Resenha – Livro “Ariel”, de Sylvia Plath

Comprei este livro (talvez tardiamente) em 2019, na Livraria da Travessa, em São Paulo, no bairro de Pinheiros. Senti-me atraída pela capa, além de fazer um tempo que queria ler algo de Sylvia. Por que existem autores que ensaiamos ler e não o fazemos? Será que é porque não estamos prontos para eles e, então, o tempo vem e nos informa “agora, é a hora”? Acho que foi assim que me senti ao ver este livro, sua capa, e então o abri, vi que era uma edição restaurada e bilingue, com os manuscritos originais. Livro comprado, ficou um tempo na estante, esperando. E assim foi que, em meio à quarentena do novo Corona vírus, decidi que o enfrentaria. Fiz algo que há muitos anos não fazia – peguei uma lapiseira e comecei a grifar o livro, fazer anotações nas margens, nas partes em branco… Usei a parte em português apenas para tirar dúvidas pontuais que pudessem prejudicar meu entendimento. Ler os poemas em inglês foi algo saboroso. Pois bem, vamos à resenha.

Tudo começa com a Apresentação – O Caso Ariel. Nada como ter o histórico do livro, quando ela escreveu, porque, o que isso significou. E acho que é preciso separar o trágico final de Sylvia de sua obra, ainda que ela mencione a morte em alguns poemas. Por isso, esta apresentação vem bem a calhar, e mostra que Ted Hughes, e não o julgo por isso, tentou omitir os poemas mais explícitos, digamos assim. Porém, depois de alguns anos, foi publicada esta edição que eu li, que respeitou os desejos de Sylvia, com a publicação de todos os poemas que formavam a coleção Ariel.

Vamos, então, ao prefácio, escrito pela filha de Sylvia, a também poeta Frieda Hughes. E, como toda filha, ela busca entender os pais. Critica a forma cruel como o pai foi tratado após a morte de Sylvia e publicação, por ele mesmo, de Ariel, como se estivesse vilipendiando o túmulo da esposa. Além de ter cometido adultério, teria interferido de forma indevida nos direitos autorais da autora. Ela diz que tais coisas “não guardam nenhuma semelhança com o homem que calma e carinhosamente” a criou, e com a ajuda de sua madrasta. E, completa que “o tempo todo ele manteve viva a memória da mãe que me deixara, e eu sentia como se ela estivesse tomando conta de mim, uma presença constante em minha vida.” Ela segue, relatando como era viver em torno de uma imagem “milagrosa” de tudo o que se referia à mãe. E então, finalmente, nos diz que “isso foi muitos anos antes de eu descobrir que minha mãe tinha um temperamento feroz e um caráter ciumento, em contraste com a natureza mais equilibrada e otimista de meu pai.” Cita, ainda, que houve ocasiões em que Sylvia destruiu o trabalho do marido, uma vez rasgando-o e outra queimando-o. Chega, então, à conclusão de que a mãe, “assim como era uma poeta excepcional, era também um ser humano”. Ela vê tudo isso como um restabelecimento da verdade, e uma forma de melhor compreender a mãe. Ela precisava entender tudo isso para poder entender a si mesma (entendemos a nós mesmos por meio de nossos pais, avós, antepassados, ancestrais). Frieda encerra o prefácio: com chave de ouro “Quando ela morreu, deixando Ariel como último livro, foi flagrada no ato de vingança, com uma voz que havia sido afiada e praticada durante anos, posteriormente com a ajuda de meu pai. Embora tenha se tornado uma vítima disso, no final das contas ele não negou sua maestria. Essa nova edição, restaurada, é minha mãe naquele momento. É a base do Ariel editado por meu pai. Cada versão tem significado próprio, embora as duas histórias sejam uma só.”

Devo admitir que a leitura dos poemas de Sylvia Plath não é fácil, pois ela tem um estilo bem hermético e intimista de escrita. Faz referências a coisas que viveu em seu dia a dia, mistura com momentos históricos, memórias e traumas. Na verdade, em minha opinião, os grandes poetas são aqueles que fazem com que você leia o poema e fique flutuando, tentando depois buscar um chão para pousar. Não necessariamente há o objetivo de “entender”, “decifrar”, “interpretar”. A própria Sylvia, quando lhe pediram para “explicar” os poemas em um programa de rádio, foi breve e seca. Não cabem explicações. Não cabe dissecar cada poema, em busca do momento em que ela se referia a tirar sua própria vida, ou se referia à traição do marido. Há muito mais do que isso. Há nuances, há explosões, há véus, há amor, há ódio e contemplação. Nem consigo resumir tudo isso em algumas palavras. Por isso, resolvi colocar aqui algumas impressões minhas, particulares, não “validadas”, “breve e secas”, sobre alguns poemas (vários eu li mais de uma vez).

“Morning Song” – um poema de uma mãe para um filho/filha. Há tantas menções a uma sensação de pertencimento e ao mesmo tempo desprendimento. Não tenho filhos, não sei como é, mas pude sentir o amor no poema. “The clear vowels rise like balloons”.

