Resenha – Livro “Afinidades Eletivas”, Goethe

O livro retrata a relação entre quatro pessoas: Charlotte, Eduard, Otto (chamado como Capitão em todo o livro) e Ottilie. Os dois primeiros são casados e os dois últimos não se conhecem entre si, mas são convidados por cada um dos cônjuges (Ottilie por Charlotte e o Capitão, por Eduard) a se hospedarem no castelo em que vivem. Eduard, na verdade, é o que toma a iniciativa de chamar o Capitão, o qual se encontra em dificuldades financeiras e pede ajuda ao amigo de longa data. A contragosto de Charlotte, Eduard insiste em que esta atitude é a mais correta e que tudo ficará bem. Charlotte, por seu lado, entende que isso acarretará uma mudança significativa, e talvez penosa, à rotina do casal, que foi para o campo para, digamos, fugir deste tipo de interferência. Eduard insiste tanto que Charlotte acaba aceitando, não sem antes propor que também se convide sua sobrinha, Ottilie, para ficar no castelo, sob o pretexto de ajudar Charlotte nas atividades domésticas. Logo descobrimos que Charlotte pensa que a vida de Ottilie será mais útil e menos dolorosa no castelo do que no pensionato, onde não parece ter seus trabalhos valorizados e, ainda, é vítima do desprezo da filha de Charlotte, Luciane.

Dito isso, chega o Capitão, que se une ao amigo em conversas e trabalhos, deixando Charlotte com um sentimento inicial de solidão e de falta de ocupação, já que o Capitão passa a assumir o trabalho de construção que ela estava comandando. Resta então a Charlotte esperar por Ottilie, ansiando, assim, por uma companhia. Ottilie chega e, inicialmente, tudo parece se encaixar mais ou menos bem. Porém, o autor nos dá os sinais de que as tais afinidades eletivas, em uma aparentemente despretensiosa aula de química dos homens para Charlotte, serão a perdição de todos. Elementos que se atraíam passarão a se afastar em detrimento de outros, pelos quais as afinidades parecem ser maiores. E tudo isso pode também significar a destruição de um ou outro elemento.

Está é a base na qual Goethe escreve esta novela. A leitura é rápida, visto que curta, mas não por isso menos intensa. Eu não tinha em meus planos de leitura um livro de Goethe. Porém, como estou participando de um clube de leitura (Livres no Livro), este foi um dos sugeridos em um dos encontros e lá fui eu. Confesso que não foi uma das leituras mais agradáveis que fiz nos últimos tempos. A tradução do alemão antigo para o português se tornou bastante rebuscada, com palavras muito anacrônicas (obrigando o leitor a usar o dicionário diversas vezes) e construções um tanto confusas. Tentando me abstrair disso, dei uma chance ao livro e fui até o fim. Creio que cometi um erro ao fazer uma leitura mais superficial, analisando as personagens e seus comportamentos, o que me fez considerá-los todos bem irritantes, principalmente Eduard e Ottilie. Ao discutir o livro com o grupo, pude ver que o autor fez tudo isso propositadamente, a fim de tecer uma ácida crítica ao casamento e aos costumes da época. Ainda assim, o estilo da escrita e a forma como o narrador se afasta de tudo e de todos, não me atraiu. Sim, é um clássico. Sim, é Goethe. Quem sou eu para criticar tal obra? Mas, como já disseram uma vez por aí “Não somos nós que lemos o livro; é ele que nos lê”. Eu e “Afinidades Eletivas” não chegamos a um acordo ao nos lermos um ao outro. Quando eu achava que estava embarcando, havia uma parada, ou uma nova direção que fugia de tudo aquilo que estava sendo narrado e eu perdia o fio, ou mesmo o interesse. Além disso, ficou em mim um gosto amargo ao final, de manipulação e de um falso dramalhão. Tenho absoluta certeza de que esta era a intenção do autor, mas não me chamou junto e eu terminei o livro quase dando graças aos céus que havia concluído a tempo para a discussão do clube. Poderia ter desistido, mas, sabe como é… Quantos livros ou filmes não levamos até o fim só para ter certeza de que podemos dizer que não gostamos? Este foi um caso e, embora tenha ouvido outras opiniões de amigas (uma ou outra concordaram comigo), minha conclusão é de que não gostei do livro. Existem livros que não gostam da gente e vice-versa. Perguntaram, ainda, se eu leria “Fausto”. Penso que não. A não ser que alguém consiga me dizer que será totalmente diferente…

Em tempo, tenho que admitir que há algumas passagens, frase e diálogos de “cair o queixo”, um dos fatores que me fez permanecer na leitura. Deixo aqui algumas delas:

“Mas, em certos casos”, disse Charlotte, “é necessário e mesmo gentil preferir nada escrever a não escrever.”

“Mas quem afinal é tão educado que já não tenha, de modo cruel, imposto sua superioridade sobre os outros? E quem é tão altivo que já não tenha padecido frente a tamanha opressão?”

