Joana

De olho no relógio para não perder a hora da reunião, Joana estava tensa. A apresentação estava pronta, ela estava preparada, mas sempre ficava nervosa quando tinha que falar em público. Tinha ensaiado diversas vezes, mas mesmo assim, estava insegura. E se fizessem mil perguntas e ela não soubesse a resposta? “Diga simplesmente que vai verificar e depois retorna por e-mail”, seu marido dizia. Ela sabia que para ele era mais fácil, pois era extrovertido e estava acostumado a esse tipo de exposição. Ele sempre se saía bem, mesmo que fosse pela tangente. Quantas vezes ela não se perguntou porque não conseguia ser assim, desprendida e descontraída, como se aquilo fosse algo normal, sem tanto stress e cobrança? Faltavam quinze minutos para a reunião e Joana foi para a sala. Sempre chegava pelo menos com cinco minutos de antecedência, ainda que soubesse que nunca começavam nada no horário. Ao chegar, como previsto, não havia ninguém na sala. Escolheu um lugar perto da mesa de café e tomou mais alguns minutos para ler suas anotações. Aos poucos, as pessoas foram chegando e a reunião começou com 10 minutos de atraso. Joana contou: 2 mulheres e 8 homens. Uma das mulheres era sua par. Um dos homens, seu chefe e outro, chefe do seu chefe. O tema da reunião era apresentação dos resultados do mês. Cada gerente tinha que apresentar sua parte. Era meio ridículo que Joana se sentisse nervosa, após anos fazendo esta reunião, todo mês. Porém, não conseguia controlar. Sentia que, no momento em que abria a boca, o ar ficava pesado e todos olhavam para ela, prontos para fazerem alguma pergunta para a qual ela não estaria preparada. Nem sempre isso acontecia. Havia ocasiões em que ela saía ilesa. Achava curioso que sua par não parecia sofrer do mesmo mal. Nunca faziam perguntas fora do contexto para ela. Quando ela comentava sobre o assunto, recebia um aceno de mão e um comentário do tipo “imagina, querida, você foi ótima”. Não ajudava muito. Naquele dia, Joana seria a última, o que podia ser bom ou ruim, dependendo do andar da reunião. Se os gerentes apresentassem direitinho, o chefe e o chefe do chefe aceleravam a reunião e não faziam perguntas. Mas, se a coisa degringolava, o último a apresentar era o que mais sofria. Joana torceu para que seus colegas fizessem um bom trabalho. A primeira apresentação correu bem, sem grandes percalços. A partir da segunda, o clima começou a pesar, pois as notícias não eram muito boas. Projetos não concluídos, prazos não cumpridos, gastos que excediam o orçamento previsto para o mês sem justificativa prévia, viagens não autorizadas, e assim por diante. Joana sentia o suor escorrendo em suas costas. O frio na barriga aumentava. Olhou para suas anotações. Não tinha notícias maravilhosas, mas também não havia nada de terrível a ser apresentado. Tentou se manter confiante. Ao chegar sua vez, iniciou com alguns dados introdutórios, ao que seu chefe a interrompeu e pediu para que fosse direto ao assunto, pois tinham pouco tempo. Foi então direto ao assunto e apresentou seus resultados, procurando dar enfoque ao que era positivo. Não conseguiu terminar, pois o chefe do chefe interrompeu e comentou a respeito do formato da apresentação, que estava fora do template corporativo. Joana estranhou o comentário, pois os dois colegas anteriores tinham apresentado no mesmo formato que o dela. Outro comentário foi sobre o inglês, que acharam que estava muito formal e as informações não estavam claras. Ela tinha que ser mais objetiva, ele dizia. Joana tentou prosseguir e, ao chegar perto do final, viu que todos estavam olhando para seus celulares, ou tendo conversas paralelas. Resolveu encerrar ali mesmo. Nisso, seu chefe olhou para a tela e disse “só isso? Ok, obrigada”. Joana se sentou, sentindo-se um lixo, procurando ignorar o bolo que se formava em seu estômago. Ao final das reuniões, a sessão de tortura começava: tanto o chefe de Joana, quanto o chefe do chefe, faziam comentários sobre cada uma das apresentações e, com exceção de algum ou outro, todos eram duramente criticados. No começo, Joana anotava as críticas e procurava incorporar as mudanças para as próximas