“Thalidomide” – senti amor desfeito, desilusão, decepção. “A space for thing I am given. A love of two wet eyes and a screetch. White spit of indifference?”

“The Applicant”- retrataria duas pessoas jovens se conhecendo, se relacionando, a ideia de casamento, da prisão à vida social, convenções, uma “boneca viva” (“will you marry it?”)

“Barren Woman” – pessoalmente, apesar de ser o mais curto, é o que mais se parece com um soco no estômago. Silêncio e vazio. Conversou comigo dentro de minha alma.

“Lady Lazarus” – consigo imaginar porque esse poema, como mencionou Frieda, foi praticamente dissecado até as entranhas. Carregado de uma série de figurações “diabólicas”, flerta com a morte e a ressurreição de uma mulher demoníaca, poderosa. Para mim, é um grito de liberdade, de feminilidade, de empoderamento sobre si mesma: “Herr God, Herr Lucifer / Beware / Beware. Out of the ash / I rise with my red hair / And I eat men like air.”

“Tulips” – me pareceu uma narrativa de uma experiencia no hospital. Posteriormente, verifiquei que ela escreveu quando teve apendicite.

“Elm” – a impressão que ficou para mim foi de que algo a assombrava (o tal Olmo). Por fim, fiquei com a seguinte pergunta ao final: o que a assombrava? Ela mesma?

“The night dances” – minhas impressões: luzes do cometa, dos planetas, luz sobre ela (pequena)… afinal, qual nosso tamanho?

“The Detective” – inegável que houve a descoberta de traição. E a traição que leva à morte da família, uma morte invisível.

“Ariel” – um lindo poema. Detalhes, pequenas coisas, choro de criança, orvalho, pescoço de cavalo. Eu não saberia quer era dedicado ao cavalo dela, se não tivesse lido isso na introdução e no prefácio.

“Death & Co.” – fiquei com as seguintes perguntas: quem é ele? O condor? É o marido? É um amor? É a morte à espreita? Alguém que fica ferido de morte? E assim fiquei… não busco respostas.

“Lesbos” – uma deliciosa viagem… Lesbos era a ilha em que a poetisa Safo nasceu… e fiquemos com isso…

“The Other” – adultério, adultério, adultério…

“Medusa” – fiquei intrigada… e então descobri que era sobre ninguém mais do que a mãe de Sylvia. O que me deixou olhando para a parede, sem saber o que pensar foi o final: ‘’there is nothing between us.”

“Purdah”- retrato de opressão, também mostra a esperança, para mim, quando ela diz “I shall unloose / From the small jeweled / Doll he guards like a heart / The lioness / The shriek in the bath, / The cloak of holes.”

“A Birthday Present” – só consegui escrever “WOW” ao final. Vivi para poder ler algo assim.

“Daddy” -ela fala do nazismo, de ser judia, das injustiças… busca se libertar, chamando-o (ironicamente?) de “Daddy”, dizendo, ao final “Daddy, daddy, you bastard, I’m through”.

“The Bee Meeting” e os demais poemas, todos sobre as abelhas são uma verdadeira declaração de amor a esses seres, já que ela criou abelhas. Lindos poemas, para ler de forma contínua, até chegar em “Wintering”.

Ao final, há as notas que ajudam a contextualizar alguns dos poemas. Fiz algumas checagens sobre o que eu tinha apreendido, mas sem muito compromisso, pura curiosidade. Meu único compromisso era com Sylvia: ler Ariel do começo ao fim.

Thank you, Sylvia.

E obrigada, Elis Regina, por ter sido a trilha sonora enquanto eu escrevia esta resenha.

Eliana Leite

08/06/2020

O que estou realmente fazendo para mudar?

Mais importante do que seguir tendências, muitas vezes sem saber muito bem a que se destinam ou porque foram criadas, é efetivamente entender, estudar, saber seu lugar de fala, ouvir (mas ouvir mesmo), não ser arrogante achando que porque leu um post já sabe tudo sobre algo que existe há anos. Não resolvemos problemas históricos e estruturais sendo rasos ou nos apropriando indevidamente daquilo que não compreendemos. Pergunte-se: o que eu REALMENTE estou fazendo, dentro do meu microcosmo, para não contribuir com isso? Como eu me comporto, no dia a dia, diante do racismo e diante de uma pessoa negra? Sou condescendente? Sou paternalista? Sou “bonzinho”? Sou solidário até a página 10, porque não consigo suportar ou entender de verdade a realidade do outro? Todo dia se pergunte e todo dia seja sincero e busque a mudança que fará alguma mínima diferença. Se vidas importam e para que não deixemos privilégios intrínsecos nos cegarem, vamos estudar, ler, entender e MUDAR. Menos “trends”, mais “truth”. Eu tenho mil perguntas sem respostas e me questiono sobre meu próprio comportamento e a consequência de meus privilégios. E você?

Sobre o texto “Ser Pó”, de Santiago Dabove

Estou participando de uma Sala de Leitura e o texto “Ser Pó”, de Santiago Dabove, foi escolhido como tema para uma discussão. Confesso que nada sabia do autor. Descobri também que este texto faz parte de uma Antologia da Literatura Fantástica (Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo). O texto é, na verdade, um conto breve. Se engana quem pensa que, por ser um texto relativamente curto, é de leitura fácil ou rápida.

