brown, me interessei pelo tema e fui atrás do livro. É uma leitura que recomendo, especialmente pelo fato dela ser uma pesquisadora e apresentar alguns fatos diferentes sobre o comportamento humano e a vulnerabilidade e a vergonha. Acho que são temas pouco explorados desta forma, com uma abordagem trazida por uma estudiosa.

  • Cyndi, Minha História, de Cyndi Lauper

É um livro para fãs. Gostei muito dos trechos em que ela fala de como compôs as músicas. Em vários momentos, li ouvindo uma de suas canções. Há um pouco de vai e vem, sem seguir muito uma cronologia… Valeu para conhecer melhor uma das minhas ídolas.

  1. Mulheres Não São Chatas, Mulheres Estão Exaustas, de Ruth Manus

Neste livro, Ruth Manus faz um apanhado de textos e reflexões sobre o feminismo e conscientização das mulheres sobre auto sabotagem, síndrome da Impostora e comportamentos tóxicos, dentre outros. Uma leitura importante, que faz pensar e permite acesso a outras autoras (para quem ainda não conhece) que abordam o feminismo sob diversas óticas. Recomendo!

  1. Lola & Benjamin, de Bruna Cosenza

Comecei devagar, mas logo me empolguei e aí acabei em questão de dias. Romance leve, história interessante, personagens reais (apesar de achar a construção da protagonista um pouco “chatinha”). O final prende e a mensagem é bonita. Para passar a quarentena e prestigiar jovens autoras brasileiras.

  1. Quando o Sangue Sobe à Cabeça, de Anna Muylaerte

No meio da Pandemia, me juntei a um segundo Clube de Livro, a Sala Tatuí de Leitura, e este foi o livro escolhido para discussão.

Anna Muylaerte é cineasta e roteirista. Escreveu roteiros de filmes como Castelo Rá-Tim-Bum, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Xingu, e dirigiu Durval Discos, É Proibido Fumar e Que Horas Ela Volta?

O livro foi idealizado pela Editora Lote 42, junto com a autora e teve a intenção de reunir contos escritos por ela na década de 90. Já no prefácio, encontramos a explicação da autora sobre o momento pelo qual passava quando escreveu estes contos. Era um período de crise na indústria do cinema, todos estavam apreensivos. Ela, por seu lado, passou a escrever, escrever e escrever. Após estes contos, escreveu roteiros para TV e depois deslanchou no cinema. Particularmente, gosto dos filmes dela. Foi por este motivo que comprei o livro (além de gostar de contos). São 6 contos, todos sobre mulheres, em algum momento de suas vidas, retratos de um cotidiano, da vida como ela é. Anna Muylaerte tem um humor ácido que me agrada. Junta-se a isso um leve sarcasmo ao narrar as mazelas da classe média. Para quem viveu naquela época, é uma delícia de leitura. Chega até a ser nostálgica.

  1. Ariel, de Sylvia Plath

Comprei este livro (talvez tardiamente) em 2019, na Livraria da Travessa, em São Paulo, no bairro de Pinheiros. Senti-me atraída pela capa, além de fazer um tempo que queria ler algo de Sylvia. Por que existem autores que ensaiamos ler e não o fazemos? Será que é porque não estamos prontos para eles e, então, o tempo vem e nos informa “agora, é a hora”? Acho que foi assim que me senti ao ver este livro, sua capa, e então o abri, vi que era uma edição restaurada e bilingue, com os manuscritos originais. Livro comprado, ficou um tempo na estante, esperando. E assim foi que, em meio à quarentena do novo Coronavírus, decidi que o enfrentaria.

Tudo começa com a Apresentação – O Caso Ariel. Nada como ter o histórico do livro, quando ela escreveu, porque, o que isso significou. E acho que é preciso separar o trágico final de Sylvia de sua obra, ainda que ela mencione a morte em alguns poemas.

Vamos, então, ao prefácio, escrito pela filha de Sylvia, a também poeta Frieda Hughes. E, como toda filha, ela busca entender os pais. Critica a forma cruel como o pai foi tratado após a morte de Sylvia e publicação, por ele mesmo, de Ariel, como se estivesse vilipendiando o túmulo da esposa. Além de ter cometido adultério, teria interferido de forma indevida nos direitos autorais da autora. Ela diz que tais coisas “não guardam nenhuma semelhança com o homem que calma e carinhosamente” a criou, e com a ajuda de sua madrasta. E, completa que “o tempo todo ele manteve viva a memória da mãe que me deixara, e eu sentia como se ela estivesse tomando conta de mim, uma presença constante em minha vida.” Ela segue, relatando como era viver em torno de uma imagem “milagrosa” de tudo o que se referia à mãe. E então, finalmente, nos diz que “isso foi muitos anos antes de eu descobrir que minha mãe tinha um temperamento feroz e um caráter ciumento, em contraste com a natureza mais equilibrada e otimista de meu pai.” Cita, ainda, que houve ocasiões em que Sylvia destruiu o trabalho do marido, uma vez rasgando-o e outra queimando-o. Chega, então, à conclusão de que a mãe, “assim como era uma poeta excepcional, era também um ser humano”. Ela vê tudo isso como um restabelecimento da verdade, e uma forma de melhor compreender a mãe. Ela precisava entender tudo isso para poder entender a si mesma (entendemos a nós mesmos por meio de nossos pais, avós, antepassados, ancestrais). Frieda encerra o prefácio: com chave de ouro “Quando ela morreu, deixando Ariel como último livro, foi flagrada no ato de vingança, com uma voz que havia sido afiada e praticada durante anos, posteriormente com a ajuda de meu pai. Embora tenha se tornado uma vítima disso, no final das contas ele não negou sua maestria. Essa nova edição, restaurada, é minha mãe naquele momento. É a base do <em>Ariel</em> editado por meu pai. Cada versão tem significado próprio, embora as duas histórias sejam uma só.”

