Resenha – Livro “Ariel”, de Sylvia Plath

Comprei este livro (talvez tardiamente) em 2019, na Livraria da Travessa, em São Paulo, no bairro de Pinheiros. Senti-me atraída pela capa, além de fazer um tempo que queria ler algo de Sylvia. Por que existem autores que ensaiamos ler e não o fazemos? Será que é porque não estamos prontos para eles e, então, o tempo vem e nos informa “agora, é a hora”? Acho que foi assim que me senti ao ver este livro, sua capa, e então o abri, vi que era uma edição restaurada e bilingue, com os manuscritos originais. Livro comprado, ficou um tempo na estante, esperando. E assim foi que, em meio à quarentena do novo Corona vírus, decidi que o enfrentaria. Fiz algo que há muitos anos não fazia – peguei uma lapiseira e comecei a grifar o livro, fazer anotações nas margens, nas partes em branco… Usei a parte em português apenas para tirar dúvidas pontuais que pudessem prejudicar meu entendimento. Ler os poemas em inglês foi algo saboroso. Pois bem, vamos à resenha.

Tudo começa com a Apresentação – O Caso Ariel. Nada como ter o histórico do livro, quando ela escreveu, porque, o que isso significou. E acho que é preciso separar o trágico final de Sylvia de sua obra, ainda que ela mencione a morte em alguns poemas. Por isso, esta apresentação vem bem a calhar, e mostra que Ted Hughes, e não o julgo por isso, tentou omitir os poemas mais explícitos, digamos assim. Porém, depois de alguns anos, foi publicada esta edição que eu li, que respeitou os desejos de Sylvia, com a publicação de todos os poemas que formavam a coleção Ariel.

Vamos, então, ao prefácio, escrito pela filha de Sylvia, a também poeta Frieda Hughes. E, como toda filha, ela busca entender os pais. Critica a forma cruel como o pai foi tratado após a morte de Sylvia e publicação, por ele mesmo, de Ariel, como se estivesse vilipendiando o túmulo da esposa. Além de ter cometido adultério, teria interferido de forma indevida nos direitos autorais da autora. Ela diz que tais coisas “não guardam nenhuma semelhança com o homem que calma e carinhosamente” a criou, e com a ajuda de sua madrasta. E, completa que “o tempo todo ele manteve viva a memória da mãe que me deixara, e eu sentia como se ela estivesse tomando conta de mim, uma presença constante em minha vida.” Ela segue, relatando como era viver em torno de uma imagem “milagrosa” de tudo o que se referia à mãe. E então, finalmente, nos diz que “isso foi muitos anos antes de eu descobrir que minha mãe tinha um temperamento feroz e um caráter ciumento, em contraste com a natureza mais equilibrada e otimista de meu pai.” Cita, ainda, que houve ocasiões em que Sylvia destruiu o trabalho do marido, uma vez rasgando-o e outra queimando-o. Chega, então, à conclusão de que a mãe, “assim como era uma poeta excepcional, era também um ser humano”. Ela vê tudo isso como um restabelecimento da verdade, e uma forma de melhor compreender a mãe. Ela precisava entender tudo isso para poder entender a si mesma (entendemos a nós mesmos por meio de nossos pais, avós, antepassados, ancestrais). Frieda encerra o prefácio: com chave de ouro “Quando ela morreu, deixando Ariel como último livro, foi flagrada no ato de vingança, com uma voz que havia sido afiada e praticada durante anos, posteriormente com a ajuda de meu pai. Embora tenha se tornado uma vítima disso, no final das contas ele não negou sua maestria. Essa nova edição, restaurada, é minha mãe naquele momento. É a base do Ariel editado por meu pai. Cada versão tem significado próprio, embora as duas histórias sejam uma só.”

