Vida Passageira

Os dias passam, crescem as flores

Do jardim onde brincávamos.

Velhos ideais são abandonados

E o espaço permanece vago

Durante um tempo

Ao qual chamamos juventude.

Os prédios alcançam o céu

Onde brilha o sol

Que antes nos iluminava o sorriso.

As lembranças vão e voltam com o vento

E varrem remorsos ou rancores,

Transformando lágrimas de dor

Em saudades ou indiferença.

A voz da criança chorando

É substituída pelo silêncio

Trazido pelo tempo gasto

Na procura por um sonho

Que, mesmo não se realizando,

Fará parte de nossa vida.

Vamos sentir falta do que nunca tivemos

Ou dos que não conhecemos

E então desistiremos

Do que já é nosso,

Mas não precisamos.

Eliana Leite

1993

Paciência

Parece uma vovó chata na cadeira de balanço fazendo tricô. Sem ninguém por perto, sem música, sem pássaros, sem a luz do sol, sem vida, sem nada. Só o barulho incessante da cadeira de balanço e o “tléc tléc” das agulhas. Tricota o quê? Uma malha? Para quem? De que cor?

Olhando para o tricô, se balançando na cadeira, não sorri, não fica triste, não chora, não pisca, não fala, quase não respira.

É a paciência. Velha e sem graça. Monótona e repetitiva. Sem sentido.

É o que ela parece ser a uma criança inquieta que a observa. “Vovó, o que você está fazendo?” E a vovó não responde. “Vovó, vamos lá fora brincar? Vamos! Vamos! Agora!” E a vovó não responde, não brinca, não olha para a criança. Porque não a escuta. A criança não a perturba. Nada a perturba. O passar do tempo não a incomoda. O “tique taque” do relógio não significa nada. O passar dos dias não a deixa menos tranquila. Sabe que tem que terminar aquela malha.

Não é uma vovó chata.

É uma mulher madura, segura de si. Não está numa cadeira de balanço. Está circulando, calmamente, pela casa, com seus afazeres. Não tricota, apenas. Vai fazendo um pouco de cada vez. Estava tricotando durante aquela hora em que a criança se sentou no chão para desenhar. O sol não estava lá porque já era final da tarde. Não havia música porque queria um pouco de silêncio. Para pensar, refletir sobre o dia, sobre o que fez. Quando vê a criança no chão, até se assusta. Quem é aquela pequena criatura? Olha ao redor, não compreende. Percebe, então, que a criança é ela mesma, há anos. Quando gostava de sentar-se ao chão e rabiscar com giz de cera, brincar de massinha, sujar-se toda. E depois, corria por aí, procurando algo diferente para fazer. Pular amarelinha, pega-pega, queimada, boneca, quebra-cabeça, nossa! Quanta coisa! Mas, o tempo foi passando, ela foi crescendo, e as brincadeiras mudaram. De repente, não eram mais permitidas as brincadeiras, tampouco as interessava. Descobriu os livros. A imaginação. Contar histórias. Desenhar mundos irreais. Tinha deveres, que aumentavam com o passar dos anos. Estudar. Horários. Gostava de tudo aquilo. Ocupava seu tempo. E, quando tinha esse tempo livre, lia, escrevia, saía com amigos, praticava esportes. Começou a trabalhar. Namorar. Não parava nunca. Só para dormir. Não tricotava. Não respirava. Não ficava sentada por muito tempo. Corria para lá e para cá. Todo dia era dia de atividades, rotinas, mesmo que fossem diferentes a cada dia. Natação, vôlei, academia, caminhada, pós-graduação, viagens, filmes, livros, música, dança, bares, amigos, trabalho, trabalho. E, de repente, um VAZIO… Vazio, oco, eco, buraco, vale, abismo, nada, só, persistente e perturbador VAZIO. Por que tamanho vazio? Tantas atividades!!! Como poderia sentir um buraco dentro de si? Quase não tinha tempo nem para respirar! Nem tinha tempo para sentir vazio. Porém, inexorável, ele chegou! Quem é o vazio? O que é? Por que está aqui? Por que, em sendo vazio, toma a forma do aperto no peito, do nó no estômago, da falta de sentido nas coisas como estão?

