Céu

Céu, como és misterioso…

Faz-me perder em tua magia

Torna-te assim tão distante

Pudera eu atingir-te

Tocar tuas mãos

Beijar tua face.

Tens tudo de atraente

E, ao mesmo tempo, de assustador.

Quando amanheces, fico aliviada

Posso te enxergar, posso te amar

Quando escureces, me assusto

Ao te perder, ao não mais te ver

Por tanta coisa que sinto

Sei que és poderoso

E não tens piedade

Pois posso eu partir

Que teu encanto não chegará ao fim.

Eliana Leite

(1990)

Além da Razão

A descoberta de coisas novas

Atraem ao primeiro instante

Mas depois assustam, repelem.

Fazem com que tudo seja mistério.

O desconhecido, se conhecido, é temido

E se temido, é rejeitado.

E então se revolta e aí se torna

Não o desconhecido ou temido

Mas o desejo íntimo de querer descobrir

Algo a mais do que se vê,

Do que se toca,

E até do que se ama.

Os olhos veem muito além da matéria

Mas a razão se limita à vida

Que está presente, mas inerte

Que se faz pesar, mas é inútil

E que nos faz perder tempo

Pensando em outra pessoa

Admirada, mas indiferente.

Gostaria de não a ser para ti,

E temo que a és para mim.

Perdoa-me as palavras,

Mas foi tudo por amor à vida,

Desconhecida e inacessível

Mesmo pelos maiores sonhos.

Eliana Leite

(1991)

Carne, Osso e Segredos

Os sentimentos se misturam,

Abrigam-se em meio ao vazio,

Ocupam espaços indefinidos.

Ao mesmo tempo que preciso de mim,

Não me quero tanto assim.

Enquanto corro da realidade,

É ela que me traz força.

Medo,

Desconforto,

Leveza,

Paz.

Nada é certo,

Tão certo quanto poderia.

Tudo se acaba, mas o fim não.

Navegando em opostos,

As ondas engolindo a razão

E a brisa expulsando a verdade.

De que somos feitos, afinal?

Um pouco de carne, osso

E muitos segredos.

Impossível atravessar limites

Sem estabelecer outros.

Difícil esquecer momentos sem viver outros.

Há tantas armadilhas,

Palavras, gestos,

Tantas sequelas, lembranças, dúvidas…

Procurar pelo caminho sem enxergar,

Pisando ou em areia

Ou em terra,

Ou em qualquer lugar.

Surpreendendo-se com o óbvio,

Aproximar-se dele e esquecê-lo de repente.

Por que?

Amar de várias maneiras, várias pessoas,

Ninguém…

Amar…

Por que não?

Eliana Leite

25/08/1995