apresentações. Porém, nunca estava à altura. Era bem desgastante. Naquele dia, por algum milagre, a par de Joana foi a primeira a ser criticada. Disseram que a apresentação dela precisava ser alterada para conter mais explicações, pois o documento iria para o exterior e tinha que ter mais informações. Em seguida, meteram o pau na apresentação dos dois Gerentes Juniors, que sempre levavam a pior. Joana sempre se perguntava como eles aguentavam ainda. Ao final, reservaram a crítica final para ela. Disseram que sua apresentação estava amadora e que parecia que ela tinha passado para o estagiário fazer. Joana ia responder, ao que seu chefe levantou a mão para impedi-la, dizendo “não terminei ainda”. Então, ele começou a falar que entendia que o momento dela não era propício, pois ela tinha acabado de voltar da licença-maternidade e devia estar difícil manter a cabeça no lugar com um bebê em casa. Joana ia responder novamente, mas foi imediatamente interrompida. Ele continuou o discurso, falando que a empresa dava plenas condições para as “mamães” (sim, foi assim que ele colocou), mas que ela tinha que colaborar. Não podia apresentar um trabalho feito em cima da hora e ainda esperar que eles entendessem. Joana se preparou para responder, mas o chefe do chefe logo arrematou: “Talvez você precise pedir a um de seus colegas que a ajude. Que tal o Claudio, ou mesmo a Karen? Ela não tem filhos, sempre fica até mais tarde. Talvez possa te dar uma mão, né Karen?” Karen apenas levantou o olhar e deu um sorriso sem graça. Claudio prontamente se colocou à disposição, mas Joana o interrompeu e disse que agradecia mas que não era necessário. Questionou em que parte sua apresentação estava amadora ou incompleta e comentou sobre os resultados, todos dentro da meta. Seu chefe apenas gesticulou, como se aquilo fosse desnecessário e respondeu algo como “não precisa se explicar”. No final, decidiram que Claudio a ajudaria a formatar a apresentação, já que a dele estava sempre impecável. Joana teve ódio imediato de Claudio, de quem já não gostava muito. Achou desnecessário comentar ali que Claudio nunca fazia suas apresentações. Era sempre a analista sênior que se matava e ele apenas ia colher os louros na reunião. Diria isso a ele depois. Sabendo que não tinha mais o que dizer, se calou. A reunião acabou. Ao sair da sala, foi direto ao banheiro, para tentar se acalmar. Não demorou muito para ver Karen entrando esbaforida. Quando Karen viu Joana, hesitou, mas logo começou a desabafar: “nossa, nunca fui tão maltratada!” Joana olhou para ela e disse “eu sempre sou. Bem vinda à realidade”. Karen saiu do banheiro pisando duro. Joana teve vontade de estapeá-la. As duas tinham que ser mais unidas, não era assim que funcionava a tal sororidade? Saiu do banheiro e resolveu ir até a sala de Karen. Entrou, fechou a porta, sentou-se e perguntou: “o que você achou do que eles falaram para mim, sobre a questão dos filhos e etc?” Karen se empertigou, pois não esperava este confronto. Joana continou: “sei que não somos amigas, mas podemos ao menos ser aliadas e compreensivas uma com  a outra. Você é mulher. Eu sou mulher. Não estamos no time deles.” Karen olhou para baixo, sem dizer nada. Joana não conseguiu se conter e quase gritou: “pelo amor de Deus, diga alguma coisa!” Karen se assustou e começou a chorar. Joana esperou. Então, soluçando, Karen pediu desculpas. Disse que só naquele momento a ficha tinha caído e percebeu a megera que estava sendo. Achava-se privilegiada por nunca ter sido criticada, não queria ser vista com Joana, que era sempre motivo de comentários negativos nas reuniões, de uma forma ou de outra. De uma forma egoísta, Karen achava que Joana não pertencia ao clube dos bons. Disse assim mesmo “clube dos bons”. Joana riu, com desdém. Karen admitiu que aquilo era ridículo. “Ouvindo o comentário dele sobre seu retorno da licença, me senti atacada. Sei que tenho agido mal, mas gostaria de mudar isso.”. Joana sorriu, pôs a mão sobre a de Karen e respondeu: “Sempre podemos mudar o que não está bom. Juntas, será um pouco mais fácil”. Saiu da sala e, cheia de coragem, foi acabar com a raça de Claudio.

