Soraia

Estava escuro na rua. Garoava. Era Outono. O guarda-chuva era inútil, pois a garoa vinha oblíqua e molhava seu rosto. Estava com frio. Soraia andava rápido, pois tinha que chegar em casa a tempo de José sair para o trabalho e não deixar a filha sozinha. Não queria dar motivo para ele ficar nervoso. A mandíbula ainda doía do soco da semana passada. Quando sua patroa perguntou o que tinha acontecido, disse que caiu na rua. Quando seu irmão perguntou, disse que não era da conta dele. Quando se olhou no espelho, teve vergonha. Chegou em casa, esbaforida, a tempo. A tempo para a dupla jornada: lavar, passar, cozinhar e cuidar da filha. A repetição do trabalho que fazia na casa dos outros. Entregava o salário na mão de José, toda semana. Ele que cuidava dos gastos. Quando sobrava, dava um dinheiro para ela. Cada vez, mais, isso era raro. Costumava guardar o dinheiro em um pote, na gaveta da cômoda, no quarto. A última vez que olhou, mal tinha dinheiro para comprar calcinhas. E estava precisando. Quando pediu a José, ele riu. E não deu o dinheiro. Ela, então, guardou um pouco para si do que tinha recebido da patroa. Na hora, ele percebeu que tinha menos. Ela mentiu, dizendo que a patroa ia completar na semana seguinte. Não teve tempo de desviar. O tapa veio na mesma hora. E então ele a revistou em busca do dinheiro. Encontrou. Deu outro tapa. E saiu com o dinheiro, no meio da noite. Soraia nunca mais guardou o dinheiro, nem pediu. Começou a pedir dinheiro emprestado para a irmã, Maria, que reclamava, mas tinha pena e dava. Maria trabalhava como supervisora em uma empresa prestadora de serviços de limpeza. Estava fazendo faculdade, não era casada. Soraia tinha um baita orgulho da irmã. Invejava a liberdade dela. A inteligência. Soraia não conseguia sair do buraco em que tinha se metido. Na verdade, nem tentou. Tinha medo. Quando conversava com Maria sobre isso, era dolorido, triste. Maria dizia que ela tinha que denunciar José. Soraia nem sabia como faria isso. Ficava sem chão ao pensar na filha, sem pai. Soraia mal sabia ler e escrever. Tinha completado o curso fundamental, e olhe lá. Conseguiu o trabalho na casa da patroa por indicação da irmã. Aceitou trabalhar sem registro. Precisava do dinheiro. Não sabia muitas coisas. Só queria que sua filha pudesse terminar os estudos e ser melhor do que ela. Conhecia José desde sempre. Ele começou a bater nela depois que a filha nasceu. Soraia não entendia o porquê. Não conseguia conversar com José sobre isso. Não sabia o que dizer. Pensou, no fundo, que talvez merecesse ser tratada daquela forma por ser burra, por não ter vencido na vida. José vivia a chamando de tonta, de mula. Ela aceitava. Não falava nada disso para o irmão, Antonio, porque este a julgava. Não era como Maria, que a ouvia e tentava ajudar, mesmo não conseguindo. Antonio tinha uma esposa que trabalhava em dois turnos e ele não fazia muita coisa para ajudar. Vivia de bicos e era basicamente um vagabundo. Soraia o observava rondando pelo bairro, parando nos bares, conversando com as mulheres. Então, quem era ele para julgá-la? Ela podia até não saber muito, mas sabia que o irmão não era grande coisa. Naquela noite, colocou a filha para dormir cedo e ficou na janela, observando. De repente, viu o irmão zanzando pela rua em direção à casa dele. Conhecia aquele olhar. Olhar de bêbado. Era o mesmo que José tinha nos finais de semana. Os piores. Resolveu sair de casa e seguir Antonio, que mal percebeu. Assim que o viu chegar em casa, se esgueirou atrás da janela. Ouviu-o chamado pela esposa. Quando viu que ela não respondia, começou a gritar. Soraia não entendeu. Ouviu o barulho de louças quebrando. Antonio estava tendo um ataque. Resolveu entrar na casa. Assim que entrou, gritou para Antonio parar com aquilo. Este, bêbado, sem entender nada, parou. Caiu no chão. Começou a chorar. “Ela foi embora, Soraia! Ela me deixou”. Soraia levou o irmão para tomar um banho frio, fez um café forte e esperou ele se recompor. Conversaram. Ele explicou que há alguns dias tinham tido um briga feia, em que ela disse tudo o que estava entalado há anos, segundo ela mesma, que não aguentava mais a vagabundagem dele. Quando ouviu isso, Antonio confessou à irmã que perdeu as estribeiras e deu um tapa na cara dela, que devolveu na hora e disse que iria embora. E, desde então, sumiu mesmo, não deu mais sinal e ele estava desesperado. “O que eu faço, irmã?” Soraia ouviu tudo aquilo e, de repente, teve vontade de bater no irmão. Começou a chorar. Antonio não entendeu nada. Perguntou se estava tudo bem. Soraia começou, então, a dizer a ele que não se bate em mulher, que ela estava certa em ir embora, onde já se viu, aguentar a vagabundagem dele e ainda ter que levar um tapa na cara. Defendeu a cunhada e acusou Antonio de ser um fracassado. “Eu apanho do meu marido, mas sou fraca. A sua mulher é que está certa. Você não passa de um covarde”. Antonio ficou olhando para a irmã, atônito. “Você apanha do José?” Soraia respondeu que aquilo não vinha ao caso. Antonio insistiu “como assim, apanha?” Então, Soraia mostrou o último hematoma. “Sim, apanho, olha aqui! Mas e daí, você também bateu na sua mulher!” Antonio se levantou e chutou a cadeira, com raiva. “Ninguém bate na minha irmã! Vou acabar com esse desgraçado”. Soraia começou a rir. “Você não está falando sério, né? Acabou de dizer que bateu na Célia e agora vai dar uma de valentão para cima do José pela mesma coisa?” “Não é a mesma coisa!” “É sim! Não quero que você venha me defender. Você é igual a ele. Se a mãe estivesse viva, estaria morrendo de vergonha de você. Um bêbado, vagabundo e covarde.” Antonio levantou a mão e então Soraia o enfrentou: “Vai bater em mim? Viu como você é um bosta? Vem, bate! Mas se bater, eu te arrebento!” Antonio abaixou a mão e começou a chorar novamente. Soraia o deixou na casa e se foi. Ao chegar em casa, arrumou sua mala, a de sua filha e se foi, sem deixar bilhete, nem nada.