Devo admitir que a leitura dos poemas de Sylvia Plath não é fácil, pois ela tem um estilo bem hermético e intimista de escrita. Faz referências a coisas que viveu em seu dia a dia, mistura com momentos históricos, memórias e traumas. Na verdade, em minha opinião, os grandes poetas são aqueles que fazem com que você leia o poema e fique flutuando, tentando depois buscar um chão para pousar. Não necessariamente há o objetivo de “entender”, “decifrar”, “interpretar”. A própria Sylvia, quando lhe pediram para “explicar” os poemas em um programa de rádio, foi breve e seca. Não cabem explicações. Não cabe dissecar cada poema, em busca do momento em que ela se referia a tirar sua própria vida, ou se referia à traição do marido. Há muito mais do que isso. Há nuances, há explosões, há véus, há amor, há ódio e contemplação. Nem consigo resumir tudo isso em algumas palavras. Por isso, resolvi colocar aqui algumas impressões minhas, particulares, não “validadas”, “breve e secas”, sobre alguns poemas (vários eu li mais de uma vez).

“Morning Song” – um poema de uma mãe para um filho/filha. Há tantas menções a uma sensação de pertencimento e ao mesmo tempo desprendimento. Não tenho filhos, não sei como é, mas pude sentir o amor no poema. “The clear vowels rise like balloons”.

“Thalidomide” – senti amor desfeito, desilusão, decepção. “A space for thing I am given. A love of two wet eyes and a screetch. White spit of indifference?”

“The Applicant”- retrataria duas pessoas jovens se conhecendo, se relacionando, a ideia de casamento, da prisão à vida social, convenções, uma “boneca viva” (“will you marry it?”)

“Barren Woman” – pessoalmente, apesar de ser o mais curto, é o que mais se parece com um soco no estômago. Silêncio e vazio. Conversou comigo dentro de minha alma.

“Lady Lazarus” – consigo imaginar porque esse poema, como mencionou Frieda, foi praticamente dissecado até as entranhas. Carregado de uma série de figurações “diabólicas”, flerta com a morte e a ressurreição de uma mulher demoníaca, poderosa. Para mim, é um grito de liberdade, de feminilidade, de empoderamento sobre si mesma: “Herr God, Herr Lucifer / Beware / Beware. Out of the ash / I rise with my red hair / And I eat men like air.”

“Tulips” – me pareceu uma narrativa de uma experiencia no hospital. Posteriormente, verifiquei que ela escreveu quando teve apendicite.

“Elm” – a impressão que ficou para mim foi de que algo a assombrava (o tal Olmo). Por fim, fiquei com a seguinte pergunta ao final: o que a assombrava? Ela mesma?

“The night dances” – minhas impressões: luzes do cometa, dos planetas, luz sobre ela (pequena)… afinal, qual nosso tamanho?

“The Detective” – inegável que houve a descoberta de traição. E a traição que leva à morte da família, uma morte invisível.

“Ariel” – um lindo poema. Detalhes, pequenas coisas, choro de criança, orvalho, pescoço de cavalo. Eu não saberia quer era dedicado ao cavalo dela, se não tivesse lido isso na introdução e no prefácio.

“Death & Co.” – fiquei com as seguintes perguntas: quem é ele? O condor? É o marido? É um amor? É a morte à espreita? Alguém que fica ferido de morte? E assim fiquei… não busco respostas.

“Lesbos” – uma deliciosa viagem… Lesbos era a ilha em que a poetisa Safo nasceu… e fiquemos com isso…

“The Other” – adultério, adultério, adultério…

“Medusa” – fiquei intrigada… e então descobri que era sobre ninguém mais do que a mãe de Sylvia. O que me deixou olhando para a parede, sem saber o que pensar foi o final: ‘’there is nothing between us.”

“Purdah”- retrato de opressão, também mostra a esperança, para mim, quando ela diz “I shall unloose / From the small jeweled / Doll he guards like a heart / The lioness / The shriek in the bath, / The cloak of holes.”

“A Birthday Present” – só consegui escrever “WOW” ao final. Vivi para poder ler algo assim.

“Daddy” -ela fala do nazismo, de ser judia, das injustiças… busca se libertar, chamando-o (ironicamente?) de “Daddy”, dizendo, ao final “Daddy, daddy, you bastard, I’m through”.

“The Bee Meeting” e os demais poemas, todos sobre as abelhas são uma verdadeira declaração de amor a esses seres, já que ela criou abelhas. Lindos poemas, para ler de forma contínua, até chegar em “Wintering”.