Circo

No picadeiro, a música toca

Os palhaços brincam

A plateia boceja

Lá no alto, a artista anda na corda bamba

E sabe que, se cair, nada acontecerá

O show se repete a cada noite

Os acrobatas zombam do mágico

A plateia boceja

A bailarina fugiu com o homem-bala

O globo a morte está vazio

A contorcionista se cansou

O cuspidor de fogo só faz fumaça

A plateia boceja

Plateia esta que sempre vem

Tira fotos e não as vê

E se vai, morta de tédio

Todos os dias serão assim?

Como mudar o amanhã

Sem que tudo se acabe de vez?

Eliana Leite

(12/05/2020)

Enquanto isso, na quarentena…

Dia 08 de maio de 2020. O dia em que resolvi abrir novamente meu caderno de anotações e olhar para meu propósito. Por que fujo do meu propósito? Estou colocando a culpa na pandemia. Conveniente, não?

Apenas para lembrar a mim mesma, meu propósito é ESCREVER:

“O que o pintor busca nas tintas

O que o ator busca no palco

O que o pescador busca no mar

Eu busco na escrita.”

Completo um ano desde que “pedi as contas” no meu último emprego. Um ano! Há um ano, eu não tinha ideia do que me esperava. Deu medo, frio na barriga, bateu a dúvida, mas fui. Percebo, hoje, que não havia outro caminho. Não para mim, ou para minha sanidade. Eu era escrava da minha própria condição. Via-me como vítima. Esse papel é ingrato. Não é fácil tomar uma decisão de ruptura. Ainda que se trace um plano, absolutamente nada garante que ele vai dar certo.

Os primeiros meses foram de adaptação a uma nova realidade. Eu poderia ter desistido do meu propósito, adiado novamente e sucumbido. Mas não o fiz. Publiquei 3 livros pela Amazon (de forma independente), sendo um deles parte de um projeto de muitos anos, em que compilei tudo o que havia escrito desde os idos de 1990. Com relação ao trabalho de consultoria, o caminho é mais vagaroso, requer paciência e disciplina. Resolvi fazer um investimento em março deste ano e me associei a uma empresa. Estou apostando nisso como meu projeto de empreendedorismo, que, sei, se concretizará a médio/longo prazo.

Procuro não “pirar” por conta de dinheiro (ou da não entrada dele). Às vezes, dou uma leve surtada. Em 30 dias, terei que fazer mudanças radicais no meu orçamento. Isso já estava no plano (apesar de ter tido um pensamento, lá atrás, de que em um ano já teria alguma grana entrando). Enfim, apertar para depois soltar.

Tenho mil ideias na cabeça, mas confesso que não tem sido tarefa fácil colocar em prática. Eu saí da “rede de segurança” que eu tinha quando andava na corda bamba do mundo corporativo e agora não tem mais volta. Simplesmente não volto mais ao picadeiro. Não mais no mesmo papel.

Filmes com Drew Barrymore

Sempre fui fã da Drew Barrymore. Acredito que tenha assistido a quase todos os filmes que ela fez depois de voltar de vez ao cinema (ela havia, digamos, dado um tempo). Vou listar aqui alguns filmes com ela de que gosto muito:

Resultado de imagem para E.T.: O Extraterrestre

Preciso dizer algo sobre E.T? Drew era uma menina, fofa, linda e que gritava bastante…rsrs…

Resultado de imagem para Nunca Fui Beijada

Acredito que este tenha sido o filme do “recomeço”, quando Drew estava de volta, firme e forte. É uma comédia romântica irresistível, bem anos 90. Faz tempo que não revejo. É uma graça.

Resultado de imagem para Para Sempre - Cinderela

Este também é um filme dos anos 90, que faz parte do que eu chamo do retorno da Drew. Uma história bem bonitinha e empoderadora, que coloca a atriz bem à vontade com seu estilo diferentona de ser. Para as jovens daquela época, era um alívio ver um filme que “desencantava” as histórias de princesas e afins.

Resultado de imagem para Afinado no Amor

Como se pode perceber, o final dos anos 90 foi muito produtivo para Drew Barrymore. Este filme é uma delícia e traz Adam Sandler com um frescor de tirar o fôlego. A química entre os dois é maravilhosa e se repetiu em outro filme, que logo comentarei. Para mim, “Afinados no Amor”, é um hit dos anos 90 e tem que ser assistido por todos!

