Resenha – Worth (Netflix)

Filme “Worth”(Quanto Vale?), estrelado por Michael Keaton, Stanley Tucci e Amy Ryan, disponível no Netflix.

Sinopse: Após os ataques de 11 de setembro, um advogado enfrenta uma batalha ferrenha para criar um fundo de compensação pelas vidas perdidas. Baseado em fatos reais.

O filme começa com o advogado Ken Feinberg (Michael Keaton) fazendo esta pergunta a seus alunos: quanto vale uma vida? Em termos jurídicos, ele quer dizer. E dá um exemplo qualquer para ilustrar seu ponto de vista. E então, em seguida, ocorrem os atentados de 11 de setembro e o mesmo Michael Keaton é nomeado uma espécie de gestor do fundo do Governo destinado a indenizar as famílias das vítimas. E assim, segue o filme, mostrando como o valor de vidas é algo muito complexo e não sujeito a fórmulas prontas, bem como a diferença de visões de determinados grupos econômicos frente à visão do ser humano que perdeu alguém. Os diálogos entre Ken e sua sócia, Camille Biros (Amy Ryan, de “Lost Girls”) são uma demonstração clara de como nada nesse processo é definitivo e cristalino e que cada indivíduo merece uma atenção especial, ao contrário do que Ken acreditava. Além disso, temos os diálogos muito bem construídos entre Ken e Chalres Wolf (Stanley Tucci), este um viúvo cuja esposa morre nos atentados.

O resultado disso tudo é um filme de excelente qualidade, denso, forte, que nos faz refletir muito sobre nossos pensamentos e atitudes, especialmente os pré-concebidos. Nos faz voltar para aquela fatídica data e ver as coisas não com olhos políticos, mas com olhos humanos e pensar no impacto na vida de cada um que foi vítima, seja o zelador, o bombeiro, o CEO, a advogada, a estagiária, aquele que estava de passagem para tomar um café com um amigo…

Recomendo o filme pelo ótimo roteiro, com essa linha-mestre voltada para o aspecto jurídico e as consequências nas vidas das pessoas, e, ainda, pelo elenco brilhante.

Sejamos Desavergonhados

“A verdade nos liberta da vergonha”- Este trecho está no livro que li recentemente (“Talvez Você Deva Conversar com Alguém”, Lori Gottlieb). Chamou minha atenção porque é uma frase simples e potente. Se você diz a verdade, a vergonha vai embora. Já parou para pensar nisso? Quando escondemos algo de alguém, ou de nós mesmos, ficamos cada vez mais com vergonha daquilo e vamos inventando histórias, meias verdades, dando voltas… Principalmente quando se trata de verdades difíceis. Lembrei-me de um treinamento que fiz, há alguns anos, que se chamava “Crucial Conversations”, em que o mote era exatamente este: como falar sobre aquilo que não conseguimos falar porque achamos que é difícil, desagradável e que pode machucar. Por outro lado, é algo sincero e verdadeiro. A chave não é falar de qualquer jeito e sair correndo, tipo “fogo no parquinho”, mas sim encontrar um equilíbrio na forma de comunicar e, com isso, encontrar a leveza e serenidade que virão depois, tanto de você consigo mesmo quanto com o outro.

Mas, afinal, o que é vergonha? Uma das definições que o dicionário nos dá é: receio de se sentir ridículo perante as pessoas. Acredito que este seja um dos grandes medos do ser humano. Aquele velho sonho de estar nu diante de uma plateia… E acordar assustado porque isso seria o fim, não seria?  A vergonha de dizermos o que pensamos. De sermos nós mesmos. Por que grande parte das pessoas têm essa vergonha, esse medo de se expor e se sentir vulnerável, ou, ainda, ridículo? Ser ridículo significa ser objeto de zombaria, de risos, uma piada. Quando temos vergonha de dizer o que pensamos, será que, no fundo, não estamos transmitindo a mensagem de que achamos que somos uma piada? Que não nos sentimos dignos de nota? De onde vem essa sensação? Não querendo apelar para uma área que não a minha, a psicologia, mas vale a pena pensar sobre isso. Se o mundo é um espelho, e nos sentimos ridículos quando vamos nos colocar como realmente somos, que espelho é esse? Talvez tenha relação com a falta de estímulo para se autoexpressar. Já dizia Madonna, nos anos 90, “Express Yourself”. Antes dela, Gloria Gaynor se orgulhava em cantar “I am what I am”. Talvez o mundo agradeça mais se pudermos dizer a verdade sobre nós mesmos e vencer essa vergonha (disfarçada de vaidade?). Ser você mesmo pode se tornar muito mais interessante do que qualquer outra personagem que você se der ao trabalho de criar.

Você já teve que falar em público e sentiu que sua garganta travava, sua boca secava e dava aquele branco? Pois eu já. A dor de barriga, o medo de não conseguir, tudo isso aconteceu. Eu ouço muitas vezes que sou extrovertida, comunicativa, que pareço tão tranquila ao falar. Isso é puro treino! Eu não nasci assim. Há pessoas iluminadas que nasceram para o palco, amam holofotes e não tem um pingo de vergonha. Conheço poucas! No dia a dia, no trabalho, na escola, na faculdade, quantas pessoas você conhece que travam e preferem morrer a falar em público? E por que nos sentimos assim? Desconfio que tenha a ver com o fato de que, quando crianças e adolescentes, somos colocados à prova em momentos de necessidade de autoafirmação e a insegurança é grande e o julgamento também. Se gaguejarmos, se errarmos, dificilmente vamos ouvir um “tudo bem, você consegue, tente de novo!”. O que vem são risos, seja de nervoso, seja de pirraça mesmo. Não sabemos lidar com isso e nos retraímos. Seria lindo poder revidar os risos com mais risos e todos saírem rindo de tudo, felizes e agindo naturalmente com relação à vulnerabilidade. Breneé Brown, ao falar sobre vergonha, deixa claro que é o sentimento de não nos sentirmos bons o suficiente. E este sentimento só nos conduz à autodestruição. A falta de empatia, a falta de amor até, aumentam ainda mais esta sensação. Quando abraçamos nossa vulnerabilidade, abandonamos este sentimento e nos permitimos dar um passo além. É, portanto, algo cultural. E digo mais: um extrovertido tem vergonha, assim como um introvertido. A vergonha vem da sensação de não dominar determinado assunto. Uma pessoa hiper extrovertida pode ter vergonha de se sentir não merecedora de aplausos ao falar sobre algo que pensa não dominar completamente.

Adam Grant, de quem sou declaradamente fã, escreveu, há alguns anos, um artigo no LinkedIn (https://www.linkedin.com/pulse/20140218125055-69244073-5-myths-about-introverts-and-extraverts-at-work/ sobre o tema relacionado a mitos envolvendo o conceito de extrovertidos e introvertidos. Recomendo a leitura do artigo para limpar a mente de estereótipos, especialmente relacionados à questão de falar em público, relacionamentos e estímulos. Uma das melhores coisas da vida é poder aprender de forma constante e “desaprender” daquilo que nos amarra e nos faz colocar as pessoas em caixinhas!

Falei sobre a vergonha, sobre momentos em que sentimos vergonha, sobre como seria legal não ser julgado… e daí? A vida está aí, os desafios também… como podemos superar a vergonha? Eu diria que, mesmo com medo, vá! Não tem outra forma de vencer a vergonha além de ir e fazer! Na primeira vez, pode ser que saia meio torto, você vai receber críticas (aliás, sempre as receberá e cabe a você filtrar aquilo que pode servir como degrau ou não)… Use como aprendizado e vá de novo! E siga! O que que tem se você gaguejar, errar, esquecer? Continue a nadar! Amanhã é um novo dia e você sempre pode recomeçar, tentar de novo e se sair ainda melhor. Lembre-se: a vergonha é sua, e só cabe a você vencê-la. Somos nossos mais ferozes sabotadores! Tiremos esse peso de nossas costas. Você vai ver que será bem mais fácil!

E como a vergonha pode atrapalhar na carreira? De várias formas. Se considerarmos que a vergonha é uma forma de auto sabotagem, ela pode tirar você de oportunidades incríveis pelo simples fato de você achar que não é bom o suficiente para aquela vaga, aquela promoção, aquela movimentação lateral, ou mesmo aquele curso que você gostaria de fazer. Pergunto: você já deixou de aplicar para uma vaga interna porque achou que seu chefe iria rir da sua cara ou te demitir na hora? E pensou “ai, que vergonha”… Já deixou de aplicar para uma vaga em uma empresa porque pensou que não tem um currículo campeão e que passaria vergonha na hora da entrevista? Pois então, você já está se condenando antes mesmo de ter uma sentença. Aqui, vale o mesmo conselho: apenas vá! Ou você realmente acha que o Steve Jobs se deixou vencer pela vergonha quando lançou o Ipod? Ou que o Bill Gates, um introvertido de marca maior, abandonou seus sonhos porque deixou a vergonha falar mais alto? Ou que o Steven Spielberg teve vergonha da sua ideia do filme Tubarão e não filmou? Pense em tudo o que o mundo teria deixado de ter se todos fossem vencidos pela vergonha.

