Qual foi a última coisa que você fez uma única vez?

Mariana acendeu o charuto. Lenta e pacientemente, como tinha aprendido. Era a primeira vez que ia sozinha ao clube de charutos. Resolveu pedir uma dose de uísque. Ao fundo, tocava um jazz suave. Notou que uma mulher a observava. A mulher se aproximou. Loira, alta, de uma beleza não óbvia. Seu nome era Cecília e trabalhava lá. Começaram a conversar sobre charutos. Mariana confessou que era uma iniciante. Cecília se sentou. Fumava um cigarro. Pediu um Negroni. Mariana perguntou se ela podia beber no trabalho. Cecília riu e comentou algo como aquele ser o melhor trabalho do mundo. Quando ia perguntar há quanto tempo trabalhava ali, alguém chamou por Cecília, que pediu licença e se foi. Mariana então voltou a atenção para o charuto e o uísque. Deixou-se embalar pelo som e divagou sobre aquela noite, um encontro consigo mesma. No dia anterior, estava lamentando com a irmã sobre o fato de não encontrar companhia para sair à noite, como era difícil conciliar agendas, principalmente pelo fato de as amigas estarem casadas, com filhos. Quando terminou de reclamar, sua irmã apenas perguntou porque ela não ia sozinha. Não precisava depender de ninguém para sair de casa. E ainda arrematou com um “pare de reclamar e vá viver a vida”. Com este pensamento, resolveu sair do trabalho e ir ao clube de charutos. Ela já tinha ido duas vezes, no ano passado, com seu amigo Caio, que agora vivia em Londres. Conversavam bastante por WhatsApp e Skype, mas ela sentia muito sua falta. Foi então que decidiu mandar uma mensagem para ele acompanhada de uma “selfie”, dizendo “adivinha onde eu estou?”. Porém, a mensagem não foi lida por Caio. “Deve estar ocupado”, concluiu, frustrada. Pensou em postar a foto no Instagram, mas desistiu. Guardou o celular na bolsa e decidiu ter aquela noite para si. Sinalizou para a garçonete, que a avistou e logo se aproximou. Pediu uma água com gás. Assim que a garçonete saiu, Cecília se aproximou novamente.

               – Desculpe ter saído daquela forma. Tive que resolver um probleminha.

               – Imagine, não precisa se desculpar.

               – E então, está curtindo a noite?

               – Sim, estou me dando esse direito.

               – Veio sozinha?

               – Sim. Não é algo que eu tenha o costume de fazer, mas decidi que deveria.

               – Você não precisa se explicar para mim. Muitas pessoas vêm aqui sozinhas.

               – Não estou me explicando… é só que… – e Mariana ficou sem saber o que dizer.

               – Relaxa, mulher. Vamos lá, me conte sobre este charuto.

               – Ah… sim… gostei dele. Tem um bom fluxo, suave, combina com o uísque. É nacional.

               – Você comprou aqui?

               – Não, esse eu ganhei de um amigo. Foi ele que me apresentou esse lugar.

               – Não me lembro de você. Quando vieram?

               – No ano passado. Nossa, mas tantas pessoas passam por aqui. Você não se lembraria.

               – Digamos que eu sou uma boa fisionomista. Certamente me lembraria de você. Mas no ano passado eu ainda não trabalhava aqui. Comecei no início deste ano.

               – Onde você trabalhava antes?

               – Eu estava em Cuba. Tirei um ano sabático e fui para lá.

               – Uau! E foi bom?

               – Foi uma experiência maravilhosa, mas não volto mais. Certas coisas temos que fazer uma vez. Qual foi a última coisa que você fez uma única vez, fora sair sozinha à noite?

Mariana ia responder, quando a garçonete chegou com a água. Enquanto servia perguntou se ela queria comer algo. Cecília recomendou o canapé de salmão defumado. Mariana pediu e, assim que a garçonete se retirou, respondeu:

               – Acho que minha “única vez” foi ter ido à Bahia no Carnaval. Nunca mais voltei e nem pretendo. Quase morri pisoteada.

Cecília riu:

               – Eu não suporto multidões.

               – Eu também não. Prefiro lugares como este.

               – Daqui a pouco vai chegar um grupo de mulheres, uma confraria. Posso te apresentar para elas, se quiser. O grupo é animado e elas sempre gostam de receber pessoas novas.

               – Adoraria! Não sabia que existiam confrarias de mulheres para charutos.

               – Pois é, nós estamos dominando o mundo! Você vai gostar, tenho certeza. Eu vou coordenar a degustação.

               – Ótimo! Obrigada.

               – Vou me preparar para recebê-las. Te chamo.

E novamente Cecília se foi. Desta vez, Mariana se pegou olhando enquanto ela se movia. Terminou o uísque e pediu mais uma dose para a garçonete. Continuou apreciando seu charuto, tomando notas mentais do gosto, do cheiro, observando como a fumaça saía de sua boca, rumo ao ar condicionado. Assim que a bebida chegou, resolveu pegar o celular e anotar algumas das sensações. Quem sabe não mostraria para sua mais nova amiga? Quem sabe não escreveria depois, em um post no seu blog? Terminou de escrever, guardou o celular na bolsa e viu que algumas mulheres chegavam ao clube e subiam as escadas. Alguns minutos depois, Cecilia a chamou. Mariana não teve dificuldade de se enturmar. O grupo era formado por mulheres de diferentes estilos, todas com um interesse em comum: charutos. Cecília iniciou com um breve e imponente discurso sobre como o charuto pode trazer experiências diferentes e inesquecíveis, e como aquele grupo, e outros que se formavam ao longo do país e do mundo, demonstravam que não era um universo de homens, muito pelo contrário. Assim como o vinho, o café, o uísque, o charuto não poderia ser mais predominantemente masculino. Terminou a introdução com um vídeo rápido que mostrava mulheres trabalhando na fabricação dos charutos, e outras ao lado de familiares, donas de seus negócios e com fotos do clube em que estavam e dela própria como sommelier. Todas a mulheres ali presentes aplaudiram efusivamente e Cecília agradeceu, sem um pingo de vergonha, muito altiva e dona de si, o que, para uma mulher, costuma ser um sinal de arrogância. Mas não ali. Era um carimbo de amor próprio e conhecimento de causa. Mariana sentiu orgulho ao ver uma mulher determinada, se colocando daquela forma. Ela mesma não era tão autoconfiante, sabia disso. Cecília não perdeu tempo e já iniciou a noite apresentando o charuto que seria degustado naquela noite. “Antes de mais nada, quero dizer que não há essa questão de charutos masculinos ou femininos. O que existe é o paladar e, acima de tudo, o costume. Qualquer pessoa que comece a fumar charuto, não vai direto para um “maduro”, como chamamos, que é um charuto mais potente. Assim como com vinhos e cafés, sempre começamos com algo mais leve, para acostumar o paladar, o olfato e treinar nossos sentidos. Hoje vamos degustar um nacional, da Bahia, o Dona Flor, que tem um sabor mais suave e agradará a todos os paladares, tenho certeza” Mariana ficou encantada com a forma pela qual Cecília acendeu o charuto. Ficou observando os movimento suaves, porém firmes, e guardou na memória para treinar depois. Uma das presentes comentou: “Ela é demais… Olha quanta classe”. Então, o charuto foi degustado por cada uma das presentes para que comentassem sobre suas características. Para harmonizar, tomavam uísque e conhaque e, para matar a fome, carpaccio. Mariana ficou curiosa sobre o grupo e assim que teve a chance, perguntou para Cecília como poderia se tornar parte. Cecília deu um sorriso e chamou uma moça negra, alta e com o cabelo quase raspado:

               – Erika, essa é a Mariana, Mariana essa é a Erika, a dona da confraria.

