Resenha – Livro “Quando o Sangue Sobe à Cabeça”, de Anna Muylaerte (Ed. Lote 42)

Anna Muylaerte é cineasta e roteirista. Escreveu roteiros de filmes como Castelo Rá-Tim-Bum, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Xingu, e dirigiu Durval Discos, É Proibido Fumar e Que Horas Ela Volta?

Este livro foi idealizado pela Editora Lote 42, junto com a autora, Anna Muylaerte e teve a intenção de reunir contos escritos por ela na década de 90. Já no prefácio, encontramos a explicação da autora sobre o momento pelo qual passava quando escreveu estes contos. Era um período de crise na indústria do cinema, todos estavam apreensivos. Ela, por seu lado, passou a escrever, escrever e escrever. Após estes contos, escreveu roteiros para TV e depois deslanchou no cinema. Particularmente, gosto dos filmes dela. Foi por este motivo que comprei o livro (além de gostar de contos). São 6 contos, todos sobre mulheres, em algum momento de suas vidas, retratos de um cotidiano, da vida como ela é. Anna Muylaerte tem um humor ácido que me agrada. Junta-se a isso um leve sarcasmo ao narrar as mazelas da classe média. Para quem viveu naquela época, é uma delícia de leitura. Chega até a ser nostálgica.

Minha intenção, nesta resenha, é falar de cada um dos contos.

Portanto, aqui já deixo um ALERTA ANTI-SPOILER. Se você não leu o livro e quer parar por aqui, fique à vontade!

Conto 1

O segredo de Célia

O mote aqui é o surgimento “surpresa” de um ex-namorado de Célia, que contraiu AIDS. Ela surta completamente, entra no carro e vai para casa com a certeza de que está com a doença. Depois de dizer ao marido que ambos estão doentes e que ela vai morrer (sem ter feito o teste ainda), confessa a ele (e à terapeuta) que nunca teve orgasmo na vida. Ele fica indignado. Ela diz que está tudo acabado. Finalmente, ele vai pegar o resultado do teste, que dá negativo. Ela volta atrás no que disse, ele finge que acredita e tudo “volta ao normal”. Neste conto, ficam claros sentimentos como conformismo, ou, ainda, comodidade em meio a um casamento que não funciona para nenhuma das partes, a absoluta ignorância e falta de empatia com relação aos portadores de HIV, típico da época dos anos 90. É um conto rápido, certeiro, quase sem afeto. Mostra o que acontece em relações em que as coisas não são ditas e, quando o são, nada realmente muda.

Conto 2

O pulo do gato

O conto é sobre uma idosa que, aos 86 anos, se sente sozinha no Rio de Janeiro. Está prestes a mudar para São Paulo, a convite do genro, se anima, mas está com depressão. Ainda no Rio, faz um jantar de despedida com as amigas e, ao final, se mata. Os sentimentos que permeiam este conto são solidão, negação (por parte da filha da idosa), saudosismo, nostalgia e depressão. O que chama a atenção é a aceitação da protagonista de que sua vida deve acabar, e que ela é quem deverá tomar esta decisão. E o gato é essencial para isso.

Conto 3

A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti

Este conto tem um pouco cara de “anedota”, mas não no sentido divertido. Temos violência doméstica, falta de comunicação dos pais com os filhos, ignorância e fanatismo religioso (professora), cultura à época, de que não se falava de sexo ou temas relevantes com crianças (que acabem tendo como professoras pessoas com o a Cida, que não consegue ensiná-las algo relevante como educação sexual). O que vejo nesta história/anedota está relacionado com sarcasmo, negligência, conformismo (esposa e marido em um casamento não satisfatório para ambos), falta de transparência, bem típica da época. Não foi um conto que me agradou muito, para falar a verdade.

Conto 4

Quando o Sangue Sobe à Cabeça

Para mim, o melhor conto da coleção (e que dá título ao livro). Trata de um drama familiar, muito bem contado. Temos aqui mais um casamento, de anos, falido. E, junto a isso, a autora acrescenta a mulher na pré-menopausa de saco cheio de tudo, a filha chegando na adolescência, mimada e egoísta, o marido em crise de meia idade, que transou com a empregada, a qual mora com a família há duzentos anos e acaba engravidando do patrão. O drama do conto começa com a morte de Dalva, a empregada, que faz um auto-aborto com uma agulha de tricô. Quando o patrão (Paulo) descobre o corpo da empregada, a filha tem a tão esperada menarca e a esposa sai de casa, deixando tudo para trás. Além disso, há a figura do velho (Onofre), de 88 anos, praticamente inválido, à espera da morte que não vem. O conto parece um filme, muito bem estruturado e com o humor ácido característico da autora. Temos os sinais das trocas de papéis dentro da família, em que a figura do homem vai perdendo protagonismo e se tornando ridícula, com situações de vergonha (impotência, não só sexual) e ignorância (menstruação x menopausa). O banheiro da casa é um personagem importante. E, como disse uma pessoa que comentou sobre o livro, o conto é uma hemorragia! A parte da descrição da morte de Dalva é quase poética. Aqui já vemos sinais da presença da empregada na família e as questões complexas advindas desta convivência, o que foi magistralmente explorado no filme Que Horas Ela Volta?. Uma observação que eu faço, para este conto é: se, após 26 anos, as coisas mudaram tanto assim, de verdade, ao observarmos uma família “tradicional” hoje. Talvez, e infelizmente, não… Ainda…

