A série brasileira “Coisa Mais Linda” – uma grata surpresa

Como pano de fundo, temos o Rio de Janeiro nos anos 60, o nascimento da bossa nova e os costumes da sociedade carioca. A série brasileira “Coisa Mais Linda” (Netflix) já seria um sucesso só pela fotografia e trilha sonora.

Junte-se a isso o elenco, com personagens complexas, vulneráveis e fortes ao mesmo tempo, cheias de energia e sonhos. Quer mais? Temos o conteúdo de denúncia ao machismo (da época? nossa, me pareceu tão atual), à violência contra a mulher, ao racismo, a todas as formas de preconceito, ao medo do novo… Nesta primeira temporada, destacam-se as atuações de Fernanda Vasconcellos e Patrícia Dejesus. Tenho minhas restrições com relação a Mel Lisboa (muito careteira) e acho a Maria Casadevall um pouco limitada. Porém, nada disso atrapalha, pois o conjunto é muito bom. Há a tentação de comparar com outra série, “As Telefonistas”, mas as semelhanças são muito mais na questão do tema e do núcleo feminino. Cada uma tem seu charme, seus defeitos e suas características culturais. Enquanto “Coisa Mais Linda” bate na tecla social, da liberdade artística e de expressão, “Telefonistas” tem um tom um mais engajado e corporativo, além da trama mais misteriosa. As duas, para mim, são encantadoras em suas reconstituições de época. E tocam na ferida, incomodam, inspiram.

Ansiosa pela segunda temporada! Um “viva” à iniciativa de termos séries brasileiras com conteúdo relevante.

Vale a pena conferir (e devorar)!