“Em todas as criaturas com quem deparamos, percebemos em primeiro lugar que elas guardam uma relação consigo mesmas. Soa estranho, naturalmente, exprimir algo que é autoevidente; porém, só podemos progredir com as outras pessoas na busca do desconhecido depois de termos compreendido de maneira cabal aquilo que sozinhos já conhecemos.”

“A impaciência é que, de tempos em tempos, assalta o homem, e aí ele acha que se pode dizer infeliz.”

“Por vezes o casamento pode ser desagradável, não o nego, e é certo que seja assim. Não nos casamos também com a consciência, da qual, frequentemente, gostaríamos de nos livrar por ser mais desagradável do que jamais poderiam ser um homem ou uma mulher?”

“Mas o momento presente não aceita a alienação de seus enormes direitos. Os dois passaram uma parte da noite entretendo-se com toda sorte de conversas e gracejos, que se viam tão mais desimpedidos quanto mais o coração permanecia ausente. Na manhã seguinte, quando Eduard acordou reclinado sobre o peito da mulher, parecia-lhe que o sol contemplava a cena desconfiado; a seus olhos, era como se o astro iluminasse um crime; afastou-se cautelosamente, sem fazer barulho, e, ao despertar, Charlotte viu, não sem surpresa, que estava sozinha.”

“Assim, cada um a seu modo, os amigos tocam a vida, com e sem reflexão; tudo parece seguir o rumo natural, da mesma maneira que, como ocorre nas situações excepcionais, quando tudo está em risco, continuamos a viver, como se nada nos ameaçasse.”

“Jamais nos distanciamos tanto do objeto de nossos desejos do que quando imaginamos possuí-lo.”

“Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser. Basta a alguém declarar-se livre para logo se sentir limitado. Se, porém, vem a se declarar limitado, sente-se livre.”

“Não existe consolo maior para os medíocres do que saber que o gênio não é imortal.”

“Os idiotas e os inteligentes são inofensivos. Os meio bobos e os meio sábios são os tipos mais perigosos.”

“Agora bastava torná-la inofensiva para as mulheres casadas, tornando-a também casada.”

“Mesmo nas famílias grandes e ricas, que tanto devem a seus antepassados, amiúde os vivos se lembram mais do avô que do pai.”

Resenha: “Lute como Uma Garota”

Livro de Laura Barcella e Fernanda Lopes (com prefácio de Mary Del Priore).

Trata-se da reunião de 60 feministas que mudaram o mundo, sendo 45 estrangeiras e 15 brasileiras. É uma leitura muito interessante, pois traz o perfil de mulheres desde o século XVIII até os dias de hoje, com suas respectivas lutas e contribuições para o movimento, ainda que algumas delas não se declarem, de forma expressa, feministas. A estrutura do livro é de fácil e rápida leitura, apresentando uma breve história de cada mulher, suas principais realizações e frases de impacto. Achei a parte relativa às brasileiras um pouco mais enxuta, digamos assim, do que a parte estrangeira, embora tenha trazido histórias relevantes.

Reuni aqui um “compilado do compilado”, destacando aquelas mulheres que, para mim, tiveram (e tem) um significado importante na história e no feminismo.

  1. Mary Wollstonecraft (1759 – 1797) – Inglaterra

Escritora, filósofa e defensora dos direitos das mulheres.

Suas grandes realizações:

Mary Wollstonecraft foi uma das primeiras pessoas a propor o livre pensamento na esfera religiosa. Julgava que as mulheres deveriam viver de modo independente e formar as próprias opiniões, não baseadas em uma fé cega em uma divindade.

Frases famosas:

“Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sim sobre si mesmas.“

“Independência – há muito eu a considero a grande benção da vida, a base de todas as virtudes.”

  1. Sojourner Truth (Nascida: Isabelle Baumfree – 1797 – 1883) – Estados Unidos

Abolicionista, escritora, ativista pelos direitos da mulher.

Suas grandes realizações:

Sojourner Truth não tinha medo de um desafio. Em uma reunião em 1852, Frederick Douglass sugeriu que os negros deveriam usar a força para conquistar sua liberdade. Sojourner, que tinha a não violência como elemento fundamental de sua fé cristã, repeliu as afirmações de Douglass, exclamando: “Deus foi-se embora?”

Frases famosas:

“Estou feliz ao ver que os homens estão conseguindo seus direitos, mas quero que as mulheres também consigam os seus, e, enquanto a água se agita, vou entrar nesse lago.”

“Não sou eu uma mulher? Olhe para mim! Veja o meu braço! Já manejei o arado, já plantei, já guardei a colheita nos celeiros, e nenhum homem conseguia chegar na minha frente! Não sou eu uma mulher? Podia trabalhar tanto quanto um homem, e comer tanto quanto um homem – isso quando eu tinha o que comer -, e suportar as chicotadas também! Não sou eu uma mulher? Tive treze filhos e vi muitos deles serem vendidos como escravos, e, quando chorei com minha dor de mãe, só Jesus me ouviu e ninguém mais! Não sou eu uma mulher?”

  1. Frida Kahlo (Nascida: Magdalena Carmen Frieda Kahlo Calderón – 1907 – 1954) – México

Artista plástica.