Conto 5

Procurando Pelo em Ovo

Não é uma obra-prima, comparando com o anterior. Parece mais uma crônica do que um conto, uma paródia do mundo do salão de beleza, em que temos a depiladora intrometida, fofoqueira e esnobe, que acaba descobrindo que o marido é homossexual. Chega a ser engraçado em alguns momentos, mas está longe da elaboração do conto 4, por exemplo.

Conto 6

Padecendo no Paraíso

Maria Julia está gravidíssima e prestes a entrar em trabalho de parto, porém ainda sofre nos últimos dias, pois engorda mais do que permitido, tem azia permanente e está muito inchada. Apesar de todo o perrengue, o momento do nascimento acaba sendo libertador para ela. Um conto muito bem-humorado, que poderia e a experiência de qualquer mulher grávida. Não coloca glamour onde realmente não existe. Realista e engraçado. É a cereja do bolo deste belo e interessante livro. Impagáveis os momentos em que a mulher reclama do médico, dos atrasos e do fato de ele ter já feito 12.000 partos.

Um Dia

Um dia nublado

Garoa, para, garoa, para

Aquele canto dos pássaros que eu ouvia

Para onde foi?

Aquelas risadas das crianças brincando após o almoço

O que as calou?

Um dia nublado

Final de outono

As plantas estão tristes

As borboletas sumiram

Anoitece logo

Quando vejo, já não vejo mais nada

Acendo a luz

Ouço o chamado dos morcegos

Que logo partem

Os sons que permanecem, faça chuva, faça sol

São das motos, das britadeiras, dos carros e da máquina de lavar roupa

A minha, a do vizinho…

Até as notícias são mais cinzas

As roupas

As pessoas

Um dia nublado

Sem sinal do sol

Uma chuva fina, inoportuna

Tanto quanto a morte que nos espreita

E se mostra aos que se distraem

Aos que não se cobrem

No ar frio desse dia cinzento

Um dia nublado

É só mais um dia…

Sinto falta das maritacas

Das joaninhas

Do pequeno arco íris no vidro da janela da sala

Um dia nublado

Páginas de um livro são devoradas

Enquanto a TV anuncia

Mais mortes

Mais cores cinzas

E logo virá o inverno

Aguardemos com nossos cachecóis

Nossos chás quentes

E uma pitada de esperança

Eliana Leite

14/05/2020

Soraia

Estava escuro na rua. Garoava. Era Outono. O guarda-chuva era inútil, pois a garoa vinha oblíqua e molhava seu rosto. Estava com frio. Soraia andava rápido, pois tinha que chegar em casa a tempo de José sair para o trabalho e não deixar a filha sozinha. Não queria dar motivo para ele ficar nervoso. A mandíbula ainda doía do soco da semana passada. Quando sua patroa perguntou o que tinha acontecido, disse que caiu na rua. Quando seu irmão perguntou, disse que não era da conta dele. Quando se olhou no espelho, teve vergonha. Chegou em casa, esbaforida, a tempo. A tempo para a dupla jornada: lavar, passar, cozinhar e cuidar da filha. A repetição do trabalho que fazia na casa dos outros. Entregava o salário na mão de José, toda semana. Ele que cuidava dos gastos. Quando sobrava, dava um dinheiro para ela. Cada vez, mais, isso era raro. Costumava guardar o dinheiro em um pote, na gaveta da cômoda, no quarto. A última vez que olhou, mal tinha dinheiro para comprar calcinhas. E estava precisando. Quando pediu a José, ele riu. E não deu o dinheiro. Ela, então, guardou um pouco para si do que tinha recebido da patroa. Na hora, ele percebeu que tinha menos. Ela mentiu, dizendo que a patroa ia completar na semana seguinte. Não teve tempo de desviar. O tapa veio na mesma hora. E então ele a revistou em busca do dinheiro. Encontrou. Deu outro tapa. E saiu com o dinheiro, no meio da noite. Soraia nunca mais guardou o dinheiro, nem pediu. Começou a pedir dinheiro emprestado para a irmã, Maria, que reclamava, mas tinha pena e dava. Maria trabalhava como supervisora em uma empresa prestadora de serviços de limpeza. Estava fazendo faculdade, não era casada. Soraia tinha um baita orgulho da irmã. Invejava a liberdade dela. A inteligência. Soraia não conseguia sair do buraco em que tinha se metido. Na verdade, nem tentou. Tinha medo. Quando conversava com Maria sobre isso, era dolorido, triste. Maria