Necessidade

A vida que hoje vejo é a única que conheço,

Mas não a única que há.

Mostre-me o que meus olhos

Ainda não são capazes de buscar.

Entregue-me o que minhas mãos

Não alcançam por estarem presas.

Liberte-me das correntes suspensas no ar,

Purifique-o,

Dando-me chance de respirá-lo.

Leve-me ao mundo que se esconde

Por trás desses prédios altos,

Iluminados.

Faça com que os pássaros cantem a música que supere o ruído

Das máquinas.

Conduza-me por entre a multidão

E afaste-me do desespero que habita as pessoas.

Acalme as ruas, as estradas,

Deserte-as.

Tire o poder das mãos erradas

E divida-o entre nós.

Sustente todos esses humildes

Com as sobreas do seu ouro.

Encante-me com suas palavras,

Suficientes para acalmarem

O choque que o mundo produz.

Faça flores crescerem nos jardins de pedra.

Enxugue as lágrimas que neles caem,

Derrame-as no oceano.

Acompanhe-me para eu não me perder,

E ficar só.

Tire as vendas que cobrem

A justiça e condenam os inocentes.

Lave as mãos sujas de terra,

As faces cobertas de suor,

Os olhos cheios de esperança.

Dê a eles razões mais fortes

Para continuarem suas vidas.

Dê a eles uma vida.

Cale os gritos das vítimas da violência,

Desarme os soldados

E os inimigos.

Organizes novamente a História.

Há tanto para ser feito…

Comece pelo mundo.

Eliana Leite

(1993)

Espelho

A cidade grande

Com carros velozes,

Luzes vermelhas.

O povo de cabeça baixa,

Preenchendo o espaço que resta.

Heróis são os que

Roubam e matam

Sem sujarem as mãos de sangue.

Uma justiça manipulada,

Mal disfarçada.

Covardes se escondem

Soba a face da política

E da submissão.

O essencial à vida

Custa caro.

Tiraram o banco da praça

Onde dormia um mendigo.

Fecharam o hospital

Onde adoecia uma criança.

Pisaram no tapete vermelho,

Feito por mãos cegas.

Ao vagar, desarmado,

Pelas ruas,

Ele foi preso

Por ser diferente,

Pobre.

Pássaros perdem suas asas

Quando aviões cortam,

Com velocidade,

O vento.

Solitário

Está o homem

Que se feriu

Com as próprias palavras.

A avenida é bela

Quando deserta.

A vida é bela

Quando esquecida.

Perdem-se os sentidos,

Furtam a nação,

Amam o crime.

Atividades repetitivas,

Vidas repentinas,

Nada a admirar

Além da perda do que

Não foi pago por nós.]

Quero atacar

A quem um dia roubou

Minha dignidade,

Meu espaço.

Eliana Leite

(1993)