O texto está disponível na internet, em uma publicação da Revista Piauí. Porém, por motivos desconhecidos, “faltou” o final em tal publicação, que está no livro. Ao final , vou deixar aqui esta parte, e deixo para você pensar sobre o texto “sem”e “com” este trecho..

Ainda que a literatura fantástica não seja o estilo que mais me atrai, eu gostei desta leitura. O autor faz com que o leitor viaje junto com o personagem e sinta o que ele descreve que está sentindo, de uma forma envolvente e encantadora. Flerta com o aflitivo, mas não chega lá. Eu, particularmente, não me senti mal ao ler o texto. Pelo contrário, senti empatia pelo personagem, pois a dor que ele estava sentindo antes de mergulhar na viagem propriamente dita, é de dar pena. Quando eu comecei a ler, senti que o autor fazia um pacto comigo para embarcar nesta breve, porém intensa, jornada.

A leitura, em tempos de pandemia e confinamento, faz muito sentido para que possamos avaliar não só a nossa condição (seja ela confortável ou não), mas colocarmos tudo isso sob uma ótica como o colapso do sistema de saúde, as mazelas sócio-políticas que se mostram ainda mais e uma das maiores crises sanitárias do mundo. Como nos posicionamos? Um humano caquético, que quer virar vegetal, se decompor e esquecer de tudo? Meros espectadores? Um cavalo que foge?

Reflexões, interpretações, que nem sempre levam a conclusões. Existem textos que caem em nossas mãos para nos fazer pensar, pensar e não efetivamente fechar uma porta. O meu objetivo ao participar desta sala de leitura é exatamente este: conhecer livros, contos e texto que, normalmente, eu não leria. Desafiar-me a sair da zona de conforto e buscar em fontes às quais antes eu não iria…

Em tempo, o texto prendeu minha atenção logo no início, ao falar de um Imperador Romano que eu desconhecia (Mitrídates), instigando-me a pesquisar.

Abaixo, deixo o trecho final do conto/texto:

“Mas tudo isso não passa de sofisma. Cada vez mais morro como homem e essa morte me cobre de espinhos e camadas clorofiladas.

E agora, diante do cemitério poeirento, diante da ruína anônima, o cacto “ao qual pertenço” se desagrega, seu caule cortado por uma machadada. Que venha o pó igualitário! Neutro? Não sei, mas teria de ter vontade o fermento que novamente se pusesse a trabalhar com matéria ou coisa como “a minha”, tão trabalhada de decepções e desmoronamentos.”

Isolamento

Existe o silêncio lá fora

E o silêncio aqui dentro

Um é quieto

O outro, eloquente

Grito, calada

Sussurro ruidosamente

Meus barulhos internos

Bloqueados pela quietude do mundo

Mundo em quarentena

Pessoas silenciosamente revoltadas

Olho para o vazio

Repleto de abandonos

Caixas empoeiradas esperando no armário

O pó se move por toda a casa

E deposita sua vastidão

Nas relações do não dito

Sonhos mal interpretados

Perdidos no isolamento

Mazelas e feridas abertas

Sangue que escorre por entre os vãos

Todos em casa

Ninguém ouve quando ela chora

Lamento mesclado ao horror

Desobediência não é mais anarquia

Virtuosos gritam regras por escrito

Regras por 24 horas

Todo o dia, algo novo

Toda noite, uma amnésia

A criança trancada

Só quer sair para brincar.

Eliana Leite

(22/05/2020)

Resenha – Livro “Quando o Sangue Sobe à Cabeça”, de Anna Muylaerte (Ed. Lote 42)

Anna Muylaerte é cineasta e roteirista. Escreveu roteiros de filmes como Castelo Rá-Tim-Bum, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Xingu, e dirigiu Durval Discos, É Proibido Fumar e Que Horas Ela Volta?

Este livro foi idealizado pela Editora Lote 42, junto com a autora, Anna Muylaerte e teve a intenção de reunir contos escritos por ela na década de 90. Já no prefácio, encontramos a explicação da autora sobre o momento pelo qual passava quando escreveu estes contos. Era um período de crise na indústria do cinema, todos estavam apreensivos. Ela, por seu lado, passou a escrever, escrever e escrever. Após estes contos, escreveu roteiros para TV e depois deslanchou no cinema. Particularmente, gosto dos filmes dela. Foi por este motivo que comprei o livro (além de gostar de contos). São 6 contos, todos sobre mulheres, em algum momento de suas vidas, retratos de um cotidiano, da vida como ela é. Anna Muylaerte tem um humor ácido que me agrada. Junta-se a isso um leve sarcasmo ao narrar as mazelas da classe média. Para quem viveu naquela época, é uma delícia de leitura. Chega até a ser nostálgica.

Minha intenção, nesta resenha, é falar de cada um dos contos.

Portanto, aqui já deixo um ALERTA ANTI-SPOILER. Se você não leu o livro e quer parar por aqui, fique à vontade!

