CHÃO

O chão em que piso

Me conduz

Em dias ensolarados, chuvosos, nublados

Este chão pode ser duro, macio, terroso, verde

Não importa.

O chão em que piso

Não me deixa cair

Ele me leva em meio

Às águas, flores, pedras, raízes

Este chão se estende dentro de mim

Se transforma em meio

Às palavras, ao silêncio, ao toque, ao canto.

O chão em que piso

Na verdade, está em todo lugar

Ele sou eu, ele é você

E, tal qual a cachoeira,

Se renova, nos purifica

Encanta todos os dias.

Eliana Leite

27/09/2020

Qual foi a última coisa que você fez uma única vez?

Mariana acendeu o charuto. Lenta e pacientemente, como tinha aprendido. Era a primeira vez que ia sozinha ao clube de charutos. Resolveu pedir uma dose de uísque. Ao fundo, tocava um jazz suave. Notou que uma mulher a observava. A mulher se aproximou. Loira, alta, de uma beleza não óbvia. Seu nome era Cecília e trabalhava lá. Começaram a conversar sobre charutos. Mariana confessou que era uma iniciante. Cecília se sentou. Fumava um cigarro. Pediu um Negroni. Mariana perguntou se ela podia beber no trabalho. Cecília riu e comentou algo como aquele ser o melhor trabalho do mundo. Quando ia perguntar há quanto tempo trabalhava ali, alguém chamou por Cecília, que pediu licença e se foi. Mariana então voltou a atenção para o charuto e o uísque. Deixou-se embalar pelo som e divagou sobre aquela noite, um encontro consigo mesma. No dia anterior, estava lamentando com a irmã sobre o fato de não encontrar companhia para sair à noite, como era difícil conciliar agendas, principalmente pelo fato de as amigas estarem casadas, com filhos. Quando terminou de reclamar, sua irmã apenas perguntou porque ela não ia sozinha. Não precisava depender de ninguém para sair de casa. E ainda arrematou com um “pare de reclamar e vá viver a vida”. Com este pensamento, resolveu sair do trabalho e ir ao clube de charutos. Ela já tinha ido duas vezes, no ano passado, com seu amigo Caio, que agora vivia em Londres. Conversavam bastante por WhatsApp e Skype, mas ela sentia muito sua falta. Foi então que decidiu mandar uma mensagem para ele acompanhada de uma “selfie”, dizendo “adivinha onde eu estou?”. Porém, a mensagem não foi lida por Caio. “Deve estar ocupado”, concluiu, frustrada. Pensou em postar a foto no Instagram, mas desistiu. Guardou o celular na bolsa e decidiu ter aquela noite para si. Sinalizou para a garçonete, que a avistou e logo se aproximou. Pediu uma água com gás. Assim que a garçonete saiu, Cecília se aproximou novamente.

               – Desculpe ter saído daquela forma. Tive que resolver um probleminha.

               – Imagine, não precisa se desculpar.

               – E então, está curtindo a noite?

               – Sim, estou me dando esse direito.

               – Veio sozinha?

               – Sim. Não é algo que eu tenha o costume de fazer, mas decidi que deveria.

               – Você não precisa se explicar para mim. Muitas pessoas vêm aqui sozinhas.

               – Não estou me explicando… é só que… – e Mariana ficou sem saber o que dizer.

               – Relaxa, mulher. Vamos lá, me conte sobre este charuto.

               – Ah… sim… gostei dele. Tem um bom fluxo, suave, combina com o uísque. É nacional.

               – Você comprou aqui?

               – Não, esse eu ganhei de um amigo. Foi ele que me apresentou esse lugar.

               – Não me lembro de você. Quando vieram?

               – No ano passado. Nossa, mas tantas pessoas passam por aqui. Você não se lembraria.

               – Digamos que eu sou uma boa fisionomista. Certamente me lembraria de você. Mas no ano passado eu ainda não trabalhava aqui. Comecei no início deste ano.

               – Onde você trabalhava antes?

               – Eu estava em Cuba. Tirei um ano sabático e fui para lá.

               – Uau! E foi bom?

               – Foi uma experiência maravilhosa, mas não volto mais. Certas coisas temos que fazer uma vez. Qual foi a última coisa que você fez uma única vez, fora sair sozinha à noite?

Mariana ia responder, quando a garçonete chegou com a água. Enquanto servia perguntou se ela queria comer algo. Cecília recomendou o canapé de salmão defumado. Mariana pediu e, assim que a garçonete se retirou, respondeu:

               – Acho que minha “única vez” foi ter ido à Bahia no Carnaval. Nunca mais voltei e nem pretendo. Quase morri pisoteada.

Cecília riu:

               – Eu não suporto multidões.

               – Eu também não. Prefiro lugares como este.

               – Daqui a pouco vai chegar um grupo de mulheres, uma confraria. Posso te apresentar para elas, se quiser. O grupo é animado e elas sempre gostam de receber pessoas novas.