Suas grandes realizações:

Frida foi prolífica ao longo da vida, criou cerca de duzentas obras entre pinturas, desenhos e esboços; pintou 143 quadros, dos quais 55 eram autorretratos.”

Frases famosas:

“Pés, para que eu preciso de vocês, se tenho asas para voar?”

“Tenho que lutar com todas as minhas forças para que as pequenas coisas positivas  que minha saúde me permite fazer possam se concentrar  em ajudar a revolução. É a única verdadeira razão para viver.”

  1. Rosa Parks (Nascida: Rosa Louise McCauley – 1913 – 2005) – Estados Unidos

Ativista do movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos

Suas grandes realizações:

Em 1996, o presidente Bill Clinton concedeu a Rosa Parks a Medalha Presidencial da Liberdade. Ao lado da Medalha de Ouro do Congresso, aquela é considerada a maior honraria concedida a um civil nos Estados Unidos. Na cerimônia de premiação, Rosa Parks foi chamada de “Primeira-Dama dos Direitos Civis” e “Mãe do Movimento pela Liberdade”.

Frases famosas:

“Gostaria de ser lembrada como uma pessoa que queria ser livre […] para que outras pessoas também fossem livres.”

“Já tinha cedido meu lugar antes, mas naquele dia eu estava especialmente cansada. Cansada do meu trabalho de costureira e cansada da dor no meu coração.”

  1. Maya Angelou (Nascida: Marguerite Annie Johnson – 1928 – 2014) – Estados Unidos

Escritora e poetisa.

Suas grandes realizações:

Em 2010, o presidente Barack Obama concedeu-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade, considerada uma das maiores honrarias civis do país. Disse também que a obra de Maya Angelou “falou diretamente a milhões de pessoas, inclusive minha mãe, e é por isso que minha irmã se chama Maya”.

Frases famosas:

“Sou feminista. Já sou mulher há muito tempo. Seria tolice não defender meu lado.”

“Não há maior agonia do que suportar dentro de si uma história não contada.”

  1. Audre Lorde (Nascida: Audre Geraldine Lorde – 1934 – 1992) – Estados Unidos

Escritora, feminista radical, ativista dos direitos civis.

Suas grandes realizações:

Sua coletânea de textos poderosos, Sister Outsider: Essays & Speeches (1988), é muito apreciada e considerada uma leitura feminista essencial, tanto no meio universitário quanto fora dele.

Frases famosas:

“Sou decidida e não tenho medo de nada.”

“A linguagem com que fomos ensinadas a nos diminuir e a diminuir nossos sentimentos, considerando-os suspeitos, é a mesma linguagem que usamos para diminuir nossas irmãs e suspeitar umas das outras.”

  1. Angela Davis (Nascida: Angela Yvonne Davis – 1944) – Estados Unidos.

Professora, filósofa socialista, ativista, escritora.

Suas grandes realizações:

Em 1980, ela concorreu a vice-presidente dos Estados Unidos na chapa do Partido Comunista, embora não tenha vencido.

Frases famosas:

“Temos que falar sobre libertar a mente, assim como libertar a sociedade.”

“Não consigo imaginar um feminismo que não seja antirracista.”

  1. Oprah (Nascida: Oprah Gail Winfrey – 1954) – Estados Unidos

Apresentadora de televisão, atriz e empresária, grande figura da mídia.

Suas grandes realizações:

Em 2013, o presidente Barack Obama concedeu a Oprah a Medalha Presidencial da Liberdade, uma das maiores honrarias civis dos Estados Unidos.

Frases famosas:

“Chegar a um ponto em que você se sente absolutamente à vontade com você mesma. […] Ter a força interior e a coragem interior necessárias para dizer: ‘Não, eu não vou deixar vocês me tratarem dessa maneira!’ – essa é a essência do sucesso.

“Foi a educação que me libertou. A capacidade de ler salvou minha vida. Seria uma pessoa completamente diferente se não tivesse aprendido a ler ainda muito pequena. Durante toda  a minha experiência de vida, quando a capacidade de acreditar em mim mesma era colocada à prova, e até nos meus momentos mais sombrios de abuso sexual, abuso físico e assim por diante, eu sabia que havia outro caminho, que havia uma saída. Sabia que havia outro tipo de vida, porque tinha lido a respeito.”

  1. Madonna (Nascida: Madonna Louise Veronica Ciccone – 1958) – Estados Unidos

Cantora, compositora, atriz, dançarina e produtora musical.

Suas grandes realizações:

Camille Paglia já chamou Madonna de “o futuro do feminismo”. Em uma coluna de 1990 para o The New York Times, a famosa escritora argumentou que Madonna foi mal compreendida tanto pela grande mídia como pela corrente principal do feminismo. “Madonna tem uma visão muito mais profunda do sexo do que as feministas”, observou Paglia. “Ela consegue enxergar tanto a animalidade quanto o artifício.”

Frases famosas:

“Estou no controle das minhas fantasias… Pois não é isso o feminismo?”

“Se o meu talento não fosse tão grande quanto minha ambição, eu seria uma monstruosidade.”

  1. Beyoncé (Nascida: Beyoncé Giselle Knowles – 1981) – Estados Unidos

Cantora, compositora, atriz.