De Trilhos e Sombras

Há alguns dias, sempre que saía de casa, Márcia tinha a sensação de que alguém a seguia. Ia a pé para a estação de metrô, todos os dias da semana. Andava por uns 15 minutos. A sensação só parava quando entrava no trem. Durante o percurso a pé, olhava para trás, e nada. Às vezes, acelerava o passo, outras parava bruscamente. Houve ocasiões em que desviou ou tentou se esconder, mas a sensação não mudou. Não ouvia passos ou qualquer ruído similar, mas sentia essa presença constante. Chegava a arrepiar os pelos da nuca. Quando comentou com a amiga do trabalho, esta logo disse que era encosto e recomendou que fosse se benzer. Márcia chegou a cogitar, mas deixou para lá. Encosto? Onde já se viu? A coisa já se arrastava por meses. Incomodava. Travava sua concentração. Um belo dia, resolveu ir de Uber para o metrô. A sensação parou naquele mesmo dia. A contragosto, repetiu a dose no dia seguinte e assim até o final daquela semana. Problema solucionado! Na segunda-feira, chamou o Uber novamente. Porém, a sensação de que algo ou alguém a observava voltou. Olhou ao redor, nada. Não era possível! Isso só podia ser coisa da sua cabeça! Foi então que resolveu voltar à rotina e ir a pé até a estação. Já familiarizada com a sensação, parou de se incomodar. Pensou que, se algo tivesse que acontecer, aconteceria, independentemente do que ela fizesse. A situação era tão surreal que passou a aceitá-la, resignada. Duas semanas se passaram, até que um belo dia, a sensação não cessou quando entrou no trem. Sentou-se, preocupada. Alguém a observada dentro do trem? Olhou ao redor, tentando identificar algum tipo suspeito. Decidiu marcar bem a fisionomia das pessoas ao seu redor para, no dia seguinte, começar uma investigação mais profunda. Já andava naquele metrô há uns bons anos, e alguns rostos eram familiares. Passaria a observar melhor. Isso a irritou um pouco, pois teria que deixar de ler. Para não perder tempo, traria um caderno e anotaria tudo. Dividiria o grupo entre pessoas “fixas” e “volantes”. Daria apelidos, como, por exemplo: “moça dos olhos verdes e cabelo vermelho que masca chiclete com a boca aberta e fica olhando o celular – fixa”. “Homem alto que não se senta e sempre carrega um guarda-chuva preto com cabo de madeira – fixo”. “Senhora levemente corcunda que usa tênis confortáveis – volante”. E assim por diante. No dia seguinte, iniciou suas anotações. Percebeu que, até então, olhava pouco para as pessoas., sempre tão absorta em sua leitura. Percebeu, também, que a sensação de ser observada aumentava enquanto escrevia. Quando ficava insuportável, ela parava para olhar. Algumas pessoas olhavam de volta, assustadas e se afastavam. “Que bom, agora, vão me chamar de louca!” Após uma semana de anotações, ao chegar em casa, decidiu ler o que havia escrito. Não conseguiu chegar a nenhuma conclusão útil, a não ser que as pessoas eram bichos condicionados e estranhos. Não identificou nada ou ninguém suspeito. Grande parte dos passageiros estava na categoria “fixa” e quem era “volante” tinha comportamentos que sequer mereciam atenção. “Definitivamente, estou ficando louca…” Naquela noite, não dormiu. Pela primeira vez, teve medo. Não sabia o que estava acontecendo e já não conseguia pensar em nenhuma outra solução. Pela manhã, quando tocou o despertador, não teve forças para levantar e se arrumar para trabalhar. Mandou uma mensagem para seu chefe informando que não poderia ir. Não se lembrava da última vez que faltara ao trabalho. Estava se sentindo um caco. Chegou a pensar em ligar para a irmã para ver se a mãe estava bem, mas desistiu. Para que ligar? A mãe dela estava doente há um tempão, sem sinais de regressão do câncer. Mas toda vez que Márcia ligava, tinha a impressão de estar incomodando, e nunca conseguia falar com a mãe. Muita água tinha rolado, muitos ressentimentos acumulados. Não queria causar mais dor ainda, só de ter que fazer com que a mãe fosse praticamente obrigada a ouvir sua voz e fingir que estava tudo bem. Ela podia se organizar e ir para perto de sua mãe, visitar, ficar alguns dias. De novo, se perguntou, “para quê?”. A última vez que tinha ido para lá, parece que fez com que tudo piorasse. Joana quase pediu para que a irmã não voltasse mais. Claro que não pediu, mas aquele olhar dizia tudo, quando se despediram na rodoviária… Durante o trajeto de 12 horas no ônibus-leito, Márcia só conseguia prometer a si mesma que não voltaria mais. Com esses pensamentos, perto de 10h00, sentiu o cansaço e o sono dominarem. Dormiu um sono sem sonho e despertou, horas depois, sem saber ao certo onde estava, que dia era… Estava escuro. Novamente, teve medo. Tateou a parede em busca do interruptor. Ao acender a luz, avistou uma sombra à sua frente. Gritou. A sombra permaneceu imóvel. Sentou-se na cama e se cobriu até o pescoço, tremendo de frio e de terror. Não conseguia pensar, falar, se mover. Notou que a sombra lembrava o formato de uma grande ave. Franziu os olhos para tentar decifrar o que via e conseguiu, enfim, se mexer. De forma quase involuntária, foi se aproximando da sombra. Ao chegar bem perto, a sombra abriu as asas. Márcia deu um pulo para trás: “É você que está me seguindo todo esse tempo? O que você quer de mim? O que é você?” Sem saber de mais nada, o que era realidade ou fantasia, começou a esmurrar a parede, chorando e implorando para que tudo aquilo acabasse. Então, a sombra desapareceu. Márcia olhou ao redor, ofegante. Correu para a sala, em busca de algum sinal da sombra. Foi para a cozinha. Nada. Então como num impulso, se dirigiu para a área de serviço. Notou que janela estava aberta. Acendeu a luz e, ao olhar para o chão, não conseguia acreditar no que via: penas e mais penas no chão. Grandes penas cinzas e brancas. Apreensiva, pegou uma na mão. Macia, porém firme. Sem pensar, roçou a pena em seu rosto, sentindo a textura. Fechou os olhos e se recordou de sua infância, quando corria com a mãe e a irmã pelo campo do rancho em que cresceu. Quando corriam em busca dos pássaros. E ficavam em êxtase quando o bando voava sobre suas cabeças. Acordou de seu devaneio com o toque do telefone. Empertigou-se e foi atender: “Alô?” “Márcia? Sou eu, Joana… é sobre a mamãe…”