               – Oi, Mariana, é um prazer tê-la aqui conosco. Como ficou sabendo?

               – Ah, a Cecília me chamou… Eu estava lá embaixo fumando meu charuto e…

               – Ela quer saber como fazer para se associar à Confraria. Vou deixá-las a sós – cortou Cecília, e saiu para dar atenção a outro grupo.

               – Me conta, Mariana, há quanto tempo você curte charutos?

               – Ah… não muito… Sei lá, no máximo um ano… e olhe lá. E não fumo muito, pois meu amigo que gosta e que me apresentou foi morar fora… fiquei sem companhia…

               – Hm… Bom, você sabe que fumar charuto pode ser algo muito prazeroso para se fazer a sós, não é?

               – Descobri isso hoje, por incrível que pareça.

               – Vamos ao que interessa: para fazer parte da Confraria, basta assistir a um vídeo. Você tem Instagram?

               – Tenho, sim. É @mariblue1976.

               – Deixa eu ver aqui… Pronto, te mandei a solicitação. É só você aceitar e eu mando o link do vídeo. Quando você terminar, vai receber algumas instruções de associação, nada de mais, só para confirmar que você é você mesma. Não há custo na associação. Quando temos estes eventos, cobramos um valor para o ingresso no clube, que inclui o charuto, a bebida e a comida.

               – Que legal! Vou adorar participar!

               – Ótimo! Considere-se uma de nós já! Fique à vontade e não se esqueça de ver o vídeo. Agora, tenho que ir pois preciso acertar algumas coisas com a Cecília.

               Mariana se sentiu peculiarmente pertencente a algo naquela noite. Há quanto tempo não fazia algo assim, do nada, sem alguém que a tivesse levado, ou alguém conduzindo tudo e ela sendo uma coadjuvante. Ser a atriz principal da própria vida era bom, concluiu. Ainda que aquilo fosse uma pequena parte do todo, era um bom começo. Serviu-se de mais carpaccio e uísque e foi até uma roda aleatória de 4 mulheres que pareciam bastante compenetradas na degustação do charuto. Apresentou-se e as quatro se juntaram num “oi” animado. Uma delas, que Mariana achava que era Daniela, perguntou se ela era nova no grupo. Mariana explicou como foi parar ali e se integrou à conversa. Estavam, de fato, conversando sobre o charuto e comparando anotações. Pediram para Mariana degustar e falar o que achava das notas, do fluxo, do sabor, do cheiro, etc. Foi uma experiencia sensorial única, em que Mariana se esqueceu do mundo lá fora. Estavam falando sobre a importância de terem mais charutos nacionais nas degustações, quando Cecília anunciou o fim do evento:

               – Charutandas, como sabem, esses eventos têm começo, meio e fim. Está na hora de encerrarmos, mas convido todas a descerem e terminarem seus charutos e aproveitarem o local. Vejo vocês no próximo!

               – Charutandas? – perguntou Mariana a Daniela.

               – Pois é, esse é o nome da nossa confraria. Gostou?

               – Interessante! E a Cecília sempre apresenta o charuto?

               – Sim, ela é nossa sommelier do coração. A Erika a conhece há algum tempo e as duas decidiram montar um grupo de mulheres. A Erika toca toda a parte de divulgação, associação, custos e a Cecília faz o show. Dá super certo.

               – Ah, entendi. Que legal. Amanhã mesmo vou assistir ao vídeo para me associar.

               – Você vai adorar. Bom, tenho que ir. Meu marido já me mandou mil mensagens. Até parece que o mundo vai acabar porque estou fora de casa à noite. Eu hein… Beijos, querida, foi um prazer.

Quando Mariana se deu conta, todas já haviam descido. Desceu também e resolveu ir embora, pois já havia bebido sua cota de uísque e fumado mais do que tinha planejado. A cabeça doía. Estava na fila do caixa quando Cecília a abordou:

               – Já vai?

               Mariana se virou, sobressaltada:

               – Que susto… Sim, está tarde e estou cansada. Mas foi maravilhoso! Adorei! Obrigada por me chamar. Foi uma experiência e tanto!

               – Fico feliz que tenha gostado. Vai se associar?

               – Ah, vou sim. Amanhã mesmo.

               – Então nos veremos mais vezes. De qualquer forma, vou deixar meu cartão com você para quando quiser bater um papo. Eu tiro folga aos domingos. Podíamos almoçar, o que você acha?