Frutos

Somos frutos

(quem dera) de um ato de amor

(antes fosse) de um ato consensual

(todos esperam) de uma decisão consciente

Seja como for, aqui estamos

Uma vez nascidos, tememos a morte

E vivemos fugindo dela,

Para, ao final, sucumbir

(que irônico)

Culpamos nossos genitores de (quase) tudo

Até do que sequer eles sabem que carregamos

Brigamos até o dia em que já é tarde demais

(o tempo sempre é curto)

Não é justo um pai sobreviver ao filho

Então, o filho fica para cuidar do pai

Que não quer

(quanto trabalho)

Nem todo filho quer ser pai

Ou todo pai quer seu filho

Mas aí está: todos os dias filhos nascem

(quem pediu para nascer?)

O amor dos pais é desejado

Mas não acontece para todos

A vida é dura, o mundo é mau

(quem irá nos proteger)

Lobo, galinha, ganso, urso, tigresa, leoa

Antes os animais do que os humanos

Para representar o amor incondicional

(mas eu te amo só se você me amar)

Há desconforto no passar do tempo

Nas palavras duras, não ditas

Há certo alívio no passar dos anos

No esquecimento das brigas

(quando foi isso mesmo)

Somos todos frutos

De uma explosão, programada ou não

O que se faz de nós

Meros pedregulhos jogados ao mundo

(segure o choro)

Eliana Leite

(03/08/2021)

Listas

Você faz listas? Eu faço. Não sou exatamente “a louca das listas”, mas gosto de, eventualmente, pegar um caderno ou o bloco de notas do celular e mandar uma lista de “to do´s”, compras, lembretes. Minhas listas, ultimamente, têm sido simples. Há um tempo, fiz lista de projetos, viagens, atividades a longo prazo. Não sei se por conta da Pandemia, tenho pensado a curto, no máximo, médio prazo. Porém, algumas coisas aconteceram e eu me peguei olhando para o futuro e me questionando – o que farei?

O que estou deixando de fazer devido à rotina que me engole? O que não estou enxergando ou o que estou negligenciando? Taí uma lista que eu poderia fazer.

O gatilho para esta reflexão veio de duas formas: uma foi a leitura (em curso) do livro “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” (Lori Gottlieb) e outra de uma conversa com meu pai. No livro, a autora fala, em um determinado capítulo, sobre uma “lista” cujo mote é: “antes de morrer, eu…” Ela discorre sobre o fato de que prolongamos, ou ignoramos, a morte ao imaginar coisas que faremos durante a vida (mas que não necessariamente faremos ou, ainda, colocamos uma data). Sem saber ao certo quando morreremos, dizemos coisas como “antes de morrer, vou conhecer a China”, ou algo parecido. Agora, imagine que você saiba que sua morte está próxima. Que em um ano você partirá. Concorda comigo que essa lista toma um corpo e um sentido completamente diferente? Você pode passar a focar em relacionamentos, ações simples, ou mesmo colocar em prática projetos que sempre quis tirar do papel.

Na conversa com meu pai, que completou 87 anos em 2021,ele disse “eu não temo a morte. Não sei quanto ainda viverei, mas não tenho esse medo, que muitas pessoas têm.” Essa frase dele me remeteu a uma conversa que tivemos há muitos anos, quando eu era criança. Lembro-me claramente dele fazendo a barba  e eu perguntando sobre a morte. Ele, de uma forma muito natural, explicou que a morte fazia parte da vida e que não havia porque temê-la. Explicou que as pessoas ficavam tristes (luto), mas que a vida não parava para quem ficava.

Juntando esses dois momentos, fiquei pensando sobre minha lista. Compartilhei esse pensamento com uma amiga e propus que fizéssemos uma lista de 10 coisas que faremos “antes de morrer”.

Não foi fácil fazer a lista e tenho certeza de que a minha contém coisas que talvez eu não faça porque o tempo, ah o tempo, passa e tudo muda. Antes da Pandemia, eu não havia parado para pensar que, por uma questão sanitária, não poderia viajar por mais de um ano e meio. Eu amo viajar. Adiei viagens que poderia ter feito antes. Por que? Porque eu achei que teria tempo e oportunidade de fazê-lo livremente.

E você? O que adiou e agora não pode fazer porque estamos em meio a uma Pandemia?

A lista poderia ter outro título, como “depois que a Pandemia acabar, eu…”, mas eu não sei como e quando isso vai acabar, o que vem pela frente…

Portanto, quero manter a forma original. Aqui vai minha lista:

Antes de morrer eu…

  1. Vou para a Itália
  2. Vou morar no interior
  3. Vou escrever um romance épico
  4. Vou escrever um roteiro de curta metragem
  5. Vou escrever um roteiro de filme
  6. Vou conhecer o Leste Europeu
  7. Vou para São Francisco
  8. Verei meu afilhado crescer e realizar seus sonhos
  9. Verei o Patriarcado cair
  10. Visitarei a vindima em São Joaquim, SC.

Veja… não é fácil. Fiz o que veio à minha mente no momento, fechei os olhos e, de verdade, ouvi meu coração. Como falei, viajar é algo de que sinto muita falta.

Quem sabe, eu consiga “ticar” esses itens, de fato, antes de partir desse mundo…

Eliana Leite

11/06/2021

Quando me alinhei ao meu propósito

Dizem que a mágica acontece fora de nossa zona de conforto.

E como podemos definir “zona de conforto”? Alguns preferem “zona de comodidade”. De qualquer forma, conforto, comodidade, são lugares quentinhos e aos quais estamos acostumados. Bom ou ruim, fato é que a festa não está rolando neste endereço.

Posso dizer que me encontrava em uma zona de conforto ao não mais me sentir desafiada e não mais ter aquele frio na barriga para encarar o dia que se colocava à minha frente. Quando comecei a dar de ombros, a achar que tanto fazia esta ou aquela roupa, não queria sequer passar um batom para sair. Alguns dirão que isso não é zona de conforto e sim um passo para a depressão. Digo que o conforto, ou a comodidade, tira sua vaidade, sua vontade. Se pode levar a um quadro depressivo, deixo aos entendidos no assunto avaliarem. Voltando ao tema — você já se pegou fazendo as coisas no piloto automático? A rotina me engoliu de tal maneira, e eu permiti, que não havia espaço para criar, inovar, pensar…

Tive o “click” há cerca de 3 anos, quando fui a uma reunião cujo tema me interessava deveras e não consegui prestar um minuto de atenção. Fiquei navegando na Internet pelo celular, batendo papo no Whatsapp, fazendo lista de “to do´s” pessoais e até lista de mercado. Quando percebi, a reunião estava no fim e eu não sabia o que havia sito dito. “Vou esperar a ata”, pensei, e então quis me bater com o mesmo celular que me escravizava.

Os dias no trabalho se arrastavam e eu, já um pouco mais consciente, passei a me incomodar comigo mesma. Como se me olhasse do alto, notei que era um poço de reclamações e negatividade. Perguntei a mim mesma como as pessoas próximas a mim me aguentavam e como eu mesma me aguentava? Passei então a buscar um caminho que pudesse me tirar daquele lugar. Pensei em mil coisas: terapia, yoga, jogar tudo pro alto sem nenhuma estratégia… Após muitas conversas, fiz um trabalho de coaching voltado à busca de meu propósito. Quem me ajudou foi o Edu Seidenthal, coach, fundador da Rede Ubuntu de Eupreendedorismo. Cito o nome dele pois penso que devemos agradecer nominalmente às pessoas que nos salvam. O trabalho de buscar meu propósito foi essencial para me trazer onde estou hoje. Além disso, foi (e vem sendo) uma jornada deliciosa. Da negatividade, passei para um sentimento de acreditar que seria possível. Quando vi, uma onda de otimismo me atingiu. Acabei resgatando sentimentos que estavam praticamente enterrados desde, sei lá, 2004, ou até antes. Fui olhar os textos que escrevi em 1993, 94, 95… Reatei comigo mesma.

Foi então que fui fazer conta. Quanto tempo poderia segurar as pontas sem ter uma fonte de renda, a curto, médio e longo prazo? Em maio de 2019 me desliguei da empresa onde trabalhava há 7 anos. Planos A, B, C… Z. Como trabalhar com o que eu gosto e ainda me dedicar a projetos e à minha grande paixão: a escrita? Com esta equação me deparei e com ela estou lidando atualmente, somando-se a isso uma pandemia que assolou o mundo. Não é fácil, mas quem disse que seria? Estou saboreando cada momento. Há incertezas, dúvidas, por vezes bate aquele desespero, mas procuro então focar lá na frente, me apoiar no que me fez querer mudar e, por incrível que pareça, viver um dia de cada vez. Quando perseguimos nosso sonho de forma incansável, o resultado só pode ser positivo.

Ultrapassei a linha imaginária do medo. Eu era a pessoa que menos acreditava em mim mesma. Agora, sou minha fã. Estou alimentando meu sonho, minha alma. Pode dar tudo errado? Pode, mas agora, não será esse meu foco. O que me motiva a seguir é o fato de eu saber que não estou sozinha. Há alguns anos, eu jamais teria saído de um emprego, pois meus pés estavam fincados no chão. Se hoje tenho asas, é porque tive apoio para poder erguê-las e sentir o vento por entre elas.