Ao final, há as notas que ajudam a contextualizar alguns dos poemas. Fiz algumas checagens sobre o que eu tinha apreendido, mas sem muito compromisso, pura curiosidade. Meu único compromisso era com Sylvia: ler Ariel do começo ao fim.

Thank you, Sylvia.

E obrigada, Elis Regina, por ter sido a trilha sonora enquanto eu escrevia esta resenha.

Eliana Leite

08/06/2020

Isolamento

Existe o silêncio lá fora

E o silêncio aqui dentro

Um é quieto

O outro, eloquente

Grito, calada

Sussurro ruidosamente

Meus barulhos internos

Bloqueados pela quietude do mundo

Mundo em quarentena

Pessoas silenciosamente revoltadas

Olho para o vazio

Repleto de abandonos

Caixas empoeiradas esperando no armário

O pó se move por toda a casa

E deposita sua vastidão

Nas relações do não dito

Sonhos mal interpretados

Perdidos no isolamento

Mazelas e feridas abertas

Sangue que escorre por entre os vãos

Todos em casa

Ninguém ouve quando ela chora

Lamento mesclado ao horror

Desobediência não é mais anarquia

Virtuosos gritam regras por escrito

Regras por 24 horas

Todo o dia, algo novo

Toda noite, uma amnésia

A criança trancada

Só quer sair para brincar.

Eliana Leite

(22/05/2020)

Um Dia

Um dia nublado

Garoa, para, garoa, para

Aquele canto dos pássaros que eu ouvia

Para onde foi?

Aquelas risadas das crianças brincando após o almoço

O que as calou?

Um dia nublado

Final de outono

As plantas estão tristes

As borboletas sumiram

Anoitece logo

Quando vejo, já não vejo mais nada

Acendo a luz

Ouço o chamado dos morcegos

Que logo partem

Os sons que permanecem, faça chuva, faça sol

São das motos, das britadeiras, dos carros e da máquina de lavar roupa

A minha, a do vizinho…

Até as notícias são mais cinzas

As roupas

As pessoas

Um dia nublado

Sem sinal do sol

Uma chuva fina, inoportuna

Tanto quanto a morte que nos espreita

E se mostra aos que se distraem

Aos que não se cobrem

No ar frio desse dia cinzento

Um dia nublado

É só mais um dia…

Sinto falta das maritacas

Das joaninhas

Do pequeno arco íris no vidro da janela da sala

Um dia nublado

Páginas de um livro são devoradas

Enquanto a TV anuncia

Mais mortes

Mais cores cinzas

E logo virá o inverno

Aguardemos com nossos cachecóis

Nossos chás quentes

E uma pitada de esperança

Eliana Leite

14/05/2020

Circo

No picadeiro, a música toca

Os palhaços brincam

A plateia boceja

Lá no alto, a artista anda na corda bamba

E sabe que, se cair, nada acontecerá

O show se repete a cada noite

Os acrobatas zombam do mágico

A plateia boceja

A bailarina fugiu com o homem-bala

O globo a morte está vazio

A contorcionista se cansou

O cuspidor de fogo só faz fumaça

A plateia boceja

Plateia esta que sempre vem

Tira fotos e não as vê

E se vai, morta de tédio

Todos os dias serão assim?

Como mudar o amanhã

Sem que tudo se acabe de vez?

Eliana Leite

(12/05/2020)

Pandemia

Pergunto-me se imaginava testemunhar e vivenciar uma pandemia como esta que se apresenta. Não, eu não imaginava. Não pensei que viveria dias assim, que veria notícias sobre número de casos x número de mortes diariamente e que o medo seria um companheiro diário. O medo de me contaminar, o medo de morrer, o medo de que meus pais adoeçam, meu marido, amigos, vizinho. A aflição de viver num país despreparado, com pessoas que morrerão de fome porque não tem casa para ficar. Pessoas que morrerão porque não tem água para lavar as mãos. Pessoas que morrerão porque na hora que o bicho pegar, e ele vai pegar, haverá uma seleção de quem salvar.