               – Adoraria! Não sabia que existiam confrarias de mulheres para charutos.

               – Pois é, nós estamos dominando o mundo! Você vai gostar, tenho certeza. Eu vou coordenar a degustação.

               – Ótimo! Obrigada.

               – Vou me preparar para recebê-las. Te chamo.

E novamente Cecília se foi. Desta vez, Mariana se pegou olhando enquanto ela se movia. Terminou o uísque e pediu mais uma dose para a garçonete. Continuou apreciando seu charuto, tomando notas mentais do gosto, do cheiro, observando como a fumaça saía de sua boca, rumo ao ar condicionado. Assim que a bebida chegou, resolveu pegar o celular e anotar algumas das sensações. Quem sabe não mostraria para sua mais nova amiga? Quem sabe não escreveria depois, em um post no seu blog? Terminou de escrever, guardou o celular na bolsa e viu que algumas mulheres chegavam ao clube e subiam as escadas. Alguns minutos depois, Cecilia a chamou. Mariana não teve dificuldade de se enturmar. O grupo era formado por mulheres de diferentes estilos, todas com um interesse em comum: charutos. Cecília iniciou com um breve e imponente discurso sobre como o charuto pode trazer experiências diferentes e inesquecíveis, e como aquele grupo, e outros que se formavam ao longo do país e do mundo, demonstravam que não era um universo de homens, muito pelo contrário. Assim como o vinho, o café, o uísque, o charuto não poderia ser mais predominantemente masculino. Terminou a introdução com um vídeo rápido que mostrava mulheres trabalhando na fabricação dos charutos, e outras ao lado de familiares, donas de seus negócios e com fotos do clube em que estavam e dela própria como sommelier. Todas a mulheres ali presentes aplaudiram efusivamente e Cecília agradeceu, sem um pingo de vergonha, muito altiva e dona de si, o que, para uma mulher, costuma ser um sinal de arrogância. Mas não ali. Era um carimbo de amor próprio e conhecimento de causa. Mariana sentiu orgulho ao ver uma mulher determinada, se colocando daquela forma. Ela mesma não era tão autoconfiante, sabia disso. Cecília não perdeu tempo e já iniciou a noite apresentando o charuto que seria degustado naquela noite. “Antes de mais nada, quero dizer que não há essa questão de charutos masculinos ou femininos. O que existe é o paladar e, acima de tudo, o costume. Qualquer pessoa que comece a fumar charuto, não vai direto para um “maduro”, como chamamos, que é um charuto mais potente. Assim como com vinhos e cafés, sempre começamos com algo mais leve, para acostumar o paladar, o olfato e treinar nossos sentidos. Hoje vamos degustar um nacional, da Bahia, o Dona Flor, que tem um sabor mais suave e agradará a todos os paladares, tenho certeza” Mariana ficou encantada com a forma pela qual Cecília acendeu o charuto. Ficou observando os movimento suaves, porém firmes, e guardou na memória para treinar depois. Uma das presentes comentou: “Ela é demais… Olha quanta classe”. Então, o charuto foi degustado por cada uma das presentes para que comentassem sobre suas características. Para harmonizar, tomavam uísque e conhaque e, para matar a fome, carpaccio. Mariana ficou curiosa sobre o grupo e assim que teve a chance, perguntou para Cecília como poderia se tornar parte. Cecília deu um sorriso e chamou uma moça negra, alta e com o cabelo quase raspado:

               – Erika, essa é a Mariana, Mariana essa é a Erika, a dona da confraria.

               – Oi, Mariana, é um prazer tê-la aqui conosco. Como ficou sabendo?

               – Ah, a Cecília me chamou… Eu estava lá embaixo fumando meu charuto e…

               – Ela quer saber como fazer para se associar à Confraria. Vou deixá-las a sós – cortou Cecília, e saiu para dar atenção a outro grupo.

               – Me conta, Mariana, há quanto tempo você curte charutos?

               – Ah… não muito… Sei lá, no máximo um ano… e olhe lá. E não fumo muito, pois meu amigo que gosta e que me apresentou foi morar fora… fiquei sem companhia…

               – Hm… Bom, você sabe que fumar charuto pode ser algo muito prazeroso para se fazer a sós, não é?

               – Descobri isso hoje, por incrível que pareça.

               – Vamos ao que interessa: para fazer parte da Confraria, basta assistir a um vídeo. Você tem Instagram?

               – Tenho, sim. É @mariblue1976.

               – Deixa eu ver aqui… Pronto, te mandei a solicitação. É só você aceitar e eu mando o link do vídeo. Quando você terminar, vai receber algumas instruções de associação, nada de mais, só para confirmar que você é você mesma. Não há custo na associação. Quando temos estes eventos, cobramos um valor para o ingresso no clube, que inclui o charuto, a bebida e a comida.

               – Que legal! Vou adorar participar!

               – Ótimo! Considere-se uma de nós já! Fique à vontade e não se esqueça de ver o vídeo. Agora, tenho que ir pois preciso acertar algumas coisas com a Cecília.