               – Claro… seria ótimo…

Mariana entrou no Uber e ficou olhando para o cartão de Cecília. Afinal, era apenas um convite para um almoço, em um domingo qualquer. Por que isso a afetava tanto? Por que se sentiu incomodada, como se fosse um convite para um encontro? Mariana estava se precipitando, sendo preconceituosa? Não sabia absolutamente nada sobre a orientação sexual de Cecília. E se ela só quisesse mesmo conversar, estreitar a amizade? Isso não é possível? E se Cecília fosse um homem, teria Mariana se sentido lisonjeada ao invés de incomodada? E por que Mariana ficou com a impressão de que Erika e Cecília já tinham sido um casal? Essas ideias ficaram martelando a mente de Mariana até chegar em casa. Deixou o cartão sobre o balcão da cozinha, tomou um banho e tentou dormir. Estava cansada fisicamente, mas a mente pregava peças. Pegou o celular e viu a mensagem de Caio: “Arrasando no charuto, hein? E aí, como foi? Ou está sendo?”. Viu que ele tinha escrito há uma hora e resolveu responder. Contou como foi a noite e sobre Cecília e Caio disse para ela não ficar encanada. Por que não poderiam ser amigas? Ele até deu uma provocada em Mariana, soltando um “ah, mas vai que você gosta?”, ao que ela respondeu “deixa de ser besta” e o assunto parou e a conversa rumou para outros temas. Era mais de duas da manhã quando Mariana deixou o celular sobre o criado-mudo e se deitou. Dormiu um sono leve, curto e nada revigorante. No dia seguinte, acordou cedo e foi trabalhar. Estava com dor de cabeça e enjoada. Comeu alguma coisa no caminho, tomou um café preto e tentou se concentrar na reunião que tinha logo pela manhã. Sem sucesso. Em meio à discussão do grupo sobre como engajar os funcionários que haviam acabado de responder à pesquisa de clima, Mariana não conseguia parar de pensar na noite anterior. O que, de tão especial, havia acontecido? Ficou divagando sobre como entraria em contato com Cecília, sobre o que conversariam. Pensou na roupa que iria vestir, se usaria maquiagem ou não, perfume? Que tipo de comida será que Cecília gostava? Será que era daquelas magras que comiam de tudo? Mariana olhou para a barriguinha saliente e se lembrou de que precisava retomar a academia. “Por que estou pensando nisso, meu Deus?” A reunião acabou, sem que chegassem a nenhuma conclusão, como era praxe. Marcaram outra data para buscar uma solução. “Mais do mesmo”, pensou Mariana. Ao chegar à sua mesa, Mariana assistiu ao vídeo das Charutandas, acessou o site e se cadastrou. Em seguida, recebeu o ok por e-mail de sua associação e algumas instruções. Ficou feliz por ter dado continuidade e por fazer parte de algo que não a brigada de incêndio da empresa. O restante do dia se arrastou em atividades rotineiras e mais reuniões inconclusivas, até que, ao sair do trabalho, Mariana foi até a academia perto de sua casa e retomou o treino, abandonado há algumas semanas. Tomou um iogurte antes de se deitar e pensou “agora vai!”. Sabia que isso duraria pouco, mas mesmo assim estava tentando se animar. A auto sabotagem já lhe era familiar. Por isso fazia terapia, mas também tinha dado alguns canos na Dra. Lídia. Amanhã ligaria para remarcar as consultas. De repente, Mariana percebeu que sua vida estava quase à deriva. Um barquinho no meio do mar, sem direção alguma. E ela ali, ao sabor do vento. Novamente, demorou para pegar no sono, em meio à auto análise tardia, e quando foi dormir, eram quase três da manhã. Assim que o alarme tocou, teve raiva de si mesma. Parecia um zumbi. Tomou uma ducha rápida para acordar, pegou qualquer coisa na geladeira para comer no carro e se foi. Ao chegar ao trabalho, logo se enfiou em reuniões intermináveis, desta vez sobre inclusão e diversidade e como ter esse departamento na empresa. Ela já tinha dado sua opinião várias vezes a respeito do tema, da importância e do cuidado que teriam que ter para não se tornar algo oportunista e desajeitado. Porém, pelo rumo que a conversa estava tomando, ficou desanimada e não teve vontade de comentar além do necessário. Sabia que, ao final, sairia algo oportunista e desajeitado e que ela teria que consertar depois, como sempre. Assim que saiu da reunião, marcou a consulta com a terapeuta e ainda levou sermão da secretária por ter demorado tanto. Almoçou sozinha, na mesa, para terminar tudo o que tinha e sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Conseguiu ânimo para ir novamente à academia. Correu por meia hora e fez pilates. Chegou em casa e pediu comida japonesa. Não havia nenhum convite para happy hour, cinema ou jantar. “Sou uma antissocial”, pensou. As pessoas já haviam desistido de convidá-la, pois sempre recusava. Não tinha paciência para o pessoal do trabalho, e as amigas só falavam de filhos e maridos. Precisava mudar o círculo de amizade, mas tinha preguiça. Pensou na confraria, em Cecília e sorriu. Quem sabe não seria ali o recomeço de tudo? Ligou a TV e assistiu um filme qualquer na Netflix. Eram dez da noite quando olhou para o balcão da cozinha e viu o cartão ali, no mesmo lugar em que deixara. Levantou-se para pegá-lo e resolveu ligar para Cecília. Ela não atendeu. Escreveu no WhatsApp: “Oi, aqui é a Mariana. Nos conhecemos anteontem no clube de charutos. Que tal almoçarmos neste domingo?” Hesitou antes de enviar, pensou nos prós e contras, viu que estava pensando demais e enviou a mensagem. O que de mal poderia acontecer? E se ela não respondesse? E se ela só estivesse sendo educada ao falar sobre o almoço? Percebendo que estava entrando em um espiral, respirou fundo e foi para o quarto. Colocou a música para meditação no celular, se deitou e tentou relaxar. Dessa vez, conseguiu. Dormiu profundamente e acordou cedo em um sábado ensolarado. Ligou para a irmã e combinaram de almoçar. Assim que entrou no carro, já bateu o arrependimento. Teria que aguentar o cunhado mala e as crianças gritando pela casa. Não havia como desistir mais. Teria que enfrentar. Colocou um rock para animar e se foi.. O quer era para ser um almoço rápido, se estendeu para o famigerado lanche da noite. No final das contas, foram mais dois casais de amigos, cada um com dois filhos e a casa estava cheia e barulhenta. Mariana ficou com pena da irmã e ficou para ajudar. Até aspirador passou quando todo mundo foi embora. Ao voltar para casa no final da noite do sábado, estava exausta. Sentou-se no sofá da sala, com uma taça de vinho na mão e respirou aliviada. Enfim, em casa. Olhou o celular (que havia ficado na bolsa o dia todo) e tinha uma mensagem de Cecília, topando o almoço. Por que Mariana sentiu um frio na barriga?

Eliana Leite

20/02/2020

Resenha: “Lute como Uma Garota”

Livro de Laura Barcella e Fernanda Lopes (com prefácio de Mary Del Priore).

Trata-se da reunião de 60 feministas que mudaram o mundo, sendo 45 estrangeiras e 15 brasileiras. É uma leitura muito interessante, pois traz o perfil de mulheres desde o século XVIII até os dias de hoje, com suas respectivas lutas e contribuições para o movimento, ainda que algumas delas não se declarem, de forma expressa, feministas. A estrutura do livro é de fácil e rápida leitura, apresentando uma breve história de cada mulher, suas principais realizações e frases de impacto. Achei a parte relativa às brasileiras um pouco mais enxuta, digamos assim, do que a parte estrangeira, embora tenha trazido histórias relevantes.

Reuni aqui um “compilado do compilado”, destacando aquelas mulheres que, para mim, tiveram (e tem) um significado importante na história e no feminismo.

  1. Mary Wollstonecraft (1759 – 1797) – Inglaterra

Escritora, filósofa e defensora dos direitos das mulheres.

Suas grandes realizações:

Mary Wollstonecraft foi uma das primeiras pessoas a propor o livre pensamento na esfera religiosa. Julgava que as mulheres deveriam viver de modo independente e formar as próprias opiniões, não baseadas em uma fé cega em uma divindade.

Frases famosas:

“Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sim sobre si mesmas.“

“Independência – há muito eu a considero a grande benção da vida, a base de todas as virtudes.”

  1. Sojourner Truth (Nascida: Isabelle Baumfree – 1797 – 1883) – Estados Unidos

Abolicionista, escritora, ativista pelos direitos da mulher.

Suas grandes realizações:

Sojourner Truth não tinha medo de um desafio. Em uma reunião em 1852, Frederick Douglass sugeriu que os negros deveriam usar a força para conquistar sua liberdade. Sojourner, que tinha a não violência como elemento fundamental de sua fé cristã, repeliu as afirmações de Douglass, exclamando: “Deus foi-se embora?”

Frases famosas:

“Estou feliz ao ver que os homens estão conseguindo seus direitos, mas quero que as mulheres também consigam os seus, e, enquanto a água se agita, vou entrar nesse lago.”

“Não sou eu uma mulher? Olhe para mim! Veja o meu braço! Já manejei o arado, já plantei, já guardei a colheita nos celeiros, e nenhum homem conseguia chegar na minha frente! Não sou eu uma mulher? Podia trabalhar tanto quanto um homem, e comer tanto quanto um homem – isso quando eu tinha o que comer -, e suportar as chicotadas também! Não sou eu uma mulher? Tive treze filhos e vi muitos deles serem vendidos como escravos, e, quando chorei com minha dor de mãe, só Jesus me ouviu e ninguém mais! Não sou eu uma mulher?”

  1. Frida Kahlo (Nascida: Magdalena Carmen Frieda Kahlo Calderón – 1907 – 1954) – México

Artista plástica.

Suas grandes realizações:

Frida foi prolífica ao longo da vida, criou cerca de duzentas obras entre pinturas, desenhos e esboços; pintou 143 quadros, dos quais 55 eram autorretratos.”

Frases famosas:

“Pés, para que eu preciso de vocês, se tenho asas para voar?”

“Tenho que lutar com todas as minhas forças para que as pequenas coisas positivas  que minha saúde me permite fazer possam se concentrar  em ajudar a revolução. É a única verdadeira razão para viver.”