Devo admitir que ler Sylvia Plath não é fácil, pois ela tem um estilo hermético e intimista de escrita. Faz referências a coisas que viveu em seu dia a dia, mistura com momentos históricos, memórias e traumas. Na verdade, em minha opinião, os grandes poetas são aqueles que fazem com que você leia o poema e fique flutuando, tentando depois buscar um chão para pousar. Não necessariamente há o objetivo de “entender”, “decifrar”, “interpretar”. A própria Sylvia, quando lhe pediram para “explicar” os poemas em um programa de rádio, foi breve e seca. Não cabem explicações. Não cabe dissecar cada poema, em busca do momento em que ela se referia a tirar sua própria vida, ou se referia à traição do marido. Há muito mais do que isso. Há nuances, há explosões, há véus, há amor, há ódio e contemplação. Nem consigo resumir tudo isso em algumas palavras. Apenas leia.

  1. Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro

Todos devem ler este livro. Ponto final.

  1. Mulher Assimétrica, de Maria Luiza Corrêa

Esse livro me pegou… sou assimétrica, a vida é assimétrica e o próprio livro o é. A autoria fala da infância, juventude e vida adulta, com a irregularidade e confusão que é comum à vida. Comprei pela Editora Lote 42 e foi o segundo livro que discutimos no clube de leitura da Sala Tatuí de Leitura. Recomendo a leitura! Há poesia e assimetria na vida e na arquitetura.

  1. 40 Pequenos Desabafos: De Quem Não Nasceu Para Quarentenas, de Ruth Manus

Baixei no Kindle e li em poucos dias. Uma leitura rápida, sensível, atual e intimista, de quem queria mesmo desabafar apenas.

  1. Um Caminho para a Liberdade, de Jojo Moyes

Terceiro livro que discutimos no “Livres no Livro”.

Disclaimer 1 – sou fã da Jojo Moyes.

Disclaimer 2 – até agora só não curti muito 2 livros (e foram os dois da tal da trilogia “Antes de Você”). Dito isso, vamos ao livro.

Jojo sai de sua zona de conforto (mulher urbana) para se dedicar inteiramente a uma história que se passa nas montanhas de Kentucky no final dos anos 30. O começo foi meio devagar, mas depois que a história emplaca, não consegui mais parar de ler. Minha personagem favorita é a Alice, que parecia estar comigo aqui em casa, enquanto eu lia o livro. Jojo Moyes tem uma capacidade incrível de dar vida às personagens e torná-las verdadeiras, frágeis e fortes ao mesmo tempo. Ri e chorei e ao final me despedi dessa linda história. Espero q façam um filme . Por fim, o meu livro preferido dela continua sendo “A Garota que você deixou para trás”

  1. Distraídos, Venceremos, de Paulo Leminski

O que dizer de Leminski, a não ser que ele é demais? Leminski-se!

  1. O Ponto da Virada: Como Pequenas Coisas Podem Fazer uma Grande Diferença, de Malcom Gladwell

Confesso que fui com muita sede ao pote e achei que fosse descobrir coisas interessantíssimas, desvendar mistérios…, mas achei um pouco decepcionante e com pontas soltas. Algumas teorias meio “malucas”, na minha singela opinião. Terminei com aquela sensação de certo desapontamento.

  • Lute Como Uma Garota: 60 Feministas que Mudaram o Mundo, de Laura Barcella e Fernanda Lopes

Trata-se da reunião de 60 feministas que mudaram o mundo, sendo 45 estrangeiras e 15 brasileiras. É uma leitura muito interessante, pois traz o perfil de mulheres desde o século XVIII até os dias de hoje, com suas respectivas lutas e contribuições para o movimento, ainda que algumas delas não se declarem, de forma expressa, feministas. A estrutura do livro é de fácil e rápida leitura, apresentando uma breve história de cada mulher, suas principais realizações e frases de impacto. Achei a parte relativa às brasileiras um pouco mais enxuta, digamos assim, do que a parte estrangeira, embora tenha trazido histórias relevantes.

