“My words will be there”, de Audre Lorde, do livro “I Am Your Sister”.

fonte: https://materialfeministatraduzido.tumblr.com/post/89420898874/my-words-will-be-there-de-audre-lorde-do-livro

“Minhas palavras estarão lá”, de Audre Lorde, do livro “Eu sou sua irmã.”

Eu costumava olhar em volta quando eu era uma mulher mais nova e não havia ninguém dizendo as coisas que eu queria e precisava ouvir. Eu me sentia completamente alienada, desorientada, louca. Eu pensava que tinha que existir outra pessoa que se sentisse da mesma maneira que eu me sentia.

Eu era muito inarticulada quando menor. Eu não conseguir falar. Eu não falei até completar cinco anos. Na verdade, nem com cinco anos: só comecei a falar verdadeiramente quando passei a ler e escrever poesia. Eu costumava falar através da poesia. Eu lia poemas e os memorizavas, então quando as pessoas me perguntavam “o que você acha, Audre? O que te aconteceu ontem?”, eu recitava um poema e em alguma parte daquele poema havia um verso ou um sentimento a ser compartilhado. Eu outras palavras, eu literalmente me comunicava através de poesia. E quando eu não consegui encontrar poemas que traduzissem o que eu queria dizer, foi ai que comecei a escrevê-los, por volta dos meus doze ou treze anos.

Os críticos sempre quiseram me enquadrar em uma função especifica, desde a hora que meu primeiro poema foi publicado, quando eu tinha quinze anos. Meus professores de inglês na Escola Hunter de Ensino Médio disseram que um poema meu em particular era muito romântico (era um poema de amor sobre minha primeira paixão por um menino) e que eles não queriam colocá-lo no jornal da escola, o que me levou a enviá-lo para a revista “Seventeen” [Dezessete] e, obviamente, “Seventeen” [Dezessete] publicou-o.

Meus críticos sempre quiseram me ver sob uma determinada ótica. As pessoas fazem isso. É mais fácil lidar com um poeta, certamente com uma poeta negra, quando você a categoriza, limitando-a tanto que ela consegue preencher suas expectativas. Mas eu sempre senti que não posso ser categorizada, e esse sentimento tem sido tanto minha fraqueza quanto minha força. Tem sido minha fraqueza porque minha independência me custou o suporte de algumas pessoas. Mas veja você, também tem sido minha força porque me dá o poder para seguir em frente. Eu não sei como eu teria sobrevivido às diferentes coisas às quais sobrevivi e continuado a produzir se eu não tivesse sentido que é tudo que eu sou que me satisfaz e satisfaz a visão que eu tenho do mundo.

Eu só tive uma experiência de escrever de casa, e ela foi no Colégio Tougaloo em Mississipi onze anos atrás. Foi essencial pra mim. Essencial porque em 1968 meu primeiro livro tinha acabado de ser publicado, era a minha primeira viagem para o extremo Sul, era a primeira vez que eu estava passando um tempo longe das crianças. Era a primeira vez que eu tinha que lidar com estudantes jovens e negros em uma oficina. Ajudou-me a perceber que aquele era o meu trabalho, que ensinar e escrever estavam inextricavelmente combinados, e foi lá que eu soube que era aquilo que eu queria fazer para o resto da minha vida.

Eu era a “bibliotecária que escreveu”. Depois da minha experiência em Tougaloo, eu percebi que minha escrita era central na minha vida e aquela biblioteca, ainda que eu amasse livros, não era o suficiente. Combinados com as circunstancias que se seguiram na minha estada em Tougaloo – a morte do rei, a morte de Kennedy, o acidente da Martha – todas essas coisas me fizeram ver que a vida é pequena, e que devemos fazer o que deve ser feito agora.

Eu nunca estive novamente em uma experiência de escrever de casa. O poema “Touring” [Turismo] de “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro] fala muito sobre como eu me sentia sobre isso. Eu leio minha poesia ocasionalmente. Eu planto minhas pequenas sementes e depois eu me vou. Eu espero que elas floresçam. Algumas vezes eu descubro que elas de fato floresceram, outra vezes eu nunca descubro. Eu só tenho que ter fé.

Primordialmente eu escrevo para aquelas mulheres que não falam, que não tem verbalização porque elas estão tão apavoradas, porque elas foram ensinadas a respeitar o medo mais do que a si mesmas. Nós fomos ensinadas a respeitar nosso medos, mas nós temos que aprender a respeitar nós mesmas e nossas necessidades.

Nos meus quarenta e cinco anos meu estilo de vida e os rumores sobre meu lesbianismo me tornaram uma pessoa “non grata” nos meios da literatura negra. Eu sinto que não esclarecer todos os aspectos sobre quem eu sou gera um certo tipo de expectativa sobre mim que com o passar do tempo eu gosto cada vez menos. Eu espero que a maior quantidade possível de pessoas possa lidar com meu trabalho e com o quem eu sou, e que eles possam encontrar algo no meu trabalho que lhes seja útil em suas vidas. Mas se eles não conseguirem, então todos perdemos. Mas então, talvez, suas crianças encontrem.

Pra mim mesma vem sendo muito produtivo e necessário lidar com os aspectos de quem eu sou, e eu venho dizendo isso por um bom tempo. Eu não sou um pedaço de mim mesma. Eu não posso simplesmente ser uma pessoa negra e não ser uma mulher também, ou ser uma mulher sem ser uma lésbica… Claro, haverá sempre pessoas, e sempre houve pessoas na minha vida, que vem a mim e dizem “Bom, aqui você se define como tal tal e tal tal” em detrimento de outros pedaços de mim mesma. Existe uma injustiça em fazer isso, e é uma injustiça para as mulheres para quem eu escrevo. Na realidade, é uma injustiça para todas as pessoas. O que acontece quando você narra sua definição do que é conveniente, ou do que está na moda, ou do que é esperado, é que ela se torna desonesta e silenciadora.

Agora, quando você tem uma comunidade literária oprimida pelo silêncio das pessoas em volta, como a comunidade dos escritores negros na América, e você têm esse tipo de tática que insiste em definições unilaterais de negritude, então você está dolorosamente e efetivamente silenciando alguns dos nossos mais dinâmicos e criativos talentos, porque todas as mudanças e progressos vêm do reconhecimento e uso das diferenças entre nós mesmos.

Eu me considero uma vitima do silenciamento dentro da comunidade de literatura negra por anos, e eu certamente não sou a única. Para efeito de consideração, não há qualquer questionamento sobre a qualidade do meu trabalho nesse ponto. Então porque você acha que meu último trabalho, “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro], não foi resenhado ou sequer mencionado em nenhum jornal ou revista negro nesses trinta meses desde que foi lançado?

Eu sinto que tenho um dever de falar a verdade como eu vejo e não compartilhar somente meus triunfos, não só as coisas sobre as quais eu me sinto bem, mas também a dor, a intensa dor.

Eu nunca pensei que viveria para ver os meus quarenta anos e cá estou eu nos meus quarenta e cinco! Eu sinto que, ei, eu realmente consegui! Eu me sinto satisfeita por ter realmente enfrentado todo o meu problema de câncer de mama, da mortalidade, da morte. Foi muito difícil, porém muito fortalecedor lembrar que eu poderia ter sido silenciada toda a minha vida e depois morrer, abruptamente, sem nunca ter dito ou feito o que eu queria ter dito e feito, o que eu precisava ter dito e feito, só por causa da dor e do medo. Se eu esperasse estar certa antes de falar eu estaria mandando pequenas mensagens criptografadas num quadro de Ouija, reclamações do “outro lado”.

