Resenha – Livro “Quando o Sangue Sobe à Cabeça”, de Anna Muylaerte (Ed. Lote 42)

Anna Muylaerte é cineasta e roteirista. Escreveu roteiros de filmes como Castelo Rá-Tim-Bum, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Xingu, e dirigiu Durval Discos, É Proibido Fumar e Que Horas Ela Volta?

Este livro foi idealizado pela Editora Lote 42, junto com a autora, Anna Muylaerte e teve a intenção de reunir contos escritos por ela na década de 90. Já no prefácio, encontramos a explicação da autora sobre o momento pelo qual passava quando escreveu estes contos. Era um período de crise na indústria do cinema, todos estavam apreensivos. Ela, por seu lado, passou a escrever, escrever e escrever. Após estes contos, escreveu roteiros para TV e depois deslanchou no cinema. Particularmente, gosto dos filmes dela. Foi por este motivo que comprei o livro (além de gostar de contos). São 6 contos, todos sobre mulheres, em algum momento de suas vidas, retratos de um cotidiano, da vida como ela é. Anna Muylaerte tem um humor ácido que me agrada. Junta-se a isso um leve sarcasmo ao narrar as mazelas da classe média. Para quem viveu naquela época, é uma delícia de leitura. Chega até a ser nostálgica.

Minha intenção, nesta resenha, é falar de cada um dos contos.

Portanto, aqui já deixo um ALERTA ANTI-SPOILER. Se você não leu o livro e quer parar por aqui, fique à vontade!

Conto 1

O segredo de Célia

O mote aqui é o surgimento “surpresa” de um ex-namorado de Célia, que contraiu AIDS. Ela surta completamente, entra no carro e vai para casa com a certeza de que está com a doença. Depois de dizer ao marido que ambos estão doentes e que ela vai morrer (sem ter feito o teste ainda), confessa a ele (e à terapeuta) que nunca teve orgasmo na vida. Ele fica indignado. Ela diz que está tudo acabado. Finalmente, ele vai pegar o resultado do teste, que dá negativo. Ela volta atrás no que disse, ele finge que acredita e tudo “volta ao normal”. Neste conto, ficam claros sentimentos como conformismo, ou, ainda, comodidade em meio a um casamento que não funciona para nenhuma das partes, a absoluta ignorância e falta de empatia com relação aos portadores de HIV, típico da época dos anos 90. É um conto rápido, certeiro, quase sem afeto. Mostra o que acontece em relações em que as coisas não são ditas e, quando o são, nada realmente muda.

Conto 2

O pulo do gato

O conto é sobre uma idosa que, aos 86 anos, se sente sozinha no Rio de Janeiro. Está prestes a mudar para São Paulo, a convite do genro, se anima, mas está com depressão. Ainda no Rio, faz um jantar de despedida com as amigas e, ao final, se mata. Os sentimentos que permeiam este conto são solidão, negação (por parte da filha da idosa), saudosismo, nostalgia e depressão. O que chama a atenção é a aceitação da protagonista de que sua vida deve acabar, e que ela é quem deverá tomar esta decisão. E o gato é essencial para isso.

Conto 3

A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti

Este conto tem um pouco cara de “anedota”, mas não no sentido divertido. Temos violência doméstica, falta de comunicação dos pais com os filhos, ignorância e fanatismo religioso (professora), cultura à época, de que não se falava de sexo ou temas relevantes com crianças (que acabem tendo como professoras pessoas com o a Cida, que não consegue ensiná-las algo relevante como educação sexual). O que vejo nesta história/anedota está relacionado com sarcasmo, negligência, conformismo (esposa e marido em um casamento não satisfatório para ambos), falta de transparência, bem típica da época. Não foi um conto que me agradou muito, para falar a verdade.

Conto 4

Quando o Sangue Sobe à Cabeça

Para mim, o melhor conto da coleção (e que dá título ao livro). Trata de um drama familiar, muito bem contado. Temos aqui mais um casamento, de anos, falido. E, junto a isso, a autora acrescenta a mulher na pré-menopausa de saco cheio de tudo, a filha chegando na adolescência, mimada e egoísta, o marido em crise de meia idade, que transou com a empregada, a qual mora com a família há duzentos anos e acaba engravidando do patrão. O drama do conto começa com a morte de Dalva, a empregada, que faz um auto-aborto com uma agulha de tricô. Quando o patrão (Paulo) descobre o corpo da empregada, a filha tem a tão esperada menarca e a esposa sai de casa, deixando tudo para trás. Além disso, há a figura do velho (Onofre), de 88 anos, praticamente inválido, à espera da morte que não vem. O conto parece um filme, muito bem estruturado e com o humor ácido característico da autora. Temos os sinais das trocas de papéis dentro da família, em que a figura do homem vai perdendo protagonismo e se tornando ridícula, com situações de vergonha (impotência, não só sexual) e ignorância (menstruação x menopausa). O banheiro da casa é um personagem importante. E, como disse uma pessoa que comentou sobre o livro, o conto é uma hemorragia! A parte da descrição da morte de Dalva é quase poética. Aqui já vemos sinais da presença da empregada na família e as questões complexas advindas desta convivência, o que foi magistralmente explorado no filme Que Horas Ela Volta?. Uma observação que eu faço, para este conto é: se, após 26 anos, as coisas mudaram tanto assim, de verdade, ao observarmos uma família “tradicional” hoje. Talvez, e infelizmente, não… Ainda…

Conto 5

Procurando Pelo em Ovo

Não é uma obra-prima, comparando com o anterior. Parece mais uma crônica do que um conto, uma paródia do mundo do salão de beleza, em que temos a depiladora intrometida, fofoqueira e esnobe, que acaba descobrindo que o marido é homossexual. Chega a ser engraçado em alguns momentos, mas está longe da elaboração do conto 4, por exemplo.

Conto 6

Padecendo no Paraíso

Maria Julia está gravidíssima e prestes a entrar em trabalho de parto, porém ainda sofre nos últimos dias, pois engorda mais do que permitido, tem azia permanente e está muito inchada. Apesar de todo o perrengue, o momento do nascimento acaba sendo libertador para ela. Um conto muito bem-humorado, que poderia e a experiência de qualquer mulher grávida. Não coloca glamour onde realmente não existe. Realista e engraçado. É a cereja do bolo deste belo e interessante livro. Impagáveis os momentos em que a mulher reclama do médico, dos atrasos e do fato de ele ter já feito 12.000 partos.