Alvo

Qual o alvo de minha flecha?

Quem desejo acertar,

Se não um sonho,

Um ideal inexplicado.

Por um vidro frágil,

Observo a trilha deixada

Pelos passos que dei.

Chego à conclusão

De que é preciso continuar.

Nesses ossos espremidos

Pela carne,

Há um espaço

Para o futuro.

Sei que não são adulta,

Sou tampouco criança.

Gostaria de ser um anjo

E navegar pelo céu,

Vagar pelo vão do universo

E trazer a preciosidade

Dos mistérios que nos rondam.

Enfim, qual a estrela que brilha mais,

Qual o coração que ama mais,

Quem é aquele que,

Nessa vida,

Tem mais a oferecer?

Talvez nenhuma estrela.

Talvez nenhum coração.

Talvez ninguém.

O alvo é tão distante

Quanto as almas

Que almejam se tocar…

Eliana Leite

29/06/1995

Desenhos na Areia

Como deve bater um coração

Ao qual um falso amor

Foi dado?

Como devem soar as palavras

Distorcidas, incompreendidas?

O tempo enganou,

Não foi capaz

De ensinar como mentir,

Sem que aquilo fosse em vão.

Dias vazios, noites passageiras.

A mente em outros lugares.

Desencanto mascarado

Sob a superfície da amizade.

Barreiras, mil barreiras.

Fragilizadas pela paixão,

Erguidas pelo desprezo.

O silencio chegou de repente,

Um aviso do nada.

Sonhos quebrados,

Inúteis.

Lágrimas flagradas

No escuro de uma solidão

Nunca antes conhecida,

Tampouco imaginada.

Os espelhos refletiam imagens opostas,

Que não transpareciam no sorriso.

Eram apenas desenhos

Feitos na areia

E apagados pelo vento.

Somente a memória os guardou,

Repleta de esperanças,

Agora perdidas.

Não haverá mais trilha para seguir,

O caminho bloqueou-se sozinho,

E a corrida foi feita de olhos fechados.

O barco virou com uma tempestade

De momentos que não se encaixavam.

Tanta entrega.

Em troca, a perda.

Por que não seguir, ainda?

As armas continuam disponíveis.

Desafios provocam inimigos

E aliados.

Tudo em seu lugar.

Nada desperdiçado.

Nada além de mim mesma.

Eliana Leite

(1993)

Amplitude

O calor sutil da noite agasalha o sentimento

De pertencer à realidade.

Necessitei tanto das estrelas e agora

Brilham alegremente,

Sem medo de ofuscarem.

Machucou, certa vez, ouvir que o dia acabara.

Hoje o tempo, em seu curso,

Torna a vida natural.

Esperança e ilusão se confundiam,

Se juntaram secretamente

E não passam de chaves

Para a nova porta entreaberta.

Não forçarei a entrada.

Serei como a brisa que sopra

E alivia a inquietude do coração.

Deitar sob o manto dos sonhos,

Repousar sobre a paz, a alegria das lembranças

Sem tropeçar nos hiatos.

Não sei como agradecer, a quem abraçar seguramente,

Por ter erguido o alicerce que me sustentava no paraíso,

No conceito de paraíso.

Todo o vazio, a loucura do abandono,

Deixaram meu território,

Partiram com a insensatez da dor amanhecida.

Lua, abrigue os seus filhos

E me inclua em sua família.

Serei sua admiradora,

Como fui ao derramar poesia por sua beleza.

Mire-se em si mesma e medirá a amplitude dentro de mim.

O amanhã se refaz para receber a luz do sol.

O céu, em seu negro sublime,

Extraiu a vitalidade do espírito,

A essência dos detalhes,

A graça de acordar…

Eliana Leite

16/03/1995

A vida em si

Às vezes chego a definir sua forma

Algo muito vago e composto por sonhos.

Às vezes paro para lembrar sua voz

Chamando pelo mundo em silêncio.

Existe uma grande força em seu corpo

Que não age em linhas fixas.

Sai por aí, procurando verdades que são raras

Mas não cabem em você.

Quantas vezes te amei calada

Para não atrapalhar seu sono.

E ainda assim quero partir

E ainda assim quero ficar

Não para sempre, nem por um minuto

Apenas para podermos nos entender

E viver nossas angústias juntos,

Sem medo das dúvidas

E esperando sempre algo mais,

Tentando sempre o que podemos

Para que tudo passe,

Tudo fique,

Assim como foi criado o mundo.

Eliana Leite

(1991)

Procura

Durante o caminho, a dúvida.

Chegar e sentir-se incompleto.

O corpo procura,

A alma,

O coração.

Enquanto se respira,

O ar não é suficiente.

Enquanto se sorri,

A felicidade não é completa.

Enquanto se ama,

O amor não é tudo.

Falta, sempre, algo mais.

Olho para fora, persigo a imensidão.

Olho para dentro,

Persigo a profundidade inerente

A mim mesma.

Somos feitos de um abismo infinito,

Nada preenche totalmente.