Obrigada, Fábio Miranda, meu marido, meu amigo, por estar ao meu lado e por ser parte de tudo isso!

E assim, concluo… Mudei o rumo de minha vida após os 40…… Cedo? Tarde? Louca? Corajosa?

Viverei e verei.

Colocar as ideias no lugar e fazer as coisas acontecer

Acreditar que é possível com base no autoconhecimento

Estabelecer um objetivo com base em ferramentas existentes

Olhar de fora para dentro

Qual foi a última coisa que você fez uma única vez?

Mariana acendeu o charuto. Lenta e pacientemente, como tinha aprendido. Era a primeira vez que ia sozinha ao clube de charutos. Resolveu pedir uma dose de uísque. Ao fundo, tocava um jazz suave. Notou que uma mulher a observava. A mulher se aproximou. Loira, alta, de uma beleza não óbvia. Seu nome era Cecília e trabalhava lá. Começaram a conversar sobre charutos. Mariana confessou que era uma iniciante. Cecília se sentou. Fumava um cigarro. Pediu um Negroni. Mariana perguntou se ela podia beber no trabalho. Cecília riu e comentou algo como aquele ser o melhor trabalho do mundo. Quando ia perguntar há quanto tempo trabalhava ali, alguém chamou por Cecília, que pediu licença e se foi. Mariana então voltou a atenção para o charuto e o uísque. Deixou-se embalar pelo som e divagou sobre aquela noite, um encontro consigo mesma. No dia anterior, estava lamentando com a irmã sobre o fato de não encontrar companhia para sair à noite, como era difícil conciliar agendas, principalmente pelo fato de as amigas estarem casadas, com filhos. Quando terminou de reclamar, sua irmã apenas perguntou porque ela não ia sozinha. Não precisava depender de ninguém para sair de casa. E ainda arrematou com um “pare de reclamar e vá viver a vida”. Com este pensamento, resolveu sair do trabalho e ir ao clube de charutos. Ela já tinha ido duas vezes, no ano passado, com seu amigo Caio, que agora vivia em Londres. Conversavam bastante por WhatsApp e Skype, mas ela sentia muito sua falta. Foi então que decidiu mandar uma mensagem para ele acompanhada de uma “selfie”, dizendo “adivinha onde eu estou?”. Porém, a mensagem não foi lida por Caio. “Deve estar ocupado”, concluiu, frustrada. Pensou em postar a foto no Instagram, mas desistiu. Guardou o celular na bolsa e decidiu ter aquela noite para si. Sinalizou para a garçonete, que a avistou e logo se aproximou. Pediu uma água com gás. Assim que a garçonete saiu, Cecília se aproximou novamente.

               – Desculpe ter saído daquela forma. Tive que resolver um probleminha.

               – Imagine, não precisa se desculpar.

               – E então, está curtindo a noite?

               – Sim, estou me dando esse direito.

               – Veio sozinha?

               – Sim. Não é algo que eu tenha o costume de fazer, mas decidi que deveria.

               – Você não precisa se explicar para mim. Muitas pessoas vêm aqui sozinhas.

               – Não estou me explicando… é só que… – e Mariana ficou sem saber o que dizer.

               – Relaxa, mulher. Vamos lá, me conte sobre este charuto.

               – Ah… sim… gostei dele. Tem um bom fluxo, suave, combina com o uísque. É nacional.

               – Você comprou aqui?

               – Não, esse eu ganhei de um amigo. Foi ele que me apresentou esse lugar.

               – Não me lembro de você. Quando vieram?

               – No ano passado. Nossa, mas tantas pessoas passam por aqui. Você não se lembraria.

               – Digamos que eu sou uma boa fisionomista. Certamente me lembraria de você. Mas no ano passado eu ainda não trabalhava aqui. Comecei no início deste ano.

               – Onde você trabalhava antes?

               – Eu estava em Cuba. Tirei um ano sabático e fui para lá.

               – Uau! E foi bom?

               – Foi uma experiência maravilhosa, mas não volto mais. Certas coisas temos que fazer uma vez. Qual foi a última coisa que você fez uma única vez, fora sair sozinha à noite?

Mariana ia responder, quando a garçonete chegou com a água. Enquanto servia perguntou se ela queria comer algo. Cecília recomendou o canapé de salmão defumado. Mariana pediu e, assim que a garçonete se retirou, respondeu:

               – Acho que minha “única vez” foi ter ido à Bahia no Carnaval. Nunca mais voltei e nem pretendo. Quase morri pisoteada.

Cecília riu:

               – Eu não suporto multidões.

               – Eu também não. Prefiro lugares como este.

               – Daqui a pouco vai chegar um grupo de mulheres, uma confraria. Posso te apresentar para elas, se quiser. O grupo é animado e elas sempre gostam de receber pessoas novas.

               – Adoraria! Não sabia que existiam confrarias de mulheres para charutos.

               – Pois é, nós estamos dominando o mundo! Você vai gostar, tenho certeza. Eu vou coordenar a degustação.

               – Ótimo! Obrigada.

               – Vou me preparar para recebê-las. Te chamo.

E novamente Cecília se foi. Desta vez, Mariana se pegou olhando enquanto ela se movia. Terminou o uísque e pediu mais uma dose para a garçonete. Continuou apreciando seu charuto, tomando notas mentais do gosto, do cheiro, observando como a fumaça saía de sua boca, rumo ao ar condicionado. Assim que a bebida chegou, resolveu pegar o celular e anotar algumas das sensações. Quem sabe não mostraria para sua mais nova amiga? Quem sabe não escreveria depois, em um post no seu blog? Terminou de escrever, guardou o celular na bolsa e viu que algumas mulheres chegavam ao clube e subiam as escadas. Alguns minutos depois, Cecilia a chamou. Mariana não teve dificuldade de se enturmar. O grupo era formado por mulheres de diferentes estilos, todas com um interesse em comum: charutos. Cecília iniciou com um breve e imponente discurso sobre como o charuto pode trazer experiências diferentes e inesquecíveis, e como aquele grupo, e outros que se formavam ao longo do país e do mundo, demonstravam que não era um universo de homens, muito pelo contrário. Assim como o vinho, o café, o uísque, o charuto não poderia ser mais predominantemente masculino. Terminou a introdução com um vídeo rápido que mostrava mulheres trabalhando na fabricação dos charutos, e outras ao lado de familiares, donas de seus negócios e com fotos do clube em que estavam e dela própria como sommelier. Todas a mulheres ali presentes aplaudiram efusivamente e Cecília agradeceu, sem um pingo de vergonha, muito altiva e dona de si, o que, para uma mulher, costuma ser um sinal de arrogância. Mas não ali. Era um carimbo de amor próprio e conhecimento de causa. Mariana sentiu orgulho ao ver uma mulher determinada, se colocando daquela forma. Ela mesma não era tão autoconfiante, sabia disso. Cecília não perdeu tempo e já iniciou a noite apresentando o charuto que seria degustado naquela noite. “Antes de mais nada, quero dizer que não há essa questão de charutos masculinos ou femininos. O que existe é o paladar e, acima de tudo, o costume. Qualquer pessoa que comece a fumar charuto, não vai direto para um “maduro”, como chamamos, que é um charuto mais potente. Assim como com vinhos e cafés, sempre começamos com algo mais leve, para acostumar o paladar, o olfato e treinar nossos sentidos. Hoje vamos degustar um nacional, da Bahia, o Dona Flor, que tem um sabor mais suave e agradará a todos os paladares, tenho certeza” Mariana ficou encantada com a forma pela qual Cecília acendeu o charuto. Ficou observando os movimento suaves, porém firmes, e guardou na memória para treinar depois. Uma das presentes comentou: “Ela é demais… Olha quanta classe”. Então, o charuto foi degustado por cada uma das presentes para que comentassem sobre suas características. Para harmonizar, tomavam uísque e conhaque e, para matar a fome, carpaccio. Mariana ficou curiosa sobre o grupo e assim que teve a chance, perguntou para Cecília como poderia se tornar parte. Cecília deu um sorriso e chamou uma moça negra, alta e com o cabelo quase raspado:

               – Erika, essa é a Mariana, Mariana essa é a Erika, a dona da confraria.

               – Oi, Mariana, é um prazer tê-la aqui conosco. Como ficou sabendo?

               – Ah, a Cecília me chamou… Eu estava lá embaixo fumando meu charuto e…

               – Ela quer saber como fazer para se associar à Confraria. Vou deixá-las a sós – cortou Cecília, e saiu para dar atenção a outro grupo.

               – Me conta, Mariana, há quanto tempo você curte charutos?

               – Ah… não muito… Sei lá, no máximo um ano… e olhe lá. E não fumo muito, pois meu amigo que gosta e que me apresentou foi morar fora… fiquei sem companhia…

               – Hm… Bom, você sabe que fumar charuto pode ser algo muito prazeroso para se fazer a sós, não é?

               – Descobri isso hoje, por incrível que pareça.

               – Vamos ao que interessa: para fazer parte da Confraria, basta assistir a um vídeo. Você tem Instagram?

               – Tenho, sim. É @mariblue1976.