Conto 1

O segredo de Célia

O mote aqui é o surgimento “surpresa” de um ex-namorado de Célia, que contraiu AIDS. Ela surta completamente, entra no carro e vai para casa com a certeza de que está com a doença. Depois de dizer ao marido que ambos estão doentes e que ela vai morrer (sem ter feito o teste ainda), confessa a ele (e à terapeuta) que nunca teve orgasmo na vida. Ele fica indignado. Ela diz que está tudo acabado. Finalmente, ele vai pegar o resultado do teste, que dá negativo. Ela volta atrás no que disse, ele finge que acredita e tudo “volta ao normal”. Neste conto, ficam claros sentimentos como conformismo, ou, ainda, comodidade em meio a um casamento que não funciona para nenhuma das partes, a absoluta ignorância e falta de empatia com relação aos portadores de HIV, típico da época dos anos 90. É um conto rápido, certeiro, quase sem afeto. Mostra o que acontece em relações em que as coisas não são ditas e, quando o são, nada realmente muda.

Conto 2

O pulo do gato

O conto é sobre uma idosa que, aos 86 anos, se sente sozinha no Rio de Janeiro. Está prestes a mudar para São Paulo, a convite do genro, se anima, mas está com depressão. Ainda no Rio, faz um jantar de despedida com as amigas e, ao final, se mata. Os sentimentos que permeiam este conto são solidão, negação (por parte da filha da idosa), saudosismo, nostalgia e depressão. O que chama a atenção é a aceitação da protagonista de que sua vida deve acabar, e que ela é quem deverá tomar esta decisão. E o gato é essencial para isso.

Conto 3

A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti

Este conto tem um pouco cara de “anedota”, mas não no sentido divertido. Temos violência doméstica, falta de comunicação dos pais com os filhos, ignorância e fanatismo religioso (professora), cultura à época, de que não se falava de sexo ou temas relevantes com crianças (que acabem tendo como professoras pessoas com o a Cida, que não consegue ensiná-las algo relevante como educação sexual). O que vejo nesta história/anedota está relacionado com sarcasmo, negligência, conformismo (esposa e marido em um casamento não satisfatório para ambos), falta de transparência, bem típica da época. Não foi um conto que me agradou muito, para falar a verdade.

Conto 4

Quando o Sangue Sobe à Cabeça

Para mim, o melhor conto da coleção (e que dá título ao livro). Trata de um drama familiar, muito bem contado. Temos aqui mais um casamento, de anos, falido. E, junto a isso, a autora acrescenta a mulher na pré-menopausa de saco cheio de tudo, a filha chegando na adolescência, mimada e egoísta, o marido em crise de meia idade, que transou com a empregada, a qual mora com a família há duzentos anos e acaba engravidando do patrão. O drama do conto começa com a morte de Dalva, a empregada, que faz um auto-aborto com uma agulha de tricô. Quando o patrão (Paulo) descobre o corpo da empregada, a filha tem a tão esperada menarca e a esposa sai de casa, deixando tudo para trás. Além disso, há a figura do velho (Onofre), de 88 anos, praticamente inválido, à espera da morte que não vem. O conto parece um filme, muito bem estruturado e com o humor ácido característico da autora. Temos os sinais das trocas de papéis dentro da família, em que a figura do homem vai perdendo protagonismo e se tornando ridícula, com situações de vergonha (impotência, não só sexual) e ignorância (menstruação x menopausa). O banheiro da casa é um personagem importante. E, como disse uma pessoa que comentou sobre o livro, o conto é uma hemorragia! A parte da descrição da morte de Dalva é quase poética. Aqui já vemos sinais da presença da empregada na família e as questões complexas advindas desta convivência, o que foi magistralmente explorado no filme Que Horas Ela Volta?. Uma observação que eu faço, para este conto é: se, após 26 anos, as coisas mudaram tanto assim, de verdade, ao observarmos uma família “tradicional” hoje. Talvez, e infelizmente, não… Ainda…

Conto 5

Procurando Pelo em Ovo

Não é uma obra-prima, comparando com o anterior. Parece mais uma crônica do que um conto, uma paródia do mundo do salão de beleza, em que temos a depiladora intrometida, fofoqueira e esnobe, que acaba descobrindo que o marido é homossexual. Chega a ser engraçado em alguns momentos, mas está longe da elaboração do conto 4, por exemplo.

Conto 6

Padecendo no Paraíso

Maria Julia está gravidíssima e prestes a entrar em trabalho de parto, porém ainda sofre nos últimos dias, pois engorda mais do que permitido, tem azia permanente e está muito inchada. Apesar de todo o perrengue, o momento do nascimento acaba sendo libertador para ela. Um conto muito bem-humorado, que poderia e a experiência de qualquer mulher grávida. Não coloca glamour onde realmente não existe. Realista e engraçado. É a cereja do bolo deste belo e interessante livro. Impagáveis os momentos em que a mulher reclama do médico, dos atrasos e do fato de ele ter já feito 12.000 partos.

Um Dia

Um dia nublado

Garoa, para, garoa, para

Aquele canto dos pássaros que eu ouvia

Para onde foi?