               Mariana se sentiu peculiarmente pertencente a algo naquela noite. Há quanto tempo não fazia algo assim, do nada, sem alguém que a tivesse levado, ou alguém conduzindo tudo e ela sendo uma coadjuvante. Ser a atriz principal da própria vida era bom, concluiu. Ainda que aquilo fosse uma pequena parte do todo, era um bom começo. Serviu-se de mais carpaccio e uísque e foi até uma roda aleatória de 4 mulheres que pareciam bastante compenetradas na degustação do charuto. Apresentou-se e as quatro se juntaram num “oi” animado. Uma delas, que Mariana achava que era Daniela, perguntou se ela era nova no grupo. Mariana explicou como foi parar ali e se integrou à conversa. Estavam, de fato, conversando sobre o charuto e comparando anotações. Pediram para Mariana degustar e falar o que achava das notas, do fluxo, do sabor, do cheiro, etc. Foi uma experiencia sensorial única, em que Mariana se esqueceu do mundo lá fora. Estavam falando sobre a importância de terem mais charutos nacionais nas degustações, quando Cecília anunciou o fim do evento:

               – Charutandas, como sabem, esses eventos têm começo, meio e fim. Está na hora de encerrarmos, mas convido todas a descerem e terminarem seus charutos e aproveitarem o local. Vejo vocês no próximo!

               – Charutandas? – perguntou Mariana a Daniela.

               – Pois é, esse é o nome da nossa confraria. Gostou?

               – Interessante! E a Cecília sempre apresenta o charuto?

               – Sim, ela é nossa sommelier do coração. A Erika a conhece há algum tempo e as duas decidiram montar um grupo de mulheres. A Erika toca toda a parte de divulgação, associação, custos e a Cecília faz o show. Dá super certo.

               – Ah, entendi. Que legal. Amanhã mesmo vou assistir ao vídeo para me associar.

               – Você vai adorar. Bom, tenho que ir. Meu marido já me mandou mil mensagens. Até parece que o mundo vai acabar porque estou fora de casa à noite. Eu hein… Beijos, querida, foi um prazer.

Quando Mariana se deu conta, todas já haviam descido. Desceu também e resolveu ir embora, pois já havia bebido sua cota de uísque e fumado mais do que tinha planejado. A cabeça doía. Estava na fila do caixa quando Cecília a abordou:

               – Já vai?

               Mariana se virou, sobressaltada:

               – Que susto… Sim, está tarde e estou cansada. Mas foi maravilhoso! Adorei! Obrigada por me chamar. Foi uma experiência e tanto!

               – Fico feliz que tenha gostado. Vai se associar?

               – Ah, vou sim. Amanhã mesmo.

               – Então nos veremos mais vezes. De qualquer forma, vou deixar meu cartão com você para quando quiser bater um papo. Eu tiro folga aos domingos. Podíamos almoçar, o que você acha?