Eliana Leite

(Iniciado em 13/02 e concluído em 12/03/2019)

Resenha: Livros “Bonsai” e “A Vida Privada das Árvores”

Os dois livros são de Alejandro Zambra, escritor chileno muito bem conceituado. Ambos tem o tema da árvore japonesa em comum. São super curtos, porém intensos.

“Bonsai” tem histórias entrecortadas, como se um bisturi fizesse uma incisão precisa em um dado momento do tempo e espaço. Você olha por essa fresta e, quando vê, acabou. Deixa marca, deixa um gostinho de quero mais. queria um romance inteiro, longo, para me afogar.

“A Vida Privada das Árvores” é um pouco maior, mas não muito. Não engana o leitor… Logo avisa que vai acabar em algum momento. E, mesmo assim, quando efetivamente acaba, o leitor se vê surpreso. Como assim? Cadê o resto? Quero mais, muito mais…

Alejandro Zambra tem uma maneira de escrever que muito me atraiu. ao mesmo tempo em que narra o cotidiano, traz reflexões profundas sobre o ser humano e suas fraquezas, pequenices, limitações. Sobre seus sonhos guardados em caixinhas, sobre o ego e vaidades. Sobre querer ser, mas sem fazer grandes esforços e existir apenas nesse desejo que nunca se concretiza. São dois livros que tratam da realidade e também do flerte com o imaginário, o futuro, o querer ser…

Duas pequenas obras-primas contemporâneas.

Recomendo!

Sete anos: sete injustiças do Oscar

Esse tema me veio à mente após ter assistido ao Oscar 2019 e, com nostalgia, me lembrar de quando comecei a assistir a esta cerimônia e me interessar de verdade por filmes. Eu acho que já comentei que o Oscar, atualmente, não é, assim, algo a ser tão levado a sério. Mesmo assim, continuo acompanhando. Até que este ano eu assisti com mais afinco (me pareceu uma cerimônia mais leve, mais moderna, na medida do possível). Houve anos em que mal assisti, seja porque a cerimônia estivesse um porre, seja porque os candidatos não fossem tão especiais.

De qualquer forma, é um prêmio importante e eu não poderia deixar de comentar sobre os filmes que eu acho que deveriam ter ganhado… Para isso, reuni 7 “vítimas” das injustiças do Oscar…