Aquelas risadas das crianças brincando após o almoço

O que as calou?

Um dia nublado

Final de outono

As plantas estão tristes

As borboletas sumiram

Anoitece logo

Quando vejo, já não vejo mais nada

Acendo a luz

Ouço o chamado dos morcegos

Que logo partem

Os sons que permanecem, faça chuva, faça sol

São das motos, das britadeiras, dos carros e da máquina de lavar roupa

A minha, a do vizinho…

Até as notícias são mais cinzas

As roupas

As pessoas

Um dia nublado

Sem sinal do sol

Uma chuva fina, inoportuna

Tanto quanto a morte que nos espreita

E se mostra aos que se distraem

Aos que não se cobrem

No ar frio desse dia cinzento

Um dia nublado

É só mais um dia…

Sinto falta das maritacas

Das joaninhas

Do pequeno arco íris no vidro da janela da sala

Um dia nublado

Páginas de um livro são devoradas

Enquanto a TV anuncia

Mais mortes

Mais cores cinzas

E logo virá o inverno

Aguardemos com nossos cachecóis

Nossos chás quentes

E uma pitada de esperança

Eliana Leite

14/05/2020

Soraia

Estava escuro na rua. Garoava. Era Outono. O guarda-chuva era inútil, pois a garoa vinha oblíqua e molhava seu rosto. Estava com frio. Soraia andava rápido, pois tinha que chegar em casa a tempo de José sair para o trabalho e não deixar a filha sozinha. Não queria dar motivo para ele ficar nervoso. A mandíbula ainda doía do soco da semana passada. Quando sua patroa perguntou o que tinha acontecido, disse que caiu na rua. Quando seu irmão perguntou, disse que não era da conta dele. Quando se olhou no espelho, teve vergonha. Chegou em casa, esbaforida, a tempo. A tempo para a dupla jornada: lavar, passar, cozinhar e cuidar da filha. A repetição do trabalho que fazia na casa dos outros. Entregava o salário na mão de José, toda semana. Ele que cuidava dos gastos. Quando sobrava, dava um dinheiro para ela. Cada vez, mais, isso era raro. Costumava guardar o dinheiro em um pote, na gaveta da cômoda, no quarto. A última vez que olhou, mal tinha dinheiro para comprar calcinhas. E estava precisando. Quando pediu a José, ele riu. E não deu o dinheiro. Ela, então, guardou um pouco para si do que tinha recebido da patroa. Na hora, ele percebeu que tinha menos. Ela mentiu, dizendo que a patroa ia completar na semana seguinte. Não teve tempo de desviar. O tapa veio na mesma hora. E então ele a revistou em busca do dinheiro. Encontrou. Deu outro tapa. E saiu com o dinheiro, no meio da noite. Soraia nunca mais guardou o dinheiro, nem pediu. Começou a pedir dinheiro emprestado para a irmã, Maria, que reclamava, mas tinha pena e dava. Maria trabalhava como supervisora em uma empresa prestadora de serviços de limpeza. Estava fazendo faculdade, não era casada. Soraia tinha um baita orgulho da irmã. Invejava a liberdade dela. A inteligência. Soraia não conseguia sair do buraco em que tinha se metido. Na verdade, nem tentou. Tinha medo. Quando conversava com Maria sobre isso, era dolorido, triste. Maria dizia que ela tinha que denunciar José. Soraia nem sabia como faria isso. Ficava sem chão ao pensar na filha, sem pai. Soraia mal sabia ler e escrever. Tinha completado o curso fundamental, e olhe lá. Conseguiu o trabalho na casa da patroa por indicação da irmã. Aceitou trabalhar sem registro. Precisava do dinheiro. Não sabia muitas coisas. Só queria que sua filha pudesse terminar os estudos e ser melhor do que ela. Conhecia José desde sempre. Ele começou a bater nela depois que a filha nasceu. Soraia não entendia o porquê. Não conseguia conversar com José sobre isso. Não sabia o que dizer. Pensou, no fundo, que talvez merecesse ser tratada daquela forma por ser burra, por não ter vencido na vida. José vivia a chamando de tonta, de mula. Ela aceitava. Não falava nada disso para o irmão, Antonio, porque este a julgava. Não era como Maria, que a ouvia e tentava ajudar, mesmo não conseguindo. Antonio tinha uma esposa que trabalhava em dois turnos e ele não fazia muita coisa para ajudar. Vivia de bicos e era basicamente um vagabundo. Soraia o observava rondando pelo bairro, parando nos bares, conversando com as mulheres. Então, quem era ele para julgá-la? Ela podia até não saber muito, mas sabia que o irmão não era grande coisa. Naquela noite, colocou a filha para dormir cedo e ficou na janela, observando. De repente, viu o irmão zanzando pela rua em direção à casa dele. Conhecia aquele olhar. Olhar de bêbado. Era o mesmo que José tinha nos finais de semana. Os piores. Resolveu sair de casa e seguir Antonio, que mal percebeu. Assim que o viu chegar em casa, se esgueirou atrás da janela. Ouviu-o chamado pela esposa. Quando viu que ela não respondia, começou a gritar. Soraia não entendeu. Ouviu o barulho de louças quebrando. Antonio estava tendo um ataque. Resolveu entrar na casa. Assim que entrou, gritou para Antonio parar com aquilo. Este, bêbado, sem entender nada, parou. Caiu no chão. Começou a chorar. “Ela foi embora, Soraia! Ela me deixou”. Soraia levou o irmão para tomar um banho frio, fez um café forte e esperou ele se recompor. Conversaram. Ele explicou que há alguns dias tinham tido um briga feia, em que ela disse tudo o que estava entalado há anos, segundo ela mesma, que não aguentava mais a vagabundagem dele. Quando ouviu isso, Antonio confessou à irmã que perdeu as estribeiras e deu um tapa na cara dela, que devolveu na hora e disse que iria embora. E, desde então, sumiu mesmo, não deu mais sinal e ele estava desesperado. “O que eu faço, irmã?” Soraia ouviu tudo aquilo e, de repente, teve vontade de bater no irmão. Começou a chorar. Antonio não entendeu nada. Perguntou se estava tudo bem. Soraia começou, então, a dizer a ele que não se bate em mulher, que ela estava certa em ir embora, onde já se viu, aguentar a vagabundagem dele e ainda ter que levar um tapa na cara. Defendeu a cunhada e acusou Antonio de ser um fracassado. “Eu apanho do meu marido, mas sou fraca. A sua mulher é que está certa. Você não passa de um covarde”. Antonio ficou olhando para a irmã, atônito. “Você apanha do José?” Soraia respondeu que aquilo não vinha ao caso. Antonio insistiu “como assim, apanha?” Então, Soraia mostrou o último hematoma. “Sim, apanho, olha aqui! Mas e daí, você também bateu na sua mulher!” Antonio se levantou e chutou a cadeira, com raiva. “Ninguém bate na minha irmã! Vou acabar com esse desgraçado”. Soraia começou a rir. “Você não está falando sério, né? Acabou de dizer que bateu na Célia e agora vai dar uma de valentão para cima do José pela mesma coisa?” “Não é a mesma coisa!” “É sim! Não quero que você venha me defender. Você é igual a ele. Se a mãe estivesse viva, estaria morrendo de vergonha de você. Um bêbado, vagabundo e covarde.” Antonio levantou a mão e então Soraia o enfrentou: “Vai bater em mim? Viu como você é um bosta? Vem, bate! Mas se bater, eu te arrebento!” Antonio abaixou a mão e começou a chorar novamente. Soraia o deixou na casa e se foi. Ao chegar em casa, arrumou sua mala, a de sua filha e se foi, sem deixar bilhete, nem nada.