               – Deixa eu ver aqui… Pronto, te mandei a solicitação. É só você aceitar e eu mando o link do vídeo. Quando você terminar, vai receber algumas instruções de associação, nada de mais, só para confirmar que você é você mesma. Não há custo na associação. Quando temos estes eventos, cobramos um valor para o ingresso no clube, que inclui o charuto, a bebida e a comida.

               – Que legal! Vou adorar participar!

               – Ótimo! Considere-se uma de nós já! Fique à vontade e não se esqueça de ver o vídeo. Agora, tenho que ir pois preciso acertar algumas coisas com a Cecília.

               Mariana se sentiu peculiarmente pertencente a algo naquela noite. Há quanto tempo não fazia algo assim, do nada, sem alguém que a tivesse levado, ou alguém conduzindo tudo e ela sendo uma coadjuvante. Ser a atriz principal da própria vida era bom, concluiu. Ainda que aquilo fosse uma pequena parte do todo, era um bom começo. Serviu-se de mais carpaccio e uísque e foi até uma roda aleatória de 4 mulheres que pareciam bastante compenetradas na degustação do charuto. Apresentou-se e as quatro se juntaram num “oi” animado. Uma delas, que Mariana achava que era Daniela, perguntou se ela era nova no grupo. Mariana explicou como foi parar ali e se integrou à conversa. Estavam, de fato, conversando sobre o charuto e comparando anotações. Pediram para Mariana degustar e falar o que achava das notas, do fluxo, do sabor, do cheiro, etc. Foi uma experiencia sensorial única, em que Mariana se esqueceu do mundo lá fora. Estavam falando sobre a importância de terem mais charutos nacionais nas degustações, quando Cecília anunciou o fim do evento:

               – Charutandas, como sabem, esses eventos têm começo, meio e fim. Está na hora de encerrarmos, mas convido todas a descerem e terminarem seus charutos e aproveitarem o local. Vejo vocês no próximo!

               – Charutandas? – perguntou Mariana a Daniela.

               – Pois é, esse é o nome da nossa confraria. Gostou?

               – Interessante! E a Cecília sempre apresenta o charuto?

               – Sim, ela é nossa sommelier do coração. A Erika a conhece há algum tempo e as duas decidiram montar um grupo de mulheres. A Erika toca toda a parte de divulgação, associação, custos e a Cecília faz o show. Dá super certo.

               – Ah, entendi. Que legal. Amanhã mesmo vou assistir ao vídeo para me associar.

               – Você vai adorar. Bom, tenho que ir. Meu marido já me mandou mil mensagens. Até parece que o mundo vai acabar porque estou fora de casa à noite. Eu hein… Beijos, querida, foi um prazer.

Quando Mariana se deu conta, todas já haviam descido. Desceu também e resolveu ir embora, pois já havia bebido sua cota de uísque e fumado mais do que tinha planejado. A cabeça doía. Estava na fila do caixa quando Cecília a abordou:

               – Já vai?

               Mariana se virou, sobressaltada:

               – Que susto… Sim, está tarde e estou cansada. Mas foi maravilhoso! Adorei! Obrigada por me chamar. Foi uma experiência e tanto!

               – Fico feliz que tenha gostado. Vai se associar?

               – Ah, vou sim. Amanhã mesmo.

               – Então nos veremos mais vezes. De qualquer forma, vou deixar meu cartão com você para quando quiser bater um papo. Eu tiro folga aos domingos. Podíamos almoçar, o que você acha?

               – Claro… seria ótimo…

Mariana entrou no Uber e ficou olhando para o cartão de Cecília. Afinal, era apenas um convite para um almoço, em um domingo qualquer. Por que isso a afetava tanto? Por que se sentiu incomodada, como se fosse um convite para um encontro? Mariana estava se precipitando, sendo preconceituosa? Não sabia absolutamente nada sobre a orientação sexual de Cecília. E se ela só quisesse mesmo conversar, estreitar a amizade? Isso não é possível? E se Cecília fosse um homem, teria Mariana se sentido lisonjeada ao invés de incomodada? E por que Mariana ficou com a impressão de que Erika e Cecília já tinham sido um casal? Essas ideias ficaram martelando a mente de Mariana até chegar em casa. Deixou o cartão sobre o balcão da cozinha, tomou um banho e tentou dormir. Estava cansada fisicamente, mas a mente pregava peças. Pegou o celular e viu a mensagem de Caio: “Arrasando no charuto, hein? E aí, como foi? Ou está sendo?”. Viu que ele tinha escrito há uma hora e resolveu responder. Contou como foi a noite e sobre Cecília e Caio disse para ela não ficar encanada. Por que não poderiam ser amigas? Ele até deu uma provocada em Mariana, soltando um “ah, mas vai que você gosta?”, ao que ela respondeu “deixa de ser besta” e o assunto parou e a conversa rumou para outros temas. Era mais de duas da manhã quando Mariana deixou o celular sobre o criado-mudo e se deitou. Dormiu um sono leve, curto e nada revigorante. No dia seguinte, acordou cedo e foi trabalhar. Estava com dor de cabeça e enjoada. Comeu alguma coisa no caminho, tomou um café preto e tentou se concentrar na reunião que tinha logo pela manhã. Sem sucesso. Em meio à discussão do grupo sobre como engajar os funcionários que haviam acabado de responder à pesquisa de clima, Mariana não conseguia parar de pensar na noite anterior. O que, de tão especial, havia acontecido? Ficou divagando sobre como entraria em contato com Cecília, sobre o que conversariam. Pensou na roupa que iria vestir, se usaria maquiagem ou não, perfume? Que tipo de comida será que Cecília gostava? Será que era daquelas magras que comiam de tudo? Mariana olhou para a barriguinha saliente e se lembrou de que precisava retomar a academia. “Por que estou pensando nisso, meu Deus?” A reunião acabou, sem que chegassem a nenhuma conclusão, como era praxe. Marcaram outra data para buscar uma solução. “Mais do mesmo”, pensou Mariana. Ao chegar à sua mesa, Mariana assistiu ao vídeo das Charutandas, acessou o site e se cadastrou. Em seguida, recebeu o ok por e-mail de sua associação e algumas instruções. Ficou feliz por ter dado continuidade e por fazer parte de algo que não a brigada de incêndio da empresa. O restante do dia se arrastou em atividades rotineiras e mais reuniões inconclusivas, até que, ao sair do trabalho, Mariana foi até a academia perto de sua casa e retomou o treino, abandonado há algumas semanas. Tomou um iogurte antes de se deitar e pensou “agora vai!”. Sabia que isso duraria pouco, mas mesmo assim estava tentando se animar. A auto sabotagem já lhe era familiar. Por isso fazia terapia, mas também tinha dado alguns canos na Dra. Lídia. Amanhã ligaria para remarcar as consultas. De repente, Mariana percebeu que sua vida estava quase à deriva. Um barquinho no meio do mar, sem direção alguma. E ela ali, ao sabor do vento. Novamente, demorou para pegar no sono, em meio à auto análise tardia, e quando foi dormir, eram quase três da manhã. Assim que o alarme tocou, teve raiva de si mesma. Parecia um zumbi. Tomou uma ducha rápida para acordar, pegou qualquer coisa na geladeira para comer no carro e se foi. Ao chegar ao trabalho, logo se enfiou em reuniões intermináveis, desta vez sobre inclusão e diversidade e como ter esse departamento na empresa. Ela já tinha dado sua opinião várias vezes a respeito do tema, da importância e do cuidado que teriam que ter para não se tornar algo oportunista e desajeitado. Porém, pelo rumo que a conversa estava tomando, ficou desanimada e não teve vontade de comentar além do necessário. Sabia que, ao final, sairia algo oportunista e desajeitado e que ela teria que consertar depois, como sempre. Assim que saiu da reunião, marcou a consulta com a terapeuta e ainda levou sermão da secretária por ter demorado tanto. Almoçou sozinha, na mesa, para terminar tudo o que tinha e sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Conseguiu ânimo para ir novamente à academia. Correu por meia hora e fez pilates. Chegou em casa e pediu comida japonesa. Não havia nenhum convite para happy hour, cinema ou jantar. “Sou uma antissocial”, pensou. As pessoas já haviam desistido de convidá-la, pois sempre recusava. Não tinha paciência para o pessoal do trabalho, e as amigas só falavam de filhos e maridos. Precisava mudar o círculo de amizade, mas tinha preguiça. Pensou na confraria, em Cecília e sorriu. Quem sabe não seria ali o recomeço de tudo? Ligou a TV e assistiu um filme qualquer na Netflix. Eram dez da noite quando olhou para o balcão da cozinha e viu o cartão ali, no mesmo lugar em que deixara. Levantou-se para pegá-lo e resolveu ligar para Cecília. Ela não atendeu. Escreveu no WhatsApp: “Oi, aqui é a Mariana. Nos conhecemos anteontem no clube de charutos. Que tal almoçarmos neste domingo?” Hesitou antes de enviar, pensou nos prós e contras, viu que estava pensando demais e enviou a mensagem. O que de mal poderia acontecer? E se ela não respondesse? E se ela só estivesse sendo educada ao falar sobre o almoço? Percebendo que estava entrando em um espiral, respirou fundo e foi para o quarto. Colocou a música para meditação no celular, se deitou e tentou relaxar. Dessa vez, conseguiu. Dormiu profundamente e acordou cedo em um sábado ensolarado. Ligou para a irmã e combinaram de almoçar. Assim que entrou no carro, já bateu o arrependimento. Teria que aguentar o cunhado mala e as crianças gritando pela casa. Não havia como desistir mais. Teria que enfrentar. Colocou um rock para animar e se foi.. O quer era para ser um almoço rápido, se estendeu para o famigerado lanche da noite. No final das contas, foram mais dois casais de amigos, cada um com dois filhos e a casa estava cheia e barulhenta. Mariana ficou com pena da irmã e ficou para ajudar. Até aspirador passou quando todo mundo foi embora. Ao voltar para casa no final da noite do sábado, estava exausta. Sentou-se no sofá da sala, com uma taça de vinho na mão e respirou aliviada. Enfim, em casa. Olhou o celular (que havia ficado na bolsa o dia todo) e tinha uma mensagem de Cecília, topando o almoço. Por que Mariana sentiu um frio na barriga?