  1. Rosa Parks (Nascida: Rosa Louise McCauley – 1913 – 2005) – Estados Unidos

Ativista do movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos

Suas grandes realizações:

Em 1996, o presidente Bill Clinton concedeu a Rosa Parks a Medalha Presidencial da Liberdade. Ao lado da Medalha de Ouro do Congresso, aquela é considerada a maior honraria concedida a um civil nos Estados Unidos. Na cerimônia de premiação, Rosa Parks foi chamada de “Primeira-Dama dos Direitos Civis” e “Mãe do Movimento pela Liberdade”.

Frases famosas:

“Gostaria de ser lembrada como uma pessoa que queria ser livre […] para que outras pessoas também fossem livres.”

“Já tinha cedido meu lugar antes, mas naquele dia eu estava especialmente cansada. Cansada do meu trabalho de costureira e cansada da dor no meu coração.”

  1. Maya Angelou (Nascida: Marguerite Annie Johnson – 1928 – 2014) – Estados Unidos

Escritora e poetisa.

Suas grandes realizações:

Em 2010, o presidente Barack Obama concedeu-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade, considerada uma das maiores honrarias civis do país. Disse também que a obra de Maya Angelou “falou diretamente a milhões de pessoas, inclusive minha mãe, e é por isso que minha irmã se chama Maya”.

Frases famosas:

“Sou feminista. Já sou mulher há muito tempo. Seria tolice não defender meu lado.”

“Não há maior agonia do que suportar dentro de si uma história não contada.”

  1. Audre Lorde (Nascida: Audre Geraldine Lorde – 1934 – 1992) – Estados Unidos

Escritora, feminista radical, ativista dos direitos civis.

Suas grandes realizações:

Sua coletânea de textos poderosos, Sister Outsider: Essays & Speeches (1988), é muito apreciada e considerada uma leitura feminista essencial, tanto no meio universitário quanto fora dele.

Frases famosas:

“Sou decidida e não tenho medo de nada.”

“A linguagem com que fomos ensinadas a nos diminuir e a diminuir nossos sentimentos, considerando-os suspeitos, é a mesma linguagem que usamos para diminuir nossas irmãs e suspeitar umas das outras.”

  1. Angela Davis (Nascida: Angela Yvonne Davis – 1944) – Estados Unidos.

Professora, filósofa socialista, ativista, escritora.

Suas grandes realizações:

Em 1980, ela concorreu a vice-presidente dos Estados Unidos na chapa do Partido Comunista, embora não tenha vencido.

Frases famosas:

“Temos que falar sobre libertar a mente, assim como libertar a sociedade.”

“Não consigo imaginar um feminismo que não seja antirracista.”

  1. Oprah (Nascida: Oprah Gail Winfrey – 1954) – Estados Unidos

Apresentadora de televisão, atriz e empresária, grande figura da mídia.

Suas grandes realizações:

Em 2013, o presidente Barack Obama concedeu a Oprah a Medalha Presidencial da Liberdade, uma das maiores honrarias civis dos Estados Unidos.

Frases famosas:

“Chegar a um ponto em que você se sente absolutamente à vontade com você mesma. […] Ter a força interior e a coragem interior necessárias para dizer: ‘Não, eu não vou deixar vocês me tratarem dessa maneira!’ – essa é a essência do sucesso.

“Foi a educação que me libertou. A capacidade de ler salvou minha vida. Seria uma pessoa completamente diferente se não tivesse aprendido a ler ainda muito pequena. Durante toda  a minha experiência de vida, quando a capacidade de acreditar em mim mesma era colocada à prova, e até nos meus momentos mais sombrios de abuso sexual, abuso físico e assim por diante, eu sabia que havia outro caminho, que havia uma saída. Sabia que havia outro tipo de vida, porque tinha lido a respeito.”

  1. Madonna (Nascida: Madonna Louise Veronica Ciccone – 1958) – Estados Unidos

Cantora, compositora, atriz, dançarina e produtora musical.

Suas grandes realizações:

Camille Paglia já chamou Madonna de “o futuro do feminismo”. Em uma coluna de 1990 para o The New York Times, a famosa escritora argumentou que Madonna foi mal compreendida tanto pela grande mídia como pela corrente principal do feminismo. “Madonna tem uma visão muito mais profunda do sexo do que as feministas”, observou Paglia. “Ela consegue enxergar tanto a animalidade quanto o artifício.”

Frases famosas:

“Estou no controle das minhas fantasias… Pois não é isso o feminismo?”

“Se o meu talento não fosse tão grande quanto minha ambição, eu seria uma monstruosidade.”

  1. Beyoncé (Nascida: Beyoncé Giselle Knowles – 1981) – Estados Unidos

Cantora, compositora, atriz.

Suas grandes realizações:

Depois que o furacão Katrina arrasou Nova Orleans em 2005, Beyoncé e sua amiga e colega de banda Kelly Rowland fundaram a Survivor Foundation. A organização providenciou moradia provisória para as vítimas na área de Houston, e Beyoncé teria contribuído com uma verba inicial de 250 mil dólares. Ela arrecadou mais de um milhão de dólares para a Fundação Shawn Carter, do marido Jay-Z, focada em ajudar crianças de baixa renda a cursar a universidade. Beyoncé também trabalhou em parceria com a organização Feeding America, que fornece refeições a bancos de alimentos de todo o país.

Frases famosas:

“Meu objetivo era a independência.”

“Acredito piamente que as mulheres devem ser financeiramente independentes de seus homens. E, verdade seja dita, o dinheiro dá aos homens o poder de comandar o espetáculo. E dá aos homens o poder de definir o valor. São eles que definem o que é sexy. São eles que definem o que é feminismo. É ridículo.”

  1. Malala Yousafzai (1997 – Paquistão)

Ativista.

Suas grandes realizações:

Aos 17 anos, Malala foi a pessoa mais jovem – e a primeira de seu país, o Paquistão – a receber o Prêmio Nobel da Paz. Foi escolhida, ao lado de Kaliash Satyarthi, ativista dos direitos da criança, pela sua “luta contra a opressão das crianças e dos jovens e pelo direito de todas as crianças à educação”, declarou a comissão norueguesa que concede o Nobel.

Frases famosas:

“Eles atingiram meu corpo, mas não podem atingir meus sonhos.”

“Tenho direito à educação. Tenho o direito de brincar. Tenho o direito de cantar. Tenho o direito de falar. Tenho o direito de ir ao mercado. Tenho o direito de dizer o que penso.”

BRASILEIRAS QUE FORAM À LUTA

  1. Chiquinha Gonzaga (Nascida: Francisca Edwiges Neves Gonzaga – 1847 – 1935)

Compositora, maestrina.

Suas grandes realizações:

Destaca-se também sua atuação como ativista, de causas sociais e da própria vida. Chiquinha não aceitava “as coisas como elas são” e enfrentou diversos obstáculos (como a rejeição da família e uma ordem de prisão) para fazer valer o que acreditava.

Frases famosas:

“Pois, senhor meu marido, eu não entendo a vida sem harmonia.”

“Não entendo a vida sem música”.

  1. Anália Franco (Nascida: Anália Franco Bastos – 1856 – 1919)

Escritora e líder social assistencialista.

Suas grandes realizações:

Anália Franco foi pioneira no trabalho social no Brasil voltado para mulheres, principalmente aquelas em situação de vulnerabilidade. Na luta contra a ignorância e a miséria, ela criou organizações de auxílio, educação e qualificação profissional, com dezenas de instituições espalhadas pela região Sudeste. Mesmo com dificuldades financeiras, não esmoreceu e conseguiu dar a volta por cima para manter o trabalho de sua vida em funcionamento.