Joana

De olho no relógio para não perder a hora da reunião, Joana estava tensa. A apresentação estava pronta, ela estava preparada, mas sempre ficava nervosa quando tinha que falar em público. Tinha ensaiado diversas vezes, mas mesmo assim, estava insegura. E se fizessem mil perguntas e ela não soubesse a resposta? “Diga simplesmente que vai verificar e depois retorna por e-mail”, seu marido dizia. Ela sabia que para ele era mais fácil, pois era extrovertido e estava acostumado a esse tipo de exposição. Ele sempre se saía bem, mesmo que fosse pela tangente. Quantas vezes ela não se perguntou porque não conseguia ser assim, desprendida e descontraída, como se aquilo fosse algo normal, sem tanto stress e cobrança? Faltavam quinze minutos para a reunião e Joana foi para a sala. Sempre chegava pelo menos com cinco minutos de antecedência, ainda que soubesse que nunca começavam nada no horário. Ao chegar, como previsto, não havia ninguém na sala. Escolheu um lugar perto da mesa de café e tomou mais alguns minutos para ler suas anotações. Aos poucos, as pessoas foram chegando e a reunião começou com 10 minutos de atraso. Joana contou: 2 mulheres e 8 homens. Uma das mulheres era sua par. Um dos homens, seu chefe e outro, chefe do seu chefe. O tema da reunião era apresentação dos resultados do mês. Cada gerente tinha que apresentar sua parte. Era meio ridículo que Joana se sentisse nervosa, após anos fazendo esta reunião, todo mês. Porém, não conseguia controlar. Sentia que, no momento em que abria a boca, o ar ficava pesado e todos olhavam para ela, prontos para fazerem alguma pergunta para a qual ela não estaria preparada. Nem sempre isso acontecia. Havia ocasiões em que ela saía ilesa. Achava curioso que sua par não parecia sofrer do mesmo mal. Nunca faziam perguntas fora do contexto para ela. Quando ela comentava sobre o assunto, recebia um aceno de mão e um comentário do tipo “imagina, querida, você foi ótima”. Não ajudava muito. Naquele dia, Joana seria a última, o que podia ser bom ou ruim, dependendo do andar da reunião. Se os gerentes apresentassem direitinho, o chefe e o chefe do chefe aceleravam a reunião e não faziam perguntas. Mas, se a coisa degringolava, o último a apresentar era o que mais sofria. Joana torceu para que seus colegas fizessem um bom trabalho. A primeira apresentação correu bem, sem grandes percalços. A partir da segunda, o clima começou a pesar, pois as notícias não eram muito boas. Projetos não concluídos, prazos não cumpridos, gastos que excediam o orçamento previsto para o mês sem justificativa prévia, viagens não autorizadas, e assim por diante. Joana sentia o suor escorrendo em suas costas. O frio na barriga aumentava. Olhou para suas anotações. Não tinha notícias maravilhosas, mas também não havia nada de terrível a ser apresentado. Tentou se manter confiante. Ao chegar sua vez, iniciou com alguns dados introdutórios, ao que seu chefe a interrompeu e pediu para que fosse direto ao assunto, pois tinham pouco tempo. Foi então direto ao assunto e apresentou seus resultados, procurando dar enfoque ao que era positivo. Não conseguiu terminar, pois o chefe do chefe interrompeu e comentou a respeito do formato da apresentação, que estava fora do template corporativo. Joana estranhou o comentário, pois os dois colegas anteriores tinham apresentado no mesmo formato que o dela. Outro comentário foi sobre o inglês, que acharam que estava muito formal e as informações não estavam claras. Ela tinha que ser mais objetiva, ele dizia. Joana tentou prosseguir e, ao chegar perto do final, viu que todos estavam olhando para seus celulares, ou tendo conversas paralelas. Resolveu encerrar ali mesmo. Nisso, seu chefe olhou para a tela e disse “só isso? Ok, obrigada”. Joana se sentou, sentindo-se um lixo, procurando ignorar o bolo que se formava em seu estômago. Ao final das reuniões, a sessão de tortura começava: tanto o chefe de Joana, quanto o chefe do chefe, faziam comentários sobre cada uma das apresentações e, com exceção de algum ou outro, todos eram duramente criticados. No começo, Joana anotava as críticas e procurava incorporar as mudanças para as próximas