Resenha – Livro “Afinidades Eletivas”, Goethe

O livro retrata a relação entre quatro pessoas: Charlotte, Eduard, Otto (chamado como Capitão em todo o livro) e Ottilie. Os dois primeiros são casados e os dois últimos não se conhecem entre si, mas são convidados por cada um dos cônjuges (Ottilie por Charlotte e o Capitão, por Eduard) a se hospedarem no castelo em que vivem. Eduard, na verdade, é o que toma a iniciativa de chamar o Capitão, o qual se encontra em dificuldades financeiras e pede ajuda ao amigo de longa data. A contragosto de Charlotte, Eduard insiste em que esta atitude é a mais correta e que tudo ficará bem. Charlotte, por seu lado, entende que isso acarretará uma mudança significativa, e talvez penosa, à rotina do casal, que foi para o campo para, digamos, fugir deste tipo de interferência. Eduard insiste tanto que Charlotte acaba aceitando, não sem antes propor que também se convide sua sobrinha, Ottilie, para ficar no castelo, sob o pretexto de ajudar Charlotte nas atividades domésticas. Logo descobrimos que Charlotte pensa que a vida de Ottilie será mais útil e menos dolorosa no castelo do que no pensionato, onde não parece ter seus trabalhos valorizados e, ainda, é vítima do desprezo da filha de Charlotte, Luciane.

Dito isso, chega o Capitão, que se une ao amigo em conversas e trabalhos, deixando Charlotte com um sentimento inicial de solidão e de falta de ocupação, já que o Capitão passa a assumir o trabalho de construção que ela estava comandando. Resta então a Charlotte esperar por Ottilie, ansiando, assim, por uma companhia. Ottilie chega e, inicialmente, tudo parece se encaixar mais ou menos bem. Porém, o autor nos dá os sinais de que as tais afinidades eletivas, em uma aparentemente despretensiosa aula de química dos homens para Charlotte, serão a perdição de todos. Elementos que se atraíam passarão a se afastar em detrimento de outros, pelos quais as afinidades parecem ser maiores. E tudo isso pode também significar a destruição de um ou outro elemento.

Está é a base na qual Goethe escreve esta novela. A leitura é rápida, visto que curta, mas não por isso menos intensa. Eu não tinha em meus planos de leitura um livro de Goethe. Porém, como estou participando de um clube de leitura (Livres no Livro), este foi um dos sugeridos em um dos encontros e lá fui eu. Confesso que não foi uma das leituras mais agradáveis que fiz nos últimos tempos. A tradução do alemão antigo para o português se tornou bastante rebuscada, com palavras muito anacrônicas (obrigando o leitor a usar o dicionário diversas vezes) e construções um tanto confusas. Tentando me abstrair disso, dei uma chance ao livro e fui até o fim. Creio que cometi um erro ao fazer uma leitura mais superficial, analisando as personagens e seus comportamentos, o que me fez considerá-los todos bem irritantes, principalmente Eduard e Ottilie. Ao discutir o livro com o grupo, pude ver que o autor fez tudo isso propositadamente, a fim de tecer uma ácida crítica ao casamento e aos costumes da época. Ainda assim, o estilo da escrita e a forma como o narrador se afasta de tudo e de todos, não me atraiu. Sim, é um clássico. Sim, é Goethe. Quem sou eu para criticar tal obra? Mas, como já disseram uma vez por aí “Não somos nós que lemos o livro; é ele que nos lê”. Eu e “Afinidades Eletivas” não chegamos a um acordo ao nos lermos um ao outro. Quando eu achava que estava embarcando, havia uma parada, ou uma nova direção que fugia de tudo aquilo que estava sendo narrado e eu perdia o fio, ou mesmo o interesse. Além disso, ficou em mim um gosto amargo ao final, de manipulação e de um falso dramalhão. Tenho absoluta certeza de que esta era a intenção do autor, mas não me chamou junto e eu terminei o livro quase dando graças aos céus que havia concluído a tempo para a discussão do clube. Poderia ter desistido, mas, sabe como é… Quantos livros ou filmes não levamos até o fim só para ter certeza de que podemos dizer que não gostamos? Este foi um caso e, embora tenha ouvido outras opiniões de amigas (uma ou outra concordaram comigo), minha conclusão é de que não gostei do livro. Existem livros que não gostam da gente e vice-versa. Perguntaram, ainda, se eu leria “Fausto”. Penso que não. A não ser que alguém consiga me dizer que será totalmente diferente…

Em tempo, tenho que admitir que há algumas passagens, frase e diálogos de “cair o queixo”, um dos fatores que me fez permanecer na leitura. Deixo aqui algumas delas:

“Mas, em certos casos”, disse Charlotte, “é necessário e mesmo gentil preferir nada escrever a não escrever.”

“Mas quem afinal é tão educado que já não tenha, de modo cruel, imposto sua superioridade sobre os outros? E quem é tão altivo que já não tenha padecido frente a tamanha opressão?”

“Em todas as criaturas com quem deparamos, percebemos em primeiro lugar que elas guardam uma relação consigo mesmas. Soa estranho, naturalmente, exprimir algo que é autoevidente; porém, só podemos progredir com as outras pessoas na busca do desconhecido depois de termos compreendido de maneira cabal aquilo que sozinhos já conhecemos.”

“A impaciência é que, de tempos em tempos, assalta o homem, e aí ele acha que se pode dizer infeliz.”

“Por vezes o casamento pode ser desagradável, não o nego, e é certo que seja assim. Não nos casamos também com a consciência, da qual, frequentemente, gostaríamos de nos livrar por ser mais desagradável do que jamais poderiam ser um homem ou uma mulher?”

“Mas o momento presente não aceita a alienação de seus enormes direitos. Os dois passaram uma parte da noite entretendo-se com toda sorte de conversas e gracejos, que se viam tão mais desimpedidos quanto mais o coração permanecia ausente. Na manhã seguinte, quando Eduard acordou reclinado sobre o peito da mulher, parecia-lhe que o sol contemplava a cena desconfiado; a seus olhos, era como se o astro iluminasse um crime; afastou-se cautelosamente, sem fazer barulho, e, ao despertar, Charlotte viu, não sem surpresa, que estava sozinha.”

“Assim, cada um a seu modo, os amigos tocam a vida, com e sem reflexão; tudo parece seguir o rumo natural, da mesma maneira que, como ocorre nas situações excepcionais, quando tudo está em risco, continuamos a viver, como se nada nos ameaçasse.”

“Jamais nos distanciamos tanto do objeto de nossos desejos do que quando imaginamos possuí-lo.”

“Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser. Basta a alguém declarar-se livre para logo se sentir limitado. Se, porém, vem a se declarar limitado, sente-se livre.”

“Não existe consolo maior para os medíocres do que saber que o gênio não é imortal.”

“Os idiotas e os inteligentes são inofensivos. Os meio bobos e os meio sábios são os tipos mais perigosos.”

“Agora bastava torná-la inofensiva para as mulheres casadas, tornando-a também casada.”

“Mesmo nas famílias grandes e ricas, que tanto devem a seus antepassados, amiúde os vivos se lembram mais do avô que do pai.”