Eu realmente sinto que se as coisas que eu disse estão erradas, então haverá alguma mulher que se levantará e dirá “Audre Lorde errou”. Mas minhas palavras estarão lá, será algo pra ela discordar, algo para incitar o pensamento e a atividade.

Escritores homens e negros tendem a chorar na tentativa de convencer seus leitores de que eles também têm sentimentos, enquanto escritoras mulheres e negras tendem a dramatizar suas dores e amores. Mas eles não parecem intelectualizar a capacidade de sentir; eles focam em descrever o sentimento por si só. E amor é, frequentemente, dor. Mas eu acho que é necessário ver o quanto dessa dor eu posso sentir, o quanto dessa verdade eu posso ver e ainda assim viver sem me cegar. E, finalmente, é preciso determinar o quanto dessa dor eu posso usar. Isso é essencial quando nos questionamos o quanto estamos pedindo de nós mesmas. Existe um ponto na qual a dor se torna um fim em si mesma, e então nós devemos deixá-la ir. Por outro lado, nós não devemos temer a dor, mas não podemos nos subjulgar a essa dor enquanto um fim em sí mesma. Nós não devemos celebrar nossa vitimização, porque há outras formas de ser negra.

Há uma linha muito fina, porém bem definida entre essas duas formas de resposta a dor. Eu gostaria de ver essa linha desenhada com mais cuidados em alguns trabalhos de mulheres negras escritoras. Eu estou particularmente ciente das minhas responsabilidades no meu trabalho, e eu tenho que me lembrar que a dor não é sua própria razão de ser, mas sim parte da vida, e a única forma de dor que é intolerável é aquela desperdiçada, aquela da qual nós não aprendemos. E acho que precisamos aprender a distinguir esses dois tipos.

Eu vejo protesto como uma forma genuína de encorajar alguém a sentir as inconstâncias, o horror, das vidas que estamos vivendo. O protesto está aqui para dizer que nós não temos que viver a vida dessa forma. Se nós sentimos intensamente, conforme nós encorajamos nós mesmas e outros a sentir intensamente, nós vamos, através daquele sentimento, uma vez que nós reconhecermos que se sentimos intensamente podemos então amar intensamente e aproveitar intensamente, demandar que parte de nossas vidas produzam esse tipo de alegria. E quando elas não produzirem nós nos perguntaremos: “porque não produzem?”, e é essa pergunta que nos levará inevitavelmente a mudança.

Então a questão do protesto e a arte são inseparáveis pra mim. Eu não posso dizer que ela é também/ou uma proposta. Arte pelo bem da arte não existe de verdade pra mim, nunca existiu. O que eu via era errado e eu precisava me manifestar sobre. Eu amava poesia e amava palavras. Mas o que é bonito precisava servir ao propósito de mudar minha vida, ou então estaria morto. Se eu não posso expor essa dor e mudá-la, então morrerei dela. E esse foi o inicio do meu próprio protesto.

Falo tanto sobre a dor; mas e sobre o amor? Quando você vem escrevendo poemas de amor por trinta anos, seus poemas mais tardios são aqueles que realmente atingem o âmago da questão que permeia seus limites. A testemunha das coisas pelas quais você passou. Aqueles são os verdadeiros poemas de amor. E eu amo esses poemas mais tardios porque eles dizem, ei!, nós nos definimos como amantes, e como pessoas que se amam de novo várias e várias vezes, nós renascemos. Esses poemas insistem que você não pode separar o amor das brigas, da morte, da dor, mas que ainda assim o amor é triunfante. É poderoso e forte, e eu sinto que eu cresci muito em todas as minhas emoções, especialmente na capacidade de amar.

O amor expresso entre mulheres é particular e poderoso, porque nós temos que amar para viver, o amor tem sido nossa sobrevivência.

Nós supostamente devemos tomar como padrão o amor heterossexual. E o que eu insisto no meu trabalho é que não deveria haver algo como um padrão de amor na literatura. Ali está o amor, naquele poema. O poema aconteceu quando eu, Audre Lorde, poeta, lidei com minha individualidade ao invés de lidar com o “padrão”. Meu poder enquanto pessoas, enquanto poeta, vem de quem eu sou. Eu sou uma pessoa individual. As relações que eu tive, as pessoas que me mantiveram vivas, que ajudaram a me sustentar, as pessoas cujo sustento me doou uma identidade que é a fonte da minha energia. Não poder lidar com a minha vida na minha arte é cortar a fonte da minha força.

Eu amo escrever poemas, eu amo amar. E para colocar essa questão num quadro que é outro que não poesia eu escrevi um artigo intitulado “Uses of the Erotic” [Usos do Erótico], no qual eu examino toda a questão do amor enquanto manifestação. O amor é muito importante porque é a fonte de um tremendo poder.

As mulheres não foram ensinadas a respeitar o desejo erótico, esse lugar que é exclusivamente feminino. Então, assim como algumas pessoas negras tendem a rejeitar sua negritude porque a negritude vem sendo tida como inferior nós, mulheres, tendemos a rejeitar nossa capacidade de sentirmos, nossa habilidade de amar, de tocar o erótico, porque ela foi desvalorizada. Porque é nisso que reside nosso poder, nossa habilidade de postular, de ver. Porque uma vez que nós percebemos o quão profundamente podemos sentir, nós começamos a demandar de todas as atividades de nossa vida que elas estejam de acordo com esses sentimentos. E quando elas não estão, nós levantamos a questão do porque… porque… porque nós nos sentimos constantemente suicidas? O que está errado? Sou eu? Ou é o que eu estou fazendo? E nós começamos a necessitar de respostas pra tais questões. Mas nós não podemos fazer isso quando não temos visão de alegria, quando não temos noção das nossas capacidades. Quando vivemos na escuridão, sem a luz do sol, você não sabe o que é saborear a luz brilhante ou mesmo o que é tê-la em excesso. Uma vez que você tem a luz, você pode mensurar seu nível, inclusive com prazer.

Eu mantenho um jornal; eu escrevo no meu jornal regularmente. Eu tiro muitos dos meus poemas de lá. É a matéria prima dos meus poemas. Algumas vezes eu sou abençoada com um poema que já vem na forma de poema, mas algumas vezes eu tenho que trabalhar por dois anos num poema.

Para mim, há dois processos muito básicos e diferentes para revisar minha poesia. Um é reconhecer que um poema não se transformou ainda nele mesmo. Em outras palavras significa que o sentimento, a verdade que o poema deveria ancorar ainda não está clara o suficiente dentro de mim, e isso é resultado da falta de algo no poema. Então o poema tem que ser re-sentido. E daí existe um segundo processo, mais fácil. O poema é ele mesmo, mas tem algumas bordas que precisam ser refeitas. Esse tipo de revisão envolve pegar a imagem que é mais potente ou recortá-la para carregar mais eficazmente aquele sentimento. Essa é uma forma mais fácil, de reescrever ao invés de re-sentir.

Meus escritos no jornal se focam nas coisas que eu sinto. Sentimento que ás vezes não tem lugar, nem inicio, nem fim. Frases que eu ouço de passagem. Algo que me parece legal, que me encanta. Algumas vezes apenas observações sobre o mundo.

Eu encarei um período no qual eu sentia que estava morrendo. Foi durante 1975. Eu não estava escrevendo poesia, e eu sentia que se eu não conseguisse escrever eu iria partir ao meio. Eu estava escrevendo coisas no meu jornal, mas os poemas não vinham. Agora eu sei que aquele período foi de transição na minha vida e eu não estava verdadeiramente lidando com ele.

