Pedaço que se separa

Afasto-me de mim e vejo alguém desconhecido,

Tentando sobreviver, fingindo conseguir.

Ao longo de uma curta vida, percebo essa pessoa cansada,

Os traços da ilusão.

Como pode você pensar que não há um jogo,

Que as cartas nunca estiveram sobre a mesa,

Sequer existiram.

Como quer você um amor livre, simples,

Se seu coração engole as palavras,

Sua alma as tritura, até que não haja mais nada.

Como ousa você gritar porque ninguém a escuta

E se calar, com medo de ser ouvida.

Espera pouco de si mesma,

Mas anseia mais para os outros.

Aguarda cartas que nunca virão, amigos que nunca teve.

Despede-se dos sentimentos como quem vai a uma luta.

Morre a cada segundo, machucada.

Vive tal qual os pássaros.

Voa para fugir, canta para esquecer

E invade a madrugada.

Só que os pássaros são livres.

As correntes que te aprisionam por muito tempo o farão.

Mergulha fundo no vazio e retira um feixe imaginário de fantasias.

Ele se dissipa e você cai, fraca, sozinha.

Comete os mesmos erros e nega a natureza que tem.

Reluta em existir.

Acha-se no direito de se entregar sem apanhar da razão.

Negocia, friamente, consigo mesma, buscando fórmulas

E, no fim, atira-se nos braços da noite,

Se refugia nos sonhos, obscuros, retratos da confusão.

Tem medo de acreditar, relega a fé a uma fraqueza,

E termina por juntar as mãos, quer ser perdoada.

Suas preces são calorosas, seus romances superficiais,

Suas memórias doloridas.

Dentro de todo seu ser, esconde-se um segredo.

Você é feita de lágrimas que se dissolvem no fogo da paixão,

Esperanças renovadas pelo nascer do sol.

Conheço bem pessoas como você.

Os pés fora do chão, a mente vagando por aí…

Orgulhe-se. Você tem a mim…

Eliana Leite

28/04/1995

Canção Perene

Com todo meu amor

Dedico a você minha vida.

Vida que segue pegadas e não deixa nenhuma.

Com toda minha força,

Estendo minhas mãos para você

E compreendo o sentido a dor, triste realidade.

Com todo meu desejo,

Derramo lágrimas em sua imagem,

Derrubada pelo tempo, esquecida por nós.

Com toda minha sede

Atiro-me às lembranças, à nostalgia,

E termino sem mais nada.

A cada noite, um pensamento,

Um sonho.

Você pegava na minha mão

E me trazia de volta ao mundo,

À luz.

Você tocava meus lábios

E acariciava minha alma,

Sem palavras,

Apenas o som da fantasia.

Você dava adeus,

Não voltou.

Nem sonho, nem realidade,

Somente o que vejo, o que sei.

Com toda minha vontade,

Fugirei,

Sabendo que te encontrarei,

Sempre.

Aqui dentro…

Eliana Leite

03/06/1995

Passado

O que eu faço?

A quem pertence meu coração?

De onde vem tanta angústia?

Será que é tudo invenção?

Será que eu gosto de fantasiar?

Por que eu o procuro?

Por que depois eu me arrependo?

Quem pode arrancar o espinho,

Que parece estar aqui há tanto tempo?

Por que tudo parece tão difícil, tão inexequível?

Por que eu olho para trás e fico querendo resgatar o que se foi?

Por que eu não olho para frente e simplesmente deixo o que não me serve,

O que se gastou, o que já aconteceu,

No passado?

Simplesmente olhar para o futuro.

Viver o presente.

Torcer, espremer o passado e dele extrair

As experiências, a vivência,

E deixá-lo, lá atrás.

Onde tem que ficar…

Eliana Leite

05/06/2004

Reflexo

Solidão, num dia frio, a lua se mostrando timidamente.

O vento maltrata o corpo, que mal acolhe o coração.

Solitária e triste, sem chance de reclamar.

Ninguém ouve, todos tão ocupados…

Para que entender?

Vitoriosa nas lutas contra a lágrima, no caminho das pedras.

Levanto o troféu e não ouço aplausos,

Quem se importa?

Vazia e cheia de dúvidas, elas me acompanham a vida toda.

Sempre as mesmas, a cada dia com uma máscara.

Simples e pronta para partir, sem nenhum coração para partir,

Ou abraço para negar.

Para quem mando notícias?

Quem sabe para os sonhos enterrados,

As crianças perdidas, a alma deteriorada.

Ingênua e indignada com os olhos que fuzilam

E as vozes que gritam sem parar.

Preciso de paz, não atormentem.

Guerreira e perdedora.

Luto por mim mesma e me perco, divido-me em várias.

Romântica, iludida.

Um passo à frente, tentando me afastar,

Apenas me aproximo mais.

Não sei jogar, nunca soube.

Ganhar e ser derrotada.

Prefiro viver somente.