apresentações. Porém, nunca estava à altura. Era bem desgastante. Naquele dia, por algum milagre, a par de Joana foi a primeira a ser criticada. Disseram que a apresentação dela precisava ser alterada para conter mais explicações, pois o documento iria para o exterior e tinha que ter mais informações. Em seguida, meteram o pau na apresentação dos dois Gerentes Juniors, que sempre levavam a pior. Joana sempre se perguntava como eles aguentavam ainda. Ao final, reservaram a crítica final para ela. Disseram que sua apresentação estava amadora e que parecia que ela tinha passado para o estagiário fazer. Joana ia responder, ao que seu chefe levantou a mão para impedi-la, dizendo “não terminei ainda”. Então, ele começou a falar que entendia que o momento dela não era propício, pois ela tinha acabado de voltar da licença-maternidade e devia estar difícil manter a cabeça no lugar com um bebê em casa. Joana ia responder novamente, mas foi imediatamente interrompida. Ele continuou o discurso, falando que a empresa dava plenas condições para as “mamães” (sim, foi assim que ele colocou), mas que ela tinha que colaborar. Não podia apresentar um trabalho feito em cima da hora e ainda esperar que eles entendessem. Joana se preparou para responder, mas o chefe do chefe logo arrematou: “Talvez você precise pedir a um de seus colegas que a ajude. Que tal o Claudio, ou mesmo a Karen? Ela não tem filhos, sempre fica até mais tarde. Talvez possa te dar uma mão, né Karen?” Karen apenas levantou o olhar e deu um sorriso sem graça. Claudio prontamente se colocou à disposição, mas Joana o interrompeu e disse que agradecia mas que não era necessário. Questionou em que parte sua apresentação estava amadora ou incompleta e comentou sobre os resultados, todos dentro da meta. Seu chefe apenas gesticulou, como se aquilo fosse desnecessário e respondeu algo como “não precisa se explicar”. No final, decidiram que Claudio a ajudaria a formatar a apresentação, já que a dele estava sempre impecável. Joana teve ódio imediato de Claudio, de quem já não gostava muito. Achou desnecessário comentar ali que Claudio nunca fazia suas apresentações. Era sempre a analista sênior que se matava e ele apenas ia colher os louros na reunião. Diria isso a ele depois. Sabendo que não tinha mais o que dizer, se calou. A reunião acabou. Ao sair da sala, foi direto ao banheiro, para tentar se acalmar. Não demorou muito para ver Karen entrando esbaforida. Quando Karen viu Joana, hesitou, mas logo começou a desabafar: “nossa, nunca fui tão maltratada!” Joana olhou para ela e disse “eu sempre sou. Bem vinda à realidade”. Karen saiu do banheiro pisando duro. Joana teve vontade de estapeá-la. As duas tinham que ser mais unidas, não era assim que funcionava a tal sororidade? Saiu do banheiro e resolveu ir até a sala de Karen. Entrou, fechou a porta, sentou-se e perguntou: “o que você achou do que eles falaram para mim, sobre a questão dos filhos e etc?” Karen se empertigou, pois não esperava este confronto. Joana continou: “sei que não somos amigas, mas podemos ao menos ser aliadas e compreensivas uma com  a outra. Você é mulher. Eu sou mulher. Não estamos no time deles.” Karen olhou para baixo, sem dizer nada. Joana não conseguiu se conter e quase gritou: “pelo amor de Deus, diga alguma coisa!” Karen se assustou e começou a chorar. Joana esperou. Então, soluçando, Karen pediu desculpas. Disse que só naquele momento a ficha tinha caído e percebeu a megera que estava sendo. Achava-se privilegiada por nunca ter sido criticada, não queria ser vista com Joana, que era sempre motivo de comentários negativos nas reuniões, de uma forma ou de outra. De uma forma egoísta, Karen achava que Joana não pertencia ao clube dos bons. Disse assim mesmo “clube dos bons”. Joana riu, com desdém. Karen admitiu que aquilo era ridículo. “Ouvindo o comentário dele sobre seu retorno da licença, me senti atacada. Sei que tenho agido mal, mas gostaria de mudar isso.”. Joana sorriu, pôs a mão sobre a de Karen e respondeu: “Sempre podemos mudar o que não está bom. Juntas, será um pouco mais fácil”. Saiu da sala e, cheia de coragem, foi acabar com a raça de Claudio.

