Filme: O Espelho Tem Duas Faces – uma reflexão

Ela acredita que não é bonita como a irmã, é subjugada pela mãe e, por isso, se anula, se esconde. Ah, mas essa narrativa do filme parece muito óbvia… Do que ela se esconde? Do que nós nos escondemos? Por que usamos roupas que nos tornam ainda maiores, ou mais apagadas? Por que temos que odiar nossa aparência para então nos tornar algo “melhor”? Por que aceitamos toda essa raiva do mundo com relação à nossa aparência? Por que não sabemos o que é ser bonita? Por que bonito não é o que vemos diante do espelho?

E então a personagem de Barbra Streisand se transforma… mas continua sendo ela mesma na essência. E daí que ela quis perder peso? E se quisesse continuar gordinha? E daí que ela quis pintar o cabelo? A amiga dela acha ruim por ela não continuar a ser “feia”, mas depois entende que isso é uma escolha. E somos livres para escolhermos. Somos mesmo? Deveríamos, pelo menos. Uma coisa é se abraçar, se aceitar, se cuidar. Outra é ser vítima da indústria da beleza, sofrer por não atender a padrões inventados, se agredir para agradar a todos menos a si mesma. Até onde sabemos o limite? Ser inteligente é ser feia? Ser bonita é ser burra? Por que opomos uma coisa à outra? Ou, pior ainda, por que essa dualidade? Bonita/feia x burra/inteligente. Quem cuida de si, quem não cuida, quem tem vaidade, quem não tem… Isso por si só não define uma mulher. Volto, assim, ao título do filme: O Espelho Tem Duas Faces. Tudo nosso tem 2 faces. Lamento se você acreditou que não. Uma face? Não… O que é bonito, é feio. O que é certo, é errado. O que machuca, fortalece… e o que constrói, destrói…

Obrigada, Barbra, por esse filme maravilhoso, com um final maravilhoso, música perfeita e que me faz refletir sobre a minha relação comigo mesma.

Não assistiu ainda? Recomendo fortemente! Disponível no Netflix!

Dicas para o feriado!

Feriado de Páscoa chegando… Para quem quer descansar um pouco da correria do dia-a-dia, e se largar no sofá, tenho algumas dicas! Espero que gostem!

Operação Fronteira – estava ansiosa por este filme, pois gosto muito do Ben Affleck. O filme é bom, com momentos de tensão muito bem construídos, um elenco afinado e uma mensagem final bem interessante. Para mim, ficou a pergunta: “até onde estamos dispostos a ir? o quanto nos deixamos levar por aquilo que achamos que somos versus aquilo que fomos treinados para sermos?”. Vale a pena conferir! Depois, diga o que achou! O filme é bem recente e está no Netflix!

Virando a Página – delicia de filme “pescado” no Netflix! O filme é de 2014, estrelado por Hugh Grant (muito à vontade em sua personagem “décadence avéc élegance”) e Marisa Tomei (sempre ótima). É para uma tarde preguiçosa, com muita pipoca! Despretensioso e leve.

Que tal maratonar uma série? “How to Get Away with Murder” – está na 4ª Temporada no Netflix -cheia de reviravoltas, ardis, emboscadas e cenas de tribunais, além, claro, da maravilhosa Viola Davis. Ideal para quem está programando ficar no esquema sofá+netflix+pipoca+preguiça…

Quer filmes um pouco mais antigos que nunca saem de moda, seja para assistir novamente ou pela primeira vez? Esses dias assisti novamente “O Sorriso de Monalisa”, com as maravilhosas: Julia Roberts, Kirsten Dunst, Julia Stiles, Maggie Gyllenhaal, Marcia Gay Harden… O filme é de 2003, com um tema super atual e relevante. Nunca é tarde para assistir pela primeira vez e nunca é demais rever!

Uma outra dica é “À Espera de um Milagre”, com ninguém menos do que um de meus atores preferidos: Tom Hanks. O filme é de 2000 (nossa, já se passaram 19 anos!), mas nunca me canso dele. Tenho em DVD e amo de paixão. É uma história linda, emocionante, com um elenco maravilhoso. Ainda não assistiu? Não perca tempo! Já assistiu? Vale sempre a pena rever, não é? Às vezes eu gosto de assistir a uma reprise desse naipe acompanhada de um bom vinho… Feriadão… Por que não?

Bom Feriado!!! Deixem seus comentários!

