Resenha: “Lute como Uma Garota”

Livro de Laura Barcella e Fernanda Lopes (com prefácio de Mary Del Priore).

Trata-se da reunião de 60 feministas que mudaram o mundo, sendo 45 estrangeiras e 15 brasileiras. É uma leitura muito interessante, pois traz o perfil de mulheres desde o século XVIII até os dias de hoje, com suas respectivas lutas e contribuições para o movimento, ainda que algumas delas não se declarem, de forma expressa, feministas. A estrutura do livro é de fácil e rápida leitura, apresentando uma breve história de cada mulher, suas principais realizações e frases de impacto. Achei a parte relativa às brasileiras um pouco mais enxuta, digamos assim, do que a parte estrangeira, embora tenha trazido histórias relevantes.

Reuni aqui um “compilado do compilado”, destacando aquelas mulheres que, para mim, tiveram (e tem) um significado importante na história e no feminismo.

  1. Mary Wollstonecraft (1759 – 1797) – Inglaterra

Escritora, filósofa e defensora dos direitos das mulheres.

Suas grandes realizações:

Mary Wollstonecraft foi uma das primeiras pessoas a propor o livre pensamento na esfera religiosa. Julgava que as mulheres deveriam viver de modo independente e formar as próprias opiniões, não baseadas em uma fé cega em uma divindade.

Frases famosas:

“Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sim sobre si mesmas.“

“Independência – há muito eu a considero a grande benção da vida, a base de todas as virtudes.”

  1. Sojourner Truth (Nascida: Isabelle Baumfree – 1797 – 1883) – Estados Unidos

Abolicionista, escritora, ativista pelos direitos da mulher.

Suas grandes realizações:

Sojourner Truth não tinha medo de um desafio. Em uma reunião em 1852, Frederick Douglass sugeriu que os negros deveriam usar a força para conquistar sua liberdade. Sojourner, que tinha a não violência como elemento fundamental de sua fé cristã, repeliu as afirmações de Douglass, exclamando: “Deus foi-se embora?”

Frases famosas:

“Estou feliz ao ver que os homens estão conseguindo seus direitos, mas quero que as mulheres também consigam os seus, e, enquanto a água se agita, vou entrar nesse lago.”

“Não sou eu uma mulher? Olhe para mim! Veja o meu braço! Já manejei o arado, já plantei, já guardei a colheita nos celeiros, e nenhum homem conseguia chegar na minha frente! Não sou eu uma mulher? Podia trabalhar tanto quanto um homem, e comer tanto quanto um homem – isso quando eu tinha o que comer -, e suportar as chicotadas também! Não sou eu uma mulher? Tive treze filhos e vi muitos deles serem vendidos como escravos, e, quando chorei com minha dor de mãe, só Jesus me ouviu e ninguém mais! Não sou eu uma mulher?”

  1. Frida Kahlo (Nascida: Magdalena Carmen Frieda Kahlo Calderón – 1907 – 1954) – México

Artista plástica.

Suas grandes realizações:

Frida foi prolífica ao longo da vida, criou cerca de duzentas obras entre pinturas, desenhos e esboços; pintou 143 quadros, dos quais 55 eram autorretratos.”

Frases famosas:

“Pés, para que eu preciso de vocês, se tenho asas para voar?”

“Tenho que lutar com todas as minhas forças para que as pequenas coisas positivas  que minha saúde me permite fazer possam se concentrar  em ajudar a revolução. É a única verdadeira razão para viver.”

  1. Rosa Parks (Nascida: Rosa Louise McCauley – 1913 – 2005) – Estados Unidos

Ativista do movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos

Suas grandes realizações:

Em 1996, o presidente Bill Clinton concedeu a Rosa Parks a Medalha Presidencial da Liberdade. Ao lado da Medalha de Ouro do Congresso, aquela é considerada a maior honraria concedida a um civil nos Estados Unidos. Na cerimônia de premiação, Rosa Parks foi chamada de “Primeira-Dama dos Direitos Civis” e “Mãe do Movimento pela Liberdade”.

Frases famosas:

“Gostaria de ser lembrada como uma pessoa que queria ser livre […] para que outras pessoas também fossem livres.”

“Já tinha cedido meu lugar antes, mas naquele dia eu estava especialmente cansada. Cansada do meu trabalho de costureira e cansada da dor no meu coração.”

  1. Maya Angelou (Nascida: Marguerite Annie Johnson – 1928 – 2014) – Estados Unidos

Escritora e poetisa.