dizia que ela tinha que denunciar José. Soraia nem sabia como faria isso. Ficava sem chão ao pensar na filha, sem pai. Soraia mal sabia ler e escrever. Tinha completado o curso fundamental, e olhe lá. Conseguiu o trabalho na casa da patroa por indicação da irmã. Aceitou trabalhar sem registro. Precisava do dinheiro. Não sabia muitas coisas. Só queria que sua filha pudesse terminar os estudos e ser melhor do que ela. Conhecia José desde sempre. Ele começou a bater nela depois que a filha nasceu. Soraia não entendia o porquê. Não conseguia conversar com José sobre isso. Não sabia o que dizer. Pensou, no fundo, que talvez merecesse ser tratada daquela forma por ser burra, por não ter vencido na vida. José vivia a chamando de tonta, de mula. Ela aceitava. Não falava nada disso para o irmão, Antonio, porque este a julgava. Não era como Maria, que a ouvia e tentava ajudar, mesmo não conseguindo. Antonio tinha uma esposa que trabalhava em dois turnos e ele não fazia muita coisa para ajudar. Vivia de bicos e era basicamente um vagabundo. Soraia o observava rondando pelo bairro, parando nos bares, conversando com as mulheres. Então, quem era ele para julgá-la? Ela podia até não saber muito, mas sabia que o irmão não era grande coisa. Naquela noite, colocou a filha para dormir cedo e ficou na janela, observando. De repente, viu o irmão zanzando pela rua em direção à casa dele. Conhecia aquele olhar. Olhar de bêbado. Era o mesmo que José tinha nos finais de semana. Os piores. Resolveu sair de casa e seguir Antonio, que mal percebeu. Assim que o viu chegar em casa, se esgueirou atrás da janela. Ouviu-o chamado pela esposa. Quando viu que ela não respondia, começou a gritar. Soraia não entendeu. Ouviu o barulho de louças quebrando. Antonio estava tendo um ataque. Resolveu entrar na casa. Assim que entrou, gritou para Antonio parar com aquilo. Este, bêbado, sem entender nada, parou. Caiu no chão. Começou a chorar. “Ela foi embora, Soraia! Ela me deixou”. Soraia levou o irmão para tomar um banho frio, fez um café forte e esperou ele se recompor. Conversaram. Ele explicou que há alguns dias tinham tido um briga feia, em que ela disse tudo o que estava entalado há anos, segundo ela mesma, que não aguentava mais a vagabundagem dele. Quando ouviu isso, Antonio confessou à irmã que perdeu as estribeiras e deu um tapa na cara dela, que devolveu na hora e disse que iria embora. E, desde então, sumiu mesmo, não deu mais sinal e ele estava desesperado. “O que eu faço, irmã?” Soraia ouviu tudo aquilo e, de repente, teve vontade de bater no irmão. Começou a chorar. Antonio não entendeu nada. Perguntou se estava tudo bem. Soraia começou, então, a dizer a ele que não se bate em mulher, que ela estava certa em ir embora, onde já se viu, aguentar a vagabundagem dele e ainda ter que levar um tapa na cara. Defendeu a cunhada e acusou Antonio de ser um fracassado. “Eu apanho do meu marido, mas sou fraca. A sua mulher é que está certa. Você não passa de um covarde”. Antonio ficou olhando para a irmã, atônito. “Você apanha do José?” Soraia respondeu que aquilo não vinha ao caso. Antonio insistiu “como assim, apanha?” Então, Soraia mostrou o último hematoma. “Sim, apanho, olha aqui! Mas e daí, você também bateu na sua mulher!” Antonio se levantou e chutou a cadeira, com raiva. “Ninguém bate na minha irmã! Vou acabar com esse desgraçado”. Soraia começou a rir. “Você não está falando sério, né? Acabou de dizer que bateu na Célia e agora vai dar uma de valentão para cima do José pela mesma coisa?” “Não é a mesma coisa!” “É sim! Não quero que você venha me defender. Você é igual a ele. Se a mãe estivesse viva, estaria morrendo de vergonha de você. Um bêbado, vagabundo e covarde.” Antonio levantou a mão e então Soraia o enfrentou: “Vai bater em mim? Viu como você é um bosta? Vem, bate! Mas se bater, eu te arrebento!” Antonio abaixou a mão e começou a chorar novamente. Soraia o deixou na casa e se foi. Ao chegar em casa, arrumou sua mala, a de sua filha e se foi, sem deixar bilhete, nem nada.