Resultado de imagem para As Panteras

Ao contrário de Cameron Diaz, com quem tenho “mixed feelings” sobre sua capacidade de atuação, acho que Drew Barrymore acertou em cheio ao fazer esta versão dos anos 2000 de “As Panteras”. Ela é engraçada, irônica e não leva nada disso a sério, o que torna sua personagem irresistível. Um ícone cult, praticamente.

Resultado de imagem para Riding in Cars with Boys

Eu simplesmente AMO esse filme. Feito em 2001, ele me arrebatou de uma forma que não consigo nem descrever. Tenho em DVD e pretendo guardar por muitos e muitos anos. A história é sensacional, e Drew mostra aqui seu grande talento de fazer uma jovem, uma adulta, uma senhora… Ela transita facilmente em todas essas fases sem se tornar uma canastrona. Certamente, é um dos TOP 10 da minha lista. Não assistiu? Está perdendo.

Resultado de imagem para Como Se Fosse a Primeira Vez

Acho que é o filme mais fofo, engraçado e romântico dos últimos tempos. Novamente, a química dos dois aqui é incrível. Já assisti várias vezes e nunca me canso.

Resultado de imagem para Music and Lyrics

Vai me dizer que você não adora esse filme, com o Hugh Grant fazendo um papel de “semi” fracassado e a Drew mostrando seus dotes artísticos e sendo toda contida e fofa em seu papel. Eu adoro tudo nesse filme.

Resultado de imagem para Grey Gardens

Nesse filme feito para a TV, vemos uma Drew Barrymore majestosa, livre de todas as personagens que sempre acaba fazendo. O filme teve 17 indicações ao EMMY em 2009. Excelente, imperdível!

Resultado de imagem para Já Estou com Saudades

E termino com essa pérola de 2014. Filme forte, triste, com duas atrizes que amo. Drew está mais madura, e isso fica visível na tela. Recomendo.

E agora, fica a pergunta: Drew, qual o próximo grande filme? Nem me venha com Santa Clarita Diet por favor.

Borboletas

Nesse meu delírio, calor e frio

Você vem à mente, quase uma luz

Que logo se apaga,

Lágrimas na escuridão

O seu nome sufocado pela agonia,

Dor no peito…

Saudades…

De que?

Do que quase era, do pouco que não foi,

Será um dia?

Seria?

Quem iria primeiro?

Dou a mão, o braço, o corpo inteiro,

A boca, o querer

E ao abrir os olhos, você se foi

E diante de mim, flores na parede, ar frio,

A lâmpada quebrada

As roupas no chão…

Deito-me em minha cama e sinto tudo rodar

Pronuncio seu nome e esqueço seu rosto

Para, no dia seguinte, gritar, rasgando por dentro,

Sem ter onde segurar

Apenas o suor frio, que escorre pelas costas,

Molha a roupa e me enlouquece

Doente de amor?

Louca de desejo?

Você nunca saberia, ou poderia entender,

Não olha ao seu redor

Pego minhas palavras e as lanço ao vento,

Mais uma vez,

Para que se percam e, um dia desses, voltem a mim

Ou fiquem pregadas numa placa de rua qualquer

Não corra, não ame, não feche o cruzamento

Essa linha tênue que separa

Sanidade e loucura,

Amor e amizade,

Febre, delírio…

Voo para longe, junto das outras mariposas

Vida breve,

Nela não mais cabe você, que fica para trás

Tentando caçar borboletas…

Eliana Leite

03/06/2004

Barulho

Barulho da janela estalando

Do sol queimando as folhas

Da chuva que não cai

Porque está um calor de janeiro

Em pleno agosto

Barulho do carro descendo a ladeira

Porque moro numa ladeira

Barulho da cozinha de antes

Barulho que hoje quero

E antes tanto odiava

Barulho das cartas de um jogo

Que eu não jogo

Barulho das risadas que me irritam

Barulho do ronronar

Que eu tanto amo

Barulho dos faróis acendendo e apagando

Barulho da noite que não termina

Do sono que não vem

Barulho do salto alto

Da mala desfeita

Barulho do teclado, sem parar

Do estômago que dói

Do coração tum tum tum

Barulho do rádio chiando

Anunciando um novo dia

Barulhos da madrugada

A ciência oculta das estrelas

Barulho da criança que chora

Ninguém sabe o que ela quer

Porque o choro é o desejo sem verbo

O primeiro grito

Barulho da confusão

Interna e externa

Da música

Da noite que me encanta

Barulho dos hormônios explodindo como nunca

Barulho de uma mulher

Indiferente

Diversa

Divergente

Barulho da pergunta

O que eu disse?