  • Afinidades Eletivas, de Johann Wolfgang von Goethe

A leitura é rápida, visto que curta, mas não por isso menos intensa. Eu não tinha em meus planos de leitura um livro de Goethe. Porém, como estou participando de um clube de leitura (Livres no Livro), este foi um dos sugeridos em um dos encontros e lá fui eu. Confesso que não foi uma das leituras mais agradáveis que fiz nos últimos tempos. A tradução do alemão antigo para o português se tornou bastante rebuscada, com palavras muito anacrônicas (obrigando o leitor a usar o dicionário diversas vezes) e construções um tanto confusas. Tentando me abstrair disso, dei uma chance ao livro e fui até o fim. Creio que cometi um erro ao fazer uma leitura mais superficial, analisando as personagens e seus comportamentos, o que me fez considerá-los todos bem irritantes, principalmente Eduard e Ottilie. Ao discutir o livro com o grupo, pude ver que o autor fez tudo isso propositadamente, a fim de tecer uma ácida crítica ao casamento e aos costumes da época. Ainda assim, o estilo da escrita e a forma como o narrador se afasta de tudo e de todos, não me atraiu. Sim, é um clássico. Sim, é Goethe. Quem sou eu para criticar tal obra? Mas, como já disseram uma vez por aí “Não somos nós que lemos o livro; é ele que nos lê”. Eu e “Afinidades Eletivas” não chegamos a um acordo ao nos lermos um ao outro. Quando eu achava que estava embarcando, havia uma parada, ou uma nova direção que fugia de tudo aquilo que estava sendo narrado e eu perdia o fio, ou mesmo o interesse. Além disso, ficou em mim um gosto amargo ao final, de manipulação e de um falso dramalhão. Tenho absoluta certeza de que esta era a intenção do autor, mas não me chamou junto e eu terminei o livro quase dando graças aos céus que havia concluído a tempo para a discussão do clube. Poderia ter desistido, mas, sabe como é… Quantos livros ou filmes não levamos até o fim só para ter certeza de que podemos dizer que não gostamos? Este foi um caso e, embora tenha ouvido outras opiniões de amigas (uma ou outra concordaram comigo), minha conclusão é de que não gostei do livro. Existem livros que não gostam da gente e vice-versa.

  • O Inferno Somos Nós: do Ódio à cultura de paz, de Leandro Karnal e Monja Cohen

Recomendo muito! Uma leitura concisa, mas ao mesmo tempo profunda, que nos traz importantes reflexões sobre o mundo em que queremos viver.

  • Amora, de Natália Borges Polesso

Um ótimo livro de contos, muito bem escrito, repleto de poesia e amor. Eu tinha lido o romance da mesma autora, “Controle”, no ano passado, do qual havia gostado muito.

  • Após o Anoitecer, de Haruki Murakami

Este livro me aprisionou, por assim dizer, na madrugada de Tóquio. E essa prisão é tão fugaz quanto o passar da madrugada. Saí desta leitura apaixonada pela escrita de Murakami e agora quero ler os demais livros do autor.

  • A Pedra, de Yuri Pires

Mais um livro trazido pelo clube Sala Tatuí de Leitura (também da Lote 42).

O livro é surpreendente. Ao mesmo tempo em que traz uma linguagem coloquial, ligeira, nos faz refletir profundamente sobre o que é a vida e o que é viver. Os diálogos são incríveis e não há como não pensar nos dias atuais, em que vivemos o verdadeiro caos, em que pessoas morrem por conta de decisões erradas, em que a política comete os absurdos que comete e em que o povo elege quem elege. No final, tudo é Pedra mesmo, sem volta. O que podemos é decidir como faremos enquanto não viramos Pedra.

  • I Am Malala: The Girl Who Stood Up for Education and Was Shot by the Taliban, de Malala Yousafzai

Dos livros que estavam há um bom tempo na minha lista… obviamente, não há como negar a força desta jovem e toda a história de superação e luta por ideais. Ela quase morreu, sobreviveu e continua lutando pelo que acredita. Isso é admirável, ainda mais em uma cultura opressora. Porém, a narrativa do livro não é das mais fáceis. Demorei para engajar na leitura, sofri para fluir com a escrita, mas persisti. Malala é um símbolo muito importante é foi isso q me moveu a continuar. Corajosa e otimista. E, no final do dia, é o que importa.

  • Lugar de Fala, de Djamila Ribeiro

Uma boa forma de começar a entender o tema. A autora traz reflexões e conceitos importantes e elucidativos, em uma leitura rápida e necessária. Vale a pena considerar buscar as referências que ela nos entrega. Um ótimo apanhado para iniciar.

  • Damas da Lua, de Jokha Alharti

Um livro lindo, encantador, cheio de poesia e dor. Disse a uma amiga: “quero me casar com esse livro” – simples assim… senti todos os aromas, todos os amores e lágrimas de cada personagem. Maravilhoso!

  • Gigante Figura, de Fabricio Silveira

“Gigante Figura”, livro de Fabrício Silveira (ilustrações Denny Chang) é uma pequena joia da ficção brasileira, que merece atenção. O autor faz uma releitura da história de um homem extremamente alto, que se tornou atração de circo, na época da Primeira Grande Guerra. As ilustrações são um show à parte.

  • A Ciranda das Mulheres Sábias, de Clarissa Pinkola Estés

Por vezes, se assume que um livro curto significa uma leitura rápida e descompromissada. Isso é um engano comum, porque somos acostumados a associar quantidade com qualidade. Há algum tempo, venho valorizando muito livros “curtos”, pois eles concentram mensagens poderosas e o leitor tem que ficar muito atento para que esta mensagem não fuja de seu olhar. Dito isso, o livro A Ciranda das Mulheres Sábias é uma fonte inesgotável de pensamentos, mensagens e frases poderosas, condensadas em um livro pequeno e aparentemente inofensivo.

Este foi o último livro do ano discutido no clube “Livres no Livro”. Eu, particularmente, me apeguei ao livro e o quero em minha cabeceira para recorrer a ele em momentos futuros da minha vida (e não tenho “livros de cabeceira”).

CHÃO

O chão em que piso

Me conduz

Em dias ensolarados, chuvosos, nublados

Este chão pode ser duro, macio, terroso, verde

Não importa.