Joana

De olho no relógio para não perder a hora da reunião, Joana estava tensa. A apresentação estava pronta, ela estava preparada, mas sempre ficava nervosa quando tinha que falar em público. Tinha ensaiado diversas vezes, mas mesmo assim, estava insegura. E se fizessem mil perguntas e ela não soubesse a resposta? “Diga simplesmente que vai verificar e depois retorna por e-mail”, seu marido dizia. Ela sabia que para ele era mais fácil, pois era extrovertido e estava acostumado a esse tipo de exposição. Ele sempre se saía bem, mesmo que fosse pela tangente. Quantas vezes ela não se perguntou porque não conseguia ser assim, desprendida e descontraída, como se aquilo fosse algo normal, sem tanto stress e cobrança? Faltavam quinze minutos para a reunião e Joana foi para a sala. Sempre chegava pelo menos com cinco minutos de antecedência, ainda que soubesse que nunca começavam nada no horário. Ao chegar, como previsto, não havia ninguém na sala. Escolheu um lugar perto da mesa de café e tomou mais alguns minutos para ler suas anotações. Aos poucos, as pessoas foram chegando e a reunião começou com 10 minutos de atraso. Joana contou: 2 mulheres e 8 homens. Uma das mulheres era sua par. Um dos homens, seu chefe e outro, chefe do seu chefe. O tema da reunião era apresentação dos resultados do mês. Cada gerente tinha que apresentar sua parte. Era meio ridículo que Joana se sentisse nervosa, após anos fazendo esta reunião, todo mês. Porém, não conseguia controlar. Sentia que, no momento em que abria a boca, o ar ficava pesado e todos olhavam para ela, prontos para fazerem alguma pergunta para a qual ela não estaria preparada. Nem sempre isso acontecia. Havia ocasiões em que ela saía ilesa. Achava curioso que sua par não parecia sofrer do mesmo mal. Nunca faziam perguntas fora do contexto para ela. Quando ela comentava sobre o assunto, recebia um aceno de mão e um comentário do tipo “imagina, querida, você foi ótima”. Não ajudava muito. Naquele dia, Joana seria a última, o que podia ser bom ou ruim, dependendo do andar da reunião. Se os gerentes apresentassem direitinho, o chefe e o chefe do chefe aceleravam a reunião e não faziam perguntas. Mas, se a coisa degringolava, o último a apresentar era o que mais sofria. Joana torceu para que seus colegas fizessem um bom trabalho. A primeira apresentação correu bem, sem grandes percalços. A partir da segunda, o clima começou a pesar, pois as notícias não eram muito boas. Projetos não concluídos, prazos não cumpridos, gastos que excediam o orçamento previsto para o mês sem justificativa prévia, viagens não autorizadas, e assim por diante. Joana sentia o suor escorrendo em suas costas. O frio na barriga aumentava. Olhou para suas anotações. Não tinha notícias maravilhosas, mas também não havia nada de terrível a ser apresentado. Tentou se manter confiante. Ao chegar sua vez, iniciou com alguns dados introdutórios, ao que seu chefe a interrompeu e pediu para que fosse direto ao assunto, pois tinham pouco tempo. Foi então direto ao assunto e apresentou seus resultados, procurando dar enfoque ao que era positivo. Não conseguiu terminar, pois o chefe do chefe interrompeu e comentou a respeito do formato da apresentação, que estava fora do template corporativo. Joana estranhou o comentário, pois os dois colegas anteriores tinham apresentado no mesmo formato que o dela. Outro comentário foi sobre o inglês, que acharam que estava muito formal e as informações não estavam claras. Ela tinha que ser mais objetiva, ele dizia. Joana tentou prosseguir e, ao chegar perto do final, viu que todos estavam olhando para seus celulares, ou tendo conversas paralelas. Resolveu encerrar ali mesmo. Nisso, seu chefe olhou para a tela e disse “só isso? Ok, obrigada”. Joana se sentou, sentindo-se um lixo, procurando ignorar o bolo que se formava em seu estômago. Ao final das reuniões, a sessão de tortura começava: tanto o chefe de Joana, quanto o chefe do chefe, faziam comentários sobre cada uma das apresentações e, com exceção de algum ou outro, todos eram duramente criticados. No começo, Joana anotava as críticas e procurava incorporar as mudanças para as próximas