Resenha: “Laços de Família”, Clarice Lispector

São treze contos no total. O tema é o cotidiano, uma foto de um instante, que contém toda a agonia da mediocridade do ser humano. Fazia algum tempo que eu não lia contos. Engana-se quem pensa que ler contos é mais “fácil” do que ler um romance. Para mim, quanto mais curto o conto, mais se deve prestar atenção. Pois, quando ele acaba, e é naquele “de repente”, você fica só. Olhando para o nada… Pelo menos é assim quando leio Clarice Lispector.

Os que eu mais gostei foram: “A imitação da rosa”, “Feliz aniversário”, “Preciosidade”, “Os laços de família”, “O crime do professor de matemática” e, por fim, “O búfalo”.

Cada um carrega em si uma história aparentemente simples, mundana. Porém, ali no meio temos: transtornos psicológicos, hipocrisia familiar, abuso, aprisionamento, falta de comunicação, sacrifícios e tristeza. “A imitação da rosa” chega a ser sufocante. “O crime do professor de matemática” é triste e abre um buraco na nossa cabeça. “O búfalo” é inominável em seu redemoinho de tristeza, (perda de) amor e entrega. “Preciosidade” chega a machucar. E, por fim, “Feliz aniversário” nada mais é do que o retrato de tantas famílias que vemos por aí. E isso tudo escrito em 1960, data da primeira edição deste livro.

Gostei do trecho da Nota Prévia da edição que li (Rocco, 1998), que cita trecho de entrevista concedida por Clarice a Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti para o MIS, em 20 de outubro de 1976:

“Affonso – Você tem os seus textos escritos na cabeça. E uma vez você me disse uma coisa impressionante: você nunca relê um texto seu.

Clarice – Não. Enjôo. Quando é publicado, é como livro morto. Não quero mais saber dele. E quando eu leio, estranho, acho ruim. Aí não leio, ora!”

Recomendo!

Desabafo durante uma tarde chuvosa

Eliana Leite

Pelo que vivo, pelas ruas em que ando e através da janela do meu quarto, vejo um mundo contrastante. Não consigo juntar as diferenças e pintar um único quadro. Vou abrir a porta para meus convidados. Espero que tirem as máscaras ao chegarem. Desejo pureza, verdade e espontaneidade. Nunca mais uma oportunidade assim surgirá. No jantar, sopa. Para beber, água. O assunto: Brasil. Resultado: lágrimas. Vou-me embora antes que nasça o sol, antes que o carteiro entregue-me o cartão-postal de Paris onde se encontram meus sonhos dourados. Quero voar, quero você, e tudo que tenho é um lençol para me cobrir durante a noite. Estou com frio. Vou acender uma vela e deixá-la queimar por toda a minha vida. Adeus, Grécia. Adeus, Roma. Sou muito mais antiga do que vocês. Sou mais nova que o mundo inteiro. Sou velha e menina ao mesmo tempo. Derrubei seu vaso, mãe. Perdi sua carteira, pai. Cresci. Renasci. E isso machuca…

(1994)

Águas Negras

A noite não quer dizer mais nada

Além da solidão que não se vai com o sol.

Essa escuridão tão longa quanto a dor

Que persiste em perturbar

E faz com que eu volte meus olhos

Para a imagem que abandonei

Como medo de que meu mundo,

Assim como o amor,

Fosse breve.

Da felicidade, pouco sei.

A palavra me amedontra,

O sentimento escapa.

Quando vejo as gostas de sangue

Vazando através dos sonhos

A aumentar a duração do medo,

Passo a me inclinar sobre as águas negras

Que resgatam meu passado e sufocam

O que virá pela frente.

Cubro meus olhos para que não haja

Precauções ou arrependimentos.

Preciso pisar em novos solos,

Ouvir novas vozes,

Sentir novos ventos, novos mares.

E livrar-me da desconfiança

Em relação ao que já existe.

Não preciso das pessoas, da humanidade.

Todas as lágrimas foram em função

De alguém, de atos.

Se minhas mãos tocarem o céu,

Meus lábios desejarem apenas vida

E o amor vier de outra direção

Eu terei me libertado

Das correntes que machucam minhas palavras

E tornam a noite cada vez mais vazia.

Eliana Leite

(1994)

Eu, por mim mesma

Aqui estou eu, sozinha

Descrevendo meus sentimentos

Deixando meu coração me guiar

E meu espírito se livrar

Deste meu corpo, tão concreto.

Pouco a pouco tudo vai desaparecer

Todos entrarão num sono profundo

Apenas eu acordarei dos meus sonhos

E colocarei meus pés neste mundo.