Suas grandes realizações:

Depois que o furacão Katrina arrasou Nova Orleans em 2005, Beyoncé e sua amiga e colega de banda Kelly Rowland fundaram a Survivor Foundation. A organização providenciou moradia provisória para as vítimas na área de Houston, e Beyoncé teria contribuído com uma verba inicial de 250 mil dólares. Ela arrecadou mais de um milhão de dólares para a Fundação Shawn Carter, do marido Jay-Z, focada em ajudar crianças de baixa renda a cursar a universidade. Beyoncé também trabalhou em parceria com a organização Feeding America, que fornece refeições a bancos de alimentos de todo o país.

Frases famosas:

“Meu objetivo era a independência.”

“Acredito piamente que as mulheres devem ser financeiramente independentes de seus homens. E, verdade seja dita, o dinheiro dá aos homens o poder de comandar o espetáculo. E dá aos homens o poder de definir o valor. São eles que definem o que é sexy. São eles que definem o que é feminismo. É ridículo.”

  1. Malala Yousafzai (1997 – Paquistão)

Ativista.

Suas grandes realizações:

Aos 17 anos, Malala foi a pessoa mais jovem – e a primeira de seu país, o Paquistão – a receber o Prêmio Nobel da Paz. Foi escolhida, ao lado de Kaliash Satyarthi, ativista dos direitos da criança, pela sua “luta contra a opressão das crianças e dos jovens e pelo direito de todas as crianças à educação”, declarou a comissão norueguesa que concede o Nobel.

Frases famosas:

“Eles atingiram meu corpo, mas não podem atingir meus sonhos.”

“Tenho direito à educação. Tenho o direito de brincar. Tenho o direito de cantar. Tenho o direito de falar. Tenho o direito de ir ao mercado. Tenho o direito de dizer o que penso.”

BRASILEIRAS QUE FORAM À LUTA

  1. Chiquinha Gonzaga (Nascida: Francisca Edwiges Neves Gonzaga – 1847 – 1935)

Compositora, maestrina.

Suas grandes realizações:

Destaca-se também sua atuação como ativista, de causas sociais e da própria vida. Chiquinha não aceitava “as coisas como elas são” e enfrentou diversos obstáculos (como a rejeição da família e uma ordem de prisão) para fazer valer o que acreditava.

Frases famosas:

“Pois, senhor meu marido, eu não entendo a vida sem harmonia.”

“Não entendo a vida sem música”.

  1. Anália Franco (Nascida: Anália Franco Bastos – 1856 – 1919)

Escritora e líder social assistencialista.

Suas grandes realizações:

Anália Franco foi pioneira no trabalho social no Brasil voltado para mulheres, principalmente aquelas em situação de vulnerabilidade. Na luta contra a ignorância e a miséria, ela criou organizações de auxílio, educação e qualificação profissional, com dezenas de instituições espalhadas pela região Sudeste. Mesmo com dificuldades financeiras, não esmoreceu e conseguiu dar a volta por cima para manter o trabalho de sua vida em funcionamento.

Frases famosas:

“A verdadeira caridade não é acolher o desprotegido, mas promover-lhe a capacidade de se libertar.”

“Enquanto a nossa instrução  for concebida nessa espécie de molde fatal que nos atrofia o desenvolvimento da personalidade, havemos de viver abafadas numa atmosfera de interesses mesquinhos, sem sentir simpatia, nem tendências para as nobres e elevadas conquistas do espírito.”

  1. Bertha Lutz (Nascida: Bertha Maria Julia Lutz – 1894 – 1976)

Bióloga, líder feminista e sufragista.

Suas grandes realizações:

Bertha Lutz foi pioneira na luta pelo sufrágio feminino no Brasil, algo que conheceu na Europa e que, de acordo com a imprensa da época, não teria espaço em nosso país. Mas os setores mais descrentes e machistas não contavam com a personalidade forte e desafiadora dessa bióloga. Graças aos seus esforços políticos, ela conquistou direitos para as mulheres e, em decorrência do seu engajamento, uma série de prêmios, entre eles o de Mulher do Ano e Mulher das Américas em 1946 e 1952.

Frases famosas:

“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é degenerar justiça á metade da população.”

“Por quanto tempo ainda continuaremos (nós mulheres) a ser um assunto, apenas, de debique e sátira?”

  1. Clarice Lispector (Nascida: Chaya Pinkhasovna Lispector – 1925 – 1977)

Escritora, advogada, jornalista, tradutora, contista e cronista.

Suas grandes realizações:

Clarice é considerada uma das escritoras mais importantes do Brasil e, além de escrever e traduzir livros que se tornaram clássicos, ganhou também diversos prêmios, como o Jabuti, 3m 1961 e em 1978, e a Ordem do Mérito Cultural, em 2011.

Frases famosas:

“Eu era uma mulher casada. Agora sou uma mulher.”

“Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que a sua vida exige. Parece uma moral amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.”

  1. Maria da Penha (Nascida: Maria da Penha Maia Fernandes – 1945)

Farmacêutica e líder na luta contra a violência doméstica.