Suas grandes realizações:

Em 2010, o presidente Barack Obama concedeu-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade, considerada uma das maiores honrarias civis do país. Disse também que a obra de Maya Angelou “falou diretamente a milhões de pessoas, inclusive minha mãe, e é por isso que minha irmã se chama Maya”.

Frases famosas:

“Sou feminista. Já sou mulher há muito tempo. Seria tolice não defender meu lado.”

“Não há maior agonia do que suportar dentro de si uma história não contada.”

  1. Audre Lorde (Nascida: Audre Geraldine Lorde – 1934 – 1992) – Estados Unidos

Escritora, feminista radical, ativista dos direitos civis.

Suas grandes realizações:

Sua coletânea de textos poderosos, Sister Outsider: Essays & Speeches (1988), é muito apreciada e considerada uma leitura feminista essencial, tanto no meio universitário quanto fora dele.

Frases famosas:

“Sou decidida e não tenho medo de nada.”

“A linguagem com que fomos ensinadas a nos diminuir e a diminuir nossos sentimentos, considerando-os suspeitos, é a mesma linguagem que usamos para diminuir nossas irmãs e suspeitar umas das outras.”

  1. Angela Davis (Nascida: Angela Yvonne Davis – 1944) – Estados Unidos.

Professora, filósofa socialista, ativista, escritora.

Suas grandes realizações:

Em 1980, ela concorreu a vice-presidente dos Estados Unidos na chapa do Partido Comunista, embora não tenha vencido.

Frases famosas:

“Temos que falar sobre libertar a mente, assim como libertar a sociedade.”

“Não consigo imaginar um feminismo que não seja antirracista.”

  1. Oprah (Nascida: Oprah Gail Winfrey – 1954) – Estados Unidos

Apresentadora de televisão, atriz e empresária, grande figura da mídia.

Suas grandes realizações:

Em 2013, o presidente Barack Obama concedeu a Oprah a Medalha Presidencial da Liberdade, uma das maiores honrarias civis dos Estados Unidos.

Frases famosas:

“Chegar a um ponto em que você se sente absolutamente à vontade com você mesma. […] Ter a força interior e a coragem interior necessárias para dizer: ‘Não, eu não vou deixar vocês me tratarem dessa maneira!’ – essa é a essência do sucesso.

“Foi a educação que me libertou. A capacidade de ler salvou minha vida. Seria uma pessoa completamente diferente se não tivesse aprendido a ler ainda muito pequena. Durante toda  a minha experiência de vida, quando a capacidade de acreditar em mim mesma era colocada à prova, e até nos meus momentos mais sombrios de abuso sexual, abuso físico e assim por diante, eu sabia que havia outro caminho, que havia uma saída. Sabia que havia outro tipo de vida, porque tinha lido a respeito.”

  1. Madonna (Nascida: Madonna Louise Veronica Ciccone – 1958) – Estados Unidos

Cantora, compositora, atriz, dançarina e produtora musical.

Suas grandes realizações:

Camille Paglia já chamou Madonna de “o futuro do feminismo”. Em uma coluna de 1990 para o The New York Times, a famosa escritora argumentou que Madonna foi mal compreendida tanto pela grande mídia como pela corrente principal do feminismo. “Madonna tem uma visão muito mais profunda do sexo do que as feministas”, observou Paglia. “Ela consegue enxergar tanto a animalidade quanto o artifício.”

Frases famosas:

“Estou no controle das minhas fantasias… Pois não é isso o feminismo?”

“Se o meu talento não fosse tão grande quanto minha ambição, eu seria uma monstruosidade.”

  1. Beyoncé (Nascida: Beyoncé Giselle Knowles – 1981) – Estados Unidos

Cantora, compositora, atriz.

Suas grandes realizações:

Depois que o furacão Katrina arrasou Nova Orleans em 2005, Beyoncé e sua amiga e colega de banda Kelly Rowland fundaram a Survivor Foundation. A organização providenciou moradia provisória para as vítimas na área de Houston, e Beyoncé teria contribuído com uma verba inicial de 250 mil dólares. Ela arrecadou mais de um milhão de dólares para a Fundação Shawn Carter, do marido Jay-Z, focada em ajudar crianças de baixa renda a cursar a universidade. Beyoncé também trabalhou em parceria com a organização Feeding America, que fornece refeições a bancos de alimentos de todo o país.

Frases famosas:

“Meu objetivo era a independência.”

“Acredito piamente que as mulheres devem ser financeiramente independentes de seus homens. E, verdade seja dita, o dinheiro dá aos homens o poder de comandar o espetáculo. E dá aos homens o poder de definir o valor. São eles que definem o que é sexy. São eles que definem o que é feminismo. É ridículo.”