O chão em que piso

Não me deixa cair

Ele me leva em meio

Às águas, flores, pedras, raízes

Este chão se estende dentro de mim

Se transforma em meio

Às palavras, ao silêncio, ao toque, ao canto.

O chão em que piso

Na verdade, está em todo lugar

Ele sou eu, ele é você

E, tal qual a cachoeira,

Se renova, nos purifica

Encanta todos os dias.

Eliana Leite

27/09/2020

Resenha – Livro “Afinidades Eletivas”, Goethe

O livro retrata a relação entre quatro pessoas: Charlotte, Eduard, Otto (chamado como Capitão em todo o livro) e Ottilie. Os dois primeiros são casados e os dois últimos não se conhecem entre si, mas são convidados por cada um dos cônjuges (Ottilie por Charlotte e o Capitão, por Eduard) a se hospedarem no castelo em que vivem. Eduard, na verdade, é o que toma a iniciativa de chamar o Capitão, o qual se encontra em dificuldades financeiras e pede ajuda ao amigo de longa data. A contragosto de Charlotte, Eduard insiste em que esta atitude é a mais correta e que tudo ficará bem. Charlotte, por seu lado, entende que isso acarretará uma mudança significativa, e talvez penosa, à rotina do casal, que foi para o campo para, digamos, fugir deste tipo de interferência. Eduard insiste tanto que Charlotte acaba aceitando, não sem antes propor que também se convide sua sobrinha, Ottilie, para ficar no castelo, sob o pretexto de ajudar Charlotte nas atividades domésticas. Logo descobrimos que Charlotte pensa que a vida de Ottilie será mais útil e menos dolorosa no castelo do que no pensionato, onde não parece ter seus trabalhos valorizados e, ainda, é vítima do desprezo da filha de Charlotte, Luciane.

Dito isso, chega o Capitão, que se une ao amigo em conversas e trabalhos, deixando Charlotte com um sentimento inicial de solidão e de falta de ocupação, já que o Capitão passa a assumir o trabalho de construção que ela estava comandando. Resta então a Charlotte esperar por Ottilie, ansiando, assim, por uma companhia. Ottilie chega e, inicialmente, tudo parece se encaixar mais ou menos bem. Porém, o autor nos dá os sinais de que as tais afinidades eletivas, em uma aparentemente despretensiosa aula de química dos homens para Charlotte, serão a perdição de todos. Elementos que se atraíam passarão a se afastar em detrimento de outros, pelos quais as afinidades parecem ser maiores. E tudo isso pode também significar a destruição de um ou outro elemento.

Está é a base na qual Goethe escreve esta novela. A leitura é rápida, visto que curta, mas não por isso menos intensa. Eu não tinha em meus planos de leitura um livro de Goethe. Porém, como estou participando de um clube de leitura (Livres no Livro), este foi um dos sugeridos em um dos encontros e lá fui eu. Confesso que não foi uma das leituras mais agradáveis que fiz nos últimos tempos. A tradução do alemão antigo para o português se tornou bastante rebuscada, com palavras muito anacrônicas (obrigando o leitor a usar o dicionário diversas vezes) e construções um tanto confusas. Tentando me abstrair disso, dei uma chance ao livro e fui até o fim. Creio que cometi um erro ao fazer uma leitura mais superficial, analisando as personagens e seus comportamentos, o que me fez considerá-los todos bem irritantes, principalmente Eduard e Ottilie. Ao discutir o livro com o grupo, pude ver que o autor fez tudo isso propositadamente, a fim de tecer uma ácida crítica ao casamento e aos costumes da época. Ainda assim, o estilo da escrita e a forma como o narrador se afasta de tudo e de todos, não me atraiu. Sim, é um clássico. Sim, é Goethe. Quem sou eu para criticar tal obra? Mas, como já disseram uma vez por aí “Não somos nós que lemos o livro; é ele que nos lê”. Eu e “Afinidades Eletivas” não chegamos a um acordo ao nos lermos um ao outro. Quando eu achava que estava embarcando, havia uma parada, ou uma nova direção que fugia de tudo aquilo que estava sendo narrado e eu perdia o fio, ou mesmo o interesse. Além disso, ficou em mim um gosto amargo ao final, de manipulação e de um falso dramalhão. Tenho absoluta certeza de que esta era a intenção do autor, mas não me chamou junto e eu terminei o livro quase dando graças aos céus que havia concluído a tempo para a discussão do clube. Poderia ter desistido, mas, sabe como é… Quantos livros ou filmes não levamos até o fim só para ter certeza de que podemos dizer que não gostamos? Este foi um caso e, embora tenha ouvido outras opiniões de amigas (uma ou outra concordaram comigo), minha conclusão é de que não gostei do livro. Existem livros que não gostam da gente e vice-versa. Perguntaram, ainda, se eu leria “Fausto”. Penso que não. A não ser que alguém consiga me dizer que será totalmente diferente…

Em tempo, tenho que admitir que há algumas passagens, frase e diálogos de “cair o queixo”, um dos fatores que me fez permanecer na leitura. Deixo aqui algumas delas:

“Mas, em certos casos”, disse Charlotte, “é necessário e mesmo gentil preferir nada escrever a não escrever.”

“Mas quem afinal é tão educado que já não tenha, de modo cruel, imposto sua superioridade sobre os outros? E quem é tão altivo que já não tenha padecido frente a tamanha opressão?”