Penso na falta de união do Poder Executivo… Penso na burocracia que impede que a ajuda chegue a quem precisa. Penso no fato de que eu comecei um novo negócio junto com o Coronavírus. Penso que sou privilegiada e que ficar em casa é a melhor coisa que faço para ajudar o outro. Penso no futuro, sem saber do presente. Há dias em que sou tomada por uma tristeza enorme, impotência. Há dias em que busco esperança dentro de mim. Tendo a ser otimista, mas ultimamente, a realidade tem se mostrado dura.

Não tenho o objetivo de ser alarmista ou fatalista, ou de ser aquela personagem que grita por aí “vamos todos morrer”! Não. Longe disso. Apenas não sei se sei como lidar, pois é a primeira vez que vivo isso. Nunca participei de uma guerra. Nunca passei fome. Nunca precisei racionar a comida de hoje para não passar necessidade amanhã. Sei o que li. O que ouvi. Àquilo que assisti em documentários, filmes, relatos. Estamos em guerra? O inimigo é invisível? Somos, de fato, vítimas? Ou estamos diante do inevitável, do inexorável, da consequência de nossos atos? A pandemia revela outras mazelas. Sociais, políticas, econômicas e comportamentais. Não vivo o lockdown (ainda), mas, dentro do que consigo, faço o isolamento, distanciamento, quarentena, seja o nome que for. Isso já não é fácil. Se meu vizinho não faz o mesmo que eu, porque estamos ainda na base do bom senso, adianta eu gritar para ele ficar em casa? Agredir verbalmente os idosos porque eles precisam ir à farmácia (existem idosos sozinhos e agora, ao invés de julgá-lo, é necessário refletir sobre o motivo pelo qual ele está sozinho) ajuda em que? Vejo julgamentos, pessoas com soluções para problemas alheios, total falta de empatia, passividade e vitimismo. Não sei o que é pior.

O que vivemos hoje nada mais é do que o resultado da falta de recursos, desde saneamento até educação, passando por nutrição e saúde, velada por discursos vazios e inócuos. Temos uma desunião em meio a uma pandemia. Para mim, isso é apenas a ponta do iceberg. Conversando com pessoas, vejo que a preocupação com a economia é real, tangível, iminente. O comerciante que teve que fechar as portas tem contas para pagar e pessoas que dependem dele. Ele deve se calar? O autônomo que vive do seu trabalho diário, da prestação de serviços, para de trabalhar e vive do que? A diarista que parou de trabalhar e não está recebendo, faz o quê? Eles também devem se calar? Não sei. Qual a solução? O Estado? Um jornalista mencionou, desde o início da pandemia, que a mão invisível do mercado saiu para passar álcool em gel e agora é a vez da mão pesada do Estado entrar. Isso já faz pelo menos um mês. E a ajuda até veio. Aí aparecem as mazelas. A pessoa teve o CPF cancelado porque não votou. A pessoa sequer tem CPF. Não sabe o que é um aplicativo, não tem celular, não tem conhecimento nem recursos suficientes para compreender essa comunicação que é vomitada como se fossem todos iguais. Ouço em diversos canais que não estamos no mesmo barco, pois cada um está numa situação diferente. Concordo. Por isso, a união, o alinhamento na comunicação, a urgência na ajuda e o afastamento de demagogias e egos é fundamental. Porém, como mencionei antes, as crises revelam o que há de pior e melhor nas pessoas. Quem é bom, continua bom. Quem é egoísta, se torna mais egoísta. Um país que não sabe para onde quer ir, continuará ainda mais perdido.

O vírus está aí. Não adianta negar a sua existência. Não adianta colocar um véu ou fechar os olhos para o que virá pela frente, ou, ainda pior, fazer com que toda uma nação feche os olhos para um buraco para então cair em outro. Não há um caminho fácil, pois o cobertor é curto. Entretanto, é mais do que necessário oferecer soluções, possibilidades. Quebrar paradigmas, círculos viciosos e padrões tóxicos. A verdadeira pandemia pode vir da manutenção de comportamentos e discursos que levam à negação. E, invariavelmente, morreremos, de um mal ou de outro.

Finalizo com uma frase de Carl Jung: “Aquilo a que você resiste, persiste.”

Eliana Leite – 14/04/2020