  1. 1988 – Alguém assistiu ao “Último Imperador” e conseguiu ir até o fim? Rsrs… Esse é um daqueles “filmes de Oscar”. Não tinha para ninguém… Mesmo sendo bem chato… Todavia, foi um outro indicado que ganhou meu coração e ainda reina entre os favoritos desta eterna romântica: “O Feitiço da Lua”. Ali, temos Cher e Nicolas Cage em ótimas atuações e com uma química de tirar o fôlego. Sem falar em Olympia Dukakis e Danny Aielo. Como não se apaixonar por essa história que se passa no Brooklyn, com todas as esquisitices que as famílias possuem, o sotaque, a musicalidade, o humor peculiar… dificilmente, um filme desta categoria faturaria o Oscar (engessado que era/ainda é?), mas bem que poderia… Sequer me lembro do (chatérrimo) “Último Imperador”.
  2. 1991 – Neste ano, o filme (que eu mais amo no mundo) “Sociedade dos Poetas Mortos” concorreu ao Oscar, perdendo para “Conduzindo Miss Daisy”. Claro que gostei de “Conduzindo…”. Tem a dupla imbatível Morgan Freeman e Jessica Tandy e uma história linda. Porém, “Sociedade” é o filme da minha vida (já dediquei um post só para ele)! Então, teria sido um presente… Aqui, não se trata de uma injustiça propriamente dita, mas tão-somente uma preferência desta singela amante do cinema e da poesia…
  3. 1997 – Quantas vezes assisti ao “Paciente Inglês” versus quantas vezes assisti a “Jerry Maguire”? 1 x 459… rsrs… Ok, ok… Novamente, estamos diante da caretice da Academia e de algumas tradições. Ainda assim, “Jerry Maguire” tem todos os ingredientes de um grande filme. Tom Cruise em excelente forma e Cuba Gooding Jr. arrasando com seu jargão “show me the money!”. Vale lembrar que Cuba ganhou o Oscar. “Jerry” deveria ter sido filme daquele ano, daquele Oscar. E, como o tema aqui é injustiça, arrisco dizer que ele foi um dos maiores injustiçados , pois havia forte preconceito contra a capacidade profissional de Tom Cruise, que não era levado muito a sério (é polêmico falar dele, pois tem sérios “issues”, mas vou me apegar e me ater à memória afetiva que este filme provoca). Uma pena. “Paciente Inglês”? Juro que mal me lembro… Sorry…
  4. 1998 – O filme que devia faturar o Oscar era “L.A. Confidential”. Porém, veio o blockbuster “Titanic” e acabou com qualquer chance. Titanic é um bom filme? Sim, sem dúvida! É um filme que merecia o Oscar? Quando paro para pensar no roteiro, nos diálogos e na obra como um todo, concluo que não. Entretanto, falar que Titanic não merecia o Oscar é gritar ao vento… Bom mesmo foi ver que “Avatar” não teve a mesma sorte. Efeitos especiais não são tudo. E a ideia de Avatar até podia ser boa, mas aquele roteiro… e os diálogos (ou seja, mesmo diretor, mesmos problemas)… enfim, esse não passou! “L.A. Confidential”, por sua vez, é um grande filme. Elenco afiadíssimo (Kim Bassinger faturou o Oscar de atriz coadjuvante), roteiro muito bom, sem comparação. Se você ainda não assistiu, assista! Russel Crowe e Guy Pearce em tempos que não voltam mais…
  5. 1999 – Este foi um ano de muitas injustiças reunidas. Comecemos pela vitória de “Shakespeare Apaixonado” sobre “O Resgate do Soldado Ryan” (???) Lembro-me de ter ficado chocada com esta repentina vitória de um “filminho”… Bem decepcionante. Houve várias teorias da conspiração, sobre lobby e afins, mas fato é que a Academia errou feio. “O Resgate do Soldado Ryan”, ou mesmo “Elizabeth” eram filmes muito superiores e dignos de premiação. Eu gosto da Gwyneth Paltrow, mas não a ponto de dar um Oscar por sua atuação no “filminho”. Para mim, ficou um gosto amargo (que, como se pode perceber, ainda me incomoda!) de derrota injusta e mal contada. Vamos lembrar que nossa rainha Fernanda Montenegro estava concorrendo ao Oscar de melhor atriz e o filme “Central do Brasil” a melhor filme estrangeiro. Sem mais… Nem vou comentar sobre “A Vida é Bela”… Não é meu filme preferido e ponto. Para mim, 1999 poderia ter sido um ano de efetivo reconhecimento de bons filmes e atores… Mas ganhou quem fez mais propaganda… Infelizmente…
  6. 2011 – Quando assisti ao filme “A Rede Social” pensei: “nossa! esse filme é sensacional!” Depois fui conferir “O Discurso do Rei”, com altíssimas expectativas e achei o filme muito chato, mas logo vi que seria o vencedor do Oscar. E assim foi. A Academia sucumbiu ao lobby, ao formato “filme de Oscar chato”. Detestei tudo isso. É tão bom quando aparece um filme que trata de temas fora da caixa, modernos, com atores não contaminados pelo mainstream. Porém, a Academia é tradicional e tem medo de inovar. Ainda hoje é assim. Aplaudimos as exceções, quando estas deveriam ser a regra. 2019 até que inovou, em alguns aspectos importantes, mas tem que manter isso. Voltando ao nosso injustiçado: é um filme excelente, instigante, atual, polêmico e impopular. A trama é muito bem costurada, o elenco jovem arrasa e trata de um tema tão tangível e real, mas não… Vamos premiar um filme chato… Such is life!
  7. 2015 – “Birdman” não é um filme ruim. Mas “Whiplash”… Ah! Que filme! Nunca mais revi “Birdman” (e nem pretendo), mas já assisti a “Whiplash” pelo menos mais 2 vezes. Lembro-me de ter ficado boquiaberta quando a história começou a se mostrar. Miles Teller me surpreendeu com sua atuação forte, dedicada, demonstrando que tem muito potencial. J.K. Simmons está perfeito, irretocável (tanto que ganhou diversos prêmios por este filme). Eu gosto de filmes que não estabelecem limites entre “o bem e o mal”, que retratam o ser humano em sua essência, a vida nua e crua. “Birdman” tem isso também, mas há algo em “Whiplash” que o torna memorável, quase obrigatório. Resumindo: é genial. E é um injustiçado…