O vazio não tem forma! Ele devasta as formas. Mas, ao mesmo tempo, toma conta. Pode até cegar, enlouquecer.

Do vazio, par a paciência…

Do vazio para a serenidade…

O vazio é tudo aquilo de doloroso que me corrói hoje. Impaciência infantil. Ansiedade indiscriminada. Cansaço gigantesco. Corpo e alma doentes. Coração confuso. Libido estragada. Stress! Esse que é o CONJUNTO DE TUDO! Esse que é o momento invisível que toma poder de tudo à sua volta, tira o sono tranquilo, tira a paz, até a vontade de certas coisas, a saúde, a sensatez! Ah, mas a Paciência pega sua grande vassoura e varre todo o chão, abre as janelas, rega as flores, acende um incenso e… volta a tricotar.

Tem saudades da criança, mas sabe que todas as crianças são assim: sempre ativas, sempre elétricas, mas sempre dormem tranquilas.

Não tem saudades da criança em que a criança se transformou. Esta se foi porque seu tempo acabou.

O tempo agora é de calma, paz, barulho do mar, das ondas, da lua, do sol, das folhas das árvores, do violino, dos girassóis…

Tempo de se voltar para si e se amar. Só de pensar nisso dá vontade de chorar. Parece tão longe…

Eliana Leite

16/06/2004

Resenha: A Melhor História Está Por Vir, de María Dueñas

Sinopse:

Uma professora espanhola descobre um mundo inesperado e instigante ao passar uma temporada de trabalho na Califórnia.

Incapaz de se recompor sozinha, a professora madrilenha Blanca Perea aceita sem pensar muito o que parece ser apenas um tedioso projeto acadêmico. Sua estabilidade pessoal acaba de ruir e seu casamento foi pelos ares. Confusa e devastada, uma ida à aparentemente insignificante universidade californiana de Santa Cecilia é sua única opção.

Minhas impressões:

É o primeiro livro de María Dueñas que leio. Estou com o “Tempo Entre Costuras” na minha lista há algum tempo, mas resolvi começar por este. A história me prendeu e eu não conseguir largar. É um livro muito bom, bem escrito e com passagens muito interessantes sobre a Espanha, especialmente quando conta as histórias dos professores Andrés Fontana e Daniel Carter. Existem clichês, sim, principalmente quando se aproxima do final, um tanto quanto melado. Penso que daria um bom filme… Não chega a ser um livro excelente, e não está na lista dos “top 20”, mas é uma leitura bem fluida, para ler nas férias, por exemplo, ou num final de semana despretensioso, acompanhando de uma xícara de café ou, por que não, uma taça de vinho espanhol ou californiano… As personagens são cativantes e o desfecho é agradável. Confesso que chorei um pouquinho, como choraria se fosse um filme. Não chega a ser um drama tristonho, longe disso. Existem algumas passagens tristes, mas o “astral” é bom. Devo admitir que gosto de histórias sombrias, finais tristes, dramas densos. E, por isso, esse livro foi uma pausa entre tantos dramas pesados. Sempre precisamos de um intervalo, de uma pitada de açúcar e canela, não é mesmo? Por este motivo, por ter me deixado tão bem, dei 4 estrelas, de 5. Recomendo para quem busca um toque de doçura.

ESPIRAL

Apaixonada…

Pelo Amor…

Por seu espectro, sua falta de forma

O cheiro de amor

Ar lívido… líquido diáfano

Sinto amor pelo simples

Amar…

Aquela brisa no final de tarde

Sabor de mar

E a areia na pele, penetrante

O tatear do amor, delicado

Triângulo na maçã do rosto

Suspiro longo, quase dolorido

Toques suaves

Bicho-da-seda mágico

Tece sem parar

O céu, a terra, tudo está dentro

E fora do amor

Amor eterno…

Paro um minuto, olho para os lados

Amor efêmero

Não é mais…

Sua meretriz, a paixão

Não a quero por ora

Que se vá

Porque já me furou

Rasgou, queimou

Agora, estou flutuando

Penso no amor

Por si só, por ninguém

Por todos, por mim

E me transporto

Àquele planeta fantástico

Onde?