Suas grandes realizações:

Além de conquistar a liberdade e tirar as filhas da influência de um homem perigoso, Maria da Penha não quis deixar seu drama passar despercebido. Ela fez de sua trajetória uma parte importante da história recente de mulheres e das leis brasileiras. A farmacêutica desafiou toda uma sociedade que acreditava que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, envolvendo até mesmo entidades internacionais em um processo de violência doméstica.

Frases famosas:

“O poder público precisa investir na Educação para mostrar aos homens e mulheres que nós temos os mesmos deveres e os mesmos direitos. O homem tem que respeitar a sua mulher como pessoa humana.”

“Tem-se que cobrar dos gestores públicos a obrigação que eles têm de atender as mulheres de seus municípios, criando as ferramentas, os equipamentos que fazem com que a lei saia do papel.”

  1. Sueli Carneiro (Nascida: Aparecida Sueli Carneiro – 1950)

Filósofa, escritora e líder feminista.

Suas grandes realizações:

A criação do Instituto Geledés é, por si só, uma iniciativa importantíssima para a sociedade brasileira, e não só por sua grandeza, mas também pelos detalhes que fazem a diferença. Na área de saúde, a equipe de Sueli orienta mulheres a descobrirem e cuidarem melhor de seu corpo e mente. Na área profissional, as auxilia a ganhar mais capacitação e buscar melhor qualidade de vida para suas famílias.

Frases famosas:

“O movimento de mulheres negras emergiu, introduzindo novos temas na agenda do movimento negro e enegrecendo as bandeiras de luta do movimento feminista.”

“A sociedade precisa reconstruir o imaginário social da mulher negra.”

  1. Djamila Ribeiro (Nascida: Djamila Taís Ribeiro dos Santos – 1980)

Escritora, ativista social e filósofa feminista.

Suas grandes realizações:

Em sua trajetória no feminismo e nos movimentos sociais, ela já se mostra como uma das mais importantes intelectuais do Brasil atual e todo o reconhecimento que tem é muito merecido.

Frases famosas:

“Se eu luto contra o machismo, mais ignoro o racismo, eu estou alimentando a mesma estrutura.”

“Minha luta diária é para ser reconhecida como sujeito, impor minha existência numa sociedade que insiste em negá-la. E, ao fazer isso, lutar coletivamente com outras mulheres, para que possamos enfrentar o machismo e o racismo.”

Resenha – Livro “Ariel”, de Sylvia Plath

Comprei este livro (talvez tardiamente) em 2019, na Livraria da Travessa, em São Paulo, no bairro de Pinheiros. Senti-me atraída pela capa, além de fazer um tempo que queria ler algo de Sylvia. Por que existem autores que ensaiamos ler e não o fazemos? Será que é porque não estamos prontos para eles e, então, o tempo vem e nos informa “agora, é a hora”? Acho que foi assim que me senti ao ver este livro, sua capa, e então o abri, vi que era uma edição restaurada e bilingue, com os manuscritos originais. Livro comprado, ficou um tempo na estante, esperando. E assim foi que, em meio à quarentena do novo Corona vírus, decidi que o enfrentaria. Fiz algo que há muitos anos não fazia – peguei uma lapiseira e comecei a grifar o livro, fazer anotações nas margens, nas partes em branco… Usei a parte em português apenas para tirar dúvidas pontuais que pudessem prejudicar meu entendimento. Ler os poemas em inglês foi algo saboroso. Pois bem, vamos à resenha.

Tudo começa com a Apresentação – O Caso Ariel. Nada como ter o histórico do livro, quando ela escreveu, porque, o que isso significou. E acho que é preciso separar o trágico final de Sylvia de sua obra, ainda que ela mencione a morte em alguns poemas. Por isso, esta apresentação vem bem a calhar, e mostra que Ted Hughes, e não o julgo por isso, tentou omitir os poemas mais explícitos, digamos assim. Porém, depois de alguns anos, foi publicada esta edição que eu li, que respeitou os desejos de Sylvia, com a publicação de todos os poemas que formavam a coleção Ariel.

Vamos, então, ao prefácio, escrito pela filha de Sylvia, a também poeta Frieda Hughes. E, como toda filha, ela busca entender os pais. Critica a forma cruel como o pai foi tratado após a morte de Sylvia e publicação, por ele mesmo, de Ariel, como se estivesse vilipendiando o túmulo da esposa. Além de ter cometido adultério, teria interferido de forma indevida nos direitos autorais da autora. Ela diz que tais coisas “não guardam nenhuma semelhança com o homem que calma e carinhosamente” a criou, e com a ajuda de sua madrasta. E, completa que “o tempo todo ele manteve viva a memória da mãe que me deixara, e eu sentia como se ela estivesse tomando conta de mim, uma presença constante em minha vida.” Ela segue, relatando como era viver em torno de uma imagem “milagrosa” de tudo o que se referia à mãe. E então, finalmente, nos diz que “isso foi muitos anos antes de eu descobrir que minha mãe tinha um temperamento feroz e um caráter ciumento, em contraste com a natureza mais equilibrada e otimista de meu pai.” Cita, ainda, que houve ocasiões em que Sylvia destruiu o trabalho do marido, uma vez rasgando-o e outra queimando-o. Chega, então, à conclusão de que a mãe, “assim como era uma poeta excepcional, era também um ser humano”. Ela vê tudo isso como um restabelecimento da verdade, e uma forma de melhor compreender a mãe. Ela precisava entender tudo isso para poder entender a si mesma (entendemos a nós mesmos por meio de nossos pais, avós, antepassados, ancestrais). Frieda encerra o prefácio: com chave de ouro “Quando ela morreu, deixando Ariel como último livro, foi flagrada no ato de vingança, com uma voz que havia sido afiada e praticada durante anos, posteriormente com a ajuda de meu pai. Embora tenha se tornado uma vítima disso, no final das contas ele não negou sua maestria. Essa nova edição, restaurada, é minha mãe naquele momento. É a base do Ariel editado por meu pai. Cada versão tem significado próprio, embora as duas histórias sejam uma só.”