Eliana Leite

20/02/2020

“My words will be there”, de Audre Lorde, do livro “I Am Your Sister”.

fonte: https://materialfeministatraduzido.tumblr.com/post/89420898874/my-words-will-be-there-de-audre-lorde-do-livro

“Minhas palavras estarão lá”, de Audre Lorde, do livro “Eu sou sua irmã.”

Eu costumava olhar em volta quando eu era uma mulher mais nova e não havia ninguém dizendo as coisas que eu queria e precisava ouvir. Eu me sentia completamente alienada, desorientada, louca. Eu pensava que tinha que existir outra pessoa que se sentisse da mesma maneira que eu me sentia.

Eu era muito inarticulada quando menor. Eu não conseguir falar. Eu não falei até completar cinco anos. Na verdade, nem com cinco anos: só comecei a falar verdadeiramente quando passei a ler e escrever poesia. Eu costumava falar através da poesia. Eu lia poemas e os memorizavas, então quando as pessoas me perguntavam “o que você acha, Audre? O que te aconteceu ontem?”, eu recitava um poema e em alguma parte daquele poema havia um verso ou um sentimento a ser compartilhado. Eu outras palavras, eu literalmente me comunicava através de poesia. E quando eu não consegui encontrar poemas que traduzissem o que eu queria dizer, foi ai que comecei a escrevê-los, por volta dos meus doze ou treze anos.

Os críticos sempre quiseram me enquadrar em uma função especifica, desde a hora que meu primeiro poema foi publicado, quando eu tinha quinze anos. Meus professores de inglês na Escola Hunter de Ensino Médio disseram que um poema meu em particular era muito romântico (era um poema de amor sobre minha primeira paixão por um menino) e que eles não queriam colocá-lo no jornal da escola, o que me levou a enviá-lo para a revista “Seventeen” [Dezessete] e, obviamente, “Seventeen” [Dezessete] publicou-o.

Meus críticos sempre quiseram me ver sob uma determinada ótica. As pessoas fazem isso. É mais fácil lidar com um poeta, certamente com uma poeta negra, quando você a categoriza, limitando-a tanto que ela consegue preencher suas expectativas. Mas eu sempre senti que não posso ser categorizada, e esse sentimento tem sido tanto minha fraqueza quanto minha força. Tem sido minha fraqueza porque minha independência me custou o suporte de algumas pessoas. Mas veja você, também tem sido minha força porque me dá o poder para seguir em frente. Eu não sei como eu teria sobrevivido às diferentes coisas às quais sobrevivi e continuado a produzir se eu não tivesse sentido que é tudo que eu sou que me satisfaz e satisfaz a visão que eu tenho do mundo.

Eu só tive uma experiência de escrever de casa, e ela foi no Colégio Tougaloo em Mississipi onze anos atrás. Foi essencial pra mim. Essencial porque em 1968 meu primeiro livro tinha acabado de ser publicado, era a minha primeira viagem para o extremo Sul, era a primeira vez que eu estava passando um tempo longe das crianças. Era a primeira vez que eu tinha que lidar com estudantes jovens e negros em uma oficina. Ajudou-me a perceber que aquele era o meu trabalho, que ensinar e escrever estavam inextricavelmente combinados, e foi lá que eu soube que era aquilo que eu queria fazer para o resto da minha vida.

Eu era a “bibliotecária que escreveu”. Depois da minha experiência em Tougaloo, eu percebi que minha escrita era central na minha vida e aquela biblioteca, ainda que eu amasse livros, não era o suficiente. Combinados com as circunstancias que se seguiram na minha estada em Tougaloo – a morte do rei, a morte de Kennedy, o acidente da Martha – todas essas coisas me fizeram ver que a vida é pequena, e que devemos fazer o que deve ser feito agora.

Eu nunca estive novamente em uma experiência de escrever de casa. O poema “Touring” [Turismo] de “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro] fala muito sobre como eu me sentia sobre isso. Eu leio minha poesia ocasionalmente. Eu planto minhas pequenas sementes e depois eu me vou. Eu espero que elas floresçam. Algumas vezes eu descubro que elas de fato floresceram, outra vezes eu nunca descubro. Eu só tenho que ter fé.

Primordialmente eu escrevo para aquelas mulheres que não falam, que não tem verbalização porque elas estão tão apavoradas, porque elas foram ensinadas a respeitar o medo mais do que a si mesmas. Nós fomos ensinadas a respeitar nosso medos, mas nós temos que aprender a respeitar nós mesmas e nossas necessidades.

Nos meus quarenta e cinco anos meu estilo de vida e os rumores sobre meu lesbianismo me tornaram uma pessoa “non grata” nos meios da literatura negra. Eu sinto que não esclarecer todos os aspectos sobre quem eu sou gera um certo tipo de expectativa sobre mim que com o passar do tempo eu gosto cada vez menos. Eu espero que a maior quantidade possível de pessoas possa lidar com meu trabalho e com o quem eu sou, e que eles possam encontrar algo no meu trabalho que lhes seja útil em suas vidas. Mas se eles não conseguirem, então todos perdemos. Mas então, talvez, suas crianças encontrem.

Pra mim mesma vem sendo muito produtivo e necessário lidar com os aspectos de quem eu sou, e eu venho dizendo isso por um bom tempo. Eu não sou um pedaço de mim mesma. Eu não posso simplesmente ser uma pessoa negra e não ser uma mulher também, ou ser uma mulher sem ser uma lésbica… Claro, haverá sempre pessoas, e sempre houve pessoas na minha vida, que vem a mim e dizem “Bom, aqui você se define como tal tal e tal tal” em detrimento de outros pedaços de mim mesma. Existe uma injustiça em fazer isso, e é uma injustiça para as mulheres para quem eu escrevo. Na realidade, é uma injustiça para todas as pessoas. O que acontece quando você narra sua definição do que é conveniente, ou do que está na moda, ou do que é esperado, é que ela se torna desonesta e silenciadora.

Agora, quando você tem uma comunidade literária oprimida pelo silêncio das pessoas em volta, como a comunidade dos escritores negros na América, e você têm esse tipo de tática que insiste em definições unilaterais de negritude, então você está dolorosamente e efetivamente silenciando alguns dos nossos mais dinâmicos e criativos talentos, porque todas as mudanças e progressos vêm do reconhecimento e uso das diferenças entre nós mesmos.

Eu me considero uma vitima do silenciamento dentro da comunidade de literatura negra por anos, e eu certamente não sou a única. Para efeito de consideração, não há qualquer questionamento sobre a qualidade do meu trabalho nesse ponto. Então porque você acha que meu último trabalho, “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro], não foi resenhado ou sequer mencionado em nenhum jornal ou revista negro nesses trinta meses desde que foi lançado?

Eu sinto que tenho um dever de falar a verdade como eu vejo e não compartilhar somente meus triunfos, não só as coisas sobre as quais eu me sinto bem, mas também a dor, a intensa dor.

Eu nunca pensei que viveria para ver os meus quarenta anos e cá estou eu nos meus quarenta e cinco! Eu sinto que, ei, eu realmente consegui! Eu me sinto satisfeita por ter realmente enfrentado todo o meu problema de câncer de mama, da mortalidade, da morte. Foi muito difícil, porém muito fortalecedor lembrar que eu poderia ter sido silenciada toda a minha vida e depois morrer, abruptamente, sem nunca ter dito ou feito o que eu queria ter dito e feito, o que eu precisava ter dito e feito, só por causa da dor e do medo. Se eu esperasse estar certa antes de falar eu estaria mandando pequenas mensagens criptografadas num quadro de Ouija, reclamações do “outro lado”.

Eu realmente sinto que se as coisas que eu disse estão erradas, então haverá alguma mulher que se levantará e dirá “Audre Lorde errou”. Mas minhas palavras estarão lá, será algo pra ela discordar, algo para incitar o pensamento e a atividade.