Joana

De olho no relógio para não perder a hora da reunião, Joana estava tensa. A apresentação estava pronta, ela estava preparada, mas sempre ficava nervosa quando tinha que falar em público. Tinha ensaiado diversas vezes, mas mesmo assim, estava insegura. E se fizessem mil perguntas e ela não soubesse a resposta? “Diga simplesmente que vai verificar e depois retorna por e-mail”, seu marido dizia. Ela sabia que para ele era mais fácil, pois era extrovertido e estava acostumado a esse tipo de exposição. Ele sempre se saía bem, mesmo que fosse pela tangente. Quantas vezes ela não se perguntou porque não conseguia ser assim, desprendida e descontraída, como se aquilo fosse algo normal, sem tanto stress e cobrança? Faltavam quinze minutos para a reunião e Joana foi para a sala. Sempre chegava pelo menos com cinco minutos de antecedência, ainda que soubesse que nunca começavam nada no horário. Ao chegar, como previsto, não havia ninguém na sala. Escolheu um lugar perto da mesa de café e tomou mais alguns minutos para ler suas anotações. Aos poucos, as pessoas foram chegando e a reunião começou com 10 minutos de atraso. Joana contou: 2 mulheres e 8 homens. Uma das mulheres era sua par. Um dos homens, seu chefe e outro, chefe do seu chefe. O tema da reunião era apresentação dos resultados do mês. Cada gerente tinha que apresentar sua parte. Era meio ridículo que Joana se sentisse nervosa, após anos fazendo esta reunião, todo mês. Porém, não conseguia controlar. Sentia que, no momento em que abria a boca, o ar ficava pesado e todos olhavam para ela, prontos para fazerem alguma pergunta para a qual ela não estaria preparada. Nem sempre isso acontecia. Havia ocasiões em que ela saía ilesa. Achava curioso que sua par não parecia sofrer do mesmo mal. Nunca faziam perguntas fora do contexto para ela. Quando ela comentava sobre o assunto, recebia um aceno de mão e um comentário do tipo “imagina, querida, você foi ótima”. Não ajudava muito. Naquele dia, Joana seria a última, o que podia ser bom ou ruim, dependendo do andar da reunião. Se os gerentes apresentassem direitinho, o chefe e o chefe do chefe aceleravam a reunião e não faziam perguntas. Mas, se a coisa degringolava, o último a apresentar era o que mais sofria. Joana torceu para que seus colegas fizessem um bom trabalho. A primeira apresentação correu bem, sem grandes percalços. A partir da segunda, o clima começou a pesar, pois as notícias não eram muito boas. Projetos não concluídos, prazos não cumpridos, gastos que excediam o orçamento previsto para o mês sem justificativa prévia, viagens não autorizadas, e assim por diante. Joana sentia o suor escorrendo em suas costas. O frio na barriga aumentava. Olhou para suas anotações. Não tinha notícias maravilhosas, mas também não havia nada de terrível a ser apresentado. Tentou se manter confiante. Ao chegar sua vez, iniciou com alguns dados introdutórios, ao que seu chefe a interrompeu e pediu para que fosse direto ao assunto, pois tinham pouco tempo. Foi então direto ao assunto e apresentou seus resultados, procurando dar enfoque ao que era positivo. Não conseguiu terminar, pois o chefe do chefe interrompeu e comentou a respeito do formato da apresentação, que estava fora do template corporativo. Joana estranhou o comentário, pois os dois colegas anteriores tinham apresentado no mesmo formato que o dela. Outro comentário foi sobre o inglês, que acharam que estava muito formal e as informações não estavam claras. Ela tinha que ser mais objetiva, ele dizia. Joana tentou prosseguir e, ao chegar perto do final, viu que todos estavam olhando para seus celulares, ou tendo conversas paralelas. Resolveu encerrar ali mesmo. Nisso, seu chefe olhou para a tela e disse “só isso? Ok, obrigada”. Joana se sentou, sentindo-se um lixo, procurando ignorar o bolo que se formava em seu estômago. Ao final das reuniões, a sessão de tortura começava: tanto o chefe de Joana, quanto o chefe do chefe, faziam comentários sobre cada uma das apresentações e, com exceção de algum ou outro, todos eram duramente criticados. No começo, Joana anotava as críticas e procurava incorporar as mudanças para as próximas