Aqui dentro

Lá no fundo

Puro e inebriante amor…

Eliana Leite

05/09/2005

Cotidiano

A água da chuva cai

Sem se importar

O pássaro canta no mesmo horário, todas as manhãs,

Sem se importar

O gato grita todas as noites, louco e livre,

Sem se importar

O cão velho e rouco late para o nada, diariamente,

Sem se importar

A criança corre para os braços da mãe, ao voltar da escola,

Sem se importar

A velha senhora varre a calçada, faça chuva ou faça sol, às dez da manhã,

Sem se importar

A árvore dança ao vento, batendo suas folhas na janela,

Sem se importar

A pomba bate suas asas barulhentas, cisca no lixo,

Sem se importar

A moça ao lado toma o café preto e fuma um cigarro na sacada,

Sem se importar

A vida lá fora segue, sem se importar

Com seu cabelo

Sua roupa

A hora que acorda

A hora que dorme

O sol, a lua, as nuvens, as joaninhas e as mariposas

Realmente não se importam

Com suas frivolidades

Seus pseudo medos

Quem chegou

Quem foi embora

Então, por que você se importa?

Quando deixou de se importar com o café quente

O pão saído do forno

Ligar para sua mãe

Abraçar seu pai?

Quando não se lembrou mais

De consolar sua irmã

Acalentar a alma

Regar as plantas?

Quando foi a última vez que fez amor com amor

Que sorriu para o espelho

Foi gentil consigo mesma

Amansou a fera interior?

Por isso… faça como o vento que sopra

Sem se importar…

Eliana Leite

04/06/2019

Resenha: O Efeito Sombra

O Efeito Sombra

O Efeito Sombra by Deepak Chopra

My rating: 3 of 5 stars


A parte de que mais gostei, talvez por ser, para mim, mais fluida, foi a escrita por Debbie Ford. Fiquei um pouco perdida nos pensamentos de Deepak Chopra e a parte escrita por Marianne Williamson, apesar de curta, é cansativa e repetitiva (tem uma ou outra coisa reveladora). O livro traz uma interessante reflexão sobre os aspectos sombrios do ser humano, sob diferentes óticas. Acredito que Marianne é um tanto quanto impositiva e isso me afastou um pouco do que eu estava efetivamente buscando na leitura. Debbie Ford tem um tom mais dissertativo, fazendo diversas reflexões mais tangíveis, por assim dizer. Acho que é uma leitura que vale a pena, principalmente por ser um tema sobre o qual raramente leio ou paro para pensar. Foi bom para variar e conhecer outros autores e outra seara.



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Crisálida

Qual o sentido do amor?

Para que serve?

Qual seu significado?

Começa no olhar?

Ou na esperança

De que aquele olhar o seja?

Olhos tristes, corpo frágil,

Amor sustentado pela areia

Fadado ao brusco rompimento

Como se rompem as amarras de seda

Que prendem uma criança

Amor puro, verdadeiro

Não existe?

Como não existir, se é verdadeiro

E, se cada um tem uma verdade,

Como saber se meu verdadeiro amor

É o seu?

E não dela? Deles, de todos!

Nunca de um só!

Traição, ciúmes, loucura

Isso seria amor ou destruição?

Autoflagelo

Passam-se os anos

Autopreservação

Medo de ser tocado, reaberto,

Tal qual o baú afundado ao mar,

Deixado para apodrecer,

Mas não apodrece

Morrem seus donos, e ele fica

Amor e luz?

Ofusca, cega, queima

Não ilumina o caminho

Ou quem faz isso é a paixão

Contrapartida do amor?

Antônimo do amor, o ódio

Terrível algoz, dama de negro

Se é tão forte e poderoso

Também assim tem de ser o amor

Amo-te à minha maneira

Não te amo mais

Aprenderei a te amar

Amar-te-ei para sempre

Não sei se te amo

Nunca amei ninguém

Amo-te como és

Amar-te-ia se fosses melhor para mim

Já te amei um dia, hoje nem a mim

Para amar a outrem, devo começar por mim

Recuso-me a causar tão mal

A mim, à minha pobre e doce alma

Proíbo-te de dizer que me ama

Como quem saúda o dia

Afasto de ti meus lábios

Se estás sedento apenas pela aparência do amor

O lençol de cetim, a fantasia aveludada

O grito de amor, que logo se quebra e vira soluço de solidão

Amo-te assim, calado

Amo-te como se ama um filme mudo

Imagino belas palavras

Saírem de sua boca

Fazem-me bem, como mel

Ao experimentá-las, me ferem

Como ferrão, ardor, repulsa

Defendo-me do amor

Terei saboreado?