O que eu fiz?

Quem sou eu?

Barulho de nós invadindo um ao outro

Deixando um ao outro

Machucando, partindo

Sem nenhum som

Não ouço o barulho da porta que cerra

Do corpo que arde

Das palavras que fogem

Do nada

Do tudo

Do universo

Barulho da terra se unindo ao mar

À lua, a mim

E a mais ninguém

Porque minha alma

Silenciosa

Rasteja sem fazer barulho

Para a luz que ilumina a saída

Um leve ruído

Da insensatez

Sim, é ela que rege essa música…

Eliana Leite

15/08/2006

Lágrimas

Photo by Aliyah Jamous on Unsplash

Lágrimas…
Envolvem os olhos, afogam esperanças
Tornam o rosto cheio de carência
Rolam facilmente, sem obstáculos para tropeçar
Molham o chão, regam a tristeza
Lágrimas por nada, ou pelo mundo
De alegria ou êxtase, de desamor e perda
Lágrimas à toa ou com rumo certo
Que vão direto aos lábios, amargas
Estão lá para reinarem, armadas
Quando omitidas, mostram sua ira
E travam batalhas para vencer
Os cílios cedem e sangram, derrotados
A vista é lentamente banhada
E, enfim, lágrimas caem
Como as águas da cachoeira
Que procuram o leito do rio
E, com a corrente seguem seu rumo,
Apenas a montanha permanece
A face triste é abandona
Por lágrimas que secarão ao sol…

Eliana Leite

1991

Quem Esteve Aqui?

(um conto)

– Ela não pode saber do que aconteceu.

– Se souber será ruim para nós dois – disse Ana, arrumando o cabelo.

– Do jeito que você fala, não parece que será mesmo.

– Ei, você acha que vou contar pra Kátia?

– Não. É que eu estou com um pressentimento meio estranho, sei lá.

– É o preço da traição…

– Não me venha com essa. Você é tão culpada quanto eu.

– Sei, sei. Pega minha bolsa lá na sala, por favor?

Enquanto Luis se dirigia para a sala, Ana olhou-se no espelho e sorriu: “tão culpada quanto você, Luis, que piada!”

– Disse alguma coisa?

– Não. Nada.

– A bolsa está aqui.

– Obrigada, você é um anjo.

– Espero continuar sendo quando ela chegar.

– Não esquenta. Tudo vai correr bem. Tô indo. Até mais.

– Você não está nem aí mesmo, não é?

– Você que pensa…

Assim que Ana deixou o apartamento, Luis arrumou o quarto e a sala. Acendeu um cigarro e afastou uma gota de suor da testa: “se arrependimento matasse…”, pensou, olhando pela janela a rua, escura e vazia. Não saberia como disfarçar de Kátia. Do jeito que ela era, desconfiaria logo. Diria que o ar estava diferente. “Quem esteve aqui?”, perguntaria. Ele suaria frio e mudaria de assunto: “como estava na casa da sua tia? Muito sol?” Só que era inverno. “Muito frio? Choveu? Por que não ficou por lá e esqueceu que eu existia? Eu te traí, não entende? Agora você tem um par de chifres que eu e tua amiga colocamos. Ficou ótimo, combina com teu penteado.” De que adiantava ser cínico se, na hora em que ela descobrisse, ele baixaria a cabeça, como um garotinho? Quem ela culparia? Com todo aquele orgulho, daria de ombros e diria: “Vocês formam um casal perfeito. Mandarei flores no casamento.” Mas o que ele podia fazer? Foi tudo tão rápido. Lá estava ele no bar, tomando uma cerveja, quando Ana entrou e o avistou. Aproximou-se: “posso me sentar?” “Claro, à vontade.” “Chateado?” “Não. Apenas sozinho.” “Ah, mas isso a gente resolve…” Ele não aguentava mais de solidão, de tédio. Precisava se animar. Precisava de alguém. Não hesitou em ir para a cama com aquela mulher porque não sentia mais atração ou paixão por Kátia. Seu relacionamento tinha virado rotina. Era sempre igual, nenhuma surpresa. Foi quando surgiu um telefonema da tia dela: “Kátia, por que você não vem passar uns tempos aqui comigo? Sinto saudades…” A “sobrinha devotada” não deixou por menos. Fez as malas (para duas semanas) e falou: “Luis, vou passar um tempo na casa da tia Célia. Vai ser bom eu ficar fora. Assim, quem sabe, as coisas não melhorem por aqui?” De olho no jogo de futebol, ele concordou e desejou boa viagem. Tudo errado. Agora percebe que devia ter dito que não ia ser bom droga nenhuma. Que, quando ela voltasse, o sofá, a TV, o fogão, a geladeira, seriam disputados, porque seria o fim de tudo. Absolutamente tudo.