Mais tarde no ano seguinte eu voltei ao meu jornal e havia esses incríveis poemas que eu quase podia tirar do jornal; muitos deles estão em “The Black Unicorn” [O Unicórnio Negro]. “Harriet” é um deles; “Sequelae” [Sequelas] é outro. “A Litany for Survival” [Uma Litania pela Sobrevivência] é outro. Esses poemas estavam bem ali, no jornal. Mas eu não os via como poemas antes disso.

“Power” [Poder] estava naquele jornal também. Foi um poema escrito sobre Clifford Glover, um menino negro de dez anos que foi baleado por um policial que foi absolvido por um júri que uma mulher negra compunha. Na realidade, o dia em que eu ouvi no radio que Thomas O’Shea havia sido absolvido, eu estava atravessando a cidade pela rua 88 e eu tive que encostar o carro. Um tipo de fúria surgiu em mim, o céu se tornou vermelho. Eu me senti tão doente. Eu senti como se eu pudesse dirigir esse carro uma parede adentro, jogando-o em cima da próxima pessoa que eu visse. Então eu o encostei. Eu peguei o meu jornal apenas para transcrever um pouco da minha fúria, para deixá-la fluir através das pontas do meus dedos. Esses sentimentos que fluíram são aquele poema. Foi assim que “Power” [Poder] foi escrito. Há um incrível abismo entre o que está escrito no jornal e minha poesia, ainda assim, eu escrevo coisas nos meus jornais, e ás vezes eu sequer consigo ler meus jornais porque há tanta dor e raiva neles. Eu os ponho numa gaveta e seis meses, um ano ou mais depois, eu pego o jornal e ali há poemas. Os escritos no jornal precisam ser assimiladas no meu cotidiano, e só então eu consigo lidar com o que eu escrevo.

Arte não é vida, é um uso da vida. O artista tem a habilidade de pegar a vida e a usar de certa forma de forma a produzir arte.

A literatura afro-americana é certamente parte de uma tradição africana de lidar com a vida como uma experiência a ser vivida. Em muitos aspectos, é como na filosofia oriental na qual nos vemos como parte de uma força da vida; nós fazemos parte, por instancia, do ar, da terra. Nós somos parte de todo o processo da vida. Nós vivemos em um acordo, em uma correspondência com o resto do mundo como um todo. E, por tanto, viver se torna muito mais uma experiência do que um problema, não importa o quão ruim ou doloroso possa ser. A mudança se erguerá endemicamente a partir de uma experiência completamente vivida.

Eu sinto muito isso na escrita africana. E, como conseqüência, eu tenho aprendido muito de pessoas como Chinua Achebe, Amos Tutuola, Cyprian Ekwensi, Flora Nwapa e Ama Ata Aidoo. Leslie Lacye, um negro americano que residiu temporariamente em Gana, escreve sobre a experiência dessa transcendência em seu livro “The Rise and Fall of a Proper Negro” [A ascensão e queda de um negro adequado]. Isso não é ignorar a dor, porque seria um erro, mas sim ver essas coisas como parte da vida e, com isso, aprender delas. Essa característica é particularmente africana e está transporta na melhor literatura afro-amerciana.

Essa transcendência aparece em Ralph Ellision, um pouco em James Baldwin, não tanto quanto eu gostaria, e muito, muito em “Sula”, uma obra de Toni Morrison que é a mais maravilhosa peça de ficção que eu li recentemente. E eu não ligo se ela ganhou o prêmio por “The Song of Solomon” [O Cântico dos Cânticos], “Sula” é um livro totalmente incrível. Me fez acender por dentro como um árvore de natal. Eu me identifiquei particularmente com o livro por causa da idéia de ser forasteira. Toni pôs aquele livro para descansar. Colocou para descansar. Aquele livro é como um longo poema. Sula é o ultimato negro e feminino de nossos tempos, presa em seu próprio poder e dor.

É importante que a gente compartilhe experiências e insights. “The Cancer Journals” [As Revistas do Câncer] é muito importante para mim. É uma prosa de um monologo dividido em três. Vem das minhas experiências com mastectomia e o rescaldo: a raiva, o terror, o medo e o poder que vem da experiência de lidar com a minha mortalidade. Como existe pouquíssimos escritos sobre mastectomia com exceção de estatísticas, como você faria, ou você finge que não aconteceu? Eu penso que precisamos de uma visão feminista para mulheres negras nesse processo. E é essa a origem de “The Cancer Journals” [As Revistas do Câncer].

Escritos recentes de mulheres negras parecem explorar preocupações humanas de forma diferente dos homens. Essas mulheres se recusam a culpar o racismo inteiramente por todos os aspectos da vida negra. Na verdade, por vezes elas responsabilizam os homens negros. Os homens tendem a responder na defensiva, rotulando essas mulheres como “queridinhas” dos estabelecimentos literários.

Não é o destino da América negra repetir os erros da América branca. Mas iremos repeti-los se nós errarmos as armadilhas do sucesso numa sociedade doente pelos pecados de uma vida sem sentido. Se homens negros continuarem a o fazer, definindo “feminilidade” em seus termos europeus mais arcaicos, essa augura será ruim para a nossa sobrevivência enquanto grupo, quem dirá para a nossa sobrevivência enquanto indivíduos. Liberdade e futuro para pessoas negras não significa absorver a doença dominante dos homens brancos.

Enquanto pessoas negras nós não podemos iniciar nosso dialogo negando a natureza opressiva dos privilégios masculinos. E se homens negros escolherem assumir esse privilégio, seja por qualquer razão, estuprando, brutalizando e assassinando mulheres, então nós não poderemos ignorar a opressão dos homens negros. A opressão de um não justifica outra.

Enquanto pessoas, nós deveríamos certamente trabalhar juntos para acabar com a nossa opressão em comum, e criar um futuro viável para todos nós. Naquele contextos, é míope acreditar que homens negros são culpados, sozinhos, em todas as situações, numa sociedade dominada por homens brancos. Mas a consciência do homem negro deve ser acordada para que ele possa entender que sexismo e misoginia são criticamente disfuncionais para a libertação dele enquanto homem negro porque essa opressão tem raízes na mesma constelação que produz racismo e homofobia, uma constelação de intolerância ao diferente. Até que isso seja feito, ele verá sexismo e a destruição das mulheres negras só como paralela a causa da libertação das pessoas negras do que como central para aquela luta, e enquanto isso ocorra, nós não seremos capazes de sustentar o dialogo entre mulheres negras e homens negros que é tão essencial para a nossa sobrevivência enquanto um grupo. E essa cegueira continua só serve ao sistema opressor no qual estamos inseridos.

Eu escrevo para mim mesma. Eu escrevo para mim mesma e minhas crianças e para quantas pessoas mais puderem me ler. Quando eu digo mim mesma eu quero dizer não só a Audre que habita meu corpo mas para todas aquelas mal-humoradas, incorrigíveis lindas mulheres negras que insistem em se erguer e dizer “Eu sou” e você não pode me apagar, não importa o quão irritante eu seja.

Eu me sinto responsável por mim mesma, por aquelas pessoas que estão lendo e sentem e precisam do que eu tenho a dizer, e para mulheres e homens que virão depois de mim. Mas primordialmente eu acho que é de minha responsabilidade as mulheres porque já há muitas vozes para homens. Há pouquíssimas vozes para mulheres e em particular para mulheres negras, falando do centro da consciência, pelo que eu sou e pelo que nós somos.

O que eu posso compartilhar com a geração mais nova de mulheres negras escritoras e escritoras num geral? O que eles podem aprender das minhas experiências? Eu posso lhes dizer para não terem medo de sentir e não terem medo de escrever sobre seus sentimentos. E mesmo que você tenha medo, escreva de qualquer forma. Nós aprendemos a trabalhar quando estamos cansadas, para que então possamos aprender a trabalhar quando estamos assustadas.