“Em todas as criaturas com quem deparamos, percebemos em primeiro lugar que elas guardam uma relação consigo mesmas. Soa estranho, naturalmente, exprimir algo que é autoevidente; porém, só podemos progredir com as outras pessoas na busca do desconhecido depois de termos compreendido de maneira cabal aquilo que sozinhos já conhecemos.”

“A impaciência é que, de tempos em tempos, assalta o homem, e aí ele acha que se pode dizer infeliz.”

“Por vezes o casamento pode ser desagradável, não o nego, e é certo que seja assim. Não nos casamos também com a consciência, da qual, frequentemente, gostaríamos de nos livrar por ser mais desagradável do que jamais poderiam ser um homem ou uma mulher?”

“Mas o momento presente não aceita a alienação de seus enormes direitos. Os dois passaram uma parte da noite entretendo-se com toda sorte de conversas e gracejos, que se viam tão mais desimpedidos quanto mais o coração permanecia ausente. Na manhã seguinte, quando Eduard acordou reclinado sobre o peito da mulher, parecia-lhe que o sol contemplava a cena desconfiado; a seus olhos, era como se o astro iluminasse um crime; afastou-se cautelosamente, sem fazer barulho, e, ao despertar, Charlotte viu, não sem surpresa, que estava sozinha.”

“Assim, cada um a seu modo, os amigos tocam a vida, com e sem reflexão; tudo parece seguir o rumo natural, da mesma maneira que, como ocorre nas situações excepcionais, quando tudo está em risco, continuamos a viver, como se nada nos ameaçasse.”

“Jamais nos distanciamos tanto do objeto de nossos desejos do que quando imaginamos possuí-lo.”

“Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser. Basta a alguém declarar-se livre para logo se sentir limitado. Se, porém, vem a se declarar limitado, sente-se livre.”

“Não existe consolo maior para os medíocres do que saber que o gênio não é imortal.”

“Os idiotas e os inteligentes são inofensivos. Os meio bobos e os meio sábios são os tipos mais perigosos.”

“Agora bastava torná-la inofensiva para as mulheres casadas, tornando-a também casada.”

“Mesmo nas famílias grandes e ricas, que tanto devem a seus antepassados, amiúde os vivos se lembram mais do avô que do pai.”

Qual foi a última coisa que você fez uma única vez?

Mariana acendeu o charuto. Lenta e pacientemente, como tinha aprendido. Era a primeira vez que ia sozinha ao clube de charutos. Resolveu pedir uma dose de uísque. Ao fundo, tocava um jazz suave. Notou que uma mulher a observava. A mulher se aproximou. Loira, alta, de uma beleza não óbvia. Seu nome era Cecília e trabalhava lá. Começaram a conversar sobre charutos. Mariana confessou que era uma iniciante. Cecília se sentou. Fumava um cigarro. Pediu um Negroni. Mariana perguntou se ela podia beber no trabalho. Cecília riu e comentou algo como aquele ser o melhor trabalho do mundo. Quando ia perguntar há quanto tempo trabalhava ali, alguém chamou por Cecília, que pediu licença e se foi. Mariana então voltou a atenção para o charuto e o uísque. Deixou-se embalar pelo som e divagou sobre aquela noite, um encontro consigo mesma. No dia anterior, estava lamentando com a irmã sobre o fato de não encontrar companhia para sair à noite, como era difícil conciliar agendas, principalmente pelo fato de as amigas estarem casadas, com filhos. Quando terminou de reclamar, sua irmã apenas perguntou porque ela não ia sozinha. Não precisava depender de ninguém para sair de casa. E ainda arrematou com um “pare de reclamar e vá viver a vida”. Com este pensamento, resolveu sair do trabalho e ir ao clube de charutos. Ela já tinha ido duas vezes, no ano passado, com seu amigo Caio, que agora vivia em Londres. Conversavam bastante por WhatsApp e Skype, mas ela sentia muito sua falta. Foi então que decidiu mandar uma mensagem para ele acompanhada de uma “selfie”, dizendo “adivinha onde eu estou?”. Porém, a mensagem não foi lida por Caio. “Deve estar ocupado”, concluiu, frustrada. Pensou em postar a foto no Instagram, mas desistiu. Guardou o celular na bolsa e decidiu ter aquela noite para si. Sinalizou para a garçonete, que a avistou e logo se aproximou. Pediu uma água com gás. Assim que a garçonete saiu, Cecília se aproximou novamente.

               – Desculpe ter saído daquela forma. Tive que resolver um probleminha.

               – Imagine, não precisa se desculpar.

               – E então, está curtindo a noite?

               – Sim, estou me dando esse direito.

               – Veio sozinha?

               – Sim. Não é algo que eu tenha o costume de fazer, mas decidi que deveria.

               – Você não precisa se explicar para mim. Muitas pessoas vêm aqui sozinhas.

               – Não estou me explicando… é só que… – e Mariana ficou sem saber o que dizer.

               – Relaxa, mulher. Vamos lá, me conte sobre este charuto.

               – Ah… sim… gostei dele. Tem um bom fluxo, suave, combina com o uísque. É nacional.

               – Você comprou aqui?

               – Não, esse eu ganhei de um amigo. Foi ele que me apresentou esse lugar.

               – Não me lembro de você. Quando vieram?