Talvez com você, talvez sozinha,

Com a solidão, nessa noite fria,

Espelho do dia que passou…

Eliana Leite

14/04/1995

Vida Passageira

Os dias passam, crescem as flores

Do jardim onde brincávamos.

Velhos ideais são abandonados

E o espaço permanece vago

Durante um tempo

Ao qual chamamos juventude.

Os prédios alcançam o céu

Onde brilha o sol

Que antes nos iluminava o sorriso.

As lembranças vão e voltam com o vento

E varrem remorsos ou rancores,

Transformando lágrimas de dor

Em saudades ou indiferença.

A voz da criança chorando

É substituída pelo silêncio

Trazido pelo tempo gasto

Na procura por um sonho

Que, mesmo não se realizando,

Fará parte de nossa vida.

Vamos sentir falta do que nunca tivemos

Ou dos que não conhecemos

E então desistiremos

Do que já é nosso,

Mas não precisamos.

Eliana Leite

1993

Paciência

Parece uma vovó chata na cadeira de balanço fazendo tricô. Sem ninguém por perto, sem música, sem pássaros, sem a luz do sol, sem vida, sem nada. Só o barulho incessante da cadeira de balanço e o “tléc tléc” das agulhas. Tricota o quê? Uma malha? Para quem? De que cor?

Olhando para o tricô, se balançando na cadeira, não sorri, não fica triste, não chora, não pisca, não fala, quase não respira.

É a paciência. Velha e sem graça. Monótona e repetitiva. Sem sentido.

É o que ela parece ser a uma criança inquieta que a observa. “Vovó, o que você está fazendo?” E a vovó não responde. “Vovó, vamos lá fora brincar? Vamos! Vamos! Agora!” E a vovó não responde, não brinca, não olha para a criança. Porque não a escuta. A criança não a perturba. Nada a perturba. O passar do tempo não a incomoda. O “tique taque” do relógio não significa nada. O passar dos dias não a deixa menos tranquila. Sabe que tem que terminar aquela malha.

Não é uma vovó chata.

É uma mulher madura, segura de si. Não está numa cadeira de balanço. Está circulando, calmamente, pela casa, com seus afazeres. Não tricota, apenas. Vai fazendo um pouco de cada vez. Estava tricotando durante aquela hora em que a criança se sentou no chão para desenhar. O sol não estava lá porque já era final da tarde. Não havia música porque queria um pouco de silêncio. Para pensar, refletir sobre o dia, sobre o que fez. Quando vê a criança no chão, até se assusta. Quem é aquela pequena criatura? Olha ao redor, não compreende. Percebe, então, que a criança é ela mesma, há anos. Quando gostava de sentar-se ao chão e rabiscar com giz de cera, brincar de massinha, sujar-se toda. E depois, corria por aí, procurando algo diferente para fazer. Pular amarelinha, pega-pega, queimada, boneca, quebra-cabeça, nossa! Quanta coisa! Mas, o tempo foi passando, ela foi crescendo, e as brincadeiras mudaram. De repente, não eram mais permitidas as brincadeiras, tampouco as interessava. Descobriu os livros. A imaginação. Contar histórias. Desenhar mundos irreais. Tinha deveres, que aumentavam com o passar dos anos. Estudar. Horários. Gostava de tudo aquilo. Ocupava seu tempo. E, quando tinha esse tempo livre, lia, escrevia, saía com amigos, praticava esportes. Começou a trabalhar. Namorar. Não parava nunca. Só para dormir. Não tricotava. Não respirava. Não ficava sentada por muito tempo. Corria para lá e para cá. Todo dia era dia de atividades, rotinas, mesmo que fossem diferentes a cada dia. Natação, vôlei, academia, caminhada, pós-graduação, viagens, filmes, livros, música, dança, bares, amigos, trabalho, trabalho. E, de repente, um VAZIO… Vazio, oco, eco, buraco, vale, abismo, nada, só, persistente e perturbador VAZIO. Por que tamanho vazio? Tantas atividades!!! Como poderia sentir um buraco dentro de si? Quase não tinha tempo nem para respirar! Nem tinha tempo para sentir vazio. Porém, inexorável, ele chegou! Quem é o vazio? O que é? Por que está aqui? Por que, em sendo vazio, toma a forma do aperto no peito, do nó no estômago, da falta de sentido nas coisas como estão?

O vazio não tem forma! Ele devasta as formas. Mas, ao mesmo tempo, toma conta. Pode até cegar, enlouquecer.

Do vazio, par a paciência…

Do vazio para a serenidade…

O vazio é tudo aquilo de doloroso que me corrói hoje. Impaciência infantil. Ansiedade indiscriminada. Cansaço gigantesco. Corpo e alma doentes. Coração confuso. Libido estragada. Stress! Esse que é o CONJUNTO DE TUDO! Esse que é o momento invisível que toma poder de tudo à sua volta, tira o sono tranquilo, tira a paz, até a vontade de certas coisas, a saúde, a sensatez! Ah, mas a Paciência pega sua grande vassoura e varre todo o chão, abre as janelas, rega as flores, acende um incenso e… volta a tricotar.