Escritores homens e negros tendem a chorar na tentativa de convencer seus leitores de que eles também têm sentimentos, enquanto escritoras mulheres e negras tendem a dramatizar suas dores e amores. Mas eles não parecem intelectualizar a capacidade de sentir; eles focam em descrever o sentimento por si só. E amor é, frequentemente, dor. Mas eu acho que é necessário ver o quanto dessa dor eu posso sentir, o quanto dessa verdade eu posso ver e ainda assim viver sem me cegar. E, finalmente, é preciso determinar o quanto dessa dor eu posso usar. Isso é essencial quando nos questionamos o quanto estamos pedindo de nós mesmas. Existe um ponto na qual a dor se torna um fim em si mesma, e então nós devemos deixá-la ir. Por outro lado, nós não devemos temer a dor, mas não podemos nos subjulgar a essa dor enquanto um fim em sí mesma. Nós não devemos celebrar nossa vitimização, porque há outras formas de ser negra.

Há uma linha muito fina, porém bem definida entre essas duas formas de resposta a dor. Eu gostaria de ver essa linha desenhada com mais cuidados em alguns trabalhos de mulheres negras escritoras. Eu estou particularmente ciente das minhas responsabilidades no meu trabalho, e eu tenho que me lembrar que a dor não é sua própria razão de ser, mas sim parte da vida, e a única forma de dor que é intolerável é aquela desperdiçada, aquela da qual nós não aprendemos. E acho que precisamos aprender a distinguir esses dois tipos.

Eu vejo protesto como uma forma genuína de encorajar alguém a sentir as inconstâncias, o horror, das vidas que estamos vivendo. O protesto está aqui para dizer que nós não temos que viver a vida dessa forma. Se nós sentimos intensamente, conforme nós encorajamos nós mesmas e outros a sentir intensamente, nós vamos, através daquele sentimento, uma vez que nós reconhecermos que se sentimos intensamente podemos então amar intensamente e aproveitar intensamente, demandar que parte de nossas vidas produzam esse tipo de alegria. E quando elas não produzirem nós nos perguntaremos: “porque não produzem?”, e é essa pergunta que nos levará inevitavelmente a mudança.

Então a questão do protesto e a arte são inseparáveis pra mim. Eu não posso dizer que ela é também/ou uma proposta. Arte pelo bem da arte não existe de verdade pra mim, nunca existiu. O que eu via era errado e eu precisava me manifestar sobre. Eu amava poesia e amava palavras. Mas o que é bonito precisava servir ao propósito de mudar minha vida, ou então estaria morto. Se eu não posso expor essa dor e mudá-la, então morrerei dela. E esse foi o inicio do meu próprio protesto.

Falo tanto sobre a dor; mas e sobre o amor? Quando você vem escrevendo poemas de amor por trinta anos, seus poemas mais tardios são aqueles que realmente atingem o âmago da questão que permeia seus limites. A testemunha das coisas pelas quais você passou. Aqueles são os verdadeiros poemas de amor. E eu amo esses poemas mais tardios porque eles dizem, ei!, nós nos definimos como amantes, e como pessoas que se amam de novo várias e várias vezes, nós renascemos. Esses poemas insistem que você não pode separar o amor das brigas, da morte, da dor, mas que ainda assim o amor é triunfante. É poderoso e forte, e eu sinto que eu cresci muito em todas as minhas emoções, especialmente na capacidade de amar.

O amor expresso entre mulheres é particular e poderoso, porque nós temos que amar para viver, o amor tem sido nossa sobrevivência.

Nós supostamente devemos tomar como padrão o amor heterossexual. E o que eu insisto no meu trabalho é que não deveria haver algo como um padrão de amor na literatura. Ali está o amor, naquele poema. O poema aconteceu quando eu, Audre Lorde, poeta, lidei com minha individualidade ao invés de lidar com o “padrão”. Meu poder enquanto pessoas, enquanto poeta, vem de quem eu sou. Eu sou uma pessoa individual. As relações que eu tive, as pessoas que me mantiveram vivas, que ajudaram a me sustentar, as pessoas cujo sustento me doou uma identidade que é a fonte da minha energia. Não poder lidar com a minha vida na minha arte é cortar a fonte da minha força.

Eu amo escrever poemas, eu amo amar. E para colocar essa questão num quadro que é outro que não poesia eu escrevi um artigo intitulado “Uses of the Erotic” [Usos do Erótico], no qual eu examino toda a questão do amor enquanto manifestação. O amor é muito importante porque é a fonte de um tremendo poder.

As mulheres não foram ensinadas a respeitar o desejo erótico, esse lugar que é exclusivamente feminino. Então, assim como algumas pessoas negras tendem a rejeitar sua negritude porque a negritude vem sendo tida como inferior nós, mulheres, tendemos a rejeitar nossa capacidade de sentirmos, nossa habilidade de amar, de tocar o erótico, porque ela foi desvalorizada. Porque é nisso que reside nosso poder, nossa habilidade de postular, de ver. Porque uma vez que nós percebemos o quão profundamente podemos sentir, nós começamos a demandar de todas as atividades de nossa vida que elas estejam de acordo com esses sentimentos. E quando elas não estão, nós levantamos a questão do porque… porque… porque nós nos sentimos constantemente suicidas? O que está errado? Sou eu? Ou é o que eu estou fazendo? E nós começamos a necessitar de respostas pra tais questões. Mas nós não podemos fazer isso quando não temos visão de alegria, quando não temos noção das nossas capacidades. Quando vivemos na escuridão, sem a luz do sol, você não sabe o que é saborear a luz brilhante ou mesmo o que é tê-la em excesso. Uma vez que você tem a luz, você pode mensurar seu nível, inclusive com prazer.

Eu mantenho um jornal; eu escrevo no meu jornal regularmente. Eu tiro muitos dos meus poemas de lá. É a matéria prima dos meus poemas. Algumas vezes eu sou abençoada com um poema que já vem na forma de poema, mas algumas vezes eu tenho que trabalhar por dois anos num poema.

Para mim, há dois processos muito básicos e diferentes para revisar minha poesia. Um é reconhecer que um poema não se transformou ainda nele mesmo. Em outras palavras significa que o sentimento, a verdade que o poema deveria ancorar ainda não está clara o suficiente dentro de mim, e isso é resultado da falta de algo no poema. Então o poema tem que ser re-sentido. E daí existe um segundo processo, mais fácil. O poema é ele mesmo, mas tem algumas bordas que precisam ser refeitas. Esse tipo de revisão envolve pegar a imagem que é mais potente ou recortá-la para carregar mais eficazmente aquele sentimento. Essa é uma forma mais fácil, de reescrever ao invés de re-sentir.

Meus escritos no jornal se focam nas coisas que eu sinto. Sentimento que ás vezes não tem lugar, nem inicio, nem fim. Frases que eu ouço de passagem. Algo que me parece legal, que me encanta. Algumas vezes apenas observações sobre o mundo.

Eu encarei um período no qual eu sentia que estava morrendo. Foi durante 1975. Eu não estava escrevendo poesia, e eu sentia que se eu não conseguisse escrever eu iria partir ao meio. Eu estava escrevendo coisas no meu jornal, mas os poemas não vinham. Agora eu sei que aquele período foi de transição na minha vida e eu não estava verdadeiramente lidando com ele.

Mais tarde no ano seguinte eu voltei ao meu jornal e havia esses incríveis poemas que eu quase podia tirar do jornal; muitos deles estão em “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro]. “Harriet” é um deles; “Sequelae” [Sequelas] é outro. “A Litany for Survival” [Uma Litania pela Sobrevivência] é outro. Esses poemas estavam bem ali, no jornal. Mas eu não os via como poemas antes disso.

“Power” [Poder] estava naquele jornal também. Foi um poema escrito sobre Clifford Glover, um menino negro de dez anos que foi baleado por um policial que foi absolvido por um júri que uma mulher negra compunha. Na realidade, o dia em que eu ouvi no radio que Thomas O’Shea havia sido absolvido, eu estava atravessando a cidade pela rua 88 e eu tive que encostar o carro. Um tipo de fúria surgiu em mim, o céu se tornou vermelho. Eu me senti tão doente. Eu senti como se eu pudesse dirigir esse carro uma parede adentro, jogando-o em cima da próxima pessoa que eu visse. Então eu o encostei. Eu peguei o meu jornal apenas para transcrever um pouco da minha fúria, para deixá-la fluir através das pontas do meus dedos. Esses sentimentos que fluíram são aquele poema. Foi assim que “Power” [Poder] foi escrito. Há um incrível abismo entre o que está escrito no jornal e minha poesia, ainda assim, eu escrevo coisas nos meus jornais, e ás vezes eu sequer consigo ler meus jornais porque há tanta dor e raiva neles. Eu os ponho numa gaveta e seis meses, um ano ou mais depois, eu pego o jornal e ali há poemas. Os escritos no jornal precisam ser assimiladas no meu cotidiano, e só então eu consigo lidar com o que eu escrevo.

Arte não é vida, é um uso da vida. O artista tem a habilidade de pegar a vida e a usar de certa forma de forma a produzir arte.