Frases famosas:

“A verdadeira caridade não é acolher o desprotegido, mas promover-lhe a capacidade de se libertar.”

“Enquanto a nossa instrução  for concebida nessa espécie de molde fatal que nos atrofia o desenvolvimento da personalidade, havemos de viver abafadas numa atmosfera de interesses mesquinhos, sem sentir simpatia, nem tendências para as nobres e elevadas conquistas do espírito.”

  1. Bertha Lutz (Nascida: Bertha Maria Julia Lutz – 1894 – 1976)

Bióloga, líder feminista e sufragista.

Suas grandes realizações:

Bertha Lutz foi pioneira na luta pelo sufrágio feminino no Brasil, algo que conheceu na Europa e que, de acordo com a imprensa da época, não teria espaço em nosso país. Mas os setores mais descrentes e machistas não contavam com a personalidade forte e desafiadora dessa bióloga. Graças aos seus esforços políticos, ela conquistou direitos para as mulheres e, em decorrência do seu engajamento, uma série de prêmios, entre eles o de Mulher do Ano e Mulher das Américas em 1946 e 1952.

Frases famosas:

“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é degenerar justiça á metade da população.”

“Por quanto tempo ainda continuaremos (nós mulheres) a ser um assunto, apenas, de debique e sátira?”

  1. Clarice Lispector (Nascida: Chaya Pinkhasovna Lispector – 1925 – 1977)

Escritora, advogada, jornalista, tradutora, contista e cronista.

Suas grandes realizações:

Clarice é considerada uma das escritoras mais importantes do Brasil e, além de escrever e traduzir livros que se tornaram clássicos, ganhou também diversos prêmios, como o Jabuti, 3m 1961 e em 1978, e a Ordem do Mérito Cultural, em 2011.

Frases famosas:

“Eu era uma mulher casada. Agora sou uma mulher.”

“Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que a sua vida exige. Parece uma moral amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.”

  1. Maria da Penha (Nascida: Maria da Penha Maia Fernandes – 1945)

Farmacêutica e líder na luta contra a violência doméstica.

Suas grandes realizações:

Além de conquistar a liberdade e tirar as filhas da influência de um homem perigoso, Maria da Penha não quis deixar seu drama passar despercebido. Ela fez de sua trajetória uma parte importante da história recente de mulheres e das leis brasileiras. A farmacêutica desafiou toda uma sociedade que acreditava que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, envolvendo até mesmo entidades internacionais em um processo de violência doméstica.

Frases famosas:

“O poder público precisa investir na Educação para mostrar aos homens e mulheres que nós temos os mesmos deveres e os mesmos direitos. O homem tem que respeitar a sua mulher como pessoa humana.”

“Tem-se que cobrar dos gestores públicos a obrigação que eles têm de atender as mulheres de seus municípios, criando as ferramentas, os equipamentos que fazem com que a lei saia do papel.”

  1. Sueli Carneiro (Nascida: Aparecida Sueli Carneiro – 1950)

Filósofa, escritora e líder feminista.

Suas grandes realizações:

A criação do Instituto Geledés é, por si só, uma iniciativa importantíssima para a sociedade brasileira, e não só por sua grandeza, mas também pelos detalhes que fazem a diferença. Na área de saúde, a equipe de Sueli orienta mulheres a descobrirem e cuidarem melhor de seu corpo e mente. Na área profissional, as auxilia a ganhar mais capacitação e buscar melhor qualidade de vida para suas famílias.

Frases famosas:

“O movimento de mulheres negras emergiu, introduzindo novos temas na agenda do movimento negro e enegrecendo as bandeiras de luta do movimento feminista.”

“A sociedade precisa reconstruir o imaginário social da mulher negra.”

  1. Djamila Ribeiro (Nascida: Djamila Taís Ribeiro dos Santos – 1980)

Escritora, ativista social e filósofa feminista.

Suas grandes realizações:

Em sua trajetória no feminismo e nos movimentos sociais, ela já se mostra como uma das mais importantes intelectuais do Brasil atual e todo o reconhecimento que tem é muito merecido.

Frases famosas:

“Se eu luto contra o machismo, mais ignoro o racismo, eu estou alimentando a mesma estrutura.”

“Minha luta diária é para ser reconhecida como sujeito, impor minha existência numa sociedade que insiste em negá-la. E, ao fazer isso, lutar coletivamente com outras mulheres, para que possamos enfrentar o machismo e o racismo.”

Feminismo – Um Olhar

Estava ali, no meu canto, achando que sabia o que era a vida, enfiada no meu trabalho e na minha rotina, não muito consciente de que afundava em uma suposta zona de conforto, ou de que andava em areia movediça, em meados de 2016, quando, em meio a um processo de mentoring (em que eu era a mentoranda), a mentora recomendou a leitura do livro “The Confidence Code”, de Katty Kay e Claire Shipman. A partir desta leitura, muitas fichas começaram a cair. O cerne da obra é sobre a (falta de) autoconfiança nas mulheres. Obviamente, isso tudo toca em temas como machismo, patriarcado, história, submissão, empoderamento, etc. Foi um divisor de águas para mim, pois a partir dali, despertei para um novo olhar. O meu olhar de mulher sobre a mulher, sobre mim, sobre as mulheres que admiro, sobre o fato de que, no fundo, sempre soube que havia algo que eu precisava desvendar, decifrar, para me entender e entender o mundo ao meu redor. Foi assim que saí da superficialidade e deixei de me calar. Percebi que já tinha alguns conceitos dentro de mim, muito pela educação que recebi e porque fui introduzida à leitura de autoras femininas (e, hoje sei, feministas) muito cedo. O que me acordou foi o fato de que o que eu sabia era a ponta do iceberg. E fui adiante. E continuo seguindo. Não há um ponto de parada. Ao contrário, há sempre um novo ponto de partida. E hoje eu vim dividir um pouco disso sob o olhar meu, com base em minhas experiências e leituras.

Conceito

Feminismo é um movimento social que busca a igualdade de status social, jurídico, político e econômico entre os gêneros.

Patriarcado

Sexo + classe + raça = ligados entre si para determinar a questão do patriarcado como dominação do homem branco heterossexual,

Homens devem primeiramente discutir a masculinidade tóxica e os efeitos nocivos do Patriarcado para então olhar para a igualdade de direitos entre gêneros e poder apoiar o feminismo. Um legislador, um professor, um escritor podem apoiar através de ações inclusivas e questionadoras. O que não dá é para ter um “macho palestrinha” pautando a luta e o movimento feminista como algo seu.

Movimento Feminista no Brasil

Trës ondas, sendo a primeira no final do século XIX e início do século XX, a segunda entre 1960 e a terceira a partir de 1990.

A primeira se caracterizou por lutar pelo direito ao voto e direitos trabalhistas. A segunda por lutar por liberdade sexual, papel social da maternidade e igualdade de direitos. E, por fim, a terceira busca a liberdade total. Dentro deste movimento da terceira onda, há o feminismo interseccional, que agrega os diferentes direitos das mulheres (brancas, negras, indígenas…)

Os Direitos da Mulher no Brasil

Código Civil de 1916 – mulher era considerada incapaz.

1932 – 1934 – Direito ao voto

1962 – Estatuto da Mulher Casada

1977 – Lei do Divórcio

1988 – Constituição Federal estabelece a igualdade entre todos

2006 – Lei Maria da Penha

2015 – Lei que estabelece o Feminicídiocomo crime hediondo.