_________________________________________________________

Texto original: file:///C:/Users/Note/Downloads/I%20Am%20Your%20Sister%20-%20Audre-Lorde.pdf

Tradução: A.M., de www.materialfeministatraduzido.tumblr.com

Preciso ler para escrever?

Stephen King:

If you want to be a writer, you must do two things above all others: read a lot and write a lot. There’s no way around these two things that I’m aware of, no shortcut. . . .

It’s hard for me to believe that people who read very little (or not at all in some cases) should presume to write and expect people to like what they have written, but I know it’s true. If I had a nickel for every person who ever told me he/she wanted to become a writer but didn’t have time to read, I could buy myself a pretty good steak dinner. Can I be blunt on this subject? If you don’t have time to read, you don’t have the time (or the tools) to write. Simple as that.

William Faulkner:

Read, read, read. Read everything — trash, classics, good and bad, and see how they do it. Just like a carpenter who works as an apprentice and studies the master. Read! You’ll absorb it.

J.K. Rowling:

The most important thing is to read as much as you can, like I did. It will give you an understanding of what makes good writing and it will enlarge your vocabulary.

Personas

Senhoras recatadas

A xícara de chá à espera (de companhia)

Para uma conversa morna

O tempo, os preços, as roupas (das mulheres sem-vergonha)

Senhores de abotoadura

Segurando seus guarda-chuvas (com cabo de madeira)

Para uma reunião desimportante

Os números, a bolsa, as pernas (das secretárias)

Garotas de uniforme

Passam batom às escondidas (sem espelho)

Para uma disciplina agonizante

Carteira, compasso, medo (de não serem notadas)

Garotos descalços

Suados depois de correr (atrás da bola)

A grama surrada, meio verde, meio marrom

Refrigerante, grama, piadas (sobre os batons e as meninas)

Serão estes garotos

Os homens soturnos?

Serão aquelas garotas

As senhoras entediadas?

E as mulheres jovens (sem brio)

As secretárias (de pernas de fora)

Os meninos (que querem usar batom)

As meninas (que sonha com a liberdade)?

Onde estão?

Não nas calçadas, esperando

Não nas reuniões, fingindo

Não nas escolas, silenciando

Não nos campos, brincando

Quem são?

Novas personagens, (nem tão novas)

Hoje presentes, (apesar de tudo)

Ontem caladas, (gritem!)

Sempre reais.

Eliana Leite

16/06/2020

Feminismo – Um Olhar

Estava ali, no meu canto, achando que sabia o que era a vida, enfiada no meu trabalho e na minha rotina, não muito consciente de que afundava em uma suposta zona de conforto, ou de que andava em areia movediça, em meados de 2016, quando, em meio a um processo de mentoring (em que eu era a mentoranda), a mentora recomendou a leitura do livro “The Confidence Code”, de Katty Kay e Claire Shipman. A partir desta leitura, muitas fichas começaram a cair. O cerne da obra é sobre a (falta de) autoconfiança nas mulheres. Obviamente, isso tudo toca em temas como machismo, patriarcado, história, submissão, empoderamento, etc. Foi um divisor de águas para mim, pois a partir dali, despertei para um novo olhar. O meu olhar de mulher sobre a mulher, sobre mim, sobre as mulheres que admiro, sobre o fato de que, no fundo, sempre soube que havia algo que eu precisava desvendar, decifrar, para me entender e entender o mundo ao meu redor. Foi assim que saí da superficialidade e deixei de me calar. Percebi que já tinha alguns conceitos dentro de mim, muito pela educação que recebi e porque fui introduzida à leitura de autoras femininas (e, hoje sei, feministas) muito cedo. O que me acordou foi o fato de que o que eu sabia era a ponta do iceberg. E fui adiante. E continuo seguindo. Não há um ponto de parada. Ao contrário, há sempre um novo ponto de partida. E hoje eu vim dividir um pouco disso sob o olhar meu, com base em minhas experiências e leituras.

Conceito

Feminismo é um movimento social que busca a igualdade de status social, jurídico, político e econômico entre os gêneros.

Patriarcado

Sexo + classe + raça = ligados entre si para determinar a questão do patriarcado como dominação do homem branco heterossexual,

Homens devem primeiramente discutir a masculinidade tóxica e os efeitos nocivos do Patriarcado para então olhar para a igualdade de direitos entre gêneros e poder apoiar o feminismo. Um legislador, um professor, um escritor podem apoiar através de ações inclusivas e questionadoras. O que não dá é para ter um “macho palestrinha” pautando a luta e o movimento feminista como algo seu.

Movimento Feminista no Brasil

Trës ondas, sendo a primeira no final do século XIX e início do século XX, a segunda entre 1960 e a terceira a partir de 1990.

A primeira se caracterizou por lutar pelo direito ao voto e direitos trabalhistas. A segunda por lutar por liberdade sexual, papel social da maternidade e igualdade de direitos. E, por fim, a terceira busca a liberdade total. Dentro deste movimento da terceira onda, há o feminismo interseccional, que agrega os diferentes direitos das mulheres (brancas, negras, indígenas…)

Os Direitos da Mulher no Brasil

Código Civil de 1916 – mulher era considerada incapaz.

1932 – 1934 – Direito ao voto

1962 – Estatuto da Mulher Casada

1977 – Lei do Divórcio

1988 – Constituição Federal estabelece a igualdade entre todos

2006 – Lei Maria da Penha

2015 – Lei que estabelece o Feminicídiocomo crime hediondo.

Provocação – adotar o sobrenome do marido é uma herança de nossa cultura patriarcal, um ato romântico ou uma liberdade? A partir de que perspectiva? Da mulher instruída ou da mulher submissa? Há pesquisas que indicam que quanto maior o grau de instrução da mulher, menos importância tem para ela adotar o sobrenome do marido (fica com seu nome). Para se pensar – e não julgar, afinal é uma realidade muito forte no Brasil ainda.

Violência contra a mulher e Feminícídio

Políticas públicas

Saúde Mental

Assistência e Proteção

O ciclo vicioso da relação de dominação

O silêncio que mata

A cultura machista faz com que a mulher se sinta responsável e culpada

O papel da família

A educação de crianças

Feminicídio é o termo usado para denominar assassinatos de mulheres cometidos em razão do gênero. Ou seja, quando a vítima é morta por ser mulher. No Brasil, a Lei do Feminicídio, de 2015, estabelece que, quando o homicídio é cometido contra uma mulher, a pena é maior. É um crime de ódio.

Comportamentos machistas

Mansplaining

Manterrupting

Gaslighting: Bárbara Zorrilla é psicóloga especializada em atendimento a mulheres vítimas de violência de gênero. “O abuso gaslighting é uma forma de violência muito perversa, porque é contínua e se consegue mediante o exercício de um assédio constante, mas sutil e indireto, repetitivo, que vai gerando dúvidas e confusão na mulher que o sofre, a ponto de chegar a se sentir culpada das condutas de violência do abusador e duvidar de tudo que acontece à sua volta.”