  1. Malala Yousafzai (1997 – Paquistão)

Ativista.

Suas grandes realizações:

Aos 17 anos, Malala foi a pessoa mais jovem – e a primeira de seu país, o Paquistão – a receber o Prêmio Nobel da Paz. Foi escolhida, ao lado de Kaliash Satyarthi, ativista dos direitos da criança, pela sua “luta contra a opressão das crianças e dos jovens e pelo direito de todas as crianças à educação”, declarou a comissão norueguesa que concede o Nobel.

Frases famosas:

“Eles atingiram meu corpo, mas não podem atingir meus sonhos.”

“Tenho direito à educação. Tenho o direito de brincar. Tenho o direito de cantar. Tenho o direito de falar. Tenho o direito de ir ao mercado. Tenho o direito de dizer o que penso.”

BRASILEIRAS QUE FORAM À LUTA

  1. Chiquinha Gonzaga (Nascida: Francisca Edwiges Neves Gonzaga – 1847 – 1935)

Compositora, maestrina.

Suas grandes realizações:

Destaca-se também sua atuação como ativista, de causas sociais e da própria vida. Chiquinha não aceitava “as coisas como elas são” e enfrentou diversos obstáculos (como a rejeição da família e uma ordem de prisão) para fazer valer o que acreditava.

Frases famosas:

“Pois, senhor meu marido, eu não entendo a vida sem harmonia.”

“Não entendo a vida sem música”.

  1. Anália Franco (Nascida: Anália Franco Bastos – 1856 – 1919)

Escritora e líder social assistencialista.

Suas grandes realizações:

Anália Franco foi pioneira no trabalho social no Brasil voltado para mulheres, principalmente aquelas em situação de vulnerabilidade. Na luta contra a ignorância e a miséria, ela criou organizações de auxílio, educação e qualificação profissional, com dezenas de instituições espalhadas pela região Sudeste. Mesmo com dificuldades financeiras, não esmoreceu e conseguiu dar a volta por cima para manter o trabalho de sua vida em funcionamento.

Frases famosas:

“A verdadeira caridade não é acolher o desprotegido, mas promover-lhe a capacidade de se libertar.”

“Enquanto a nossa instrução  for concebida nessa espécie de molde fatal que nos atrofia o desenvolvimento da personalidade, havemos de viver abafadas numa atmosfera de interesses mesquinhos, sem sentir simpatia, nem tendências para as nobres e elevadas conquistas do espírito.”

  1. Bertha Lutz (Nascida: Bertha Maria Julia Lutz – 1894 – 1976)

Bióloga, líder feminista e sufragista.

Suas grandes realizações:

Bertha Lutz foi pioneira na luta pelo sufrágio feminino no Brasil, algo que conheceu na Europa e que, de acordo com a imprensa da época, não teria espaço em nosso país. Mas os setores mais descrentes e machistas não contavam com a personalidade forte e desafiadora dessa bióloga. Graças aos seus esforços políticos, ela conquistou direitos para as mulheres e, em decorrência do seu engajamento, uma série de prêmios, entre eles o de Mulher do Ano e Mulher das Américas em 1946 e 1952.

Frases famosas:

“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é degenerar justiça á metade da população.”

“Por quanto tempo ainda continuaremos (nós mulheres) a ser um assunto, apenas, de debique e sátira?”

  1. Clarice Lispector (Nascida: Chaya Pinkhasovna Lispector – 1925 – 1977)

Escritora, advogada, jornalista, tradutora, contista e cronista.

Suas grandes realizações:

Clarice é considerada uma das escritoras mais importantes do Brasil e, além de escrever e traduzir livros que se tornaram clássicos, ganhou também diversos prêmios, como o Jabuti, 3m 1961 e em 1978, e a Ordem do Mérito Cultural, em 2011.

Frases famosas:

“Eu era uma mulher casada. Agora sou uma mulher.”

“Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que a sua vida exige. Parece uma moral amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.”

  1. Maria da Penha (Nascida: Maria da Penha Maia Fernandes – 1945)

Farmacêutica e líder na luta contra a violência doméstica.

Suas grandes realizações:

Além de conquistar a liberdade e tirar as filhas da influência de um homem perigoso, Maria da Penha não quis deixar seu drama passar despercebido. Ela fez de sua trajetória uma parte importante da história recente de mulheres e das leis brasileiras. A farmacêutica desafiou toda uma sociedade que acreditava que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, envolvendo até mesmo entidades internacionais em um processo de violência doméstica.