Borboletas

Nesse meu delírio, calor e frio

Você vem à mente, quase uma luz

Que logo se apaga,

Lágrimas na escuridão

O seu nome sufocado pela agonia,

Dor no peito…

Saudades…

De que?

Do que quase era, do pouco que não foi,

Será um dia?

Seria?

Quem iria primeiro?

Dou a mão, o braço, o corpo inteiro,

A boca, o querer

E ao abrir os olhos, você se foi

E diante de mim, flores na parede, ar frio,

A lâmpada quebrada

As roupas no chão…

Deito-me em minha cama e sinto tudo rodar

Pronuncio seu nome e esqueço seu rosto

Para, no dia seguinte, gritar, rasgando por dentro,

Sem ter onde segurar

Apenas o suor frio, que escorre pelas costas,

Molha a roupa e me enlouquece

Doente de amor?

Louca de desejo?

Você nunca saberia, ou poderia entender,

Não olha ao seu redor

Pego minhas palavras e as lanço ao vento,

Mais uma vez,

Para que se percam e, um dia desses, voltem a mim

Ou fiquem pregadas numa placa de rua qualquer

Não corra, não ame, não feche o cruzamento

Essa linha tênue que separa

Sanidade e loucura,

Amor e amizade,

Febre, delírio…

Voo para longe, junto das outras mariposas

Vida breve,

Nela não mais cabe você, que fica para trás

Tentando caçar borboletas…

Eliana Leite

03/06/2004

Barulho

Barulho da janela estalando

Do sol queimando as folhas

Da chuva que não cai

Porque está um calor de janeiro

Em pleno agosto

Barulho do carro descendo a ladeira

Porque moro numa ladeira

Barulho da cozinha de antes

Barulho que hoje quero

E antes tanto odiava

Barulho das cartas de um jogo

Que eu não jogo

Barulho das risadas que me irritam

Barulho do ronronar

Que eu tanto amo

Barulho dos faróis acendendo e apagando

Barulho da noite que não termina

Do sono que não vem

Barulho do salto alto

Da mala desfeita

Barulho do teclado, sem parar

Do estômago que dói

Do coração tum tum tum

Barulho do rádio chiando

Anunciando um novo dia

Barulhos da madrugada

A ciência oculta das estrelas

Barulho da criança que chora

Ninguém sabe o que ela quer

Porque o choro é o desejo sem verbo

O primeiro grito

Barulho da confusão

Interna e externa

Da música

Da noite que me encanta

Barulho dos hormônios explodindo como nunca

Barulho de uma mulher

Indiferente

Diversa

Divergente

Barulho da pergunta

O que eu disse?

O que eu fiz?

Quem sou eu?