Devo admitir que a leitura dos poemas de Sylvia Plath não é fácil, pois ela tem um estilo bem hermético e intimista de escrita. Faz referências a coisas que viveu em seu dia a dia, mistura com momentos históricos, memórias e traumas. Na verdade, em minha opinião, os grandes poetas são aqueles que fazem com que você leia o poema e fique flutuando, tentando depois buscar um chão para pousar. Não necessariamente há o objetivo de “entender”, “decifrar”, “interpretar”. A própria Sylvia, quando lhe pediram para “explicar” os poemas em um programa de rádio, foi breve e seca. Não cabem explicações. Não cabe dissecar cada poema, em busca do momento em que ela se referia a tirar sua própria vida, ou se referia à traição do marido. Há muito mais do que isso. Há nuances, há explosões, há véus, há amor, há ódio e contemplação. Nem consigo resumir tudo isso em algumas palavras. Por isso, resolvi colocar aqui algumas impressões minhas, particulares, não “validadas”, “breve e secas”, sobre alguns poemas (vários eu li mais de uma vez).

“Morning Song” – um poema de uma mãe para um filho/filha. Há tantas menções a uma sensação de pertencimento e ao mesmo tempo desprendimento. Não tenho filhos, não sei como é, mas pude sentir o amor no poema. “The clear vowels rise like balloons”.

“Thalidomide” – senti amor desfeito, desilusão, decepção. “A space for thing I am given. A love of two wet eyes and a screetch. White spit of indifference?”

“The Applicant”- retrataria duas pessoas jovens se conhecendo, se relacionando, a ideia de casamento, da prisão à vida social, convenções, uma “boneca viva” (“will you marry it?”)

“Barren Woman” – pessoalmente, apesar de ser o mais curto, é o que mais se parece com um soco no estômago. Silêncio e vazio. Conversou comigo dentro de minha alma.

“Lady Lazarus” – consigo imaginar porque esse poema, como mencionou Frieda, foi praticamente dissecado até as entranhas. Carregado de uma série de figurações “diabólicas”, flerta com a morte e a ressurreição de uma mulher demoníaca, poderosa. Para mim, é um grito de liberdade, de feminilidade, de empoderamento sobre si mesma: “Herr God, Herr Lucifer / Beware / Beware. Out of the ash / I rise with my red hair / And I eat men like air.”

“Tulips” – me pareceu uma narrativa de uma experiencia no hospital. Posteriormente, verifiquei que ela escreveu quando teve apendicite.

“Elm” – a impressão que ficou para mim foi de que algo a assombrava (o tal Olmo). Por fim, fiquei com a seguinte pergunta ao final: o que a assombrava? Ela mesma?

“The night dances” – minhas impressões: luzes do cometa, dos planetas, luz sobre ela (pequena)… afinal, qual nosso tamanho?

“The Detective” – inegável que houve a descoberta de traição. E a traição que leva à morte da família, uma morte invisível.

“Ariel” – um lindo poema. Detalhes, pequenas coisas, choro de criança, orvalho, pescoço de cavalo. Eu não saberia quer era dedicado ao cavalo dela, se não tivesse lido isso na introdução e no prefácio.

“Death & Co.” – fiquei com as seguintes perguntas: quem é ele? O condor? É o marido? É um amor? É a morte à espreita? Alguém que fica ferido de morte? E assim fiquei… não busco respostas.

“Lesbos” – uma deliciosa viagem… Lesbos era a ilha em que a poetisa Safo nasceu… e fiquemos com isso…

“The Other” – adultério, adultério, adultério…

“Medusa” – fiquei intrigada… e então descobri que era sobre ninguém mais do que a mãe de Sylvia. O que me deixou olhando para a parede, sem saber o que pensar foi o final: ‘’there is nothing between us.”

“Purdah”- retrato de opressão, também mostra a esperança, para mim, quando ela diz “I shall unloose / From the small jeweled / Doll he guards like a heart / The lioness / The shriek in the bath, / The cloak of holes.”

“A Birthday Present” – só consegui escrever “WOW” ao final. Vivi para poder ler algo assim.

