Espelho

A cidade grande

Com carros velozes,

Luzes vermelhas.

O povo de cabeça baixa,

Preenchendo o espaço que resta.

Heróis são os que

Roubam e matam

Sem sujarem as mãos de sangue.

Uma justiça manipulada,

Mal disfarçada.

Covardes se escondem

Soba a face da política

E da submissão.

O essencial à vida

Custa caro.

Tiraram o banco da praça

Onde dormia um mendigo.

Fecharam o hospital

Onde adoecia uma criança.

Pisaram no tapete vermelho,

Feito por mãos cegas.

Ao vagar, desarmado,

Pelas ruas,

Ele foi preso

Por ser diferente,

Pobre.

Pássaros perdem suas asas

Quando aviões cortam,

Com velocidade,

O vento.

Solitário

Está o homem

Que se feriu

Com as próprias palavras.

A avenida é bela

Quando deserta.

A vida é bela

Quando esquecida.

Perdem-se os sentidos,

Furtam a nação,

Amam o crime.

Atividades repetitivas,

Vidas repentinas,

Nada a admirar

Além da perda do que

Não foi pago por nós.]

Quero atacar

A quem um dia roubou

Minha dignidade,

Meu espaço.

Eliana Leite

(1993)