Provocação – adotar o sobrenome do marido é uma herança de nossa cultura patriarcal, um ato romântico ou uma liberdade? A partir de que perspectiva? Da mulher instruída ou da mulher submissa? Há pesquisas que indicam que quanto maior o grau de instrução da mulher, menos importância tem para ela adotar o sobrenome do marido (fica com seu nome). Para se pensar – e não julgar, afinal é uma realidade muito forte no Brasil ainda.

Violência contra a mulher e Feminícídio

Políticas públicas

Saúde Mental

Assistência e Proteção

O ciclo vicioso da relação de dominação

O silêncio que mata

A cultura machista faz com que a mulher se sinta responsável e culpada

O papel da família

A educação de crianças

Feminicídio é o termo usado para denominar assassinatos de mulheres cometidos em razão do gênero. Ou seja, quando a vítima é morta por ser mulher. No Brasil, a Lei do Feminicídio, de 2015, estabelece que, quando o homicídio é cometido contra uma mulher, a pena é maior. É um crime de ódio.

Comportamentos machistas

Mansplaining

Manterrupting

Gaslighting: Bárbara Zorrilla é psicóloga especializada em atendimento a mulheres vítimas de violência de gênero. “O abuso gaslighting é uma forma de violência muito perversa, porque é contínua e se consegue mediante o exercício de um assédio constante, mas sutil e indireto, repetitivo, que vai gerando dúvidas e confusão na mulher que o sofre, a ponto de chegar a se sentir culpada das condutas de violência do abusador e duvidar de tudo que acontece à sua volta.”

Falar que está de TPM! (reduz a mulher a hormônios)

Perguntar sobre maternidade como forma de julgamento e exclusão

Parem de dar chocolate no dia da Mulher… mudem a atitude, apoiem, estudem, entendam

Chamar de Feminazi

Fazer piadas machistas

Falar que é coisa de mulherzinha

Não dividir as tarefas domésticas

Exemplos de práticas machistas no mundo corporativo

Salários desiguais

Não ter mulheres na alta liderança

Encorajar piadas machistas

Colocar mulheres em situações constrangedoras

Não ter uma cultura de inclusão e diversidade

Sororidade

Não somos todas iguais e não conseguimos entender a realidade de todas e por este motivo temos que escutar e apoiar. Um dos grandes erros é afirmar que o movimento feminista é único e une todas as mulheres, indiscriminadamente. As lutas podem ter muito em comum, um ponto de intersecção sem dúvida, mas existem diferentes reinvindicações de mulheres negras em comparação a mulheres brancas, assim como mulheres indígenas, nordestinas, asiáticas, LGBT, e assim por diante. O mais importante, a meu ver, é sermos interseccionais e aprendermos umas com as outras, sempre dando espaço para o diálogo e dando lugar para todas. Um exemplo disso é uma mulher branca ceder seu espaço em sua página na mídia social, por exemplo, para que uma mulher negra ou indígena fale sobre sua realidade. Isso é um exemplo real de sororidade.

Mitos/Preconceitos

– Feministas odeiam homens

– Feminismo é o contrário de machismo

– Todas as feministas são iguais

– Feministas são radicais

– Feministas não podem se casar

– Feministas são raivosas

– A mulher tem que ser masculina para chegar ao poder

Livros:

“A Mãe de todas as perguntas”(The Mother of All Questions), Rebecca Solnit

“Os Homens Explicam tudo para mim” (Men Explain Things to Me), Rebecca Solnit

Quer começar?

Ruth Manus – “Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas”

Chimamanda Ngozi Adiche – “Sejamos Todos Feministas”

“Life Lessons from Remarkable Women” (Coletânea da Revista Stylis)

Poemas – Empoderamento

“Outros Jeitos de Usar a Boca” – Rupi Kaur

“A Princesa Salva a Si Mesma Neste Livro” – Amanda Lovelace

“A Bruxa Não Vai para a Fogueira Neste Livro”- Amanda Lovelace

“The Mermaid’s Voice Return in This One” – Amanda Lovelace

Algumas obras consideradas obrigatórias sobre o feminismo (ainda não as li)

“O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir – considerado como a Bíblia Feminista

“Mulheres e poder: um manifesto”, de Mary Beard

“As boas mulheres da China”, de Xinran

“Um teto todo seu (1929)”, de Virginia Woolf

“Sister outsider (1984)”, de Audre Lorde

“O feminismo é para todo mundo (2000)”, de bell hooks

“Persépolis (2004)”, de Marjane Satrapi

“Reivindicação dos direitos da mulher”, de Mary Wollstonecraft

Autoras Feministas (seja pelo que escreveram ou pelo modo de vida ou porque assim se posicionam)

Jane Austen

Simone de Beauvoir

Virginia Woolf

Mary Wollstonecraft

Margaret Atwood

Bell Hooks

Rebecca Solnit

Audre Lorde

Sueli Carneiro

Irmãs Brontë

Gioconda Belli

Angela Carter

Isabell Allende

Sylvia Plath

Clarice Lispector

Lygia Fagundes Telles

Laura Esquivel

Chimamanda Ngozi Adiche

Djamila Ribeiro

Maya Angelou

Angela Davis

Nélida Piñon

Isak Dinesen

Conceição Evaristo

Mary Beard

Xinran

Angélica Freitas

Marilena Chauí

Arundhati Roy

Marjane Satrapi

Ana Maria Gonçalves

Carolina Maria de Jesus

Svetlana Aleksiévitch

Toni Morrison

Cecilia Meirelles

Hilda Hist

Heleieth Saffioti

Joan Scott

NÍSIA FLORESTA (1810-1885) Considerada a primeira feminista brasileira, publicou em 1832 o manifesto “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”. Também educadora e presença constante em periódicos da imprensa até então jovem, Nísia Floresta rompeu os limites entre o público e o privado que eram impostos às mulheres. Ela viajou pelo mundo, criando contatos e diálogos com Augusto Comte, pai do positivismo, e Alexandre Dumas, importante escritor francês.

Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens. (…) Por que [os homens] se interessam em nos separar das ciências a que temos tanto direito como eles, senão pelo temor de que partilhemos com eles, ou mesmo os excedamos na administração dos cargos públicos, que quase sempre tão vergonhosamente desempenham?

NARCISA AMÁLIA (1852-1924) Além de poeta, Narcisa Amália foi a primeira jornalista profissional do Brasil. Feminista e abolicionista, lutava contra as opressões de gênero e de raça nos seus textos. Foi, de acordo com Sílvia Paixão, “um dos raros nomes femininos que falam de identidade nacional”, contribuindo imensamente para a formação da nossa literatura “numa poética uterina que imprime o retorno ao lugar de origem”.

PAGU (PATRÍCIA GALVÃO) (1910-1962) Sempre relacionada a Oswald de Andrade e condenada ao título de musa, Pagu foi muito mais do que companheira do escritor. Poeta, escritora, tradutora, desenhista, diretora de teatro, jornalista e militante, Patrícia Galvão lutou pela participação política da mulher na sociedade brasileira e foi figura essencial no movimento modernista. Publicou seu primeiro romance, Parque Industrial, em 1933. Primeira mulher a se tornar presa política no país, foi torturada durante muitos períodos em sua vida.

