Necessidade

A vida que hoje vejo é a única que conheço,

Mas não a única que há.

Mostre-me o que meus olhos

Ainda não são capazes de buscar.

Entregue-me o que minhas mãos

Não alcançam por estarem presas.

Liberte-me das correntes suspensas no ar,

Purifique-o,

Dando-me chance de respirá-lo.

Leve-me ao mundo que se esconde

Por trás desses prédios altos,

Iluminados.

Faça com que os pássaros cantem a música que supere o ruído

Das máquinas.

Conduza-me por entre a multidão

E afaste-me do desespero que habita as pessoas.

Acalme as ruas, as estradas,

Deserte-as.

Tire o poder das mãos erradas

E divida-o entre nós.

Sustente todos esses humildes

Com as sobreas do seu ouro.

Encante-me com suas palavras,

Suficientes para acalmarem

O choque que o mundo produz.

Faça flores crescerem nos jardins de pedra.

Enxugue as lágrimas que neles caem,

Derrame-as no oceano.

Acompanhe-me para eu não me perder,

E ficar só.

Tire as vendas que cobrem

A justiça e condenam os inocentes.

Lave as mãos sujas de terra,

As faces cobertas de suor,

Os olhos cheios de esperança.

Dê a eles razões mais fortes

Para continuarem suas vidas.

Dê a eles uma vida.

Cale os gritos das vítimas da violência,

Desarme os soldados

E os inimigos.

Organizes novamente a História.

Há tanto para ser feito…

Comece pelo mundo.

Eliana Leite

(1993)

Céu

Céu, como és misterioso…

Faz-me perder em tua magia

Torna-te assim tão distante

Pudera eu atingir-te

Tocar tuas mãos

Beijar tua face.

Tens tudo de atraente

E, ao mesmo tempo, de assustador.

Quando amanheces, fico aliviada

Posso te enxergar, posso te amar

Quando escureces, me assusto

Ao te perder, ao não mais te ver

Por tanta coisa que sinto

Sei que és poderoso

E não tens piedade

Pois posso eu partir

Que teu encanto não chegará ao fim.

Eliana Leite

(1990)