A literatura afro-americana é certamente parte de uma tradição africana de lidar com a vida como uma experiência a ser vivida. Em muitos aspectos, é como na filosofia oriental na qual nos vemos como parte de uma força da vida; nós fazemos parte, por instancia, do ar, da terra. Nós somos parte de todo o processo da vida. Nós vivemos em um acordo, em uma correspondência com o resto do mundo como um todo. E, por tanto, viver se torna muito mais uma experiência do que um problema, não importa o quão ruim ou doloroso possa ser. A mudança se erguerá endemicamente a partir de uma experiência completamente vivida.

Eu sinto muito isso na escrita africana. E, como conseqüência, eu tenho aprendido muito de pessoas como Chinua Achebe, Amos Tutuola, Cyprian Ekwensi, Flora Nwapa e Ama Ata Aidoo. Leslie Lacye, um negro americano que residiu temporariamente em Gana, escreve sobre a experiência dessa transcendência em seu livro “The Rise and Fall of a Proper Negro” [A ascensão e queda de um negro adequado]. Isso não é ignorar a dor, porque seria um erro, mas sim ver essas coisas como parte da vida e, com isso, aprender delas. Essa característica é particularmente africana e está transporta na melhor literatura afro-amerciana.

Essa transcendência aparece em Ralph Ellision, um pouco em James Baldwin, não tanto quanto eu gostaria, e muito, muito em “Sula”, uma obra de Toni Morrison que é a mais maravilhosa peça de ficção que eu li recentemente. E eu não ligo se ela ganhou o prêmio por “The Song of Solomon” [O Cântico dos Cânticos], “Sula” é um livro totalmente incrível. Me fez acender por dentro como um árvore de natal. Eu me identifiquei particularmente com o livro por causa da idéia de ser forasteira. Toni pôs aquele livro para descansar. Colocou para descansar. Aquele livro é como um longo poema. Sula é o ultimato negro e feminino de nossos tempos, presa em seu próprio poder e dor.

É importante que a gente compartilhe experiências e insights. “The Cancer Journals” [As Revistas do Câncer] é muito importante para mim. É uma prosa de um monologo dividido em três. Vem das minhas experiências com mastectomia e o rescaldo: a raiva, o terror, o medo e o poder que vem da experiência de lidar com a minha mortalidade. Como existe pouquíssimos escritos sobre mastectomia com exceção de estatísticas, como você faria, ou você finge que não aconteceu? Eu penso que precisamos de uma visão feminista para mulheres negras nesse processo. E é essa a origem de “The Cancer Journals” [As Revistas do Câncer].

Escritos recentes de mulheres negras parecem explorar preocupações humanas de forma diferente dos homens. Essas mulheres se recusam a culpar o racismo inteiramente por todos os aspectos da vida negra. Na verdade, por vezes elas responsabilizam os homens negros. Os homens tendem a responder na defensiva, rotulando essas mulheres como “queridinhas” dos estabelecimentos literários.

Não é o destino da América negra repetir os erros da América branca. Mas iremos repeti-los se nós errarmos as armadilhas do sucesso numa sociedade doente pelos pecados de uma vida sem sentido. Se homens negros continuarem a o fazer, definindo “feminilidade” em seus termos europeus mais arcaicos, essa augura será ruim para a nossa sobrevivência enquanto grupo, quem dirá para a nossa sobrevivência enquanto indivíduos. Liberdade e futuro para pessoas negras não significa absorver a doença dominante dos homens brancos.

Enquanto pessoas negras nós não podemos iniciar nosso dialogo negando a natureza opressiva dos privilégios masculinos. E se homens negros escolherem assumir esse privilégio, seja por qualquer razão, estuprando, brutalizando e assassinando mulheres, então nós não poderemos ignorar a opressão dos homens negros. A opressão de um não justifica outra.

Enquanto pessoas, nós deveríamos certamente trabalhar juntos para acabar com a nossa opressão em comum, e criar um futuro viável para todos nós. Naquele contextos, é míope acreditar que homens negros são culpados, sozinhos, em todas as situações, numa sociedade dominada por homens brancos. Mas a consciência do homem negro deve ser acordada para que ele possa entender que sexismo e misoginia são criticamente disfuncionais para a libertação dele enquanto homem negro porque essa opressão tem raízes na mesma constelação que produz racismo e homofobia, uma constelação de intolerância ao diferente. Até que isso seja feito, ele verá sexismo e a destruição das mulheres negras só como paralela a causa da libertação das pessoas negras do que como central para aquela luta, e enquanto isso ocorra, nós não seremos capazes de sustentar o dialogo entre mulheres negras e homens negros que é tão essencial para a nossa sobrevivência enquanto um grupo. E essa cegueira continua só serve ao sistema opressor no qual estamos inseridos.

Eu escrevo para mim mesma. Eu escrevo para mim mesma e minhas crianças e para quantas pessoas mais puderem me ler. Quando eu digo mim mesma eu quero dizer não só a Audre que habita meu corpo mas para todas aquelas mal-humoradas, incorrigíveis lindas mulheres negras que insistem em se erguer e dizer “Eu sou” e você não pode me apagar, não importa o quão irritante eu seja.

Eu me sinto responsável por mim mesma, por aquelas pessoas que estão lendo e sentem e precisam do que eu tenho a dizer, e para mulheres e homens que virão depois de mim. Mas primordialmente eu acho que é de minha responsabilidade as mulheres porque já há muitas vozes para homens. Há pouquíssimas vozes para mulheres e em particular para mulheres negras, falando do centro da consciência, pelo que eu sou e pelo que nós somos.

O que eu posso compartilhar com a geração mais nova de mulheres negras escritoras e escritoras num geral? O que eles podem aprender das minhas experiências? Eu posso lhes dizer para não terem medo de sentir e não terem medo de escrever sobre seus sentimentos. E mesmo que você tenha medo, escreva de qualquer forma. Nós aprendemos a trabalhar quando estamos cansadas, para que então possamos aprender a trabalhar quando estamos assustadas.

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Texto original: file:///C:/Users/Note/Downloads/I%20Am%20Your%20Sister%20-%20Audre-Lorde.pdf

Tradução: A.M., de www.materialfeministatraduzido.tumblr.com

Preciso ler para escrever?

Stephen King:

If you want to be a writer, you must do two things above all others: read a lot and write a lot. There’s no way around these two things that I’m aware of, no shortcut. . . .

It’s hard for me to believe that people who read very little (or not at all in some cases) should presume to write and expect people to like what they have written, but I know it’s true. If I had a nickel for every person who ever told me he/she wanted to become a writer but didn’t have time to read, I could buy myself a pretty good steak dinner. Can I be blunt on this subject? If you don’t have time to read, you don’t have the time (or the tools) to write. Simple as that.

William Faulkner:

Read, read, read. Read everything — trash, classics, good and bad, and see how they do it. Just like a carpenter who works as an apprentice and studies the master. Read! You’ll absorb it.

J.K. Rowling:

The most important thing is to read as much as you can, like I did. It will give you an understanding of what makes good writing and it will enlarge your vocabulary.

Personas

Senhoras recatadas

A xícara de chá à espera (de companhia)

Para uma conversa morna

O tempo, os preços, as roupas (das mulheres sem-vergonha)

Senhores de abotoadura

Segurando seus guarda-chuvas (com cabo de madeira)

Para uma reunião desimportante

Os números, a bolsa, as pernas (das secretárias)

Garotas de uniforme

Passam batom às escondidas (sem espelho)

Para uma disciplina agonizante

Carteira, compasso, medo (de não serem notadas)

Garotos descalços

Suados depois de correr (atrás da bola)

A grama surrada, meio verde, meio marrom

Refrigerante, grama, piadas (sobre os batons e as meninas)

Serão estes garotos

Os homens soturnos?

Serão aquelas garotas

As senhoras entediadas?

E as mulheres jovens (sem brio)

As secretárias (de pernas de fora)

Os meninos (que querem usar batom)

As meninas (que sonha com a liberdade)?

Onde estão?

Não nas calçadas, esperando

Não nas reuniões, fingindo

Não nas escolas, silenciando

Não nos campos, brincando

Quem são?

Novas personagens, (nem tão novas)

Hoje presentes, (apesar de tudo)

Ontem caladas, (gritem!)

Sempre reais.

Eliana Leite

16/06/2020

Feminismo – Um Olhar

Estava ali, no meu canto, achando que sabia o que era a vida, enfiada no meu trabalho e na minha rotina, não muito consciente de que afundava em uma suposta zona de conforto, ou de que andava em areia movediça, em meados de 2016, quando, em meio a um processo de mentoring (em que eu era a mentoranda), a mentora recomendou a leitura do livro “The Confidence Code”, de Katty Kay e Claire Shipman. A partir desta leitura, muitas fichas começaram a cair. O cerne da obra é sobre a (falta de) autoconfiança nas mulheres. Obviamente, isso tudo toca em temas como machismo, patriarcado, história, submissão, empoderamento, etc. Foi um divisor de águas para mim, pois a partir dali, despertei para um novo olhar. O meu olhar de mulher sobre a mulher, sobre mim, sobre as mulheres que admiro, sobre o fato de que, no fundo, sempre soube que havia algo que eu precisava desvendar, decifrar, para me entender e entender o mundo ao meu redor. Foi assim que saí da superficialidade e deixei de me calar. Percebi que já tinha alguns conceitos dentro de mim, muito pela educação que recebi e porque fui introduzida à leitura de autoras femininas (e, hoje sei, feministas) muito cedo. O que me acordou foi o fato de que o que eu sabia era a ponta do iceberg. E fui adiante. E continuo seguindo. Não há um ponto de parada. Ao contrário, há sempre um novo ponto de partida. E hoje eu vim dividir um pouco disso sob o olhar meu, com base em minhas experiências e leituras.