Barulho de nós invadindo um ao outro

Deixando um ao outro

Machucando, partindo

Sem nenhum som

Não ouço o barulho da porta que cerra

Do corpo que arde

Das palavras que fogem

Do nada

Do tudo

Do universo

Barulho da terra se unindo ao mar

À lua, a mim

E a mais ninguém

Porque minha alma

Silenciosa

Rasteja sem fazer barulho

Para a luz que ilumina a saída

Um leve ruído

Da insensatez

Sim, é ela que rege essa música…

Eliana Leite

15/08/2006

Lágrimas

Photo by Aliyah Jamous on Unsplash

Lágrimas…
Envolvem os olhos, afogam esperanças
Tornam o rosto cheio de carência
Rolam facilmente, sem obstáculos para tropeçar
Molham o chão, regam a tristeza
Lágrimas por nada, ou pelo mundo
De alegria ou êxtase, de desamor e perda
Lágrimas à toa ou com rumo certo
Que vão direto aos lábios, amargas
Estão lá para reinarem, armadas
Quando omitidas, mostram sua ira
E travam batalhas para vencer
Os cílios cedem e sangram, derrotados
A vista é lentamente banhada
E, enfim, lágrimas caem
Como as águas da cachoeira
Que procuram o leito do rio
E, com a corrente seguem seu rumo,
Apenas a montanha permanece
A face triste é abandona
Por lágrimas que secarão ao sol…

Eliana Leite

1991

Quem Esteve Aqui?

(um conto)

– Ela não pode saber do que aconteceu.

– Se souber será ruim para nós dois – disse Ana, arrumando o cabelo.

– Do jeito que você fala, não parece que será mesmo.

– Ei, você acha que vou contar pra Kátia?

– Não. É que eu estou com um pressentimento meio estranho, sei lá.

– É o preço da traição…

– Não me venha com essa. Você é tão culpada quanto eu.

– Sei, sei. Pega minha bolsa lá na sala, por favor?

Enquanto Luis se dirigia para a sala, Ana olhou-se no espelho e sorriu: “tão culpada quanto você, Luis, que piada!”

– Disse alguma coisa?

– Não. Nada.

– A bolsa está aqui.

– Obrigada, você é um anjo.

– Espero continuar sendo quando ela chegar.

– Não esquenta. Tudo vai correr bem. Tô indo. Até mais.

– Você não está nem aí mesmo, não é?

– Você que pensa…

Assim que Ana deixou o apartamento, Luis arrumou o quarto e a sala. Acendeu um cigarro e afastou uma gota de suor da testa: “se arrependimento matasse…”, pensou, olhando pela janela a rua, escura e vazia. Não saberia como disfarçar de Kátia. Do jeito que ela era, desconfiaria logo. Diria que o ar estava diferente. “Quem esteve aqui?”, perguntaria. Ele suaria frio e mudaria de assunto: “como estava na casa da sua tia? Muito sol?” Só que era inverno. “Muito frio? Choveu? Por que não ficou por lá e esqueceu que eu existia? Eu te traí, não entende? Agora você tem um par de chifres que eu e tua amiga colocamos. Ficou ótimo, combina com teu penteado.” De que adiantava ser cínico se, na hora em que ela descobrisse, ele baixaria a cabeça, como um garotinho? Quem ela culparia? Com todo aquele orgulho, daria de ombros e diria: “Vocês formam um casal perfeito. Mandarei flores no casamento.” Mas o que ele podia fazer? Foi tudo tão rápido. Lá estava ele no bar, tomando uma cerveja, quando Ana entrou e o avistou. Aproximou-se: “posso me sentar?” “Claro, à vontade.” “Chateado?” “Não. Apenas sozinho.” “Ah, mas isso a gente resolve…” Ele não aguentava mais de solidão, de tédio. Precisava se animar. Precisava de alguém. Não hesitou em ir para a cama com aquela mulher porque não sentia mais atração ou paixão por Kátia. Seu relacionamento tinha virado rotina. Era sempre igual, nenhuma surpresa. Foi quando surgiu um telefonema da tia dela: “Kátia, por que você não vem passar uns tempos aqui comigo? Sinto saudades…” A “sobrinha devotada” não deixou por menos. Fez as malas (para duas semanas) e falou: “Luis, vou passar um tempo na casa da tia Célia. Vai ser bom eu ficar fora. Assim, quem sabe, as coisas não melhorem por aqui?” De olho no jogo de futebol, ele concordou e desejou boa viagem. Tudo errado. Agora percebe que devia ter dito que não ia ser bom droga nenhuma. Que, quando ela voltasse, o sofá, a TV, o fogão, a geladeira, seriam disputados, porque seria o fim de tudo. Absolutamente tudo.