Falar que está de TPM! (reduz a mulher a hormônios)

Perguntar sobre maternidade como forma de julgamento e exclusão

Parem de dar chocolate no dia da Mulher… mudem a atitude, apoiem, estudem, entendam

Chamar de Feminazi

Fazer piadas machistas

Falar que é coisa de mulherzinha

Não dividir as tarefas domésticas

Exemplos de práticas machistas no mundo corporativo

Salários desiguais

Não ter mulheres na alta liderança

Encorajar piadas machistas

Colocar mulheres em situações constrangedoras

Não ter uma cultura de inclusão e diversidade

Sororidade

Não somos todas iguais e não conseguimos entender a realidade de todas e por este motivo temos que escutar e apoiar. Um dos grandes erros é afirmar que o movimento feminista é único e une todas as mulheres, indiscriminadamente. As lutas podem ter muito em comum, um ponto de intersecção sem dúvida, mas existem diferentes reinvindicações de mulheres negras em comparação a mulheres brancas, assim como mulheres indígenas, nordestinas, asiáticas, LGBT, e assim por diante. O mais importante, a meu ver, é sermos interseccionais e aprendermos umas com as outras, sempre dando espaço para o diálogo e dando lugar para todas. Um exemplo disso é uma mulher branca ceder seu espaço em sua página na mídia social, por exemplo, para que uma mulher negra ou indígena fale sobre sua realidade. Isso é um exemplo real de sororidade.

Mitos/Preconceitos

– Feministas odeiam homens

– Feminismo é o contrário de machismo

– Todas as feministas são iguais

– Feministas são radicais

– Feministas não podem se casar

– Feministas são raivosas

– A mulher tem que ser masculina para chegar ao poder

Livros:

“A Mãe de todas as perguntas”(The Mother of All Questions), Rebecca Solnit

“Os Homens Explicam tudo para mim” (Men Explain Things to Me), Rebecca Solnit

Quer começar?

Ruth Manus – “Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas”

Chimamanda Ngozi Adiche – “Sejamos Todos Feministas”

“Life Lessons from Remarkable Women” (Coletânea da Revista Stylis)

Poemas – Empoderamento

“Outros Jeitos de Usar a Boca” – Rupi Kaur

“A Princesa Salva a Si Mesma Neste Livro” – Amanda Lovelace

“A Bruxa Não Vai para a Fogueira Neste Livro”- Amanda Lovelace

“The Mermaid’s Voice Return in This One” – Amanda Lovelace

Algumas obras consideradas obrigatórias sobre o feminismo (ainda não as li)

“O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir – considerado como a Bíblia Feminista

“Mulheres e poder: um manifesto”, de Mary Beard

“As boas mulheres da China”, de Xinran

“Um teto todo seu (1929)”, de Virginia Woolf

“Sister outsider (1984)”, de Audre Lorde

“O feminismo é para todo mundo (2000)”, de bell hooks

“Persépolis (2004)”, de Marjane Satrapi

“Reivindicação dos direitos da mulher”, de Mary Wollstonecraft

Autoras Feministas (seja pelo que escreveram ou pelo modo de vida ou porque assim se posicionam)

Jane Austen

Simone de Beauvoir

Virginia Woolf

Mary Wollstonecraft

Margaret Atwood

Bell Hooks

Rebecca Solnit

Audre Lorde

Sueli Carneiro

Irmãs Brontë

Gioconda Belli

Angela Carter

Isabell Allende

Sylvia Plath

Clarice Lispector

Lygia Fagundes Telles

Laura Esquivel

Chimamanda Ngozi Adiche

Djamila Ribeiro

Maya Angelou

Angela Davis

Nélida Piñon

Isak Dinesen

Conceição Evaristo

Mary Beard

Xinran

Angélica Freitas

Marilena Chauí

Arundhati Roy

Marjane Satrapi

Ana Maria Gonçalves

Carolina Maria de Jesus

Svetlana Aleksiévitch

Toni Morrison

Cecilia Meirelles

Hilda Hist

Heleieth Saffioti

Joan Scott

NÍSIA FLORESTA (1810-1885) Considerada a primeira feminista brasileira, publicou em 1832 o manifesto “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”. Também educadora e presença constante em periódicos da imprensa até então jovem, Nísia Floresta rompeu os limites entre o público e o privado que eram impostos às mulheres. Ela viajou pelo mundo, criando contatos e diálogos com Augusto Comte, pai do positivismo, e Alexandre Dumas, importante escritor francês.

Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens. (…) Por que [os homens] se interessam em nos separar das ciências a que temos tanto direito como eles, senão pelo temor de que partilhemos com eles, ou mesmo os excedamos na administração dos cargos públicos, que quase sempre tão vergonhosamente desempenham?

NARCISA AMÁLIA (1852-1924) Além de poeta, Narcisa Amália foi a primeira jornalista profissional do Brasil. Feminista e abolicionista, lutava contra as opressões de gênero e de raça nos seus textos. Foi, de acordo com Sílvia Paixão, “um dos raros nomes femininos que falam de identidade nacional”, contribuindo imensamente para a formação da nossa literatura “numa poética uterina que imprime o retorno ao lugar de origem”.

PAGU (PATRÍCIA GALVÃO) (1910-1962) Sempre relacionada a Oswald de Andrade e condenada ao título de musa, Pagu foi muito mais do que companheira do escritor. Poeta, escritora, tradutora, desenhista, diretora de teatro, jornalista e militante, Patrícia Galvão lutou pela participação política da mulher na sociedade brasileira e foi figura essencial no movimento modernista. Publicou seu primeiro romance, Parque Industrial, em 1933. Primeira mulher a se tornar presa política no país, foi torturada durante muitos períodos em sua vida.