Tem saudades da criança, mas sabe que todas as crianças são assim: sempre ativas, sempre elétricas, mas sempre dormem tranquilas.

Não tem saudades da criança em que a criança se transformou. Esta se foi porque seu tempo acabou.

O tempo agora é de calma, paz, barulho do mar, das ondas, da lua, do sol, das folhas das árvores, do violino, dos girassóis…

Tempo de se voltar para si e se amar. Só de pensar nisso dá vontade de chorar. Parece tão longe…

Eliana Leite

16/06/2004

Resenha: A Melhor História Está Por Vir, de María Dueñas

Sinopse:

Uma professora espanhola descobre um mundo inesperado e instigante ao passar uma temporada de trabalho na Califórnia.

Incapaz de se recompor sozinha, a professora madrilenha Blanca Perea aceita sem pensar muito o que parece ser apenas um tedioso projeto acadêmico. Sua estabilidade pessoal acaba de ruir e seu casamento foi pelos ares. Confusa e devastada, uma ida à aparentemente insignificante universidade californiana de Santa Cecilia é sua única opção.

Minhas impressões:

É o primeiro livro de María Dueñas que leio. Estou com o “Tempo Entre Costuras” na minha lista há algum tempo, mas resolvi começar por este. A história me prendeu e eu não conseguir largar. É um livro muito bom, bem escrito e com passagens muito interessantes sobre a Espanha, especialmente quando conta as histórias dos professores Andrés Fontana e Daniel Carter. Existem clichês, sim, principalmente quando se aproxima do final, um tanto quanto melado. Penso que daria um bom filme… Não chega a ser um livro excelente, e não está na lista dos “top 20”, mas é uma leitura bem fluida, para ler nas férias, por exemplo, ou num final de semana despretensioso, acompanhando de uma xícara de café ou, por que não, uma taça de vinho espanhol ou californiano… As personagens são cativantes e o desfecho é agradável. Confesso que chorei um pouquinho, como choraria se fosse um filme. Não chega a ser um drama tristonho, longe disso. Existem algumas passagens tristes, mas o “astral” é bom. Devo admitir que gosto de histórias sombrias, finais tristes, dramas densos. E, por isso, esse livro foi uma pausa entre tantos dramas pesados. Sempre precisamos de um intervalo, de uma pitada de açúcar e canela, não é mesmo? Por este motivo, por ter me deixado tão bem, dei 4 estrelas, de 5. Recomendo para quem busca um toque de doçura.

ESPIRAL

Apaixonada…

Pelo Amor…

Por seu espectro, sua falta de forma

O cheiro de amor

Ar lívido… líquido diáfano

Sinto amor pelo simples

Amar…

Aquela brisa no final de tarde

Sabor de mar

E a areia na pele, penetrante

O tatear do amor, delicado

Triângulo na maçã do rosto

Suspiro longo, quase dolorido

Toques suaves

Bicho-da-seda mágico

Tece sem parar

O céu, a terra, tudo está dentro

E fora do amor

Amor eterno…

Paro um minuto, olho para os lados

Amor efêmero

Não é mais…

Sua meretriz, a paixão

Não a quero por ora

Que se vá

Porque já me furou

Rasgou, queimou

Agora, estou flutuando

Penso no amor

Por si só, por ninguém

Por todos, por mim

E me transporto

Àquele planeta fantástico

Onde?

Aqui dentro

Lá no fundo

Puro e inebriante amor…

Eliana Leite

05/09/2005

Cotidiano

A água da chuva cai

Sem se importar

O pássaro canta no mesmo horário, todas as manhãs,

Sem se importar

O gato grita todas as noites, louco e livre,

Sem se importar

O cão velho e rouco late para o nada, diariamente,

Sem se importar

A criança corre para os braços da mãe, ao voltar da escola,

Sem se importar

A velha senhora varre a calçada, faça chuva ou faça sol, às dez da manhã,

Sem se importar

A árvore dança ao vento, batendo suas folhas na janela,

Sem se importar

A pomba bate suas asas barulhentas, cisca no lixo,

Sem se importar

A moça ao lado toma o café preto e fuma um cigarro na sacada,

Sem se importar

A vida lá fora segue, sem se importar

Com seu cabelo

Sua roupa

A hora que acorda

A hora que dorme

O sol, a lua, as nuvens, as joaninhas e as mariposas

Realmente não se importam

Com suas frivolidades

Seus pseudo medos

Quem chegou

Quem foi embora

Então, por que você se importa?

Quando deixou de se importar com o café quente

O pão saído do forno

Ligar para sua mãe

Abraçar seu pai?

Quando não se lembrou mais

De consolar sua irmã

Acalentar a alma

Regar as plantas?

Quando foi a última vez que fez amor com amor

Que sorriu para o espelho

Foi gentil consigo mesma

Amansou a fera interior?

Por isso… faça como o vento que sopra

Sem se importar…

Eliana Leite

04/06/2019