               – No ano passado. Nossa, mas tantas pessoas passam por aqui. Você não se lembraria.

               – Digamos que eu sou uma boa fisionomista. Certamente me lembraria de você. Mas no ano passado eu ainda não trabalhava aqui. Comecei no início deste ano.

               – Onde você trabalhava antes?

               – Eu estava em Cuba. Tirei um ano sabático e fui para lá.

               – Uau! E foi bom?

               – Foi uma experiência maravilhosa, mas não volto mais. Certas coisas temos que fazer uma vez. Qual foi a última coisa que você fez uma única vez, fora sair sozinha à noite?

Mariana ia responder, quando a garçonete chegou com a água. Enquanto servia perguntou se ela queria comer algo. Cecília recomendou o canapé de salmão defumado. Mariana pediu e, assim que a garçonete se retirou, respondeu:

               – Acho que minha “única vez” foi ter ido à Bahia no Carnaval. Nunca mais voltei e nem pretendo. Quase morri pisoteada.

Cecília riu:

               – Eu não suporto multidões.

               – Eu também não. Prefiro lugares como este.

               – Daqui a pouco vai chegar um grupo de mulheres, uma confraria. Posso te apresentar para elas, se quiser. O grupo é animado e elas sempre gostam de receber pessoas novas.

               – Adoraria! Não sabia que existiam confrarias de mulheres para charutos.

               – Pois é, nós estamos dominando o mundo! Você vai gostar, tenho certeza. Eu vou coordenar a degustação.

               – Ótimo! Obrigada.

               – Vou me preparar para recebê-las. Te chamo.

E novamente Cecília se foi. Desta vez, Mariana se pegou olhando enquanto ela se movia. Terminou o uísque e pediu mais uma dose para a garçonete. Continuou apreciando seu charuto, tomando notas mentais do gosto, do cheiro, observando como a fumaça saía de sua boca, rumo ao ar condicionado. Assim que a bebida chegou, resolveu pegar o celular e anotar algumas das sensações. Quem sabe não mostraria para sua mais nova amiga? Quem sabe não escreveria depois, em um post no seu blog? Terminou de escrever, guardou o celular na bolsa e viu que algumas mulheres chegavam ao clube e subiam as escadas. Alguns minutos depois, Cecilia a chamou. Mariana não teve dificuldade de se enturmar. O grupo era formado por mulheres de diferentes estilos, todas com um interesse em comum: charutos. Cecília iniciou com um breve e imponente discurso sobre como o charuto pode trazer experiências diferentes e inesquecíveis, e como aquele grupo, e outros que se formavam ao longo do país e do mundo, demonstravam que não era um universo de homens, muito pelo contrário. Assim como o vinho, o café, o uísque, o charuto não poderia ser mais predominantemente masculino. Terminou a introdução com um vídeo rápido que mostrava mulheres trabalhando na fabricação dos charutos, e outras ao lado de familiares, donas de seus negócios e com fotos do clube em que estavam e dela própria como sommelier. Todas a mulheres ali presentes aplaudiram efusivamente e Cecília agradeceu, sem um pingo de vergonha, muito altiva e dona de si, o que, para uma mulher, costuma ser um sinal de arrogância. Mas não ali. Era um carimbo de amor próprio e conhecimento de causa. Mariana sentiu orgulho ao ver uma mulher determinada, se colocando daquela forma. Ela mesma não era tão autoconfiante, sabia disso. Cecília não perdeu tempo e já iniciou a noite apresentando o charuto que seria degustado naquela noite. “Antes de mais nada, quero dizer que não há essa questão de charutos masculinos ou femininos. O que existe é o paladar e, acima de tudo, o costume. Qualquer pessoa que comece a fumar charuto, não vai direto para um “maduro”, como chamamos, que é um charuto mais potente. Assim como com vinhos e cafés, sempre começamos com algo mais leve, para acostumar o paladar, o olfato e treinar nossos sentidos. Hoje vamos degustar um nacional, da Bahia, o Dona Flor, que tem um sabor mais suave e agradará a todos os paladares, tenho certeza” Mariana ficou encantada com a forma pela qual Cecília acendeu o charuto. Ficou observando os movimento suaves, porém firmes, e guardou na memória para treinar depois. Uma das presentes comentou: “Ela é demais… Olha quanta classe”. Então, o charuto foi degustado por cada uma das presentes para que comentassem sobre suas características. Para harmonizar, tomavam uísque e conhaque e, para matar a fome, carpaccio. Mariana ficou curiosa sobre o grupo e assim que teve a chance, perguntou para Cecília como poderia se tornar parte. Cecília deu um sorriso e chamou uma moça negra, alta e com o cabelo quase raspado:

               – Erika, essa é a Mariana, Mariana essa é a Erika, a dona da confraria.

               – Oi, Mariana, é um prazer tê-la aqui conosco. Como ficou sabendo?

               – Ah, a Cecília me chamou… Eu estava lá embaixo fumando meu charuto e…

               – Ela quer saber como fazer para se associar à Confraria. Vou deixá-las a sós – cortou Cecília, e saiu para dar atenção a outro grupo.

               – Me conta, Mariana, há quanto tempo você curte charutos?

               – Ah… não muito… Sei lá, no máximo um ano… e olhe lá. E não fumo muito, pois meu amigo que gosta e que me apresentou foi morar fora… fiquei sem companhia…

               – Hm… Bom, você sabe que fumar charuto pode ser algo muito prazeroso para se fazer a sós, não é?