A sede pela plenitude

Não é saciada,

A fome pela perfeição persiste…

O segredo é a procura,

Um enigma irrevelado,

Obscuro no interior do mundo.

Quando chega o fim,

Não é exatamente o fim.

Quando acaba a vida,

Procuramos outra vida.

Nem ela mesma

É suficiente…

Eliana Leite

29.06.1995

Uma rápida olhada

Não se se estou pronta para revelar tudo.

O tem é indefinido e eu duvido

Que isso seja realmente um bom documento.

Tudo que se diz, por alguém é lembrado.

Que pena…

Ontem eu disse o que não queria a você

Mas hoje eu ia te abraçar e você estava longe.

Não consegui sorrir novamente, você me feriu.

Os meus olhos não desviaram, nunca o fazem.

Esses traidores dizem o que não devem

E quando tem que se rebaixar, respondem, ofendidos.

E se estou sofrendo é só um pouco, não choro.

Você faria muitas perguntas, eu me calaria.

Por isso prefiro que as coisas sejam mais fáceis

E do jeito que as pessoas esperam.

Afinal, o meu lugar é apenas o meu lugar,

E não há mais o que se dizer, ou ouvir.

Peço que bata antes de entrar, estou ocupada.

Nada é mais importante do que meu futuro,

Então deixe-me um pouco sozinha.

Sinto que algo ainda me foge,

E assim me prendo e paro

Fico olhando, te esperando e te vendo passar,

Dando uma rápida olhada, desviando sempre.

Sua falsa naturalidade ainda te trairá

E nada é mais difícil do que

Ser carrasco de si mesmo…

Eliana Leite

(1991)

Lembranças

Fim da madrugada,

O dia nascendo diante de meus olhos.

O calor de seu corpo

Seguido do frio da manhã.

Envolta nas lembranças,

Nos sentimentos

E no momento que se prolonga…

Entrando no coração,

Descobrindo que sou sua

E você é meu,

Na nossa água límpida,

Intocável,

Onde o sol afunda em êxtase.

Assim como o entardecer anuncia

A noite,

Seu toque me desperta e acalenta,

Perco-me em seus braços,

E me encontro dentro dos seus olhos…

Eliana Leite

02.10.1995

Com as pedras

Não há tempo suficiente

Para pensar,

Ou sentir

As pedras rolam e eu as acompanho

Sem saber para onde.

Como pode tudo mudar

Sem que ninguém saiba?

Sempre deparando com desafios,

Quase desistindo,

Irei com essas pedras.

De algum lugar vieram

E carregam o passado,

Meu inimigo.

A água já tentou afogá-lo,

O fogo não o queimou.

Não será você quem o fará esquecido.

O tempo determina a insuficiência,

Mas não a certeza.

Para frente, ainda.

Ainda que eu queira

Voltar atrás

E me despedir,

Da dor, o amor.

De tudo que construí,

E agora abandono

Sem culpa.

Desculpas, não.

Apenas o perdão

Vindo de quem gera

Toda essa dúvida…

Eliana Leite

13.06.1994

Valsa Viva

Como cantam o coração,

A alma…

Canções distantes, insistentes.

Não passam de suaves assobios,

Durante a noite,

O dia,

Todo dia.

Ouço e danço

Durmo com a melodia dentro de mim.

Entendo cada nota, crescendo,

Vibrando,

Fora de mim.

Fecho os olhos

E vejo tudo o que se passa,

O tempo que passou,

Parou nesse momento.

Nessa longa estrada em que flutuo,

No começo, sem fim.

Apenas sigo, com a música, comigo.

Como cantam os olhos, a boca,

O corpo.

Canções de amor, prazer,

Jovens ilusões.

Cantam.

Calam.

E ouço sempre

A voz do amanhã…

Eliana Leite

Val21/08/1995

Carne, Osso e Segredos

Os sentimentos se misturam,

Abrigam-se em meio ao vazio,

Ocupam espaços indefinidos.

Ao mesmo tempo que preciso de mim,

Não me quero tanto assim.

Enquanto corro da realidade,

É ela que me traz força.

Medo,

Desconforto,

Leveza,

Paz.

Nada é certo,

Tão certo quanto poderia.

Tudo se acaba, mas o fim não.

Navegando em opostos,

As ondas engolindo a razão

E a brisa expulsando a verdade.

De que somos feitos, afinal?

Um pouco de carne, osso

E muitos segredos.

Impossível atravessar limites

Sem estabelecer outros.

Difícil esquecer momentos sem viver outros.

Há tantas armadilhas,

Palavras, gestos,

Tantas sequelas, lembranças, dúvidas…

Procurar pelo caminho sem enxergar,

Pisando ou em areia

Ou em terra,

Ou em qualquer lugar.

Surpreendendo-se com o óbvio,

Aproximar-se dele e esquecê-lo de repente.

Por que?

Amar de várias maneiras, várias pessoas,

Ninguém…

Amar…

Por que não?

Eliana Leite

25/08/1995