A brisa suave da manhã sentirei

Em minha alma penetrar

Em meu coração desenvolver

E só então poderei acordar.

No meu corpo despido, o Sol

A refletir todo seu brilho

Que fará brotarem as flores

E o meu desejo de sentir

A minha imaginação fluir.

Enfim, o dia termina

E caminho na luz do luar

Para em algum lugar dormir,

Sonhar,

E nunca mais acordar…

Eliana Leite

(1990)

Sangue

Gostaria de poder descobrir

A real cor de meu sangue

Que sangue será esse

Que corre em minhas veias

E a cada momento muda de cor,

Aumenta a dor

De meu corpo, minha alma

Cujo alimento é meu sangue

Um sangue de alguém que vive num mundo

Sem cor, sem expressão

Será que o que tenho em meu corpo

E em meu coração

É o mesmo que o Homem tem?

Aquele sangue sedento por vingança,

Louco por corpos ao chão,

Pedindo por misericórdia

Será aquele mesmo sangue

Que, ao transbordar,

Causa doenças sem cura

Se for, prefiro morrer

E nem ver

A cor de meu sangue

Pois já o vi em todo lugar

Já o vi de todas as cores.

Eliana Leite

(1990)

Violência


Photo by Ricardo Cruz on Unsplash

Famílias Despedaçadas

O coração sangra

A alma se afunda em lágrimas

80 tiros

Disparos contra uma pátria

Desalento

Desespero

Desumano

80 tiros

Crianças, viúvas

Rasgadas pelo ódio cego

Ignoradas, ignorantes de seu destino

80 tiros

Vidas que importam

E quem se importa?

Quem protege os assassinos?

Quem acolhe as vítimas?

80 tiros

Não são engano

Não são por acaso

Não são mera estatística

80 tiros

O terror nos assola

A impotência nos iguala

80 tiros

Onde vamos parar?

Eliana Leite

09/04/2019

Os filmes do final de semana

Gosto de finais de semana em que consigo assistir a filmes diferentes! Dois deles estavam na minha lista e o outro foi meio sem querer.

“A Favorita” foi uma grande decepção… Eu entendi a intenção do filme, que é fazer uma crítica à aristocracia inglesa, de uma forma ácida e sarcástica. Porém, o filme se arrasta, é pretensioso e termina sem pé nem cabeça. Pareceu uma receita de bolo que desandou. Me desculpem os que acharam o filme bom, mas eu realmente não gostei. E não acho que Olivia Colman mereceu o Oscar no lugar de Glenn Close. Adoro Rachel Weisz e Emma Stone, mas aqui elas me decepcionaram. O filme tem uma ou outra cena engraçada ou boa, mas grande parte é nonsense. Enfim… se quiserem se arriscar… rsrs…

“O Menino que Descobriu o Vento” é um filme lindo, com uma mensagem edificante. Emociona, denuncia, surpreende e deixa a esperança de um mundo melhor. Gostei muito da história (baseada em fatos reais, o que o torna ainda melhor), do elenco e da fotografia, que nos deixa agoniados com a pobreza e a fome. De chorar, mas um choro bom. Vale a pena conferir!

E o filme que assisti sem querer foi “A Barraca do Beijo”. Queria um filme leve, bobinho, para passar o tempo. E é isso o que este filme é. Nada de mais, bonitinho, leve. Vale para os adolescentes e românticos de plantão. Até tem umas cenas um pouco mais profundas, mas, no geral, é previsível e legalzinho. Foi bom para encerrar o domingo!

Essas são minhas impressões dos filmes deste final de semana! Fiquem à vontade para comentar, concordar, discordar, dar dicas de outros filmes!

Beijos e até a próxima!

Linha do Trem

O  que há no final da linha do trem?

Por que temo em me manter sobre ela?

O que há além da linha do trem?

Por que ando de olhos fechados?

O que há fora da linha do trem?

Por que temo cair?

O que há nesse trem?

Por que hesito em me aproximar?

O que é o trem?

A que velocidade está?

Quem mais viaja a bordo?

Qual seu destino?

Quanto mais penso neste trem

Maior

Mais assustador

E veloz

Ele se torna

É uma Maria Fumaça?

Um trem bala?

Uma locomotiva louca e desgovernada?

O trem sou eu

Ou é a vida

É o tempo

Correndo da morte

E do esquecimento

Embarque comigo

Duvide da rota

Sente-se ao meu lado

Somos dois trens que se cruzam

Se unem e se vão

Eliana Leite

05/04/2019