“Daddy” -ela fala do nazismo, de ser judia, das injustiças… busca se libertar, chamando-o (ironicamente?) de “Daddy”, dizendo, ao final “Daddy, daddy, you bastard, I’m through”.

“The Bee Meeting” e os demais poemas, todos sobre as abelhas são uma verdadeira declaração de amor a esses seres, já que ela criou abelhas. Lindos poemas, para ler de forma contínua, até chegar em “Wintering”.

Ao final, há as notas que ajudam a contextualizar alguns dos poemas. Fiz algumas checagens sobre o que eu tinha apreendido, mas sem muito compromisso, pura curiosidade. Meu único compromisso era com Sylvia: ler Ariel do começo ao fim.

Thank you, Sylvia.

E obrigada, Elis Regina, por ter sido a trilha sonora enquanto eu escrevia esta resenha.

Eliana Leite

08/06/2020

Sobre o texto “Ser Pó”, de Santiago Dabove

Estou participando de uma Sala de Leitura e o texto “Ser Pó”, de Santiago Dabove, foi escolhido como tema para uma discussão. Confesso que nada sabia do autor. Descobri também que este texto faz parte de uma Antologia da Literatura Fantástica (Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo). O texto é, na verdade, um conto breve. Se engana quem pensa que, por ser um texto relativamente curto, é de leitura fácil ou rápida.

O texto está disponível na internet, em uma publicação da Revista Piauí. Porém, por motivos desconhecidos, “faltou” o final em tal publicação, que está no livro. Ao final , vou deixar aqui esta parte, e deixo para você pensar sobre o texto “sem”e “com” este trecho..

Ainda que a literatura fantástica não seja o estilo que mais me atrai, eu gostei desta leitura. O autor faz com que o leitor viaje junto com o personagem e sinta o que ele descreve que está sentindo, de uma forma envolvente e encantadora. Flerta com o aflitivo, mas não chega lá. Eu, particularmente, não me senti mal ao ler o texto. Pelo contrário, senti empatia pelo personagem, pois a dor que ele estava sentindo antes de mergulhar na viagem propriamente dita, é de dar pena. Quando eu comecei a ler, senti que o autor fazia um pacto comigo para embarcar nesta breve, porém intensa, jornada.

A leitura, em tempos de pandemia e confinamento, faz muito sentido para que possamos avaliar não só a nossa condição (seja ela confortável ou não), mas colocarmos tudo isso sob uma ótica como o colapso do sistema de saúde, as mazelas sócio-políticas que se mostram ainda mais e uma das maiores crises sanitárias do mundo. Como nos posicionamos? Um humano caquético, que quer virar vegetal, se decompor e esquecer de tudo? Meros espectadores? Um cavalo que foge?

Reflexões, interpretações, que nem sempre levam a conclusões. Existem textos que caem em nossas mãos para nos fazer pensar, pensar e não efetivamente fechar uma porta. O meu objetivo ao participar desta sala de leitura é exatamente este: conhecer livros, contos e texto que, normalmente, eu não leria. Desafiar-me a sair da zona de conforto e buscar em fontes às quais antes eu não iria…

Em tempo, o texto prendeu minha atenção logo no início, ao falar de um Imperador Romano que eu desconhecia (Mitrídates), instigando-me a pesquisar.

Abaixo, deixo o trecho final do conto/texto:

“Mas tudo isso não passa de sofisma. Cada vez mais morro como homem e essa morte me cobre de espinhos e camadas clorofiladas.

E agora, diante do cemitério poeirento, diante da ruína anônima, o cacto “ao qual pertenço” se desagrega, seu caule cortado por uma machadada. Que venha o pó igualitário! Neutro? Não sei, mas teria de ter vontade o fermento que novamente se pusesse a trabalhar com matéria ou coisa como “a minha”, tão trabalhada de decepções e desmoronamentos.”

Resenha – Livro “Quando o Sangue Sobe à Cabeça”, de Anna Muylaerte (Ed. Lote 42)

Anna Muylaerte é cineasta e roteirista. Escreveu roteiros de filmes como Castelo Rá-Tim-Bum, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Xingu, e dirigiu Durval Discos, É Proibido Fumar e Que Horas Ela Volta?

Este livro foi idealizado pela Editora Lote 42, junto com a autora, Anna Muylaerte e teve a intenção de reunir contos escritos por ela na década de 90. Já no prefácio, encontramos a explicação da autora sobre o momento pelo qual passava quando escreveu estes contos. Era um período de crise na indústria do cinema, todos estavam apreensivos. Ela, por seu lado, passou a escrever, escrever e escrever. Após estes contos, escreveu roteiros para TV e depois deslanchou no cinema. Particularmente, gosto dos filmes dela. Foi por este motivo que comprei o livro (além de gostar de contos). São 6 contos, todos sobre mulheres, em algum momento de suas vidas, retratos de um cotidiano, da vida como ela é. Anna Muylaerte tem um humor ácido que me agrada. Junta-se a isso um leve sarcasmo ao narrar as mazelas da classe média. Para quem viveu naquela época, é uma delícia de leitura. Chega até a ser nostálgica.

Minha intenção, nesta resenha, é falar de cada um dos contos.