               – Claro… seria ótimo…

Mariana entrou no Uber e ficou olhando para o cartão de Cecília. Afinal, era apenas um convite para um almoço, em um domingo qualquer. Por que isso a afetava tanto? Por que se sentiu incomodada, como se fosse um convite para um encontro? Mariana estava se precipitando, sendo preconceituosa? Não sabia absolutamente nada sobre a orientação sexual de Cecília. E se ela só quisesse mesmo conversar, estreitar a amizade? Isso não é possível? E se Cecília fosse um homem, teria Mariana se sentido lisonjeada ao invés de incomodada? E por que Mariana ficou com a impressão de que Erika e Cecília já tinham sido um casal? Essas ideias ficaram martelando a mente de Mariana até chegar em casa. Deixou o cartão sobre o balcão da cozinha, tomou um banho e tentou dormir. Estava cansada fisicamente, mas a mente pregava peças. Pegou o celular e viu a mensagem de Caio: “Arrasando no charuto, hein? E aí, como foi? Ou está sendo?”. Viu que ele tinha escrito há uma hora e resolveu responder. Contou como foi a noite e sobre Cecília e Caio disse para ela não ficar encanada. Por que não poderiam ser amigas? Ele até deu uma provocada em Mariana, soltando um “ah, mas vai que você gosta?”, ao que ela respondeu “deixa de ser besta” e o assunto parou e a conversa rumou para outros temas. Era mais de duas da manhã quando Mariana deixou o celular sobre o criado-mudo e se deitou. Dormiu um sono leve, curto e nada revigorante. No dia seguinte, acordou cedo e foi trabalhar. Estava com dor de cabeça e enjoada. Comeu alguma coisa no caminho, tomou um café preto e tentou se concentrar na reunião que tinha logo pela manhã. Sem sucesso. Em meio à discussão do grupo sobre como engajar os funcionários que haviam acabado de responder à pesquisa de clima, Mariana não conseguia parar de pensar na noite anterior. O que, de tão especial, havia acontecido? Ficou divagando sobre como entraria em contato com Cecília, sobre o que conversariam. Pensou na roupa que iria vestir, se usaria maquiagem ou não, perfume? Que tipo de comida será que Cecília gostava? Será que era daquelas magras que comiam de tudo? Mariana olhou para a barriguinha saliente e se lembrou de que precisava retomar a academia. “Por que estou pensando nisso, meu Deus?” A reunião acabou, sem que chegassem a nenhuma conclusão, como era praxe. Marcaram outra data para buscar uma solução. “Mais do mesmo”, pensou Mariana. Ao chegar à sua mesa, Mariana assistiu ao vídeo das Charutandas, acessou o site e se cadastrou. Em seguida, recebeu o ok por e-mail de sua associação e algumas instruções. Ficou feliz por ter dado continuidade e por fazer parte de algo que não a brigada de incêndio da empresa. O restante do dia se arrastou em atividades rotineiras e mais reuniões inconclusivas, até que, ao sair do trabalho, Mariana foi até a academia perto de sua casa e retomou o treino, abandonado há algumas semanas. Tomou um iogurte antes de se deitar e pensou “agora vai!”. Sabia que isso duraria pouco, mas mesmo assim estava tentando se animar. A auto sabotagem já lhe era familiar. Por isso fazia terapia, mas também tinha dado alguns canos na Dra. Lídia. Amanhã ligaria para remarcar as consultas. De repente, Mariana percebeu que sua vida estava quase à deriva. Um barquinho no meio do mar, sem direção alguma. E ela ali, ao sabor do vento. Novamente, demorou para pegar no sono, em meio à auto análise tardia, e quando foi dormir, eram quase três da manhã. Assim que o alarme tocou, teve raiva de si mesma. Parecia um zumbi. Tomou uma ducha rápida para acordar, pegou qualquer coisa na geladeira para comer no carro e se foi. Ao chegar ao trabalho, logo se enfiou em reuniões intermináveis, desta vez sobre inclusão e diversidade e como ter esse departamento na empresa. Ela já tinha dado sua opinião várias vezes a respeito do tema, da importância e do cuidado que teriam que ter para não se tornar algo oportunista e desajeitado. Porém, pelo rumo que a conversa estava tomando, ficou desanimada e não teve vontade de comentar além do necessário. Sabia que, ao final, sairia algo oportunista e desajeitado e que ela teria que consertar depois, como sempre. Assim que saiu da reunião, marcou a consulta com a terapeuta e ainda levou sermão da secretária por ter demorado tanto. Almoçou sozinha, na mesa, para terminar tudo o que tinha e sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Conseguiu ânimo para ir novamente à academia. Correu por meia hora e fez pilates. Chegou em casa e pediu comida japonesa. Não havia nenhum convite para happy hour, cinema ou jantar. “Sou uma antissocial”, pensou. As pessoas já haviam desistido de convidá-la, pois sempre recusava. Não tinha paciência para o pessoal do trabalho, e as amigas só falavam de filhos e maridos. Precisava mudar o círculo de amizade, mas tinha preguiça. Pensou na confraria, em Cecília e sorriu. Quem sabe não seria ali o recomeço de tudo? Ligou a TV e assistiu um filme qualquer na Netflix. Eram dez da noite quando olhou para o balcão da cozinha e viu o cartão ali, no mesmo lugar em que deixara. Levantou-se para pegá-lo e resolveu ligar para Cecília. Ela não atendeu. Escreveu no WhatsApp: “Oi, aqui é a Mariana. Nos conhecemos anteontem no clube de charutos. Que tal almoçarmos neste domingo?” Hesitou antes de enviar, pensou nos prós e contras, viu que estava pensando demais e enviou a mensagem. O que de mal poderia acontecer? E se ela não respondesse? E se ela só estivesse sendo educada ao falar sobre o almoço? Percebendo que estava entrando em um espiral, respirou fundo e foi para o quarto. Colocou a música para meditação no celular, se deitou e tentou relaxar. Dessa vez, conseguiu. Dormiu profundamente e acordou cedo em um sábado ensolarado. Ligou para a irmã e combinaram de almoçar. Assim que entrou no carro, já bateu o arrependimento. Teria que aguentar o cunhado mala e as crianças gritando pela casa. Não havia como desistir mais. Teria que enfrentar. Colocou um rock para animar e se foi.. O quer era para ser um almoço rápido, se estendeu para o famigerado lanche da noite. No final das contas, foram mais dois casais de amigos, cada um com dois filhos e a casa estava cheia e barulhenta. Mariana ficou com pena da irmã e ficou para ajudar. Até aspirador passou quando todo mundo foi embora. Ao voltar para casa no final da noite do sábado, estava exausta. Sentou-se no sofá da sala, com uma taça de vinho na mão e respirou aliviada. Enfim, em casa. Olhou o celular (que havia ficado na bolsa o dia todo) e tinha uma mensagem de Cecília, topando o almoço. Por que Mariana sentiu um frio na barriga?

Eliana Leite

20/02/2020

O que estou realmente fazendo para mudar?