Por quê? Por que essa tia foi ligar? Será que não sabe que, sozinho, um homem é capaz de tudo só para não continuar sozinho? Ao apagar o cigarro, Luis pensou: “A chama de uma relação que se apaga”. E então imaginou Kátia conversando com a tia, a qual perguntaria se eles ainda estavam morando juntos. Receberia resposta afirmativa e se empolgaria, dizendo que era meio “perigoso” deixa-lo lá, sozinho. “Porque você sabe, querida. Homem é tudo igual Sempre atrás de um rabo de saia…” Kátia daria uma risadinha: “o Luis seria incapaz.” E foi imaginando isso que ele deu um soco na parede: “Maldita! Olha aqui, Kátia, eu fui capaz! Quem manda deixar nossa relação cair na monotonia? Agora estou eu aqui, te esperando só para ver tua cara ao saber que estou confuso e arrependido de ter “sido igual aos outros”. Arrependido de ter permitido que essa Ana me seduzisse. De ter deixado você viajar sem nem me despedir direito. Arrependido de não ter sabido te amar e agora não saber te trair. Arrependido também de ter fumado meu último cigarro!” Com lágrimas nos olhos, ele olha para o relógio: duas da manhã. Ela tinha tido que chegaria de madrugada, pois tinha menos trânsito na estrada. Era só esperar. Depois de alguns minutos de silêncio, ele ouve um barulho de chaves vindo do lado de fora. “É ela!” Enxuga o rosto com a camiseta, vai até a porta. Abre e dá de cara com Kátia. Abraçam-se. Ela entra, olha ao redor e pergunta: “Quem esteve aqui?”

FIM

Eliana Leite

(janeiro, 1993)


John Green e as tartarugas

Declarei meu amor por John Green em um post anterior… Este é o terceiro livro dele que tenho o prazer de ler. Literalmente, devorei. Como se devora aquele seu doce preferido, como se devora algo que você não quer que acabe mas não consegue parar de devorar.

Aqui temos Aza, Davis e Daisy. Tão diferentes e tão complementares um ao outro. Mas o foco mesmo está em Aza, a protagonista. Portadora de um TOC quase incapacitante, ela tenta tocar a vida. A forma como John Green nos faz entrar na vida de Aza e quase nos transformar nela é o que torna esse livro tão especial.

O livro acaba e o vazio se instaura. Exatamente o vazio que sentimos quando acaba aquele doce de que tanto gostamos. E como não gostar de Aza e não sentir tudo o que ela sente?

Recomendo muitíssimo.

Pawana

Estava em busca de um livro curto… Foi então que “Pawana” (J.M.G. Le Clézio – vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2008) surgiu. Comprei pela Amazon, em capa dura. Já gostei do que vi. A edição de 2009 vem com ilustrações (incríveis) de Guazzelli. O livro tem exatas 55 páginas, as quais li em 3 dias (a ideia era ler em uma “sentada”, mas não foi dessa vez…)

O livro é uma pequena obra de arte. Curto, porém intenso. Repleto de melancolia e nostalgia, mostra como o homem pode ser ignorante e destruidor e, mesmo assim, pequeno diante do universo. Quando o homem destrói a natureza, destrói a si mesmo. E não sabe quando parar, pois sua ganância e cegueira lhe consomem até a alma. Incapaz de conviver com um ser maravilhoso como a baleia, a quer para si… Caça, retalha e se esvazia de todo o amor que poderia sentir só de observá-la nadar e ter seus filhotes em paz.

Originalmente escrito em 1992, o livro é bastante atual ao relatar a devastação, de forma condensada e brutal.

Recomendo a leitura!