apresentações. Porém, nunca estava à altura. Era bem desgastante. Naquele dia, por algum milagre, a par de Joana foi a primeira a ser criticada. Disseram que a apresentação dela precisava ser alterada para conter mais explicações, pois o documento iria para o exterior e tinha que ter mais informações. Em seguida, meteram o pau na apresentação dos dois Gerentes Juniors, que sempre levavam a pior. Joana sempre se perguntava como eles aguentavam ainda. Ao final, reservaram a crítica final para ela. Disseram que sua apresentação estava amadora e que parecia que ela tinha passado para o estagiário fazer. Joana ia responder, ao que seu chefe levantou a mão para impedi-la, dizendo “não terminei ainda”. Então, ele começou a falar que entendia que o momento dela não era propício, pois ela tinha acabado de voltar da licença-maternidade e devia estar difícil manter a cabeça no lugar com um bebê em casa. Joana ia responder novamente, mas foi imediatamente interrompida. Ele continuou o discurso, falando que a empresa dava plenas condições para as “mamães” (sim, foi assim que ele colocou), mas que ela tinha que colaborar. Não podia apresentar um trabalho feito em cima da hora e ainda esperar que eles entendessem. Joana se preparou para responder, mas o chefe do chefe logo arrematou: “Talvez você precise pedir a um de seus colegas que a ajude. Que tal o Claudio, ou mesmo a Karen? Ela não tem filhos, sempre fica até mais tarde. Talvez possa te dar uma mão, né Karen?” Karen apenas levantou o olhar e deu um sorriso sem graça. Claudio prontamente se colocou à disposição, mas Joana o interrompeu e disse que agradecia mas que não era necessário. Questionou em que parte sua apresentação estava amadora ou incompleta e comentou sobre os resultados, todos dentro da meta. Seu chefe apenas gesticulou, como se aquilo fosse desnecessário e respondeu algo como “não precisa se explicar”. No final, decidiram que Claudio a ajudaria a formatar a apresentação, já que a dele estava sempre impecável. Joana teve ódio imediato de Claudio, de quem já não gostava muito. Achou desnecessário comentar ali que Claudio nunca fazia suas apresentações. Era sempre a analista sênior que se matava e ele apenas ia colher os louros na reunião. Diria isso a ele depois. Sabendo que não tinha mais o que dizer, se calou. A reunião acabou. Ao sair da sala, foi direto ao banheiro, para tentar se acalmar. Não demorou muito para ver Karen entrando esbaforida. Quando Karen viu Joana, hesitou, mas logo começou a desabafar: “nossa, nunca fui tão maltratada!” Joana olhou para ela e disse “eu sempre sou. Bem vinda à realidade”. Karen saiu do banheiro pisando duro. Joana teve vontade de estapeá-la. As duas tinham que ser mais unidas, não era assim que funcionava a tal sororidade? Saiu do banheiro e resolveu ir até a sala de Karen. Entrou, fechou a porta, sentou-se e perguntou: “o que você achou do que eles falaram para mim, sobre a questão dos filhos e etc?” Karen se empertigou, pois não esperava este confronto. Joana continou: “sei que não somos amigas, mas podemos ao menos ser aliadas e compreensivas uma com  a outra. Você é mulher. Eu sou mulher. Não estamos no time deles.” Karen olhou para baixo, sem dizer nada. Joana não conseguiu se conter e quase gritou: “pelo amor de Deus, diga alguma coisa!” Karen se assustou e começou a chorar. Joana esperou. Então, soluçando, Karen pediu desculpas. Disse que só naquele momento a ficha tinha caído e percebeu a megera que estava sendo. Achava-se privilegiada por nunca ter sido criticada, não queria ser vista com Joana, que era sempre motivo de comentários negativos nas reuniões, de uma forma ou de outra. De uma forma egoísta, Karen achava que Joana não pertencia ao clube dos bons. Disse assim mesmo “clube dos bons”. Joana riu, com desdém. Karen admitiu que aquilo era ridículo. “Ouvindo o comentário dele sobre seu retorno da licença, me senti atacada. Sei que tenho agido mal, mas gostaria de mudar isso.”. Joana sorriu, pôs a mão sobre a de Karen e respondeu: “Sempre podemos mudar o que não está bom. Juntas, será um pouco mais fácil”. Saiu da sala e, cheia de coragem, foi acabar com a raça de Claudio.