De Trilhos e Sombras

Photo by Tim Foster on Unsplash

Há alguns dias, sempre que saía de casa, Márcia tinha a sensação de que alguém a seguia. Ia a pé para a estação de metrô, todos os dias da semana. Andava por uns 15 minutos. A sensação só parava quando entrava no trem. Durante o percurso a pé, olhava para trás, e nada. Às vezes, acelerava o passo, outras parava bruscamente. Houve ocasiões em que desviou ou tentou se esconder, mas a sensação não mudou. Não ouvia passos ou qualquer ruído similar, mas sentia essa presença constante. Chegava a arrepiar os pelos da nuca. Quando comentou com a amiga do trabalho, esta logo disse que era encosto e recomendou que fosse se benzer. Marcia chegou a cogitar, mas deixou para lá. Encosto? Onde já se viu? A coisa já se arrastava por meses. Incomodava. Travava sua concentração. Um belo dia, resolveu ir de Uber para o metrô. A sensação parou naquele mesmo dia. A contragosto, repetiu a dose no dia seguinte e assim até o final daquela semana. Problema solucionado! Na segunda-feira, chamou o Uber novamente. Porém, a sensação de que algo ou alguém a observava voltou. Olhou ao redor, nada. Não era possível! Isso só podia ser coisa da sua cabeça! Foi então que resolveu voltar à rotina e ir a pé até a estação. Já familiarizada com a sensação, parou de se incomodar. Pensou que, se algo tivesse que acontecer, aconteceria, independentemente do que ela fizesse. A situação era tão surreal que passou a aceitá-la, resignada. Duas semanas se passaram, até que um belo dia, a sensação não cessou quando entrou no trem. Sentou-se, preocupada. Alguém a observada dentro do trem? Olhou ao redor, tentando identificar algum tipo suspeito. Decidiu marcar bem a fisionomia das pessoas ao seu redor para, no dia seguinte, começar uma investigação mais profunda. Já andava naquele metrô há uns bons anos, e alguns rostos eram familiares. Passaria a observar melhor. Isso a irritou um pouco, pois teria que deixar de ler. Para não perder tempo, traria um caderno e anotaria tudo. Dividiria o grupo entre pessoas “fixas” e “volantes”. Daria apelidos, como, por exemplo: “moça dos olhos verdes e cabelo vermelho que masca chiclete com a boca aberta e fica olhando o celular – fixa”. “Homem alto que não se senta e sempre carrega um guarda-chuva preto com cabo de madeira – fixo”. “Senhora levemente corcunda que usa tênis confortáveis – volante”. E assim por diante. No dia seguinte, iniciou suas anotações. Percebeu que, até então, olhava pouco para as pessoas., sempre tão absorta em sua leitura. Percebeu, também, que a sensação de ser observada aumentava enquanto escrevia. Quando ficava insuportável, ela parava para olhar. Algumas pessoas olhavam de volta, assustadas e se afastavam. “Que bom, agora, vão me chamar de louca!” Após uma semana de anotações, ao chegar em casa, decidiu ler o que havia escrito. Não conseguiu chegar a nenhuma conclusão útil, a não ser que as pessoas eram bichos condicionados e estranhos. Não identificou nada ou ninguém suspeito. Grande parte dos passageiros estava na categoria “fixa” e quem era “volante” tinha comportamentos que sequer mereciam atenção. “Definitivamente, estou ficando louca…” Naquela noite, não dormiu. Pela primeira vez, teve medo. Não sabia o que estava acontecendo e já não conseguia pensar em nenhuma outra solução. Pela manhã, quando tocou o despertador, não teve forças para levantar e se arrumar para trabalhar. Mandou uma mensagem para seu chefe informando que não poderia ir. Não se lembrava da última vez que faltara ao trabalho. Estava se sentindo um caco. Chegou a pensar em ligar para a irmã para ver se a mãe estava bem, mas desistiu. Para que ligar? A mãe dela estava doente há um tempão, sem sinais de regressão do câncer. Mas toda vez que Márcia ligava, tinha a impressão de estar incomodando, e nunca conseguia falar com a mãe. Muita água tinha rolado, muitos ressentimentos acumulados. Não queria causar mais dor ainda, só de ter que fazer com que a mãe fosse praticamente obrigada a ouvir sua voz e fingir que estava tudo bem. Ela podia se organizar e ir para perto de sua mãe, visitar, ficar alguns dias. De novo, se perguntou, “para quê?”. A última vez que tinha ido para lá, parece que fez com que tudo piorasse. Joana quase pediu para que a irmã não voltasse mais. Claro que não pediu, mas aquele olhar dizia tudo, quando se despediram na rodoviária… Durante o trajeto de 12 horas no ônibus-leito, Márcia só conseguia prometer a si mesma que não voltaria mais. Com esses pensamentos, perto de 10h00, sentiu o cansaço e o sono dominarem. Dormiu um sono sem sonho e despertou, horas depois, sem saber ao certo onde estava, que dia era… Estava escuro. Novamente, teve medo. Tateou a parede em busca do interruptor. Ao acender a luz, avistou uma sombra à sua frente. Gritou. A sombra permaneceu imóvel. Sentou-se na cama e se cobriu até o pescoço, tremendo de frio e de terror. Não conseguia pensar, falar, se mover. Notou que a sombra lembrava o formato de uma grande ave. Franziu os olhos para tentar decifrar o que via e conseguiu, enfim, se mexer. De forma quase involuntária, foi se aproximando da sombra. Ao chegar bem perto, a sombra abriu as asas. Márcia deu um pulo para trás: “É você que está me seguindo todo esse tempo? O que você quer de mim? O que é você?” Sem saber de mais nada, o que era realidade ou fantasia, começou a esmurrar a parede, chorando e implorando para que tudo aquilo acabasse. Então, a sombra desapareceu. Márcia olhou ao redor, ofegante. Correu para a sala, em busca de algum sinal da sombra. Foi para a cozinha. Nada. Então como num impulso, se dirigiu para a área de serviço. Notou que janela estava aberta. Acendeu a luz e, ao olhar para o chão, não conseguia acreditar no que via: penas e mais penas no chão. Grandes penas cinzas e brancas. Apreensiva, pegou uma na mão. Macia, porém firme. Sem pensar, roçou a pena em seu rosto, sentindo a textura. Fechou os olhos e se recordou de sua infância, quando corria com a mãe e a irmã pelo campo do rancho em que cresceu. Quando corriam em busca dos pássaros. E ficavam em êxtase quando o bando voava sobre suas cabeças. Acordou de seu devaneio com o toque do telefone. Empertigou-se e foi atender: “Alô?” “Márcia? Sou eu, Joana… é sobre a mamãe…”

Eliana Leite

(Iniciado em 13/02 e concluído em 12/03/2019)

Resenha – Livro “Ariel”, de Sylvia Plath

Comprei este livro (talvez tardiamente) em 2019, na Livraria da Travessa, em São Paulo, no bairro de Pinheiros. Senti-me atraída pela capa, além de fazer um tempo que queria ler algo de Sylvia. Por que existem autores que ensaiamos ler e não o fazemos? Será que é porque não estamos prontos para eles e, então, o tempo vem e nos informa “agora, é a hora”? Acho que foi assim que me senti ao ver este livro, sua capa, e então o abri, vi que era uma edição restaurada e bilingue, com os manuscritos originais. Livro comprado, ficou um tempo na estante, esperando. E assim foi que, em meio à quarentena do novo Corona vírus, decidi que o enfrentaria. Fiz algo que há muitos anos não fazia – peguei uma lapiseira e comecei a grifar o livro, fazer anotações nas margens, nas partes em branco… Usei a parte em português apenas para tirar dúvidas pontuais que pudessem prejudicar meu entendimento. Ler os poemas em inglês foi algo saboroso. Pois bem, vamos à resenha.

Tudo começa com a Apresentação – O Caso Ariel. Nada como ter o histórico do livro, quando ela escreveu, porque, o que isso significou. E acho que é preciso separar o trágico final de Sylvia de sua obra, ainda que ela mencione a morte em alguns poemas. Por isso, esta apresentação vem bem a calhar, e mostra que Ted Hughes, e não o julgo por isso, tentou omitir os poemas mais explícitos, digamos assim. Porém, depois de alguns anos, foi publicada esta edição que eu li, que respeitou os desejos de Sylvia, com a publicação de todos os poemas que formavam a coleção Ariel.

Vamos, então, ao prefácio, escrito pela filha de Sylvia, a também poeta Frieda Hughes. E, como toda filha, ela busca entender os pais. Critica a forma cruel como o pai foi tratado após a morte de Sylvia e publicação, por ele mesmo, de Ariel, como se estivesse vilipendiando o túmulo da esposa. Além de ter cometido adultério, teria interferido de forma indevida nos direitos autorais da autora. Ela diz que tais coisas “não guardam nenhuma semelhança com o homem que calma e carinhosamente” a criou, e com a ajuda de sua madrasta. E, completa que “o tempo todo ele manteve viva a memória da mãe que me deixara, e eu sentia como se ela estivesse tomando conta de mim, uma presença constante em minha vida.” Ela segue, relatando como era viver em torno de uma imagem “milagrosa” de tudo o que se referia à mãe. E então, finalmente, nos diz que “isso foi muitos anos antes de eu descobrir que minha mãe tinha um temperamento feroz e um caráter ciumento, em contraste com a natureza mais equilibrada e otimista de meu pai.” Cita, ainda, que houve ocasiões em que Sylvia destruiu o trabalho do marido, uma vez rasgando-o e outra queimando-o. Chega, então, à conclusão de que a mãe, “assim como era uma poeta excepcional, era também um ser humano”. Ela vê tudo isso como um restabelecimento da verdade, e uma forma de melhor compreender a mãe. Ela precisava entender tudo isso para poder entender a si mesma (entendemos a nós mesmos por meio de nossos pais, avós, antepassados, ancestrais). Frieda encerra o prefácio: com chave de ouro “Quando ela morreu, deixando Ariel como último livro, foi flagrada no ato de vingança, com uma voz que havia sido afiada e praticada durante anos, posteriormente com a ajuda de meu pai. Embora tenha se tornado uma vítima disso, no final das contas ele não negou sua maestria. Essa nova edição, restaurada, é minha mãe naquele momento. É a base do Ariel editado por meu pai. Cada versão tem significado próprio, embora as duas histórias sejam uma só.”