Mais importante do que seguir tendências, muitas vezes sem saber muito bem a que se destinam ou porque foram criadas, é efetivamente entender, estudar, saber seu lugar de fala, ouvir (mas ouvir mesmo), não ser arrogante achando que porque leu um post já sabe tudo sobre algo que existe há anos. Não resolvemos problemas históricos e estruturais sendo rasos ou nos apropriando indevidamente daquilo que não compreendemos. Pergunte-se: o que eu REALMENTE estou fazendo, dentro do meu microcosmo, para não contribuir com isso? Como eu me comporto, no dia a dia, diante do racismo e diante de uma pessoa negra? Sou condescendente? Sou paternalista? Sou “bonzinho”? Sou solidário até a página 10, porque não consigo suportar ou entender de verdade a realidade do outro? Todo dia se pergunte e todo dia seja sincero e busque a mudança que fará alguma mínima diferença. Se vidas importam e para que não deixemos privilégios intrínsecos nos cegarem, vamos estudar, ler, entender e MUDAR. Menos “trends”, mais “truth”. Eu tenho mil perguntas sem respostas e me questiono sobre meu próprio comportamento e a consequência de meus privilégios. E você?

Um Dia

Um dia nublado

Garoa, para, garoa, para

Aquele canto dos pássaros que eu ouvia

Para onde foi?

Aquelas risadas das crianças brincando após o almoço

O que as calou?