               – Descobri isso hoje, por incrível que pareça.

               – Vamos ao que interessa: para fazer parte da Confraria, basta assistir a um vídeo. Você tem Instagram?

               – Tenho, sim. É @mariblue1976.

               – Deixa eu ver aqui… Pronto, te mandei a solicitação. É só você aceitar e eu mando o link do vídeo. Quando você terminar, vai receber algumas instruções de associação, nada de mais, só para confirmar que você é você mesma. Não há custo na associação. Quando temos estes eventos, cobramos um valor para o ingresso no clube, que inclui o charuto, a bebida e a comida.

               – Que legal! Vou adorar participar!

               – Ótimo! Considere-se uma de nós já! Fique à vontade e não se esqueça de ver o vídeo. Agora, tenho que ir pois preciso acertar algumas coisas com a Cecília.

               Mariana se sentiu peculiarmente pertencente a algo naquela noite. Há quanto tempo não fazia algo assim, do nada, sem alguém que a tivesse levado, ou alguém conduzindo tudo e ela sendo uma coadjuvante. Ser a atriz principal da própria vida era bom, concluiu. Ainda que aquilo fosse uma pequena parte do todo, era um bom começo. Serviu-se de mais carpaccio e uísque e foi até uma roda aleatória de 4 mulheres que pareciam bastante compenetradas na degustação do charuto. Apresentou-se e as quatro se juntaram num “oi” animado. Uma delas, que Mariana achava que era Daniela, perguntou se ela era nova no grupo. Mariana explicou como foi parar ali e se integrou à conversa. Estavam, de fato, conversando sobre o charuto e comparando anotações. Pediram para Mariana degustar e falar o que achava das notas, do fluxo, do sabor, do cheiro, etc. Foi uma experiencia sensorial única, em que Mariana se esqueceu do mundo lá fora. Estavam falando sobre a importância de terem mais charutos nacionais nas degustações, quando Cecília anunciou o fim do evento:

               – Charutandas, como sabem, esses eventos têm começo, meio e fim. Está na hora de encerrarmos, mas convido todas a descerem e terminarem seus charutos e aproveitarem o local. Vejo vocês no próximo!

               – Charutandas? – perguntou Mariana a Daniela.

               – Pois é, esse é o nome da nossa confraria. Gostou?

               – Interessante! E a Cecília sempre apresenta o charuto?

               – Sim, ela é nossa sommelier do coração. A Erika a conhece há algum tempo e as duas decidiram montar um grupo de mulheres. A Erika toca toda a parte de divulgação, associação, custos e a Cecília faz o show. Dá super certo.

               – Ah, entendi. Que legal. Amanhã mesmo vou assistir ao vídeo para me associar.

               – Você vai adorar. Bom, tenho que ir. Meu marido já me mandou mil mensagens. Até parece que o mundo vai acabar porque estou fora de casa à noite. Eu hein… Beijos, querida, foi um prazer.

Quando Mariana se deu conta, todas já haviam descido. Desceu também e resolveu ir embora, pois já havia bebido sua cota de uísque e fumado mais do que tinha planejado. A cabeça doía. Estava na fila do caixa quando Cecília a abordou:

               – Já vai?

               Mariana se virou, sobressaltada:

               – Que susto… Sim, está tarde e estou cansada. Mas foi maravilhoso! Adorei! Obrigada por me chamar. Foi uma experiência e tanto!

               – Fico feliz que tenha gostado. Vai se associar?

               – Ah, vou sim. Amanhã mesmo.

               – Então nos veremos mais vezes. De qualquer forma, vou deixar meu cartão com você para quando quiser bater um papo. Eu tiro folga aos domingos. Podíamos almoçar, o que você acha?