apresentações. Porém, nunca estava à altura. Era bem desgastante. Naquele dia, por algum milagre, a par de Joana foi a primeira a ser criticada. Disseram que a apresentação dela precisava ser alterada para conter mais explicações, pois o documento iria para o exterior e tinha que ter mais informações. Em seguida, meteram o pau na apresentação dos dois Gerentes Juniors, que sempre levavam a pior. Joana sempre se perguntava como eles aguentavam ainda. Ao final, reservaram a crítica final para ela. Disseram que sua apresentação estava amadora e que parecia que ela tinha passado para o estagiário fazer. Joana ia responder, ao que seu chefe levantou a mão para impedi-la, dizendo “não terminei ainda”. Então, ele começou a falar que entendia que o momento dela não era propício, pois ela tinha acabado de voltar da licença-maternidade e devia estar difícil manter a cabeça no lugar com um bebê em casa. Joana ia responder novamente, mas foi imediatamente interrompida. Ele continuou o discurso, falando que a empresa dava plenas condições para as “mamães” (sim, foi assim que ele colocou), mas que ela tinha que colaborar. Não podia apresentar um trabalho feito em cima da hora e ainda esperar que eles entendessem. Joana se preparou para responder, mas o chefe do chefe logo arrematou: “Talvez você precise pedir a um de seus colegas que a ajude. Que tal o Claudio, ou mesmo a Karen? Ela não tem filhos, sempre fica até mais tarde. Talvez possa te dar uma mão, né Karen?” Karen apenas levantou o olhar e deu um sorriso sem graça. Claudio prontamente se colocou à disposição, mas Joana o interrompeu e disse que agradecia mas que não era necessário. Questionou em que parte sua apresentação estava amadora ou incompleta e comentou sobre os resultados, todos dentro da meta. Seu chefe apenas gesticulou, como se aquilo fosse desnecessário e respondeu algo como “não precisa se explicar”. No final, decidiram que Claudio a ajudaria a formatar a apresentação, já que a dele estava sempre impecável. Joana teve ódio imediato de Claudio, de quem já não gostava muito. Achou desnecessário comentar ali que Claudio nunca fazia suas apresentações. Era sempre a analista sênior que se matava e ele apenas ia colher os louros na reunião. Diria isso a ele depois. Sabendo que não tinha mais o que dizer, se calou. A reunião acabou. Ao sair da sala, foi direto ao banheiro, para tentar se acalmar. Não demorou muito para ver Karen entrando esbaforida. Quando Karen viu Joana, hesitou, mas logo começou a desabafar: “nossa, nunca fui tão maltratada!” Joana olhou para ela e disse “eu sempre sou. Bem vinda à realidade”. Karen saiu do banheiro pisando duro. Joana teve vontade de estapeá-la. As duas tinham que ser mais unidas, não era assim que funcionava a tal sororidade? Saiu do banheiro e resolveu ir até a sala de Karen. Entrou, fechou a porta, sentou-se e perguntou: “o que você achou do que eles falaram para mim, sobre a questão dos filhos e etc?” Karen se empertigou, pois não esperava este confronto. Joana continou: “sei que não somos amigas, mas podemos ao menos ser aliadas e compreensivas uma com  a outra. Você é mulher. Eu sou mulher. Não estamos no time deles.” Karen olhou para baixo, sem dizer nada. Joana não conseguiu se conter e quase gritou: “pelo amor de Deus, diga alguma coisa!” Karen se assustou e começou a chorar. Joana esperou. Então, soluçando, Karen pediu desculpas. Disse que só naquele momento a ficha tinha caído e percebeu a megera que estava sendo. Achava-se privilegiada por nunca ter sido criticada, não queria ser vista com Joana, que era sempre motivo de comentários negativos nas reuniões, de uma forma ou de outra. De uma forma egoísta, Karen achava que Joana não pertencia ao clube dos bons. Disse assim mesmo “clube dos bons”. Joana riu, com desdém. Karen admitiu que aquilo era ridículo. “Ouvindo o comentário dele sobre seu retorno da licença, me senti atacada. Sei que tenho agido mal, mas gostaria de mudar isso.”. Joana sorriu, pôs a mão sobre a de Karen e respondeu: “Sempre podemos mudar o que não está bom. Juntas, será um pouco mais fácil”. Saiu da sala e, cheia de coragem, foi acabar com a raça de Claudio.