Um dia nublado

Final de outono

As plantas estão tristes

As borboletas sumiram

Anoitece logo

Quando vejo, já não vejo mais nada

Acendo a luz

Ouço o chamado dos morcegos

Que logo partem

Os sons que permanecem, faça chuva, faça sol

São das motos, das britadeiras, dos carros e da máquina de lavar roupa

A minha, a do vizinho…

Até as notícias são mais cinzas

As roupas

As pessoas

Um dia nublado

Sem sinal do sol

Uma chuva fina, inoportuna

Tanto quanto a morte que nos espreita

E se mostra aos que se distraem

Aos que não se cobrem

No ar frio desse dia cinzento

Um dia nublado

É só mais um dia…

Sinto falta das maritacas

Das joaninhas

Do pequeno arco íris no vidro da janela da sala

Um dia nublado

Páginas de um livro são devoradas

Enquanto a TV anuncia

Mais mortes

Mais cores cinzas

E logo virá o inverno

Aguardemos com nossos cachecóis

Nossos chás quentes

E uma pitada de esperança

Eliana Leite

14/05/2020

Soraia

Estava escuro na rua. Garoava. Era Outono. O guarda-chuva era inútil, pois a garoa vinha oblíqua e molhava seu rosto. Estava com frio. Soraia andava rápido, pois tinha que chegar em casa a tempo de José sair para o trabalho e não deixar a filha sozinha. Não queria dar motivo para ele ficar nervoso. A mandíbula ainda doía do soco da semana passada. Quando sua patroa perguntou o que tinha acontecido, disse que caiu na rua. Quando seu irmão perguntou, disse que não era da conta dele. Quando se olhou no espelho, teve vergonha. Chegou em casa, esbaforida, a tempo. A tempo para a dupla jornada: lavar, passar, cozinhar e cuidar da filha. A repetição do trabalho que fazia na casa dos outros. Entregava o salário na mão de José, toda semana. Ele que cuidava dos gastos. Quando sobrava, dava um dinheiro para ela. Cada vez, mais, isso era raro. Costumava guardar o dinheiro em um pote, na gaveta da cômoda, no quarto. A última vez que olhou, mal tinha dinheiro para comprar calcinhas. E estava precisando. Quando pediu a José, ele riu. E não deu o dinheiro. Ela, então, guardou um pouco para si do que tinha recebido da patroa. Na hora, ele percebeu que tinha menos. Ela mentiu, dizendo que a patroa ia completar na semana seguinte. Não teve tempo de desviar. O tapa veio na mesma hora. E então ele a revistou em busca do dinheiro. Encontrou. Deu outro tapa. E saiu com o dinheiro, no meio da noite. Soraia nunca mais guardou o dinheiro, nem pediu. Começou a pedir dinheiro emprestado para a irmã, Maria, que reclamava, mas tinha pena e dava. Maria trabalhava como supervisora em uma empresa prestadora de serviços de limpeza. Estava fazendo faculdade, não era casada. Soraia tinha um baita orgulho da irmã. Invejava a liberdade dela. A inteligência. Soraia não conseguia sair do buraco em que tinha se metido. Na verdade, nem tentou. Tinha medo. Quando conversava com Maria sobre isso, era dolorido, triste. Maria dizia que ela tinha que denunciar José. Soraia nem sabia como faria isso. Ficava sem chão ao pensar na filha, sem pai. Soraia mal sabia ler e escrever. Tinha completado o curso fundamental, e olhe lá. Conseguiu o trabalho na casa da patroa por indicação da irmã. Aceitou trabalhar sem registro. Precisava do dinheiro. Não sabia muitas coisas. Só queria que sua filha pudesse terminar os estudos e ser melhor do que ela. Conhecia José desde sempre. Ele começou a bater nela depois que a filha nasceu. Soraia não entendia o porquê. Não conseguia conversar com José sobre isso. Não sabia o que dizer. Pensou, no fundo, que talvez merecesse ser tratada daquela forma por ser burra, por não ter vencido na vida. José vivia a chamando de tonta, de mula. Ela aceitava. Não falava nada disso para o irmão, Antonio, porque este a julgava. Não era como Maria, que a ouvia e tentava ajudar, mesmo não conseguindo. Antonio tinha uma esposa que trabalhava em dois turnos e ele não fazia muita coisa para ajudar. Vivia de bicos e era basicamente um vagabundo. Soraia o observava rondando pelo bairro, parando nos bares, conversando com as mulheres. Então, quem era ele para julgá-la? Ela podia até não saber muito, mas sabia que o irmão não era grande coisa. Naquela noite, colocou a filha para dormir cedo e ficou na janela, observando. De repente, viu o irmão zanzando pela rua em direção à casa dele. Conhecia aquele olhar. Olhar de bêbado. Era o mesmo que José tinha nos finais de semana. Os piores. Resolveu sair de casa e seguir Antonio, que mal percebeu. Assim que o viu chegar em casa, se esgueirou atrás da janela. Ouviu-o chamado pela esposa. Quando viu que ela não respondia, começou a gritar. Soraia não entendeu. Ouviu o barulho de louças quebrando. Antonio estava tendo um ataque. Resolveu entrar na casa. Assim que entrou, gritou para Antonio parar com aquilo. Este, bêbado, sem entender nada, parou. Caiu no chão. Começou a chorar. “Ela foi embora, Soraia! Ela me deixou”. Soraia levou o irmão para tomar um banho frio, fez um café forte e esperou ele se recompor. Conversaram. Ele explicou que há alguns dias tinham tido um briga feia, em que ela disse tudo o que estava entalado há anos, segundo ela mesma, que não aguentava mais a vagabundagem dele. Quando ouviu isso, Antonio confessou à irmã que perdeu as estribeiras e deu um tapa na cara dela, que devolveu na hora e disse que iria embora. E, desde então, sumiu mesmo, não deu mais sinal e ele estava desesperado. “O que eu faço, irmã?” Soraia ouviu tudo aquilo e, de repente, teve vontade de bater no irmão. Começou a chorar. Antonio não entendeu nada. Perguntou se estava tudo bem. Soraia começou, então, a dizer a ele que não se bate em mulher, que ela estava certa em ir embora, onde já se viu, aguentar a vagabundagem dele e ainda ter que levar um tapa na cara. Defendeu a cunhada e acusou Antonio de ser um fracassado. “Eu apanho do meu marido, mas sou fraca. A sua mulher é que está certa. Você não passa de um covarde”. Antonio ficou olhando para a irmã, atônito. “Você apanha do José?” Soraia respondeu que aquilo não vinha ao caso. Antonio insistiu “como assim, apanha?” Então, Soraia mostrou o último hematoma. “Sim, apanho, olha aqui! Mas e daí, você também bateu na sua mulher!” Antonio se levantou e chutou a cadeira, com raiva. “Ninguém bate na minha irmã! Vou acabar com esse desgraçado”. Soraia começou a rir. “Você não está falando sério, né? Acabou de dizer que bateu na Célia e agora vai dar uma de valentão para cima do José pela mesma coisa?” “Não é a mesma coisa!” “É sim! Não quero que você venha me defender. Você é igual a ele. Se a mãe estivesse viva, estaria morrendo de vergonha de você. Um bêbado, vagabundo e covarde.” Antonio levantou a mão e então Soraia o enfrentou: “Vai bater em mim? Viu como você é um bosta? Vem, bate! Mas se bater, eu te arrebento!” Antonio abaixou a mão e começou a chorar novamente. Soraia o deixou na casa e se foi. Ao chegar em casa, arrumou sua mala, a de sua filha e se foi, sem deixar bilhete, nem nada.