Ou foi algo muito parecido

Me tirou do chão

Para logo me arremessar

Duro, frio, real, cruel

Vemos o amor como belo

Beleza efêmera que se transforma

Em borboleta, magnífica

O primeiro vento a arrebata

Cai morta, esquecida,

Metamorfose

Então, não é amor

Amo-te porque é o que sei fazer de melhor

Me amas?

Quando pergunto, foges e deixas a porta entreaberta

Espaço suficiente para permanecer teu cheiro,

Teus sinais

Abandona-me, falso amor

Que de ti preciso

Do que preciso?

Fazer amor…

Mas ele já está feito!

Vem a nós, nos atinge o rosto, feito ventania

Cultivar o amor…

Com o que?

Passado, lembranças?

Tecer com fios rotos

Procuro um novo amor

Pensas que o amor está por aí, se renovando?

O amor é um só, antigo,

Imutável, resiste aos séculos, às guerras, às injustiças

Até ao preconceito

Amo um que não vejo

Um poeta, um filósofo

Um coração que bate e chama por meu nome

Mesmo que o humano jamais saiba, por ser grão, o que é amor

Diga-me que me ama

Para a noite ser menos fria…

Eliana Leite

10/07/2004

Vida Passageira

Os dias passam, crescem as flores

Do jardim onde brincávamos.

Velhos ideais são abandonados

E o espaço permanece vago

Durante um tempo

Ao qual chamamos juventude.

Os prédios alcançam o céu

Onde brilha o sol

Que antes nos iluminava o sorriso.

As lembranças vão e voltam com o vento

E varrem remorsos ou rancores,

Transformando lágrimas de dor

Em saudades ou indiferença.

A voz da criança chorando

É substituída pelo silêncio

Trazido pelo tempo gasto

Na procura por um sonho

Que, mesmo não se realizando,

Fará parte de nossa vida.

Vamos sentir falta do que nunca tivemos

Ou dos que não conhecemos

E então desistiremos

Do que já é nosso,

Mas não precisamos.

Eliana Leite

1993

Nuances

Palavras

São importantes?

Ou é o toque, ou é o olhar?

Seria o beijo, o calor dos corpos…

Nada disso?

Seria, então, o amanhecer tranquilo,

O abraço inaugural

Sob o segredo de cada um

Abrir os braços, sorrir, dançar

Confiar…

Esperar, sim, sempre…

A hora certa chegará

Chega para todos, por que não para mim?

Você pode olhar em meus olhos sem medo

Pode sugar meu gemido

Pode percorrer minhas costas com mãos trêmulas

Pode apertar meus braços

Pode me pedir o que for

Pode beijar, beijar, beijar

E, no final, pode querer me entender

Querer me querer

Dizer o que está na sua mente

Mas ainda não…

Posso dizer que sou sua, sem ser?

Posso beijar seus lábios, sem ver?

Posso saborear seu suco, sem beber?

Posso me render, me desmanchar

Sem deixar um pouco em você?

Garantias… não existem…

Não há a ânsia infantil

Mas o seu cheiro ficou em mim

A lembrança do seu olhar

Enquanto eu visitava os astros

Houve fogos de artificio, eu ouvi

Houve uma música incansável

Houve magia?

Desejo? Entrega? Prazer?

Sem palavras…

Elas me abandonaram

De minha boca nada saiu

A não ser um bom dia tímido

Agora elas voltam e me perturbam

Ladrão do verbo…

Dono do silêncio…

Que não tenha sido o fim

E sim o início de tudo

Que você rompa a barreira

Que eu me permita acreditar

Que posso ser verdadeiramente

Amada, por tudo que sou

Não pelas palavras

Não pelo incêndio

Não pela porta dos fundos

E que, se não for por você

Que doa menos do que sempre

Que eu me preserve

Ou que você me diga logo

Mas nem tão logo

Falta muito, não?

Percorreremos o caminho?

A palavra “sim” ou “não”

É importante?

Ou o que conta é pegar na mão e simplesmente

Levar junto…

Eliana Leite

Junho de 2004