Portanto, aqui já deixo um ALERTA ANTI-SPOILER. Se você não leu o livro e quer parar por aqui, fique à vontade!

Conto 1

O segredo de Célia

O mote aqui é o surgimento “surpresa” de um ex-namorado de Célia, que contraiu AIDS. Ela surta completamente, entra no carro e vai para casa com a certeza de que está com a doença. Depois de dizer ao marido que ambos estão doentes e que ela vai morrer (sem ter feito o teste ainda), confessa a ele (e à terapeuta) que nunca teve orgasmo na vida. Ele fica indignado. Ela diz que está tudo acabado. Finalmente, ele vai pegar o resultado do teste, que dá negativo. Ela volta atrás no que disse, ele finge que acredita e tudo “volta ao normal”. Neste conto, ficam claros sentimentos como conformismo, ou, ainda, comodidade em meio a um casamento que não funciona para nenhuma das partes, a absoluta ignorância e falta de empatia com relação aos portadores de HIV, típico da época dos anos 90. É um conto rápido, certeiro, quase sem afeto. Mostra o que acontece em relações em que as coisas não são ditas e, quando o são, nada realmente muda.

Conto 2

O pulo do gato

O conto é sobre uma idosa que, aos 86 anos, se sente sozinha no Rio de Janeiro. Está prestes a mudar para São Paulo, a convite do genro, se anima, mas está com depressão. Ainda no Rio, faz um jantar de despedida com as amigas e, ao final, se mata. Os sentimentos que permeiam este conto são solidão, negação (por parte da filha da idosa), saudosismo, nostalgia e depressão. O que chama a atenção é a aceitação da protagonista de que sua vida deve acabar, e que ela é quem deverá tomar esta decisão. E o gato é essencial para isso.

Conto 3

A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti

Este conto tem um pouco cara de “anedota”, mas não no sentido divertido. Temos violência doméstica, falta de comunicação dos pais com os filhos, ignorância e fanatismo religioso (professora), cultura à época, de que não se falava de sexo ou temas relevantes com crianças (que acabem tendo como professoras pessoas com o a Cida, que não consegue ensiná-las algo relevante como educação sexual). O que vejo nesta história/anedota está relacionado com sarcasmo, negligência, conformismo (esposa e marido em um casamento não satisfatório para ambos), falta de transparência, bem típica da época. Não foi um conto que me agradou muito, para falar a verdade.

Conto 4

Quando o Sangue Sobe à Cabeça

Para mim, o melhor conto da coleção (e que dá título ao livro). Trata de um drama familiar, muito bem contado. Temos aqui mais um casamento, de anos, falido. E, junto a isso, a autora acrescenta a mulher na pré-menopausa de saco cheio de tudo, a filha chegando na adolescência, mimada e egoísta, o marido em crise de meia idade, que transou com a empregada, a qual mora com a família há duzentos anos e acaba engravidando do patrão. O drama do conto começa com a morte de Dalva, a empregada, que faz um auto-aborto com uma agulha de tricô. Quando o patrão (Paulo) descobre o corpo da empregada, a filha tem a tão esperada menarca e a esposa sai de casa, deixando tudo para trás. Além disso, há a figura do velho (Onofre), de 88 anos, praticamente inválido, à espera da morte que não vem. O conto parece um filme, muito bem estruturado e com o humor ácido característico da autora. Temos os sinais das trocas de papéis dentro da família, em que a figura do homem vai perdendo protagonismo e se tornando ridícula, com situações de vergonha (impotência, não só sexual) e ignorância (menstruação x menopausa). O banheiro da casa é um personagem importante. E, como disse uma pessoa que comentou sobre o livro, o conto é uma hemorragia! A parte da descrição da morte de Dalva é quase poética. Aqui já vemos sinais da presença da empregada na família e as questões complexas advindas desta convivência, o que foi magistralmente explorado no filme Que Horas Ela Volta?. Uma observação que eu faço, para este conto é: se, após 26 anos, as coisas mudaram tanto assim, de verdade, ao observarmos uma família “tradicional” hoje. Talvez, e infelizmente, não… Ainda…

Conto 5

Procurando Pelo em Ovo

Não é uma obra-prima, comparando com o anterior. Parece mais uma crônica do que um conto, uma paródia do mundo do salão de beleza, em que temos a depiladora intrometida, fofoqueira e esnobe, que acaba descobrindo que o marido é homossexual. Chega a ser engraçado em alguns momentos, mas está longe da elaboração do conto 4, por exemplo.

Conto 6

Padecendo no Paraíso

Maria Julia está gravidíssima e prestes a entrar em trabalho de parto, porém ainda sofre nos últimos dias, pois engorda mais do que permitido, tem azia permanente e está muito inchada. Apesar de todo o perrengue, o momento do nascimento acaba sendo libertador para ela. Um conto muito bem-humorado, que poderia e a experiência de qualquer mulher grávida. Não coloca glamour onde realmente não existe. Realista e engraçado. É a cereja do bolo deste belo e interessante livro. Impagáveis os momentos em que a mulher reclama do médico, dos atrasos e do fato de ele ter já feito 12.000 partos.