Heloísa

Heloísa não se considerava uma pessoa distraída. Porém, naquele dia em especial, estava aérea, com os pensamentos em tudo, menos no trânsito. Não notou que o farol tinha fechado e bateu no carro da frente. Antes de qualquer coisa, se xingou e começou a procurar o cartão da seguradora. Enquanto buscava na carteira, ouviu baterem no vidro do carro. Assustada, viu um homem alto, forte e bravo gritando para ela sair do carro. Fez sinal de “calma” para o homem, que estava nervoso e gritava “sai desse carro! Olha o que você fez!” Teve medo de sair e abriu o vidro. Iniciou pedindo desculpas e dizendo que estava procurando o telefone da seguradora. Ele começou a bater na lataria e então Heloísa fechou o vidro. Começou a tremer e não conseguia pensar em mais nada. Enquanto isso, o homem surtava. Até que se juntaram outros homens ao lado dele para tentar acalmá-lo e ele os incitou a fazer com que ela saísse do carro. Começaram a chamá-la de “piranha covarde” e a sacudir o carro. Heloísa pegou o celular e ligou para a polícia. Não foi levada a sério. Nem anotaram seu nome. Começou a chorar. Gesticulava para que eles parassem, mas não tinha coragem de sair do carro. Pegou novamente o celular para tentar ligar para alguém conhecido, quando, de repente, ouviu uma sirene de ambulância, que acabou dispersando o grupo. Neste momento, deu partida no carro, deu a ré e saiu cantando pneu, atrás da ambulância. Olhou pelo retrovisor e percebeu que o cara estava entrando no carro para segui-la. Enquanto dirigia, imaginava o que ele poderia fazer com ela? Agredi-la? Matá-la? Era um grande absurdo aquela situação. Num impulso, ao avistar um posto de gasolina, encostou o carro por ali mesmo, desligou o motor e saiu em direção à loja de conveniência. Ao entrar, procurou pela atendente e explicou a situação. Disse que não sabia se seu “perseguidor” entraria lá e estava com medo. A atendente, visivelmente chocada, chamou um dos frentistas e explicou a situação. Heloísa saiu da loja de conveniência junto com o frentista e ficaram ali parados, esperando. Alguns minutos depois, o carro do cara entrou no posto. Ele estacionou ao lado do carro de Heloísa e saiu, furioso. O frentista se colocou entre ele e Heloísa e pediu para ele se acalmar. O cara continuava gritando, parecia que tinha sangue nos olhos. Duas frentistas se aproximaram e se postaram ao lado do cara. Uma delas disse que se o cara não parasse de gritar, chamaria a polícia. Diante disso, ele parou de falar. Heloísa tomou coragem e disse a ele que ela estava apenas pegando o cartão da seguradora, que sabia que estava errada ao bater no carro dele, mas que nada daquilo justificava a atitude dele. Ela teve que sair dali porque eles estavam a assediando e ela estava com medo. Ao ouvir a palavra “assediando”, o cara ficou vermelho, e disse, entredentes “tá se achando muito gostosa, não?”. Nisso, uma das frentistas chamou a atenção dele e recomendou que pegasse as informações de que necessitava e se retirasse. O cara tinha as veias da testa saltadas, de tanto nervoso. Heloísa sentia as pernas tremerem, o estômago doer. Assim que ele pegou os dados, olhou para os frentistas e cuspiu no chão. Entrou no carro e saiu. Heloísa teve uma crise de choro e foi amparada pelos três. Tomou um copo de água e se recompôs. Agradeceu mil vezes aos três, teve uma mistura de vergonha e alívio. Estava entrando no carro, quando uma das frentistas disse: “Você não está sozinha. Juntas, somos mais fortes. E você pode denunciá-lo a qualquer momento. Se não agirmos, isso nunca vai parar.” Saiu do posto, com um pouco de esperança na humanidade. Ligou para o marido, finalmente, e explicou o que tinha acontecido. Após ouvir toda a história, ele perguntou: “Nossa, mas o que você fez para irritar tanto o cara?” Naquele momento, resolveu ir para a casa da irmã.

Pandemia

Pergunto-me se imaginava testemunhar e vivenciar uma pandemia como esta que se apresenta. Não, eu não imaginava. Não pensei que viveria dias assim, que veria notícias sobre número de casos x número de mortes diariamente e que o medo seria um companheiro diário. O medo de me contaminar, o medo de morrer, o medo de que meus pais adoeçam, meu marido, amigos, vizinho. A aflição de viver num país despreparado, com pessoas que morrerão de fome porque não tem casa para ficar. Pessoas que morrerão porque não tem água para lavar as mãos. Pessoas que morrerão porque na hora que o bicho pegar, e ele vai pegar, haverá uma seleção de quem salvar.

Penso na falta de união do Poder Executivo… Penso na burocracia que impede que a ajuda chegue a quem precisa. Penso no fato de que eu comecei um novo negócio junto com o Coronavírus. Penso que sou privilegiada e que ficar em casa é a melhor coisa que faço para ajudar o outro. Penso no futuro, sem saber do presente. Há dias em que sou tomada por uma tristeza enorme, impotência. Há dias em que busco esperança dentro de mim. Tendo a ser otimista, mas ultimamente, a realidade tem se mostrado dura.