Devo admitir que a leitura dos poemas de Sylvia Plath não é fácil, pois ela tem um estilo bem hermético e intimista de escrita. Faz referências a coisas que viveu em seu dia a dia, mistura com momentos históricos, memórias e traumas. Na verdade, em minha opinião, os grandes poetas são aqueles que fazem com que você leia o poema e fique flutuando, tentando depois buscar um chão para pousar. Não necessariamente há o objetivo de “entender”, “decifrar”, “interpretar”. A própria Sylvia, quando lhe pediram para “explicar” os poemas em um programa de rádio, foi breve e seca. Não cabem explicações. Não cabe dissecar cada poema, em busca do momento em que ela se referia a tirar sua própria vida, ou se referia à traição do marido. Há muito mais do que isso. Há nuances, há explosões, há véus, há amor, há ódio e contemplação. Nem consigo resumir tudo isso em algumas palavras. Por isso, resolvi colocar aqui algumas impressões minhas, particulares, não “validadas”, “breve e secas”, sobre alguns poemas (vários eu li mais de uma vez).

“Morning Song” – um poema de uma mãe para um filho/filha. Há tantas menções a uma sensação de pertencimento e ao mesmo tempo desprendimento. Não tenho filhos, não sei como é, mas pude sentir o amor no poema. “The clear vowels rise like balloons”.

“Thalidomide” – senti amor desfeito, desilusão, decepção. “A space for thing I am given. A love of two wet eyes and a screetch. White spit of indifference?”

“The Applicant”- retrataria duas pessoas jovens se conhecendo, se relacionando, a ideia de casamento, da prisão à vida social, convenções, uma “boneca viva” (“will you marry it?”)

“Barren Woman” – pessoalmente, apesar de ser o mais curto, é o que mais se parece com um soco no estômago. Silêncio e vazio. Conversou comigo dentro de minha alma.

“Lady Lazarus” – consigo imaginar porque esse poema, como mencionou Frieda, foi praticamente dissecado até as entranhas. Carregado de uma série de figurações “diabólicas”, flerta com a morte e a ressurreição de uma mulher demoníaca, poderosa. Para mim, é um grito de liberdade, de feminilidade, de empoderamento sobre si mesma: “Herr God, Herr Lucifer / Beware / Beware. Out of the ash / I rise with my red hair / And I eat men like air.”

“Tulips” – me pareceu uma narrativa de uma experiencia no hospital. Posteriormente, verifiquei que ela escreveu quando teve apendicite.

“Elm” – a impressão que ficou para mim foi de que algo a assombrava (o tal Olmo). Por fim, fiquei com a seguinte pergunta ao final: o que a assombrava? Ela mesma?

“The night dances” – minhas impressões: luzes do cometa, dos planetas, luz sobre ela (pequena)… afinal, qual nosso tamanho?

“The Detective” – inegável que houve a descoberta de traição. E a traição que leva à morte da família, uma morte invisível.

“Ariel” – um lindo poema. Detalhes, pequenas coisas, choro de criança, orvalho, pescoço de cavalo. Eu não saberia quer era dedicado ao cavalo dela, se não tivesse lido isso na introdução e no prefácio.

“Death & Co.” – fiquei com as seguintes perguntas: quem é ele? O condor? É o marido? É um amor? É a morte à espreita? Alguém que fica ferido de morte? E assim fiquei… não busco respostas.

“Lesbos” – uma deliciosa viagem… Lesbos era a ilha em que a poetisa Safo nasceu… e fiquemos com isso…

“The Other” – adultério, adultério, adultério…

“Medusa” – fiquei intrigada… e então descobri que era sobre ninguém mais do que a mãe de Sylvia. O que me deixou olhando para a parede, sem saber o que pensar foi o final: ‘’there is nothing between us.”

“Purdah”- retrato de opressão, também mostra a esperança, para mim, quando ela diz “I shall unloose / From the small jeweled / Doll he guards like a heart / The lioness / The shriek in the bath, / The cloak of holes.”

“A Birthday Present” – só consegui escrever “WOW” ao final. Vivi para poder ler algo assim.

“Daddy” -ela fala do nazismo, de ser judia, das injustiças… busca se libertar, chamando-o (ironicamente?) de “Daddy”, dizendo, ao final “Daddy, daddy, you bastard, I’m through”.

“The Bee Meeting” e os demais poemas, todos sobre as abelhas são uma verdadeira declaração de amor a esses seres, já que ela criou abelhas. Lindos poemas, para ler de forma contínua, até chegar em “Wintering”.

Ao final, há as notas que ajudam a contextualizar alguns dos poemas. Fiz algumas checagens sobre o que eu tinha apreendido, mas sem muito compromisso, pura curiosidade. Meu único compromisso era com Sylvia: ler Ariel do começo ao fim.

Thank you, Sylvia.

E obrigada, Elis Regina, por ter sido a trilha sonora enquanto eu escrevia esta resenha.

Eliana Leite

08/06/2020

Isolamento

Existe o silêncio lá fora

E o silêncio aqui dentro

Um é quieto

O outro, eloquente

Grito, calada

Sussurro ruidosamente

Meus barulhos internos

Bloqueados pela quietude do mundo

Mundo em quarentena

Pessoas silenciosamente revoltadas

Olho para o vazio

Repleto de abandonos

Caixas empoeiradas esperando no armário

O pó se move por toda a casa

E deposita sua vastidão

Nas relações do não dito

Sonhos mal interpretados

Perdidos no isolamento

Mazelas e feridas abertas

Sangue que escorre por entre os vãos

Todos em casa

Ninguém ouve quando ela chora

Lamento mesclado ao horror

Desobediência não é mais anarquia

Virtuosos gritam regras por escrito

Regras por 24 horas

Todo o dia, algo novo

Toda noite, uma amnésia

A criança trancada

Só quer sair para brincar.

Eliana Leite

(22/05/2020)