Frases famosas:

“O poder público precisa investir na Educação para mostrar aos homens e mulheres que nós temos os mesmos deveres e os mesmos direitos. O homem tem que respeitar a sua mulher como pessoa humana.”

“Tem-se que cobrar dos gestores públicos a obrigação que eles têm de atender as mulheres de seus municípios, criando as ferramentas, os equipamentos que fazem com que a lei saia do papel.”

  1. Sueli Carneiro (Nascida: Aparecida Sueli Carneiro – 1950)

Filósofa, escritora e líder feminista.

Suas grandes realizações:

A criação do Instituto Geledés é, por si só, uma iniciativa importantíssima para a sociedade brasileira, e não só por sua grandeza, mas também pelos detalhes que fazem a diferença. Na área de saúde, a equipe de Sueli orienta mulheres a descobrirem e cuidarem melhor de seu corpo e mente. Na área profissional, as auxilia a ganhar mais capacitação e buscar melhor qualidade de vida para suas famílias.

Frases famosas:

“O movimento de mulheres negras emergiu, introduzindo novos temas na agenda do movimento negro e enegrecendo as bandeiras de luta do movimento feminista.”

“A sociedade precisa reconstruir o imaginário social da mulher negra.”

  1. Djamila Ribeiro (Nascida: Djamila Taís Ribeiro dos Santos – 1980)

Escritora, ativista social e filósofa feminista.

Suas grandes realizações:

Em sua trajetória no feminismo e nos movimentos sociais, ela já se mostra como uma das mais importantes intelectuais do Brasil atual e todo o reconhecimento que tem é muito merecido.

Frases famosas:

“Se eu luto contra o machismo, mais ignoro o racismo, eu estou alimentando a mesma estrutura.”

“Minha luta diária é para ser reconhecida como sujeito, impor minha existência numa sociedade que insiste em negá-la. E, ao fazer isso, lutar coletivamente com outras mulheres, para que possamos enfrentar o machismo e o racismo.”

Isolamento

Existe o silêncio lá fora

E o silêncio aqui dentro

Um é quieto

O outro, eloquente

Grito, calada

Sussurro ruidosamente

Meus barulhos internos

Bloqueados pela quietude do mundo

Mundo em quarentena

Pessoas silenciosamente revoltadas

Olho para o vazio

Repleto de abandonos

Caixas empoeiradas esperando no armário

O pó se move por toda a casa

E deposita sua vastidão

Nas relações do não dito

Sonhos mal interpretados

Perdidos no isolamento

Mazelas e feridas abertas

Sangue que escorre por entre os vãos

Todos em casa

Ninguém ouve quando ela chora

Lamento mesclado ao horror

Desobediência não é mais anarquia

Virtuosos gritam regras por escrito

Regras por 24 horas

Todo o dia, algo novo

Toda noite, uma amnésia

A criança trancada

Só quer sair para brincar.

Eliana Leite

(22/05/2020)

Um Dia

Um dia nublado

Garoa, para, garoa, para

Aquele canto dos pássaros que eu ouvia

Para onde foi?

Aquelas risadas das crianças brincando após o almoço

O que as calou?

Um dia nublado

Final de outono

As plantas estão tristes

As borboletas sumiram

Anoitece logo

Quando vejo, já não vejo mais nada

Acendo a luz

Ouço o chamado dos morcegos

Que logo partem

Os sons que permanecem, faça chuva, faça sol

São das motos, das britadeiras, dos carros e da máquina de lavar roupa

A minha, a do vizinho…

Até as notícias são mais cinzas

As roupas

As pessoas

Um dia nublado

Sem sinal do sol

Uma chuva fina, inoportuna

Tanto quanto a morte que nos espreita

E se mostra aos que se distraem

Aos que não se cobrem

No ar frio desse dia cinzento

Um dia nublado

É só mais um dia…

Sinto falta das maritacas

Das joaninhas

Do pequeno arco íris no vidro da janela da sala

Um dia nublado

Páginas de um livro são devoradas

Enquanto a TV anuncia

Mais mortes

Mais cores cinzas

E logo virá o inverno

Aguardemos com nossos cachecóis

Nossos chás quentes

E uma pitada de esperança

Eliana Leite

14/05/2020

Pandemia

Pergunto-me se imaginava testemunhar e vivenciar uma pandemia como esta que se apresenta. Não, eu não imaginava. Não pensei que viveria dias assim, que veria notícias sobre número de casos x número de mortes diariamente e que o medo seria um companheiro diário. O medo de me contaminar, o medo de morrer, o medo de que meus pais adoeçam, meu marido, amigos, vizinho. A aflição de viver num país despreparado, com pessoas que morrerão de fome porque não tem casa para ficar. Pessoas que morrerão porque não tem água para lavar as mãos. Pessoas que morrerão porque na hora que o bicho pegar, e ele vai pegar, haverá uma seleção de quem salvar.