Heloísa

Heloísa não se considerava uma pessoa distraída. Porém, naquele dia em especial, estava aérea, com os pensamentos em tudo, menos no trânsito. Não notou que o farol tinha fechado e bateu no carro da frente. Antes de qualquer coisa, se xingou e começou a procurar o cartão da seguradora. Enquanto buscava na carteira, ouviu baterem no vidro do carro. Assustada, viu um homem alto, forte e bravo gritando para ela sair do carro. Fez sinal de “calma” para o homem, que estava nervoso e gritava “sai desse carro! Olha o que você fez!” Teve medo de sair e abriu o vidro. Iniciou pedindo desculpas e dizendo que estava procurando o telefone da seguradora. Ele começou a bater na lataria e então Heloísa fechou o vidro. Começou a tremer e não conseguia pensar em mais nada. Enquanto isso, o homem surtava. Até que se juntaram outros homens ao lado dele para tentar acalmá-lo e ele os incitou a fazer com que ela saísse do carro. Começaram a chamá-la de “piranha covarde” e a sacudir o carro. Heloísa pegou o celular e ligou para a polícia. Não foi levada a sério. Nem anotaram seu nome. Começou a chorar. Gesticulava para que eles parassem, mas não tinha coragem de sair do carro. Pegou novamente o celular para tentar ligar para alguém conhecido, quando, de repente, ouviu uma sirene de ambulância, que acabou dispersando o grupo. Neste momento, deu partida no carro, deu a ré e saiu cantando pneu, atrás da ambulância. Olhou pelo retrovisor e percebeu que o cara estava entrando no carro para segui-la. Enquanto dirigia, imaginava o que ele poderia fazer com ela? Agredi-la? Matá-la? Era um grande absurdo aquela situação. Num impulso, ao avistar um posto de gasolina, encostou o carro por ali mesmo, desligou o motor e saiu em direção à loja de conveniência. Ao entrar, procurou pela atendente e explicou a situação. Disse que não sabia se seu “perseguidor” entraria lá e estava com medo. A atendente, visivelmente chocada, chamou um dos frentistas e explicou a situação. Heloísa saiu da loja de conveniência junto com o frentista e ficaram ali parados, esperando. Alguns minutos depois, o carro do cara entrou no posto. Ele estacionou ao lado do carro de Heloísa e saiu, furioso. O frentista se colocou entre ele e Heloísa e pediu para ele se acalmar. O cara continuava gritando, parecia que tinha sangue nos olhos. Duas frentistas se aproximaram e se postaram ao lado do cara. Uma delas disse que se o cara não parasse de gritar, chamaria a polícia. Diante disso, ele parou de falar. Heloísa tomou coragem e disse a ele que ela estava apenas pegando o cartão da seguradora, que sabia que estava errada ao bater no carro dele, mas que nada daquilo justificava a atitude dele. Ela teve que sair dali porque eles estavam a assediando e ela estava com medo. Ao ouvir a palavra “assediando”, o cara ficou vermelho, e disse, entredentes “tá se achando muito gostosa, não?”. Nisso, uma das frentistas chamou a atenção dele e recomendou que pegasse as informações de que necessitava e se retirasse. O cara tinha as veias da testa saltadas, de tanto nervoso. Heloísa sentia as pernas tremerem, o estômago doer. Assim que ele pegou os dados, olhou para os frentistas e cuspiu no chão. Entrou no carro e saiu. Heloísa teve uma crise de choro e foi amparada pelos três. Tomou um copo de água e se recompôs. Agradeceu mil vezes aos três, teve uma mistura de vergonha e alívio. Estava entrando no carro, quando uma das frentistas disse: “Você não está sozinha. Juntas, somos mais fortes. E você pode denunciá-lo a qualquer momento. Se não agirmos, isso nunca vai parar.” Saiu do posto, com um pouco de esperança na humanidade. Ligou para o marido, finalmente, e explicou o que tinha acontecido. Após ouvir toda a história, ele perguntou: “Nossa, mas o que você fez para irritar tanto o cara?” Naquele momento, resolveu ir para a casa da irmã.

Circo

No picadeiro, a música toca

Os palhaços brincam

A plateia boceja

Lá no alto, a artista anda na corda bamba

E sabe que, se cair, nada acontecerá

O show se repete a cada noite

Os acrobatas zombam do mágico

A plateia boceja

A bailarina fugiu com o homem-bala

O globo a morte está vazio

A contorcionista se cansou

O cuspidor de fogo só faz fumaça

A plateia boceja

Plateia esta que sempre vem

Tira fotos e não as vê

E se vai, morta de tédio

Todos os dias serão assim?

Como mudar o amanhã

Sem que tudo se acabe de vez?

Eliana Leite

(12/05/2020)

Enquanto isso, na quarentena…

Dia 08 de maio de 2020. O dia em que resolvi abrir novamente meu caderno de anotações e olhar para meu propósito. Por que fujo do meu propósito? Estou colocando a culpa na pandemia. Conveniente, não?

Apenas para lembrar a mim mesma, meu propósito é ESCREVER:

“O que o pintor busca nas tintas

O que o ator busca no palco

O que o pescador busca no mar

Eu busco na escrita.”

Completo um ano desde que “pedi as contas” no meu último emprego. Um ano! Há um ano, eu não tinha ideia do que me esperava. Deu medo, frio na barriga, bateu a dúvida, mas fui. Percebo, hoje, que não havia outro caminho. Não para mim, ou para minha sanidade. Eu era escreva da minha própria condição. Via-me como vítima. Esse papel é ingrato. Não é fácil tomar uma decisão de ruptura. Ainda que se trace um plano, absolutamente nada garante que ele vai dar certo.

Os primeiros meses foram de adaptação a uma nova realidade. Eu poderia ter desistido do meu propósito, adiado novamente e sucumbido. Mas não o fiz. Publiquei 3 livros pela Amazon (de forma independente), sendo um deles parte de um projeto de muitos anos, em que compilei tudo o que havia escrito desde os idos de 1990. Com relação ao trabalho de consultoria, o caminho é mais vagaroso, requer paciência e disciplina. Resolvi fazer um investimento em março deste ano e me associei a uma empresa. Estou apostando nisso como meu projeto de empreendedorismo, que, sei, se concretizará a médio/longo prazo.

Procuro não “pirar” por conta de dinheiro (ou da não entrada dele). Às vezes, dou uma leve surtada. Em 30 dias, terei que fazer mudanças radicais no meu orçamento. Isso já estava no plano (apesar de ter tido um pensamento, lá atrás, de que em um ano já teria alguma grana entrando). Enfim, apertar para depois soltar.