Conceito

Feminismo é um movimento social que busca a igualdade de status social, jurídico, político e econômico entre os gêneros.

Patriarcado

Sexo + classe + raça = ligados entre si para determinar a questão do patriarcado como dominação do homem branco heterossexual,

Homens devem primeiramente discutir a masculinidade tóxica e os efeitos nocivos do Patriarcado para então olhar para a igualdade de direitos entre gêneros e poder apoiar o feminismo. Um legislador, um professor, um escritor podem apoiar através de ações inclusivas e questionadoras. O que não dá é para ter um “macho palestrinha” pautando a luta e o movimento feminista como algo seu.

Movimento Feminista no Brasil

Trës ondas, sendo a primeira no final do século XIX e início do século XX, a segunda entre 1960 e a terceira a partir de 1990.

A primeira se caracterizou por lutar pelo direito ao voto e direitos trabalhistas. A segunda por lutar por liberdade sexual, papel social da maternidade e igualdade de direitos. E, por fim, a terceira busca a liberdade total. Dentro deste movimento da terceira onda, há o feminismo interseccional, que agrega os diferentes direitos das mulheres (brancas, negras, indígenas…)

Os Direitos da Mulher no Brasil

Código Civil de 1916 – mulher era considerada incapaz.

1932 – 1934 – Direito ao voto

1962 – Estatuto da Mulher Casada

1977 – Lei do Divórcio

1988 – Constituição Federal estabelece a igualdade entre todos

2006 – Lei Maria da Penha

2015 – Lei que estabelece o Feminicídiocomo crime hediondo.

Provocação – adotar o sobrenome do marido é uma herança de nossa cultura patriarcal, um ato romântico ou uma liberdade? A partir de que perspectiva? Da mulher instruída ou da mulher submissa? Há pesquisas que indicam que quanto maior o grau de instrução da mulher, menos importância tem para ela adotar o sobrenome do marido (fica com seu nome). Para se pensar – e não julgar, afinal é uma realidade muito forte no Brasil ainda.

Violência contra a mulher e Feminícídio

Políticas públicas

Saúde Mental

Assistência e Proteção

O ciclo vicioso da relação de dominação

O silêncio que mata

A cultura machista faz com que a mulher se sinta responsável e culpada

O papel da família

A educação de crianças

Feminicídio é o termo usado para denominar assassinatos de mulheres cometidos em razão do gênero. Ou seja, quando a vítima é morta por ser mulher. No Brasil, a Lei do Feminicídio, de 2015, estabelece que, quando o homicídio é cometido contra uma mulher, a pena é maior. É um crime de ódio.

Comportamentos machistas

Mansplaining

Manterrupting

Gaslighting: Bárbara Zorrilla é psicóloga especializada em atendimento a mulheres vítimas de violência de gênero. “O abuso gaslighting é uma forma de violência muito perversa, porque é contínua e se consegue mediante o exercício de um assédio constante, mas sutil e indireto, repetitivo, que vai gerando dúvidas e confusão na mulher que o sofre, a ponto de chegar a se sentir culpada das condutas de violência do abusador e duvidar de tudo que acontece à sua volta.”

Falar que está de TPM! (reduz a mulher a hormônios)

Perguntar sobre maternidade como forma de julgamento e exclusão

Parem de dar chocolate no dia da Mulher… mudem a atitude, apoiem, estudem, entendam

Chamar de Feminazi

Fazer piadas machistas

Falar que é coisa de mulherzinha

Não dividir as tarefas domésticas

Exemplos de práticas machistas no mundo corporativo

Salários desiguais

Não ter mulheres na alta liderança

Encorajar piadas machistas

Colocar mulheres em situações constrangedoras

Não ter uma cultura de inclusão e diversidade

Sororidade

Não somos todas iguais e não conseguimos entender a realidade de todas e por este motivo temos que escutar e apoiar. Um dos grandes erros é afirmar que o movimento feminista é único e une todas as mulheres, indiscriminadamente. As lutas podem ter muito em comum, um ponto de intersecção sem dúvida, mas existem diferentes reinvindicações de mulheres negras em comparação a mulheres brancas, assim como mulheres indígenas, nordestinas, asiáticas, LGBT, e assim por diante. O mais importante, a meu ver, é sermos interseccionais e aprendermos umas com as outras, sempre dando espaço para o diálogo e dando lugar para todas. Um exemplo disso é uma mulher branca ceder seu espaço em sua página na mídia social, por exemplo, para que uma mulher negra ou indígena fale sobre sua realidade. Isso é um exemplo real de sororidade.

Mitos/Preconceitos

– Feministas odeiam homens

– Feminismo é o contrário de machismo

– Todas as feministas são iguais

– Feministas são radicais

– Feministas não podem se casar

– Feministas são raivosas

– A mulher tem que ser masculina para chegar ao poder

Livros:

“A Mãe de todas as perguntas”(The Mother of All Questions), Rebecca Solnit

“Os Homens Explicam tudo para mim” (Men Explain Things to Me), Rebecca Solnit

Quer começar?

Ruth Manus – “Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas”

Chimamanda Ngozi Adiche – “Sejamos Todos Feministas”

“Life Lessons from Remarkable Women” (Coletânea da Revista Stylis)

Poemas – Empoderamento

“Outros Jeitos de Usar a Boca” – Rupi Kaur

“A Princesa Salva a Si Mesma Neste Livro” – Amanda Lovelace

“A Bruxa Não Vai para a Fogueira Neste Livro”- Amanda Lovelace

“The Mermaid’s Voice Return in This One” – Amanda Lovelace

Algumas obras consideradas obrigatórias sobre o feminismo (ainda não as li)

“O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir – considerado como a Bíblia Feminista

“Mulheres e poder: um manifesto”, de Mary Beard

“As boas mulheres da China”, de Xinran

“Um teto todo seu (1929)”, de Virginia Woolf

“Sister outsider (1984)”, de Audre Lorde

“O feminismo é para todo mundo (2000)”, de bell hooks

“Persépolis (2004)”, de Marjane Satrapi

“Reivindicação dos direitos da mulher”, de Mary Wollstonecraft

Autoras Feministas (seja pelo que escreveram ou pelo modo de vida ou porque assim se posicionam)

Jane Austen

Simone de Beauvoir

Virginia Woolf

Mary Wollstonecraft

Margaret Atwood

Bell Hooks

Rebecca Solnit

Audre Lorde

Sueli Carneiro

Irmãs Brontë

Gioconda Belli

Angela Carter

Isabell Allende

Sylvia Plath

Clarice Lispector

Lygia Fagundes Telles

Laura Esquivel

Chimamanda Ngozi Adiche

Djamila Ribeiro

Maya Angelou

Angela Davis

Nélida Piñon

Isak Dinesen

Conceição Evaristo

Mary Beard

Xinran

Angélica Freitas

Marilena Chauí

Arundhati Roy

Marjane Satrapi

Ana Maria Gonçalves

Carolina Maria de Jesus

Svetlana Aleksiévitch

Toni Morrison

Cecilia Meirelles

Hilda Hist

Heleieth Saffioti

Joan Scott

NÍSIA FLORESTA (1810-1885) Considerada a primeira feminista brasileira, publicou em 1832 o manifesto “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”. Também educadora e presença constante em periódicos da imprensa até então jovem, Nísia Floresta rompeu os limites entre o público e o privado que eram impostos às mulheres. Ela viajou pelo mundo, criando contatos e diálogos com Augusto Comte, pai do positivismo, e Alexandre Dumas, importante escritor francês.

Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens. (…) Por que [os homens] se interessam em nos separar das ciências a que temos tanto direito como eles, senão pelo temor de que partilhemos com eles, ou mesmo os excedamos na administração dos cargos públicos, que quase sempre tão vergonhosamente desempenham?

NARCISA AMÁLIA (1852-1924) Além de poeta, Narcisa Amália foi a primeira jornalista profissional do Brasil. Feminista e abolicionista, lutava contra as opressões de gênero e de raça nos seus textos. Foi, de acordo com Sílvia Paixão, “um dos raros nomes femininos que falam de identidade nacional”, contribuindo imensamente para a formação da nossa literatura “numa poética uterina que imprime o retorno ao lugar de origem”.

PAGU (PATRÍCIA GALVÃO) (1910-1962) Sempre relacionada a Oswald de Andrade e condenada ao título de musa, Pagu foi muito mais do que companheira do escritor. Poeta, escritora, tradutora, desenhista, diretora de teatro, jornalista e militante, Patrícia Galvão lutou pela participação política da mulher na sociedade brasileira e foi figura essencial no movimento modernista. Publicou seu primeiro romance, Parque Industrial, em 1933. Primeira mulher a se tornar presa política no país, foi torturada durante muitos períodos em sua vida.