               – Claro… seria ótimo…

Mariana entrou no Uber e ficou olhando para o cartão de Cecília. Afinal, era apenas um convite para um almoço, em um domingo qualquer. Por que isso a afetava tanto? Por que se sentiu incomodada, como se fosse um convite para um encontro? Mariana estava se precipitando, sendo preconceituosa? Não sabia absolutamente nada sobre a orientação sexual de Cecília. E se ela só quisesse mesmo conversar, estreitar a amizade? Isso não é possível? E se Cecília fosse um homem, teria Mariana se sentido lisonjeada ao invés de incomodada? E por que Mariana ficou com a impressão de que Erika e Cecília já tinham sido um casal? Essas ideias ficaram martelando a mente de Mariana até chegar em casa. Deixou o cartão sobre o balcão da cozinha, tomou um banho e tentou dormir. Estava cansada fisicamente, mas a mente pregava peças. Pegou o celular e viu a mensagem de Caio: “Arrasando no charuto, hein? E aí, como foi? Ou está sendo?”. Viu que ele tinha escrito há uma hora e resolveu responder. Contou como foi a noite e sobre Cecília e Caio disse para ela não ficar encanada. Por que não poderiam ser amigas? Ele até deu uma provocada em Mariana, soltando um “ah, mas vai que você gosta?”, ao que ela respondeu “deixa de ser besta” e o assunto parou e a conversa rumou para outros temas. Era mais de duas da manhã quando Mariana deixou o celular sobre o criado-mudo e se deitou. Dormiu um sono leve, curto e nada revigorante. No dia seguinte, acordou cedo e foi trabalhar. Estava com dor de cabeça e enjoada. Comeu alguma coisa no caminho, tomou um café preto e tentou se concentrar na reunião que tinha logo pela manhã. Sem sucesso. Em meio à discussão do grupo sobre como engajar os funcionários que haviam acabado de responder à pesquisa de clima, Mariana não conseguia parar de pensar na noite anterior. O que, de tão especial, havia acontecido? Ficou divagando sobre como entraria em contato com Cecília, sobre o que conversariam. Pensou na roupa que iria vestir, se usaria maquiagem ou não, perfume? Que tipo de comida será que Cecília gostava? Será que era daquelas magras que comiam de tudo? Mariana olhou para a barriguinha saliente e se lembrou de que precisava retomar a academia. “Por que estou pensando nisso, meu Deus?” A reunião acabou, sem que chegassem a nenhuma conclusão, como era praxe. Marcaram outra data para buscar uma solução. “Mais do mesmo”, pensou Mariana. Ao chegar à sua mesa, Mariana assistiu ao vídeo das Charutandas, acessou o site e se cadastrou. Em seguida, recebeu o ok por e-mail de sua associação e algumas instruções. Ficou feliz por ter dado continuidade e por fazer parte de algo que não a brigada de incêndio da empresa. O restante do dia se arrastou em atividades rotineiras e mais reuniões inconclusivas, até que, ao sair do trabalho, Mariana foi até a academia perto de sua casa e retomou o treino, abandonado há algumas semanas. Tomou um iogurte antes de se deitar e pensou “agora vai!”. Sabia que isso duraria pouco, mas mesmo assim estava tentando se animar. A auto sabotagem já lhe era familiar. Por isso fazia terapia, mas também tinha dado alguns canos na Dra. Lídia. Amanhã ligaria para remarcar as consultas. De repente, Mariana percebeu que sua vida estava quase à deriva. Um barquinho no meio do mar, sem direção alguma. E ela ali, ao sabor do vento. Novamente, demorou para pegar no sono, em meio à auto análise tardia, e quando foi dormir, eram quase três da manhã. Assim que o alarme tocou, teve raiva de si mesma. Parecia um zumbi. Tomou uma ducha rápida para acordar, pegou qualquer coisa na geladeira para comer no carro e se foi. Ao chegar ao trabalho, logo se enfiou em reuniões intermináveis, desta vez sobre inclusão e diversidade e como ter esse departamento na empresa. Ela já tinha dado sua opinião várias vezes a respeito do tema, da importância e do cuidado que teriam que ter para não se tornar algo oportunista e desajeitado. Porém, pelo rumo que a conversa estava tomando, ficou desanimada e não teve vontade de comentar além do necessário. Sabia que, ao final, sairia algo oportunista e desajeitado e que ela teria que consertar depois, como sempre. Assim que saiu da reunião, marcou a consulta com a terapeuta e ainda levou sermão da secretária por ter demorado tanto. Almoçou sozinha, na mesa, para terminar tudo o que tinha e sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Conseguiu ânimo para ir novamente à academia. Correu por meia hora e fez pilates. Chegou em casa e pediu comida japonesa. Não havia nenhum convite para happy hour, cinema ou jantar. “Sou uma antissocial”, pensou. As pessoas já haviam desistido de convidá-la, pois sempre recusava. Não tinha paciência para o pessoal do trabalho, e as amigas só falavam de filhos e maridos. Precisava mudar o círculo de amizade, mas tinha preguiça. Pensou na confraria, em Cecília e sorriu. Quem sabe não seria ali o recomeço de tudo? Ligou a TV e assistiu um filme qualquer na Netflix. Eram dez da noite quando olhou para o balcão da cozinha e viu o cartão ali, no mesmo lugar em que deixara. Levantou-se para pegá-lo e resolveu ligar para Cecília. Ela não atendeu. Escreveu no WhatsApp: “Oi, aqui é a Mariana. Nos conhecemos anteontem no clube de charutos. Que tal almoçarmos neste domingo?” Hesitou antes de enviar, pensou nos prós e contras, viu que estava pensando demais e enviou a mensagem. O que de mal poderia acontecer? E se ela não respondesse? E se ela só estivesse sendo educada ao falar sobre o almoço? Percebendo que estava entrando em um espiral, respirou fundo e foi para o quarto. Colocou a música para meditação no celular, se deitou e tentou relaxar. Dessa vez, conseguiu. Dormiu profundamente e acordou cedo em um sábado ensolarado. Ligou para a irmã e combinaram de almoçar. Assim que entrou no carro, já bateu o arrependimento. Teria que aguentar o cunhado mala e as crianças gritando pela casa. Não havia como desistir mais. Teria que enfrentar. Colocou um rock para animar e se foi.. O quer era para ser um almoço rápido, se estendeu para o famigerado lanche da noite. No final das contas, foram mais dois casais de amigos, cada um com dois filhos e a casa estava cheia e barulhenta. Mariana ficou com pena da irmã e ficou para ajudar. Até aspirador passou quando todo mundo foi embora. Ao voltar para casa no final da noite do sábado, estava exausta. Sentou-se no sofá da sala, com uma taça de vinho na mão e respirou aliviada. Enfim, em casa. Olhou o celular (que havia ficado na bolsa o dia todo) e tinha uma mensagem de Cecília, topando o almoço. Por que Mariana sentiu um frio na barriga?

Eliana Leite

20/02/2020