Tenho mil ideias na cabeça, mas confesso que não tem sido tarefa fácil colocar em prática. Eu saí da “rede de segurança” que eu tinha quando andava na corda bamba do mundo corporativo e agora não tem mais volta. Simplesmente não volto mais ao picadeiro. Não mais no mesmo papel.

Pandemia

Pergunto-me se imaginava testemunhar e vivenciar uma pandemia como esta que se apresenta. Não, eu não imaginava. Não pensei que viveria dias assim, que veria notícias sobre número de casos x número de mortes diariamente e que o medo seria um companheiro diário. O medo de me contaminar, o medo de morrer, o medo de que meus pais adoeçam, meu marido, amigos, vizinho. A aflição de viver num país despreparado, com pessoas que morrerão de fome porque não tem casa para ficar. Pessoas que morrerão porque não tem água para lavar as mãos. Pessoas que morrerão porque na hora que o bicho pegar, e ele vai pegar, haverá uma seleção de quem salvar.

Penso na falta de união do Poder Executivo… Penso na burocracia que impede que a ajuda chegue a quem precisa. Penso no fato de que eu comecei um novo negócio junto com o Coronavírus. Penso que sou privilegiada e que ficar em casa é a melhor coisa que faço para ajudar o outro. Penso no futuro, sem saber do presente. Há dias em que sou tomada por uma tristeza enorme, impotência. Há dias em que busco esperança dentro de mim. Tendo a ser otimista, mas ultimamente, a realidade tem se mostrado dura.

Não tenho o objetivo de ser alarmista ou fatalista, ou de ser aquela personagem que grita por aí “vamos todos morrer”! Não. Longe disso. Apenas não sei se sei como lidar, pois é a primeira vez que vivo isso. Nunca participei de uma guerra. Nunca passei fome. Nunca precisei racionar a comida de hoje para não passar necessidade amanhã. Sei o que li. O que ouvi. Àquilo que assisti em documentários, filmes, relatos. Estamos em guerra? O inimigo é invisível? Somos, de fato, vítimas? Ou estamos diante do inevitável, do inexorável, da consequência de nossos atos? A pandemia revela outras mazelas. Sociais, políticas, econômicas e comportamentais. Não vivo o lockdown (ainda), mas, dentro do que consigo, faço o isolamento, distanciamento, quarentena, seja o nome que for. Isso já não é fácil. Se meu vizinho não faz o mesmo que eu, porque estamos ainda na base do bom senso, adianta eu gritar para ele ficar em casa? Agredir verbalmente os idosos porque eles precisam ir à farmácia (existem idosos sozinhos e agora, ao invés de julgá-lo, é necessário refletir sobre o motivo pelo qual ele está sozinho) ajuda em que? Vejo julgamentos, pessoas com soluções para problemas alheios, total falta de empatia, passividade e vitimismo. Não sei o que é pior.

O que vivemos hoje nada mais é do que o resultado da falta de recursos, desde saneamento até educação, passando por nutrição e saúde, velada por discursos vazios e inócuos. Temos uma desunião em meio a uma pandemia. Para mim, isso é apenas a ponta do iceberg. Conversando com pessoas, vejo que a preocupação com a economia é real, tangível, iminente. O comerciante que teve que fechar as portas tem contas para pagar e pessoas que dependem dele. Ele deve se calar? O autônomo que vive do seu trabalho diário, da prestação de serviços, para de trabalhar e vive do que? A diarista que parou de trabalhar e não está recebendo, faz o quê? Eles também devem se calar? Não sei. Qual a solução? O Estado? Um jornalista mencionou, desde o início da pandemia, que a mão invisível do mercado saiu para passar álcool em gel e agora é a vez da mão pesada do Estado entrar. Isso já faz pelo menos um mês. E a ajuda até veio. Aí aparecem as mazelas. A pessoa teve o CPF cancelado porque não votou. A pessoa sequer tem CPF. Não sabe o que é um aplicativo, não tem celular, não tem conhecimento nem recursos suficientes para compreender essa comunicação que é vomitada como se fossem todos iguais. Ouço em diversos canais que não estamos no mesmo barco, pois cada um está numa situação diferente. Concordo. Por isso, a união, o alinhamento na comunicação, a urgência na ajuda e o afastamento de demagogias e egos é fundamental. Porém, como mencionei antes, as crises revelam o que há de pior e melhor nas pessoas. Quem é bom, continua bom. Quem é egoísta, se torna mais egoísta. Um país que não sabe para onde quer ir, continuará ainda mais perdido.