Penso na falta de união do Poder Executivo… Penso na burocracia que impede que a ajuda chegue a quem precisa. Penso no fato de que eu comecei um novo negócio junto com o Coronavírus. Penso que sou privilegiada e que ficar em casa é a melhor coisa que faço para ajudar o outro. Penso no futuro, sem saber do presente. Há dias em que sou tomada por uma tristeza enorme, impotência. Há dias em que busco esperança dentro de mim. Tendo a ser otimista, mas ultimamente, a realidade tem se mostrado dura.

Não tenho o objetivo de ser alarmista ou fatalista, ou de ser aquela personagem que grita por aí “vamos todos morrer”! Não. Longe disso. Apenas não sei se sei como lidar, pois é a primeira vez que vivo isso. Nunca participei de uma guerra. Nunca passei fome. Nunca precisei racionar a comida de hoje para não passar necessidade amanhã. Sei o que li. O que ouvi. Àquilo que assisti em documentários, filmes, relatos. Estamos em guerra? O inimigo é invisível? Somos, de fato, vítimas? Ou estamos diante do inevitável, do inexorável, da consequência de nossos atos? A pandemia revela outras mazelas. Sociais, políticas, econômicas e comportamentais. Não vivo o lockdown (ainda), mas, dentro do que consigo, faço o isolamento, distanciamento, quarentena, seja o nome que for. Isso já não é fácil. Se meu vizinho não faz o mesmo que eu, porque estamos ainda na base do bom senso, adianta eu gritar para ele ficar em casa? Agredir verbalmente os idosos porque eles precisam ir à farmácia (existem idosos sozinhos e agora, ao invés de julgá-lo, é necessário refletir sobre o motivo pelo qual ele está sozinho) ajuda em que? Vejo julgamentos, pessoas com soluções para problemas alheios, total falta de empatia, passividade e vitimismo. Não sei o que é pior.

O que vivemos hoje nada mais é do que o resultado da falta de recursos, desde saneamento até educação, passando por nutrição e saúde, velada por discursos vazios e inócuos. Temos uma desunião em meio a uma pandemia. Para mim, isso é apenas a ponta do iceberg. Conversando com pessoas, vejo que a preocupação com a economia é real, tangível, iminente. O comerciante que teve que fechar as portas tem contas para pagar e pessoas que dependem dele. Ele deve se calar? O autônomo que vive do seu trabalho diário, da prestação de serviços, para de trabalhar e vive do que? A diarista que parou de trabalhar e não está recebendo, faz o quê? Eles também devem se calar? Não sei. Qual a solução? O Estado? Um jornalista mencionou, desde o início da pandemia, que a mão invisível do mercado saiu para passar álcool em gel e agora é a vez da mão pesada do Estado entrar. Isso já faz pelo menos um mês. E a ajuda até veio. Aí aparecem as mazelas. A pessoa teve o CPF cancelado porque não votou. A pessoa sequer tem CPF. Não sabe o que é um aplicativo, não tem celular, não tem conhecimento nem recursos suficientes para compreender essa comunicação que é vomitada como se fossem todos iguais. Ouço em diversos canais que não estamos no mesmo barco, pois cada um está numa situação diferente. Concordo. Por isso, a união, o alinhamento na comunicação, a urgência na ajuda e o afastamento de demagogias e egos é fundamental. Porém, como mencionei antes, as crises revelam o que há de pior e melhor nas pessoas. Quem é bom, continua bom. Quem é egoísta, se torna mais egoísta. Um país que não sabe para onde quer ir, continuará ainda mais perdido.

O vírus está aí. Não adianta negar a sua existência. Não adianta colocar um véu ou fechar os olhos para o que virá pela frente, ou, ainda pior, fazer com que toda uma nação feche os olhos para um buraco para então cair em outro. Não há um caminho fácil, pois o cobertor é curto. Entretanto, é mais do que necessário oferecer soluções, possibilidades. Quebrar paradigmas, círculos viciosos e padrões tóxicos. A verdadeira pandemia pode vir da manutenção de comportamentos e discursos que levam à negação. E, invariavelmente, morreremos, de um mal ou de outro.

Finalizo com uma frase de Carl Jung: “Aquilo a que você resiste, persiste.”

Eliana Leite – 14/04/2020