Por quê? Por que essa tia foi ligar? Será que não sabe que, sozinho, um homem é capaz de tudo só para não continuar sozinho? Ao apagar o cigarro, Luis pensou: “A chama de uma relação que se apaga”. E então imaginou Kátia conversando com a tia, a qual perguntaria se eles ainda estavam morando juntos. Receberia resposta afirmativa e se empolgaria, dizendo que era meio “perigoso” deixa-lo lá, sozinho. “Porque você sabe, querida. Homem é tudo igual Sempre atrás de um rabo de saia…” Kátia daria uma risadinha: “o Luis seria incapaz.” E foi imaginando isso que ele deu um soco na parede: “Maldita! Olha aqui, Kátia, eu fui capaz! Quem manda deixar nossa relação cair na monotonia? Agora estou eu aqui, te esperando só para ver tua cara ao saber que estou confuso e arrependido de ter “sido igual aos outros”. Arrependido de ter permitido que essa Ana me seduzisse. De ter deixado você viajar sem nem me despedir direito. Arrependido de não ter sabido te amar e agora não saber te trair. Arrependido também de ter fumado meu último cigarro!” Com lágrimas nos olhos, ele olha para o relógio: duas da manhã. Ela tinha tido que chegaria de madrugada, pois tinha menos trânsito na estrada. Era só esperar. Depois de alguns minutos de silêncio, ele ouve um barulho de chaves vindo do lado de fora. “É ela!” Enxuga o rosto com a camiseta, vai até a porta. Abre e dá de cara com Kátia. Abraçam-se. Ela entra, olha ao redor e pergunta: “Quem esteve aqui?”

FIM

Eliana Leite

(janeiro, 1993)


John Green e as tartarugas

Declarei meu amor por John Green em um post anterior… Este é o terceiro livro dele que tenho o prazer de ler. Literalmente, devorei. Como se devora aquele seu doce preferido, como se devora algo que você não quer que acabe mas não consegue parar de devorar.

Aqui temos Aza, Davis e Daisy. Tão diferentes e tão complementares um ao outro. Mas o foco mesmo está em Aza, a protagonista. Portadora de um TOC quase incapacitante, ela tenta tocar a vida. A forma como John Green nos faz entrar na vida de Aza e quase nos transformar nela é o que torna esse livro tão especial.

O livro acaba e o vazio se instaura. Exatamente o vazio que sentimos quando acaba aquele doce de que tanto gostamos. E como não gostar de Aza e não sentir tudo o que ela sente?

Recomendo muitíssimo.

Pawana

Estava em busca de um livro curto… Foi então que “Pawana” (J.M.G. Le Clézio – vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2008) surgiu. Comprei pela Amazon, em capa dura. Já gostei do que vi. A edição de 2009 vem com ilustrações (incríveis) de Guazzelli. O livro tem exatas 55 páginas, as quais li em 3 dias (a ideia era ler em uma “sentada”, mas não foi dessa vez…)

O livro é uma pequena obra de arte. Curto, porém intenso. Repleto de melancolia e nostalgia, mostra como o homem pode ser ignorante e destruidor e, mesmo assim, pequeno diante do universo. Quando o homem destrói a natureza, destrói a si mesmo. E não sabe quando parar, pois sua ganância e cegueira lhe consomem até a alma. Incapaz de conviver com um ser maravilhoso como a baleia, a quer para si… Caça, retalha e se esvazia de todo o amor que poderia sentir só de observá-la nadar e ter seus filhotes em paz.

Originalmente escrito em 1992, o livro é bastante atual ao relatar a devastação, de forma condensada e brutal.

Recomendo a leitura!