Soraia

Estava escuro na rua. Garoava. Era Outono. O guarda-chuva era inútil, pois a garoa vinha oblíqua e molhava seu rosto. Estava com frio. Soraia andava rápido, pois tinha que chegar em casa a tempo de José sair para o trabalho e não deixar a filha sozinha. Não queria dar motivo para ele ficar nervoso. A mandíbula ainda doía do soco da semana passada. Quando sua patroa perguntou o que tinha acontecido, disse que caiu na rua. Quando seu irmão perguntou, disse que não era da conta dele. Quando se olhou no espelho, teve vergonha. Chegou em casa, esbaforida, a tempo. A tempo para a dupla jornada: lavar, passar, cozinhar e cuidar da filha. A repetição do trabalho que fazia na casa dos outros. Entregava o salário na mão de José, toda semana. Ele que cuidava dos gastos. Quando sobrava, dava um dinheiro para ela. Cada vez, mais, isso era raro. Costumava guardar o dinheiro em um pote, na gaveta da cômoda, no quarto. A última vez que olhou, mal tinha dinheiro para comprar calcinhas. E estava precisando. Quando pediu a José, ele riu. E não deu o dinheiro. Ela, então, guardou um pouco para si do que tinha recebido da patroa. Na hora, ele percebeu que tinha menos. Ela mentiu, dizendo que a patroa ia completar na semana seguinte. Não teve tempo de desviar. O tapa veio na mesma hora. E então ele a revistou em busca do dinheiro. Encontrou. Deu outro tapa. E saiu com o dinheiro, no meio da noite. Soraia nunca mais guardou o dinheiro, nem pediu. Começou a pedir dinheiro emprestado para a irmã, Maria, que reclamava, mas tinha pena e dava. Maria trabalhava como supervisora em uma empresa prestadora de serviços de limpeza. Estava fazendo faculdade, não era casada. Soraia tinha um baita orgulho da irmã. Invejava a liberdade dela. A inteligência. Soraia não conseguia sair do buraco em que tinha se metido. Na verdade, nem tentou. Tinha medo. Quando conversava com Maria sobre isso, era dolorido, triste. Maria dizia que ela tinha que denunciar José. Soraia nem sabia como faria isso. Ficava sem chão ao pensar na filha, sem pai. Soraia mal sabia ler e escrever. Tinha completado o curso fundamental, e olhe lá. Conseguiu o trabalho na casa da patroa por indicação da irmã. Aceitou trabalhar sem registro. Precisava do dinheiro. Não sabia muitas coisas. Só queria que sua filha pudesse terminar os estudos e ser melhor do que ela. Conhecia José desde sempre. Ele começou a bater nela depois que a filha nasceu. Soraia não entendia o porquê. Não conseguia conversar com José sobre isso. Não sabia o que dizer. Pensou, no fundo, que talvez merecesse ser tratada daquela forma por ser burra, por não ter vencido na vida. José vivia a chamando de tonta, de mula. Ela aceitava. Não falava nada disso para o irmão, Antonio, porque este a julgava. Não era como Maria, que a ouvia e tentava ajudar, mesmo não conseguindo. Antonio tinha uma esposa que trabalhava em dois turnos e ele não fazia muita coisa para ajudar. Vivia de bicos e era basicamente um vagabundo. Soraia o observava rondando pelo bairro, parando nos bares, conversando com as mulheres. Então, quem era ele para julgá-la? Ela podia até não saber muito, mas sabia que o irmão não era grande coisa. Naquela noite, colocou a filha para dormir cedo e ficou na janela, observando. De repente, viu o irmão zanzando pela rua em direção à casa dele. Conhecia aquele olhar. Olhar de bêbado. Era o mesmo que José tinha nos finais de semana. Os piores. Resolveu sair de casa e seguir Antonio, que mal percebeu. Assim que o viu chegar em casa, se esgueirou atrás da janela. Ouviu-o chamado pela esposa. Quando viu que ela não respondia, começou a gritar. Soraia não entendeu. Ouviu o barulho de louças quebrando. Antonio estava tendo um ataque. Resolveu entrar na casa. Assim que entrou, gritou para Antonio parar com aquilo. Este, bêbado, sem entender nada, parou. Caiu no chão. Começou a chorar. “Ela foi embora, Soraia! Ela me deixou”. Soraia levou o irmão para tomar um banho frio, fez um café forte e esperou ele se recompor. Conversaram. Ele explicou que há alguns dias tinham tido um briga feia, em que ela disse tudo o que estava entalado há anos, segundo ela mesma, que não aguentava mais a vagabundagem dele. Quando ouviu isso, Antonio confessou à irmã que perdeu as estribeiras e deu um tapa na cara dela, que devolveu na hora e disse que iria embora. E, desde então, sumiu mesmo, não deu mais sinal e ele estava desesperado. “O que eu faço, irmã?” Soraia ouviu tudo aquilo e, de repente, teve vontade de bater no irmão. Começou a chorar. Antonio não entendeu nada. Perguntou se estava tudo bem. Soraia começou, então, a dizer a ele que não se bate em mulher, que ela estava certa em ir embora, onde já se viu, aguentar a vagabundagem dele e ainda ter que levar um tapa na cara. Defendeu a cunhada e acusou Antonio de ser um fracassado. “Eu apanho do meu marido, mas sou fraca. A sua mulher é que está certa. Você não passa de um covarde”. Antonio ficou olhando para a irmã, atônito. “Você apanha do José?” Soraia respondeu que aquilo não vinha ao caso. Antonio insistiu “como assim, apanha?” Então, Soraia mostrou o último hematoma. “Sim, apanho, olha aqui! Mas e daí, você também bateu na sua mulher!” Antonio se levantou e chutou a cadeira, com raiva. “Ninguém bate na minha irmã! Vou acabar com esse desgraçado”. Soraia começou a rir. “Você não está falando sério, né? Acabou de dizer que bateu na Célia e agora vai dar uma de valentão para cima do José pela mesma coisa?” “Não é a mesma coisa!” “É sim! Não quero que você venha me defender. Você é igual a ele. Se a mãe estivesse viva, estaria morrendo de vergonha de você. Um bêbado, vagabundo e covarde.” Antonio levantou a mão e então Soraia o enfrentou: “Vai bater em mim? Viu como você é um bosta? Vem, bate! Mas se bater, eu te arrebento!” Antonio abaixou a mão e começou a chorar novamente. Soraia o deixou na casa e se foi. Ao chegar em casa, arrumou sua mala, a de sua filha e se foi, sem deixar bilhete, nem nada.