O vírus está aí. Não adianta negar a sua existência. Não adianta colocar um véu ou fechar os olhos para o que virá pela frente, ou, ainda pior, fazer com que toda uma nação feche os olhos para um buraco para então cair em outro. Não há um caminho fácil, pois o cobertor é curto. Entretanto, é mais do que necessário oferecer soluções, possibilidades. Quebrar paradigmas, círculos viciosos e padrões tóxicos. A verdadeira pandemia pode vir da manutenção de comportamentos e discursos que levam à negação. E, invariavelmente, morreremos, de um mal ou de outro.

Finalizo com uma frase de Carl Jung: “Aquilo a que você resiste, persiste.”

Eliana Leite – 14/04/2020

Filmes com Drew Barrymore

Sempre fui fã da Drew Barrymore. Acredito que tenha assistido a quase todos os filmes que ela fez depois de voltar de vez ao cinema (ela havia, digamos, dado um tempo). Vou listar aqui alguns filmes com ela de que gosto muito:

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Preciso dizer algo sobre E.T? Drew era uma menina, fofa, linda e que gritava bastante…rsrs…

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Acredito que este tenha sido o filme do “recomeço”, quando Drew estava de volta, firme e forte. É uma comédia romântica irresistível, bem anos 90. Faz tempo que não revejo. É uma graça.

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Este também é um filme dos anos 90, que faz parte do que eu chamo do retorno da Drew. Uma história bem bonitinha e empoderadora, que coloca a atriz bem à vontade com seu estilo diferentona de ser. Para as jovens daquela época, era um alívio ver um filme que “desencantava” as histórias de princesas e afins.

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Como se pode perceber, o final dos anos 90 foi muito produtivo para Drew Barrymore. Este filme é uma delícia e traz Adam Sandler com um frescor de tirar o fôlego. A química entre os dois é maravilhosa e se repetiu em outro filme, que logo comentarei. Para mim, “Afinados no Amor”, é um hit dos anos 90 e tem que ser assistido por todos!

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Ao contrário de Cameron Diaz, com quem tenho “mixed feelings” sobre sua capacidade de atuação, acho que Drew Barrymore acertou em cheio ao fazer esta versão dos anos 2000 de “As Panteras”. Ela é engraçada, irônica e não leva nada disso a sério, o que torna sua personagem irresistível. Um ícone cult, praticamente.

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Eu simplesmente AMO esse filme. Feito em 2001, ele me arrebatou de uma forma que não consigo nem descrever. Tenho em DVD e pretendo guardar por muitos e muitos anos. A história é sensacional, e Drew mostra aqui seu grande talento de fazer uma jovem, uma adulta, uma senhora… Ela transita facilmente em todas essas fases sem se tornar uma canastrona. Certamente, é um dos TOP 10 da minha lista. Não assistiu? Está perdendo.

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Acho que é o filme mais fofo, engraçado e romântico dos últimos tempos. Novamente, a química dos dois aqui é incrível. Já assisti várias vezes e nunca me canso.

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Vai me dizer que você não adora esse filme, com o Hugh Grant fazendo um papel de “semi” fracassado e a Drew mostrando seus dotes artísticos e sendo toda contida e fofa em seu papel. Eu adoro tudo nesse filme.

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Nesse filme feito para a TV, vemos uma Drew Barrymore majestosa, livre de todas as personagens que sempre acaba fazendo. O filme teve 17 indicações ao EMMY em 2009. Excelente, imperdível!

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E termino com essa pérola de 2014. Filme forte, triste, com duas atrizes que amo. Drew está mais madura, e isso fica visível na tela. Recomendo.

E agora, fica a pergunta: Drew, qual o próximo grande filme? Nem me venha com Santa Clarita Diet por favor.

Borboletas

Nesse meu delírio, calor e frio

Você vem à mente, quase uma luz

Que logo se apaga,

Lágrimas na escuridão

O seu nome sufocado pela agonia,

Dor no peito…

Saudades…

De que?

Do que quase era, do pouco que não foi,

Será um dia?

Seria?

Quem iria primeiro?

Dou a mão, o braço, o corpo inteiro,

A boca, o querer

E ao abrir os olhos, você se foi

E diante de mim, flores na parede, ar frio,

A lâmpada quebrada

As roupas no chão…

Deito-me em minha cama e sinto tudo rodar

Pronuncio seu nome e esqueço seu rosto

Para, no dia seguinte, gritar, rasgando por dentro,

Sem ter onde segurar

Apenas o suor frio, que escorre pelas costas,

Molha a roupa e me enlouquece

Doente de amor?

Louca de desejo?

Você nunca saberia, ou poderia entender,

Não olha ao seu redor

Pego minhas palavras e as lanço ao vento,

Mais uma vez,

Para que se percam e, um dia desses, voltem a mim

Ou fiquem pregadas numa placa de rua qualquer

Não corra, não ame, não feche o cruzamento

Essa linha tênue que separa

Sanidade e loucura,

Amor e amizade,

Febre, delírio…

Voo para longe, junto das outras mariposas

Vida breve,

Nela não mais cabe você, que fica para trás

Tentando caçar borboletas…

Eliana Leite

03/06/2004