Heloísa

Heloísa não se considerava uma pessoa distraída. Porém, naquele dia em especial, estava aérea, com os pensamentos em tudo, menos no trânsito. Não notou que o farol tinha fechado e bateu no carro da frente. Antes de qualquer coisa, se xingou e começou a procurar o cartão da seguradora. Enquanto buscava na carteira, ouviu baterem no vidro do carro. Assustada, viu um homem alto, forte e bravo gritando para ela sair do carro. Fez sinal de “calma” para o homem, que estava nervoso e gritava “sai desse carro! Olha o que você fez!” Teve medo de sair e abriu o vidro. Iniciou pedindo desculpas e dizendo que estava procurando o telefone da seguradora. Ele começou a bater na lataria e então Heloísa fechou o vidro. Começou a tremer e não conseguia pensar em mais nada. Enquanto isso, o homem surtava. Até que se juntaram outros homens ao lado dele para tentar acalmá-lo e ele os incitou a fazer com que ela saísse do carro. Começaram a chamá-la de “piranha covarde” e a sacudir o carro. Heloísa pegou o celular e ligou para a polícia. Não foi levada a sério. Nem anotaram seu nome. Começou a chorar. Gesticulava para que eles parassem, mas não tinha coragem de sair do carro. Pegou novamente o celular para tentar ligar para alguém conhecido, quando, de repente, ouviu uma sirene de ambulância, que acabou dispersando o grupo. Neste momento, deu partida no carro, deu a ré e saiu cantando pneu, atrás da ambulância. Olhou pelo retrovisor e percebeu que o cara estava entrando no carro para segui-la. Enquanto dirigia, imaginava o que ele poderia fazer com ela? Agredi-la? Matá-la? Era um grande absurdo aquela situação. Num impulso, ao avistar um posto de gasolina, encostou o carro por ali mesmo, desligou o motor e saiu em direção à loja de conveniência. Ao entrar, procurou pela atendente e explicou a situação. Disse que não sabia se seu “perseguidor” entraria lá e estava com medo. A atendente, visivelmente chocada, chamou um dos frentistas e explicou a situação. Heloísa saiu da loja de conveniência junto com o frentista e ficaram ali parados, esperando. Alguns minutos depois, o carro do cara entrou no posto. Ele estacionou ao lado do carro de Heloísa e saiu, furioso. O frentista se colocou entre ele e Heloísa e pediu para ele se acalmar. O cara continuava gritando, parecia que tinha sangue nos olhos. Duas frentistas se aproximaram e se postaram ao lado do cara. Uma delas disse que se o cara não parasse de gritar, chamaria a polícia. Diante disso, ele parou de falar. Heloísa tomou coragem e disse a ele que ela estava apenas pegando o cartão da seguradora, que sabia que estava errada ao bater no carro dele, mas que nada daquilo justificava a atitude dele. Ela teve que sair dali porque eles estavam a assediando e ela estava com medo. Ao ouvir a palavra “assediando”, o cara ficou vermelho, e disse, entredentes “tá se achando muito gostosa, não?”. Nisso, uma das frentistas chamou a atenção dele e recomendou que pegasse as informações de que necessitava e se retirasse. O cara tinha as veias da testa saltadas, de tanto nervoso. Heloísa sentia as pernas tremerem, o estômago doer. Assim que ele pegou os dados, olhou para os frentistas e cuspiu no chão. Entrou no carro e saiu. Heloísa teve uma crise de choro e foi amparada pelos três. Tomou um copo de água e se recompôs. Agradeceu mil vezes aos três, teve uma mistura de vergonha e alívio. Estava entrando no carro, quando uma das frentistas disse: “Você não está sozinha. Juntas, somos mais fortes. E você pode denunciá-lo a qualquer momento. Se não agirmos, isso nunca vai parar.” Saiu do posto, com um pouco de esperança na humanidade. Ligou para o marido, finalmente, e explicou o que tinha acontecido. Após ouvir toda a história, ele perguntou: “Nossa, mas o que você fez para irritar tanto o cara?” Naquele momento, resolveu ir para a casa da irmã.