Joana

De olho no relógio para não perder a hora da reunião, Joana estava tensa. A apresentação estava pronta, ela estava preparada, mas sempre ficava nervosa quando tinha que falar em público. Tinha ensaiado diversas vezes, mas mesmo assim, estava insegura. E se fizessem mil perguntas e ela não soubesse a resposta? “Diga simplesmente que vai verificar e depois retorna por e-mail”, seu marido dizia. Ela sabia que para ele era mais fácil, pois era extrovertido e estava acostumado a esse tipo de exposição. Ele sempre se saía bem, mesmo que fosse pela tangente. Quantas vezes ela não se perguntou porque não conseguia ser assim, desprendida e descontraída, como se aquilo fosse algo normal, sem tanto stress e cobrança? Faltavam quinze minutos para a reunião e Joana foi para a sala. Sempre chegava pelo menos com cinco minutos de antecedência, ainda que soubesse que nunca começavam nada no horário. Ao chegar, como previsto, não havia ninguém na sala. Escolheu um lugar perto da mesa de café e tomou mais alguns minutos para ler suas anotações. Aos poucos, as pessoas foram chegando e a reunião começou com 10 minutos de atraso. Joana contou: 2 mulheres e 8 homens. Uma das mulheres era sua par. Um dos homens, seu chefe e outro, chefe do seu chefe. O tema da reunião era apresentação dos resultados do mês. Cada gerente tinha que apresentar sua parte. Era meio ridículo que Joana se sentisse nervosa, após anos fazendo esta reunião, todo mês. Porém, não conseguia controlar. Sentia que, no momento em que abria a boca, o ar ficava pesado e todos olhavam para ela, prontos para fazerem alguma pergunta para a qual ela não estaria preparada. Nem sempre isso acontecia. Havia ocasiões em que ela saía ilesa. Achava curioso que sua par não parecia sofrer do mesmo mal. Nunca faziam perguntas fora do contexto para ela. Quando ela comentava sobre o assunto, recebia um aceno de mão e um comentário do tipo “imagina, querida, você foi ótima”. Não ajudava muito. Naquele dia, Joana seria a última, o que podia ser bom ou ruim, dependendo do andar da reunião. Se os gerentes apresentassem direitinho, o chefe e o chefe do chefe aceleravam a reunião e não faziam perguntas. Mas, se a coisa degringolava, o último a apresentar era o que mais sofria. Joana torceu para que seus colegas fizessem um bom trabalho. A primeira apresentação correu bem, sem grandes percalços. A partir da segunda, o clima começou a pesar, pois as notícias não eram muito boas. Projetos não concluídos, prazos não cumpridos, gastos que excediam o orçamento previsto para o mês sem justificativa prévia, viagens não autorizadas, e assim por diante. Joana sentia o suor escorrendo em suas costas. O frio na barriga aumentava. Olhou para suas anotações. Não tinha notícias maravilhosas, mas também não havia nada de terrível a ser apresentado. Tentou se manter confiante. Ao chegar sua vez, iniciou com alguns dados introdutórios, ao que seu chefe a interrompeu e pediu para que fosse direto ao assunto, pois tinham pouco tempo. Foi então direto ao assunto e apresentou seus resultados, procurando dar enfoque ao que era positivo. Não conseguiu terminar, pois o chefe do chefe interrompeu e comentou a respeito do formato da apresentação, que estava fora do template corporativo. Joana estranhou o comentário, pois os dois colegas anteriores tinham apresentado no mesmo formato que o dela. Outro comentário foi sobre o inglês, que acharam que estava muito formal e as informações não estavam claras. Ela tinha que ser mais objetiva, ele dizia. Joana tentou prosseguir e, ao chegar perto do final, viu que todos estavam olhando para seus celulares, ou tendo conversas paralelas. Resolveu encerrar ali mesmo. Nisso, seu chefe olhou para a tela e disse “só isso? Ok, obrigada”. Joana se sentou, sentindo-se um lixo, procurando ignorar o bolo que se formava em seu estômago. Ao final das reuniões, a sessão de tortura começava: tanto o chefe de Joana, quanto o chefe do chefe, faziam comentários sobre cada uma das apresentações e, com exceção de algum ou outro, todos eram duramente criticados. No começo, Joana anotava as críticas e procurava incorporar as mudanças para as próximas apresentações. Porém, nunca estava à altura. Era bem desgastante. Naquele dia, por algum milagre, a par de Joana foi a primeira a ser criticada. Disseram que a apresentação dela precisava ser alterada para conter mais explicações, pois o documento iria para o exterior e tinha que ter mais informações. Em seguida, meteram o pau na apresentação dos dois Gerentes Juniors, que sempre levavam a pior. Joana sempre se perguntava como eles aguentavam ainda. Ao final, reservaram a crítica final para ela. Disseram que sua apresentação estava amadora e que parecia que ela tinha passado para o estagiário fazer. Joana ia responder, ao que seu chefe levantou a mão para impedi-la, dizendo “não terminei ainda”. Então, ele começou a falar que entendia que o momento dela não era propício, pois ela tinha acabado de voltar da licença-maternidade e devia estar difícil manter a cabeça no lugar com um bebê em casa. Joana ia responder novamente, mas foi imediatamente interrompida. Ele continuou o discurso, falando que a empresa dava plenas condições para as “mamães” (sim, foi assim que ele colocou), mas que ela tinha que colaborar. Não podia apresentar um trabalho feito em cima da hora e ainda esperar que eles entendessem. Joana se preparou para responder, mas o chefe do chefe logo arrematou: “Talvez você precise pedir a um de seus colegas que a ajude. Que tal o Claudio, ou mesmo a Karen? Ela não tem filhos, sempre fica até mais tarde. Talvez possa te dar uma mão, né Karen?” Karen apenas levantou o olhar e deu um sorriso sem graça. Claudio prontamente se colocou à disposição, mas Joana o interrompeu e disse que agradecia mas que não era necessário. Questionou em que parte sua apresentação estava amadora ou incompleta e comentou sobre os resultados, todos dentro da meta. Seu chefe apenas gesticulou, como se aquilo fosse desnecessário e respondeu algo como “não precisa se explicar”. No final, decidiram que Claudio a ajudaria a formatar a apresentação, já que a dele estava sempre impecável. Joana teve ódio imediato de Claudio, de quem já não gostava muito. Achou desnecessário comentar ali que Claudio nunca fazia suas apresentações. Era sempre a analista sênior que se matava e ele apenas ia colher os louros na reunião. Diria isso a ele depois. Sabendo que não tinha mais o que dizer, se calou. A reunião acabou. Ao sair da sala, foi direto ao banheiro, para tentar se acalmar. Não demorou muito para ver Karen entrando esbaforida. Quando Karen viu Joana, hesitou, mas logo começou a desabafar: “nossa, nunca fui tão maltratada!” Joana olhou para ela e disse “eu sempre sou. Bem vinda à realidade”. Karen saiu do banheiro pisando duro. Joana teve vontade de estapeá-la. As duas tinham que ser mais unidas, não era assim que funcionava a tal sororidade? Saiu do banheiro e resolveu ir até a sala de Karen. Entrou, fechou a porta, sentou-se e perguntou: “o que você achou do que eles falaram para mim, sobre a questão dos filhos e etc?” Karen se empertigou, pois não esperava este confronto. Joana continou: “sei que não somos amigas, mas podemos ao menos ser aliadas e compreensivas uma com  a outra. Você é mulher. Eu sou mulher. Não estamos no time deles.” Karen olhou para baixo, sem dizer nada. Joana não conseguiu se conter e quase gritou: “pelo amor de Deus, diga alguma coisa!” Karen se assustou e começou a chorar. Joana esperou. Então, soluçando, Karen pediu desculpas. Disse que só naquele momento a ficha tinha caído e percebeu a megera que estava sendo. Achava-se privilegiada por nunca ter sido criticada, não queria ser vista com Joana, que era sempre motivo de comentários negativos nas reuniões, de uma forma ou de outra. De uma forma egoísta, Karen achava que Joana não pertencia ao clube dos bons. Disse assim mesmo “clube dos bons”. Joana riu, com desdém. Karen admitiu que aquilo era ridículo. “Ouvindo o comentário dele sobre seu retorno da licença, me senti atacada. Sei que tenho agido mal, mas gostaria de mudar isso.”. Joana sorriu, pôs a mão sobre a de Karen e respondeu: “Sempre podemos mudar o que não está bom. Juntas, será um pouco mais fácil”. Saiu da sala e, cheia de coragem, foi acabar com a raça de Claudio.