Não tenho o objetivo de ser alarmista ou fatalista, ou de ser aquela personagem que grita por aí “vamos todos morrer”! Não. Longe disso. Apenas não sei se sei como lidar, pois é a primeira vez que vivo isso. Nunca participei de uma guerra. Nunca passei fome. Nunca precisei racionar a comida de hoje para não passar necessidade amanhã. Sei o que li. O que ouvi. Àquilo que assisti em documentários, filmes, relatos. Estamos em guerra? O inimigo é invisível? Somos, de fato, vítimas? Ou estamos diante do inevitável, do inexorável, da consequência de nossos atos? A pandemia revela outras mazelas. Sociais, políticas, econômicas e comportamentais. Não vivo o lockdown (ainda), mas, dentro do que consigo, faço o isolamento, distanciamento, quarentena, seja o nome que for. Isso já não é fácil. Se meu vizinho não faz o mesmo que eu, porque estamos ainda na base do bom senso, adianta eu gritar para ele ficar em casa? Agredir verbalmente os idosos porque eles precisam ir à farmácia (existem idosos sozinhos e agora, ao invés de julgá-lo, é necessário refletir sobre o motivo pelo qual ele está sozinho) ajuda em que? Vejo julgamentos, pessoas com soluções para problemas alheios, total falta de empatia, passividade e vitimismo. Não sei o que é pior.

O que vivemos hoje nada mais é do que o resultado da falta de recursos, desde saneamento até educação, passando por nutrição e saúde, velada por discursos vazios e inócuos. Temos uma desunião em meio a uma pandemia. Para mim, isso é apenas a ponta do iceberg. Conversando com pessoas, vejo que a preocupação com a economia é real, tangível, iminente. O comerciante que teve que fechar as portas tem contas para pagar e pessoas que dependem dele. Ele deve se calar? O autônomo que vive do seu trabalho diário, da prestação de serviços, para de trabalhar e vive do que? A diarista que parou de trabalhar e não está recebendo, faz o quê? Eles também devem se calar? Não sei. Qual a solução? O Estado? Um jornalista mencionou, desde o início da pandemia, que a mão invisível do mercado saiu para passar álcool em gel e agora é a vez da mão pesada do Estado entrar. Isso já faz pelo menos um mês. E a ajuda até veio. Aí aparecem as mazelas. A pessoa teve o CPF cancelado porque não votou. A pessoa sequer tem CPF. Não sabe o que é um aplicativo, não tem celular, não tem conhecimento nem recursos suficientes para compreender essa comunicação que é vomitada como se fossem todos iguais. Ouço em diversos canais que não estamos no mesmo barco, pois cada um está numa situação diferente. Concordo. Por isso, a união, o alinhamento na comunicação, a urgência na ajuda e o afastamento de demagogias e egos é fundamental. Porém, como mencionei antes, as crises revelam o que há de pior e melhor nas pessoas. Quem é bom, continua bom. Quem é egoísta, se torna mais egoísta. Um país que não sabe para onde quer ir, continuará ainda mais perdido.

O vírus está aí. Não adianta negar a sua existência. Não adianta colocar um véu ou fechar os olhos para o que virá pela frente, ou, ainda pior, fazer com que toda uma nação feche os olhos para um buraco para então cair em outro. Não há um caminho fácil, pois o cobertor é curto. Entretanto, é mais do que necessário oferecer soluções, possibilidades. Quebrar paradigmas, círculos viciosos e padrões tóxicos. A verdadeira pandemia pode vir da manutenção de comportamentos e discursos que levam à negação. E, invariavelmente, morreremos, de um mal ou de outro.

Finalizo com uma frase de Carl Jung: “Aquilo a que você resiste, persiste.”

Eliana Leite – 14/04/2020

Em Chamas

Fogo jovem, imaturo
Queima nas ruas e encanta
Incontrolável, ataca inocentes
Imprevisível, varre os olhos.
 
Água velha, consciente
Jorra de fontes nas praças, enfeita
Incoerente, molha sem molhar
Mata a sede dos pássaros
Insípida, inodora, incolor.
 
Água que banha o fogo
O novo e o antigo em conjunção
 
Impossível
 
Água, mesmo rala,
Extingue o fogo...
 
Fogueira no coração
Água na alma
Confusão no verbo
 
Inconclusivo...
 
O beijo, caloroso
A realidade, fria
Momento ímpar, paralisa
Não se repetirá
Ficará na foto
 
Irretratável
 
De que forma o fogo pode superar
A água, implacável?
Somente pelo excesso
Sobre a escassez?
 
Injusto...
 
Palavras, fogosas
Relações aguadas
Sentimentos em cinzas
Uma brasa escapou naquela noite.
 
Inconsciente...
 
Temo o fogo, mas o amo
Recebo a água e dela necessito
Sol, lua, mar, areia quente
Fumaça
 
Incêndio...
 
Labaredas belas fogem para o céu
Livres ao ar
Lambem as estrelas
Tentam o oceano
E nele morrem
 
Incandescente...
 
Estalo de madeira queimando
Extintor
Bombeiro
Socorro
 
Insuficiente...
 
Que se ilumine a caverna escura
Que se encha o cantil
Que se conjuguem os opostos
Que um penetre no outro
 
Invisível..
 
Tempestade
Granizo
Chuva
Garoa
 
Inesperado...
 
Escorre o líquido por entre os dedos
Arde o fogaréu das ideias
 
Intangíveis...
 
Eliana Leite
(28/08/2005)