Joana

De olho no relógio para não perder a hora da reunião, Joana estava tensa. A apresentação estava pronta, ela estava preparada, mas sempre ficava nervosa quando tinha que falar em público. Tinha ensaiado diversas vezes, mas mesmo assim, estava insegura. E se fizessem mil perguntas e ela não soubesse a resposta? “Diga simplesmente que vai verificar e depois retorna por e-mail”, seu marido dizia. Ela sabia que para ele era mais fácil, pois era extrovertido e estava acostumado a esse tipo de exposição. Ele sempre se saía bem, mesmo que fosse pela tangente. Quantas vezes ela não se perguntou porque não conseguia ser assim, desprendida e descontraída, como se aquilo fosse algo normal, sem tanto stress e cobrança? Faltavam quinze minutos para a reunião e Joana foi para a sala. Sempre chegava pelo menos com cinco minutos de antecedência, ainda que soubesse que nunca começavam nada no horário. Ao chegar, como previsto, não havia ninguém na sala. Escolheu um lugar perto da mesa de café e tomou mais alguns minutos para ler suas anotações. Aos poucos, as pessoas foram chegando e a reunião começou com 10 minutos de atraso. Joana contou: 2 mulheres e 8 homens. Uma das mulheres era sua par. Um dos homens, seu chefe e outro, chefe do seu chefe. O tema da reunião era apresentação dos resultados do mês. Cada gerente tinha que apresentar sua parte. Era meio ridículo que Joana se sentisse nervosa, após anos fazendo esta reunião, todo mês. Porém, não conseguia controlar. Sentia que, no momento em que abria a boca, o ar ficava pesado e todos olhavam para ela, prontos para fazerem alguma pergunta para a qual ela não estaria preparada. Nem sempre isso acontecia. Havia ocasiões em que ela saía ilesa. Achava curioso que sua par não parecia sofrer do mesmo mal. Nunca faziam perguntas fora do contexto para ela. Quando ela comentava sobre o assunto, recebia um aceno de mão e um comentário do tipo “imagina, querida, você foi ótima”. Não ajudava muito. Naquele dia, Joana seria a última, o que podia ser bom ou ruim, dependendo do andar da reunião. Se os gerentes apresentassem direitinho, o chefe e o chefe do chefe aceleravam a reunião e não faziam perguntas. Mas, se a coisa degringolava, o último a apresentar era o que mais sofria. Joana torceu para que seus colegas fizessem um bom trabalho. A primeira apresentação correu bem, sem grandes percalços. A partir da segunda, o clima começou a pesar, pois as notícias não eram muito boas. Projetos não concluídos, prazos não cumpridos, gastos que excediam o orçamento previsto para o mês sem justificativa prévia, viagens não autorizadas, e assim por diante. Joana sentia o suor escorrendo em suas costas. O frio na barriga aumentava. Olhou para suas anotações. Não tinha notícias maravilhosas, mas também não havia nada de terrível a ser apresentado. Tentou se manter confiante. Ao chegar sua vez, iniciou com alguns dados introdutórios, ao que seu chefe a interrompeu e pediu para que fosse direto ao assunto, pois tinham pouco tempo. Foi então direto ao assunto e apresentou seus resultados, procurando dar enfoque ao que era positivo. Não conseguiu terminar, pois o chefe do chefe interrompeu e comentou a respeito do formato da apresentação, que estava fora do template corporativo. Joana estranhou o comentário, pois os dois colegas anteriores tinham apresentado no mesmo formato que o dela. Outro comentário foi sobre o inglês, que acharam que estava muito formal e as informações não estavam claras. Ela tinha que ser mais objetiva, ele dizia. Joana tentou prosseguir e, ao chegar perto do final, viu que todos estavam olhando para seus celulares, ou tendo conversas paralelas. Resolveu encerrar ali mesmo. Nisso, seu chefe olhou para a tela e disse “só isso? Ok, obrigada”. Joana se sentou, sentindo-se um lixo, procurando ignorar o bolo que se formava em seu estômago. Ao final das reuniões, a sessão de tortura começava: tanto o chefe de Joana, quanto o chefe do chefe, faziam comentários sobre cada uma das apresentações e, com exceção de algum ou outro, todos eram duramente criticados. No começo, Joana anotava as críticas e procurava incorporar as mudanças para as próximas apresentações. Porém, nunca estava à altura. Era bem desgastante. Naquele dia, por algum milagre, a par de Joana foi a primeira a ser criticada. Disseram que a apresentação dela precisava ser alterada para conter mais explicações, pois o documento iria para o exterior e tinha que ter mais informações. Em seguida, meteram o pau na apresentação dos dois Gerentes Juniors, que sempre levavam a pior. Joana sempre se perguntava como eles aguentavam ainda. Ao final, reservaram a crítica final para ela. Disseram que sua apresentação estava amadora e que parecia que ela tinha passado para o estagiário fazer. Joana ia responder, ao que seu chefe levantou a mão para impedi-la, dizendo “não terminei ainda”. Então, ele começou a falar que entendia que o momento dela não era propício, pois ela tinha acabado de voltar da licença-maternidade e devia estar difícil manter a cabeça no lugar com um bebê em casa. Joana ia responder novamente, mas foi imediatamente interrompida. Ele continuou o discurso, falando que a empresa dava plenas condições para as “mamães” (sim, foi assim que ele colocou), mas que ela tinha que colaborar. Não podia apresentar um trabalho feito em cima da hora e ainda esperar que eles entendessem. Joana se preparou para responder, mas o chefe do chefe logo arrematou: “Talvez você precise pedir a um de seus colegas que a ajude. Que tal o Claudio, ou mesmo a Karen? Ela não tem filhos, sempre fica até mais tarde. Talvez possa te dar uma mão, né Karen?” Karen apenas levantou o olhar e deu um sorriso sem graça. Claudio prontamente se colocou à disposição, mas Joana o interrompeu e disse que agradecia mas que não era necessário. Questionou em que parte sua apresentação estava amadora ou incompleta e comentou sobre os resultados, todos dentro da meta. Seu chefe apenas gesticulou, como se aquilo fosse desnecessário e respondeu algo como “não precisa se explicar”. No final, decidiram que Claudio a ajudaria a formatar a apresentação, já que a dele estava sempre impecável. Joana teve ódio imediato de Claudio, de quem já não gostava muito. Achou desnecessário comentar ali que Claudio nunca fazia suas apresentações. Era sempre a analista sênior que se matava e ele apenas ia colher os louros na reunião. Diria isso a ele depois. Sabendo que não tinha mais o que dizer, se calou. A reunião acabou. Ao sair da sala, foi direto ao banheiro, para tentar se acalmar. Não demorou muito para ver Karen entrando esbaforida. Quando Karen viu Joana, hesitou, mas logo começou a desabafar: “nossa, nunca fui tão maltratada!” Joana olhou para ela e disse “eu sempre sou. Bem vinda à realidade”. Karen saiu do banheiro pisando duro. Joana teve vontade de estapeá-la. As duas tinham que ser mais unidas, não era assim que funcionava a tal sororidade? Saiu do banheiro e resolveu ir até a sala de Karen. Entrou, fechou a porta, sentou-se e perguntou: “o que você achou do que eles falaram para mim, sobre a questão dos filhos e etc?” Karen se empertigou, pois não esperava este confronto. Joana continou: “sei que não somos amigas, mas podemos ao menos ser aliadas e compreensivas uma com  a outra. Você é mulher. Eu sou mulher. Não estamos no time deles.” Karen olhou para baixo, sem dizer nada. Joana não conseguiu se conter e quase gritou: “pelo amor de Deus, diga alguma coisa!” Karen se assustou e começou a chorar. Joana esperou. Então, soluçando, Karen pediu desculpas. Disse que só naquele momento a ficha tinha caído e percebeu a megera que estava sendo. Achava-se privilegiada por nunca ter sido criticada, não queria ser vista com Joana, que era sempre motivo de comentários negativos nas reuniões, de uma forma ou de outra. De uma forma egoísta, Karen achava que Joana não pertencia ao clube dos bons. Disse assim mesmo “clube dos bons”. Joana riu, com desdém. Karen admitiu que aquilo era ridículo. “Ouvindo o comentário dele sobre seu retorno da licença, me senti atacada. Sei que tenho agido mal, mas gostaria de mudar isso.”. Joana sorriu, pôs a mão sobre a de Karen e respondeu: “Sempre podemos mudar o que não está bom. Juntas, será um pouco mais fácil”. Saiu da sala e, cheia de coragem, foi acabar com a raça de Claudio.

Circo

No picadeiro, a música toca

Os palhaços brincam

A plateia boceja

Lá no alto, a artista anda na corda bamba

E sabe que, se cair, nada acontecerá

O show se repete a cada noite

Os acrobatas zombam do mágico

A plateia boceja

A bailarina fugiu com o homem-bala

O globo a morte está vazio

A contorcionista se cansou

O cuspidor de fogo só faz fumaça

A plateia boceja

Plateia esta que sempre vem

Tira fotos e não as vê

E se vai, morta de tédio

Todos os dias serão assim?

Como mudar o amanhã

Sem que tudo se acabe de vez?

Eliana Leite

(12/05/2020)